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AMAURI SEGALLA
 
1968 - O ano das transformações
Como a geração de 68 mudou nossa maneira de ver o mundo
arquivo Ag O Globo

Pense em 1789 e você logo imaginará o início da revolução francesa. No século XX, 1945 entrou para a História como o marco do fim da Segunda Guerra Mundial e 1989 carrega a lembrança da queda do Muro de Berlim. Todos esses anos têm eventos tão únicos e extraordinários associados a eles que é fácil saber de imediato o que representam. No entanto, nenhum deles possui a aura de magia que acompanha 1968. Quarenta anos depois, 68 continua enigmático, estranho e ambíguo como um adolescente em crise existencial. Ele foi o ano da livre experimentação de drogas. Das garotas de minissaia. Do sexo sem culpa. Da pílula anticoncepcional. Do psicodelismo. Do movimento feminista. Da defesa dos direitos dos homossexuais. Do assassinato de Martin Luther King. Dos protestos contra a Guerra do Vietnã. Da revolta dos estudantes em Paris. Da Primavera de Praga. Da radicalização da luta estudantil e do recrudescimento da ditadura no Brasil. Da tropicália e do cinema marginal brasileiro. Foi, em suma, o ano do “êxtase da História”, para citar uma frase do sociólogo francês Edgar Morin, um dos pensadores mais importantes do século XX. Foi um ano que, por seus excessos, marcou a humanidade. As utopias criadas em 68 podem não ter se realizado. Mas mudaram para sempre a forma como encaramos a vida.

O cantor americano Bob Dylan disse recentemente que 1968 foi o último ano em que todas as utopias eram permitidas e que hoje em dia “ninguém mais quer sonhar”. Numa simplificação, pode-se afirmar que o período simboliza a utopia de milhões de jovens rebeldes e cabeludos de acabar com a moral repressora da velha sociedade. Por si só, isso já seria grande o suficiente. Mas foi só isso? Para o escritor e jornalista Zuenir Ventura, autor de 1968 – O Ano Que Não Terminou, serão necessários muitos anos para que se entenda seu legado. “Ainda ninguém explicou por que tudo aconteceu naquele ano e de que forma o mundo absorveu os impulsos revolucionários daquela geração”, diz Zuenir, que vai lançar em abril 1968 Terminou?, continuação de seu primeiro livro sobre a época, publicado há 20 anos (leia a entrevista e um artigo dele ).

1968 deixou duas heranças: a aversão a toda forma
de poder autoritário e a defesa dos direitos civis

Nos próximos meses, estão previstos vários eventos em comemoração aos 40 anos de 1968. A Universidade Federal do Rio de Janeiro promove em abril um ciclo de debates com especialistas brasileiros e estrangeiros. Na França, estudantes universitários planejam uma caminhada pacífica pelas ruas de Paris para lembrar as manifestações de maio, que colocaram frente a frente milhares de jovens e a polícia do presidente Charles de Gaulle. Nos Estados Unidos, vários livros estão sendo lançados desde o ano passado. Um deles, intitulado Boom, do jornalista americano Tom Brokaw, recebeu uma enxurrada de críticas. O motivo? Não ter chegado a um veredicto sobre o real significado do período...

As discussões, tanto no Brasil quanto no exterior, são quase tão apaixonantes quanto a energia revolucionária que desabrochou há quatro décadas. Uma forte corrente acredita que o mundo seria hoje muito pior se 68 não tivesse acontecido. Nesse time jogam as pessoas que mantêm as idéias de esquerda frescas na memória. “Se a juventude, e não a repressão, tivesse vencido, o Brasil teria avançado mais rapidamente nas reformas democráticas”, diz José Dirceu de Oliveira, um dos protagonistas do 68 brasileiro. Para ele, os principais protestos civis da história recente do país só ocorreram porque o caminho foi traçado pelos rebeldes de sua geração. Seriam exemplos dessa herança contestatória a campanha das Diretas Já e os caras-pintadas que foram às ruas pedir o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Em seus tempos de líder estudantil, José Dirceu pregava a liberdade e a justiça social. Mas ele foi alvejado pelos anos. Ex-homem forte do PT, ministro e deputado federal, acabou cassado pelo Congresso em 2005, no escândalo do mensalão.

Luis Pinto
PROTESTO
A Passeata dos 100 Mil, em 26 de junho, nasceu como um ato de estudantes. Transformou-se em uma grande manifestação popular contra a ditadura

Há uma vertente que relativiza a herança deixada pela geração do desbunde. Seus adeptos acreditam que as lembranças afetivas turvam a análise independente. O deputado Fernando Gabeira, hoje uma das vozes mais lúcidas de Brasília, enxerga com certo incômodo a veneração do período. Ex-guerrilheiro de esquerda durante a ditadura militar, Gabeira arrepende-se de muita coisa da época. “A busca pela implantação do socialismo, a luta armada e o seqüestro do embaixador americano foram grandes equívocos”, diz. “Eu gostaria de sepultar esse período” (leia o depoimento de Gabeira ). Em sua visão, a luta armada não só fortaleceu a ditadura militar, como deu de bandeja um pretexto para que o presidente Arthur da Costa e Silva promulgasse o Ato Institucional no 5 no dia 13 de dezembro de 1968, recrudescendo os Anos de Chumbo no Brasil. Mas não foi só de luta armada que se construiu a oposição ao regime militar. Em 1968, o operário Luiz Inácio Lula da Silva se filiou ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Com o passar dos anos, sua atuação de sindicalista o tornaria uma figura conhecida nacionalmente.

O 68 brasileiro foi diferente por uma razão simples. Aqui ele tinha um viés mais político que na França e nos Estados Unidos, países que também viviam em erupção. No Brasil, os contestadores do regime sofreram torturas e exílio. “Nos Estados Unidos, havia o sentimento generalizado de que era preciso mudar a estrutura da sociedade, mas não necessariamente o governo”, diz o historiador americano James Green, especializado nos movimentos civis dos anos 60. Os manifestantes gritavam nas ruas de Washington, Nova York e São Francisco pelos direitos das mulheres, dos negros e dos homossexuais. Exigiam o retorno dos soldados americanos da Guerra do Vietnã. Pregavam o respeito à natureza. Mas não queriam tomar o poder. “Na França, os movimentos de revolta começaram com a exigência do dormitório misto nas universidades”, diz Zuenir. “No Brasil, o 68 começou com a morte do estudante Édson Luís, assassinado pela Polícia Militar do Rio.” A Passeata dos 100 Mil, no Rio, era uma afronta à ditadura militar. Na França, o sentimento era de revolta contra o conservadorismo de De Gaulle, mas não havia uma atmosfera de repressão como no Brasil.

AP

CORTINA DE FERRO
A Primavera de Praga, breve experiência de democracia na Tchecoslováquia, foi esmagada pelos tanques soviéticos em agosto. Apesar de derrotado, o movimento mostrou rachaduras no bloco comunista

AP

MAIO DE 68
O movimento dos estudantes franceses, duramente reprimido pela polícia nas ruas de Paris, resumiu o espírito inconformista daquela geração. Daniel Cohn-Bendit (foto menor), líder dos universitários, hoje é deputado pelo Partido Verde

continua...

continuação

MUSA
arq. Ag. O Globo
Irreverente e sensual, a atriz Leila Diniz, então com 23 anos, tornou-se um modelo para uma geração de mulheres que descobria a liberdade sexual
Os principais pesquisadores do período divergem s quanto ao impacto político de 68. Segundo o historiador Green, as manifestações contra a Guerra do Vietnã exerceram uma influência que não pode ser descartada. “Os protestos quebram o ciclo histórico de conformismo dos americanos”, diz. “Foi a primeira vez que a população se voltou contra a política externa do país.” Historiador e professor titular da Universidade de Paris – Sorbonne, o brasileiro Luiz Felipe de Alencastro acredita que todas as manifestações antiautoritárias de massa nos anos seguintes filiam-se aos movimentos de 68. Entre elas, os protestos de 1989 na Praça da Paz Celestial. “As correntes libertárias da década de 60 mudaram as sociedades contemporâneas”, afirma. Sem 68, teria havido na Inglaterra e na Espanha grandes manifestações de massa contra a invasão do Iraque? Alencastro acha que não. “Hoje há uma onda pacifista no mundo que saiu dos anos 60.”

Um período tão controverso não poderia deixar de provocar polêmica ainda hoje. O historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor do livro O Regime Militar no Brasil, defende a tese contrária à de Alencastro. Segundo ele, os mesmos ativistas que defendiam a liberdade de imprensa e criticavam os governos reacionários de direita muitas vezes não percebiam que os sistemas socialistas que tanto admiravam eram também opressores. “A verdade nua e crua é que a esquerda da época estava pouco preocupada com a questão democrática.” Fico afirma que, em especial no Brasil, o que muitos jovens desejavam era a instauração de uma ditadura proletária. Essa impressão é confirmada pelo próprio Fernando Gabeira, um rebelde que era da linha de frente da revolução. Na análise de Fico, também não se deve esquecer que muitas reivindicações de 68 estão marcadas pelo fracasso. “A luta armada no Brasil, o movimento pacifista nos Estados Unidos e o maio de 68 na França não passaram de chuva passageira”, diz. “No Brasil, a ditadura perdurou por longos anos, os Estados Unidos continuaram a ser uma nação com orientação bélica e na França os estudantes viram De Gaulle obter uma vitória estrondosa nas eleições.” Até a Primavera de Praga, um espasmo de independência nos países-satélites da União Soviética stalinista, foi sufocada pelos tanques russos.

Boa parte dessas reivindicações perdeu o sentido, hoje. No campo político e econômico, o mundo é quase irreconhecível. A União Soviética, modelo inspirador para uma legião de revolucionários, esfacelou-se. A China comunista tornou-se uma potência econômica que impulsiona o capitalismo mundial. Em quatro décadas, surgiram 60 novos países e o planeta ficou US$ 30 trilhões mais rico. A globalização, com sua onda de oportunidades e temores, tornou-se um fenômeno irresistível. Nada disso teve raiz nos protestos de 68. Talvez por isso aqueles ideais tenham permanecido tão firmes em nosso imaginário, como um mundo que vislumbramos, mas não se realizou.

O tropicalismo propôs inovações tão radicais que
virou inspiração para todas as gerações seguintes
 
Se não tiveram força para revolucionar o cenário político do mundo, os ventos que sopraram em 68 deixaram marcas profundas no comportamento, na vida cultural e nos valores da sociedade. Segundo o escritor americano Paul Bermann, autor de O Poder e os Idealistas, um apanhado histórico sobre a geração de 68, duas principais heranças foram transmitidas às gerações futuras: a aversão visceral a toda forma de poder autoritário e a defesa dos direitos civis. É inegável que muitas das conquistas sociais da modernidade nasceram em 68 ou foram plantadas naquele ano. O movimento feminista foi uma das grandes forças do final da década de 60. As imagens mais marcantes são das ativistas que queimavam sutiãs em praça pública, em protesto contra a condição subalterna em relação aos homens. O sutiã sobreviveu. Mas as mulheres entraram maciçamente nas universidades, fincaram raízes irreversíveis no mercado de trabalho e conquistaram o direito de assumir sua sexualidade.

arquivo O Globo
EXPERIÊNCIA
Foi uma época marcada pela busca de novos caminhos. A visita dos Beatles ao guru indiano Maharishi Mahesh Yogi fez o Ocidente descobrir a espiritualidade oriental. No Brasil, a ousadia da peça Roda Viva (na foto menor) irritou a ditadura
No Brasil, não houve um movimento feminista organizado. Mas as mesmas barreiras começaram a ser quebradas. Prova disso foi o sucesso da atriz Leila Diniz e o fascínio que ela exerceu sobre uma sociedade conservadora, numa época em que as mulheres nem sequer iam sozinhas a bares e restaurantes e não eram bem-vistas se falassem palavrão. Linda, despojada e sedutora, Leila, ex-professora primária que saíra de casa aos 17 anos para viver com o cineasta Domingos de Oliveira, ganhou notoriedade em 1966, com o filme Todas as Mulheres do Mundo, em que aparecia nua. Nos anos seguintes, fez um filme atrás do outro, tornou-se a primeira porta-bandeira da Banda de Ipanema, defendia o amor livre e virou um mito no meio artístico, até sua morte, num acidente de avião na Índia aos 27 anos, em 1972. Leila era a face mais visível de uma revolução que ocorreu de maneira quase silenciosa – na época, a revolta contra o conservadorismo se confundia com a revolta contra a ditadura. “Nós não discutíamos essa coisa da liberdade comportamental”, diz a atriz Marília Pêra, que chegou a ser presa duas vezes em 68 por sua luta contra o cerceamento artístico. s “Nossa única preocupação era impedir que a ditadura nos castrasse. Acho que naquela época eu não ouvi uma única vez a palavra feminismo.” Zuenir Ventura chama de sintonia mágica o fato de as mulheres daqui terem se comportado tal qual suas colegas americanas, embora inconscientemente. “Eu amava muito, freqüentava festas loucas, fazia o que bem entendia. Se isso era uma revolução, eu não sabia dizer”, afirma Marília Pêra.

O ano de 1968 também foi um marco na luta dos negros pela conquista dos direitos civis, especialmente nos Estados Unidos. Na luta contra a segregação racial que existia no país, o pastor Martin Luther King, um líder que pregava a resistência pacífica, foi assassinado. Naquele período, crescia a influência do movimento Panteras Negras, um grupo revolucionário marxista que buscava conquistar espaço pelo confronto. Os Panteras tornaram-se mundialmente conhecidos nos Jogos Olímpicos do México, quando dois corredores americanos subiram ao pódio usando luvas pretas para receber suas medalhas. Durante a cerimônia, eles ergueram os punhos cerrados, gesto característico do movimento. Mas foi a veia pacífica de King que sensibilizou os americanos. Pouco após sua morte, a Suprema Corte declarou que todas as formas de segregação eram contrárias à Constituição. “Hoje, até George Bush venera King”, diz o historiador Alencastro. Foi a geração de 68 que permitiu a ascensão de negros a posições de destaque nos Estados Unidos. “Se há empresários negros bem-sucedidos, apresentadores de televisão de sucesso ou esportistas idolatrados, é porque as pessoas iam às ruas gritar contra a discriminação”, diz o historiador Green.
EXPERIÊNCIAS
Foi uma época marcada pela busca de novos caminhos. A visita dos Beatles ao guru indiano Maharishi Mahesh Yogi fez o Ocidente descobrir a espiritualidade oriental. No Brasil, a ousadia da peça Roda Viva (na foto menor) irritou a ditadura

No Brasil, grandes transformações na área cultural vieram no embalo da contracultura. A principal delas foi o tropicalismo, que ainda hoje reverbera especialmente na música popular brasileira. O movimento, liderado por Caetano Veloso, Nara Leão e Gilberto Gil, entre outros artistas, propunha mudanças tão radicais que se revelaram inspiradoras para todas as gerações seguintes. O tropicalismo de Caetano incorporou o uso da guitarra elétrica e de gêneros como o bolero e as músicas de raiz. De tão ousada, a mistura provocou reações iradas dos setores mais conservadores, que consideram aquilo uma agressão. O tropicalismo só foi possível porque vivia-se uma época em que se experimentava de tudo. Era o ano em que o principal grupo de rock do mundo, os Beatles, ia à Índia conhecer o guru Maharishi Mahesh Yogi. Aquela viagem, que então parecia maluquice, apressou o contato do mundo ocidental com as técnicas da meditação, diz a escritora Sharon Begley num artigo publicado na revista Newsweek.

O diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa, que encenou a peça marginal Roda Viva, um dos marcos da contracultura do período, diz que 68 foi fundamental para uma mudança não só de comportamento, mas da própria visão de mundo. “Aquela geração tirou a máscara da hipocrisia”, diz. “As pessoas se deram conta de que precisavam viver o aqui e o agora, que não dava para esperar os outros fazerem algo por você.” Uma das trilhas sonoras possíveis para o período, “Para não Dizer Que não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, traz um verso, um tanto gasto hoje em dia, que traduz esse espírito: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Fazer a hora era um termo cujo significado ia desde ingressar na luta armada contra o governo militar até o uso de drogas, praticar o sexo livre ou vestir-se com calças boca-de-sino. Hoje esse discurso soa algo irreal. Desde então, o regime militar foi sepultado e uma era individualista torna difícil acreditar nas soluções coletivas. O escapismo das drogas revelou-se um vício associado à violência, muito mais que à “abertura da mente”. A aids fez refluir o comportamento sexual sem limites – junto com a percepção de que, embora prazeroso, ele não tornava as pessoas felizes.

E, no entanto, poucas das grandes mudanças por que passamos nessas quatro décadas não surgiram naquela época. Da tolerância à diversidade ao reconhecimento dos direitos das mulheres e minorias, do movimento ambientalista às organizações comunitárias, da valorização dos prazeres à busca da espiritualidade pela meditação, a geração de 68 atingiu, sim, seu ideal de transformar o mundo.

O calendário da revolução
 
Um ano marcado por protestos de jovens em todo o mundo, inovações na ciência, na música, no teatro e no cinema e pela luta pelos direitos civis
Revista Época

 

 

 

Dora Kramer

Reformar para piorar

O Congresso é assim: quando vislumbra a possibilidade, não perde a oportunidade de piorar uma situação. Faz isso nas reiteradas manifestações de corporativismo - em suas variações veniais ou mortais - e repete o gesto quando reformula decisões da Justiça que tentam melhorar o padrão dos costumes políticos.

Uma espécie de reforma política na contramão da História.

Nesta semana aconteceu de novo. A Câmara fez emenda à Constituição para recriar 7.554 das 8.527 vagas de vereador em todo o País, anteriormente extintas por sentença do Supremo Tribunal Federal.

Há quatro anos o STF fundamentou sua posição: acabou com as cadeiras porque descobriu que a proporcionalidade de representantes nas Câmaras Municipais estava sendo calculada de maneira errada em relação à população dos municípios.

Já a Câmara não conseguiu explicar a razão pela qual é preciso aumentar a quantidade de vereadores existentes no Brasil.

A justificativa do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, não justifica. Ao contrário. Segundo ele, o aumento permite "uma distribuição mais proporcional de vereadores".

Ora, se foi exatamente para adaptar essa proporcionalidade às exigências da Constituição que o STF tomou a decisão de quatro anos atrás, como pode ele apresentar esse argumento?

Pois é, podendo. O Parlamento tem o poder de fazer as leis e não raro as adapta às suas conveniências. Vereadores, como se sabe, são preciosos cabos eleitorais e suas vagas representam o primeiro patamar de acesso à corporação legislativa. Suas excelências agiram outra vez em causa própria, agora ampliando sua reserva de mercado.

O Legislativo já havia passado batido pela chance de ficar calado quando o Judiciário proibiu a farra de alianças partidárias. Avisou que, pela lei, as legendas eram obrigadas a uniformizar suas coligações eleitorais: parceiros federais deveriam manter as parcerias no âmbito regional ou não lançar candidatos.

Deputados e senadores esqueceram o discurso sobre fortalecimento de partidos e providenciaram nova legislação. Driblaram o princípio da "verticalização" imposto pelo caráter nacional dos partidos e voltaram, já com sustentação legal, à antiga desorganização.

No ano passado voltaram à carga, mas suspenderam no meio do caminho a tentativa de derrubar a decisão judicial sobre a perda do mandato do parlamentar que trocar de partido. A Câmara queria uma anistia, o Senado fez uma proposta mais restritiva, e, no desentendimento, ficou valendo o dito pela Justiça.

Quer dizer, salvou-se o melhor porque o Parlamento divergiu. Quando convergiu, o padrão baixou.

Sócio oculto

Se a CSS, herdeira (maldita?) da CPMF, for aprovada na Câmara terça-feira, será interessante acompanhar como o governo fará no Senado para compatibilizar o discurso da indiferença com a necessidade da interferência.

Sem ela, o governo não ganhará os R$ 10 bilhões do novo imposto e o presidente Lula não terá uma "volta por cima" da derrota imposta em dezembro pela oposição, para exibir em seu portfólio de façanhas.

Não passa um dia sem que um senador da base governista, voto favorável à CPMF cinco meses atrás, se apresente para declarar voto contra.

Inverter essa tendência no Senado não é missão impossível, mas é muito difícil fazer as necessárias investidas, principalmente se a idéia for escondê-las. Se na Câmara, um colégio de 513, muito se sabe, em ambiente de 81 quase nada escapa ao rigor da vigilância interna.

Ademais, há o perfil do Senado, desenhado pelo próprio líder do governo na Casa, Romero Jucá, dias depois da derrota da CPMF: "Cada senador vota com a sua cabeça, com os interesses do seu Estado. O governo precisa ter em mente que não existe alinhamento predeterminado de senador. Tem que tratar bem, ele tem que ficar satisfeito."

Bumerangue

No ano passado, quando Joaquim Roriz renunciou ao mandato de senador em meio a denúncias de corrupção, o Senado resolveu fazer vista grossa à vida pregressa do suplente que assumia.

Gim Argello era investigado na mesma operação da Polícia Federal que levou Roriz à renúncia e ainda corria o risco de ser denunciado ao Supremo Tribunal Federal pelo Ministério Público por diversos crimes: apropriação indébita, peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Extenuados com o processo de Renan Calheiros, os colegas resolveram deixar para lá. Argello balbuciou algumas palavras em sua defesa na tribuna e ficou tudo por isso mesmo.

Agora, o STF abriu aquele inquérito requerido pelos procuradores da República. Diante da opinião pública, o Senado fica na desconfortável situação de cúmplice. Por omissão.

Por essa e muitas outras o Parlamento não tem razão quando se acha vítima de injustiça e reclama das generalizações.

 

 

 

ISTOÉ - Independente

MÁRIO SIMAS FILHO

Paulo Maluf conta sua história


Livro de um dos políticos mais controvertidos do País descreve a sua participação no regime militar, revela bastidores da prisão por 40 dias e fala de sua intimidade

O deputado Paulo Maluf (PP – SP) é um dos políticos mais controvertidos do País e um dos principais protagonistas da história recente do Brasil. Boa parte do que viveu ao longo de 41 anos de vida pública Maluf relata, agora, em Ele, Paulo Maluf, trajetória da audácia, livro escrito pelo jornalista Tão Gomes Pinto a partir de depoimentos feitos pelo deputado. Na maior parte do livro de 240 páginas, obtido com exclusividade por ISTOÉ, Maluf tenta desfazer a imagem de preposto do regime militar. Não é tarefa fácil. Durante os 21 anos em que os generais ditaram os destinos do País, Maluf sempre esteve no poder, como presidente da Caixa Econômica Federal (CEF), secretário de Estado, prefeito nomeado e governador de São Paulo eleito indiretamente. Maluf nunca subiu nos palanques que exigiam o fim da ditadura e foi o candidato do partido do governo contra o oposicionista Tancredo Neves no Colégio Eleitoral em 1985. Mesmo com esse passivo, ele insiste que “jamais foi o preferido pelos generais de plantão no Palácio do Planalto”. Para justificar a tese, relata a sua versão sobre os bastidores do poder com o qual conviveu bem de perto. Ao descrever os conchavos promovidos pelos generais, muitos deles sem prova testemunhal, Maluf procura transparecer que sua trajetória política devese mais à insistência pessoal do que propriamente aos laços que mantinha nos altos escalões da caserna.

ABANDONADO POR FIGUEIREDO
“Paguei alto o preço de ser rotulado como o candidato dos militares sem nunca tê-lo sido efetivamente”, diz Maluf, referindo-se à disputa no Colégio Eleitoral em 1985. O deputado relata no livro que várias vezes ouviu de Delfim Netto a história de que em reuniões com ministros o general presidente, João Figueiredo, dizia: “Esse turco não sentará em minha cadeira.” Segundo Maluf, o candidato de Figueiredo era o próprio Figueiredo, que queria usufruir mais dois anos no Palácio do Planalto, mas, como o quadro político impedia qualquer manobra para prolongar o mandato, os militares jogavam suas fichas no ex-ministro Mário Andreazza. Maluf conta que enfrentou o general e acabou impondo a sua candidatura pelo PDS. “Percorri o Brasil, derrotei Andreazza na convenção do partido e acabei abandonado por meus próprios companheiros, que liderados pelo presidente apoiaram silenciosamente Tancredo Neves, que já tinha José Sarney como vice. Eu tinha idéias mais arrojadas que o Tancredo, mas ele ficou com o marketing da Nova República e eu com o rótulo de candidato dos militares”, diz Maluf.

O RELÓGIO E A PRISÃO
No capítulo intitulado “No fundo, desejavam me humilhar”, Maluf descreve sua prisão em setembro de 2005. Ele passava o feriado do Dia da Pátria na casa da família em Campos do Jordão. Sabia que a PF havia gravado algumas conversas telefônicas entre ele e seu filho Flávio sobre um doleiro conhecido por Birigüi. Segundo o deputado, o doleiro estaria tentando lhe extorquir. De acordo com a PF, Birigüi revelou ter feito remessa ilegal de recursos dos Maluf (pai e filho) ao Exterior. Maluf queria sossego, mas estranhou a presença de repórteres na porta da casa. Desconfiado, telefonou para os advogados Ricardo Tosto – hoje envolvido no escândalo do BNDES – e José Roberto Leal. Ficou sabendo por Tosto que corria o boato de que ele e Flávio seriam presos. Maluf deixou Campos do Jordão no carro usado por seus seguranças, um Santana cinza-claro. Estava acompanhado por um segurança e pelo motorista e se dirigiu à casa de Tosto, em um condomínio fechado. Na sala de visitas do advogado, disse: “Não admito ser algemado e só entro morto em um camburão.” Em seguida, emocionado, Maluf perguntou aos advogados se eles tinham um relógio velho. Deixou com Tosto a carteira, uma agenda e seu relógio de ouro de estimação. Colocou no pulso o relógio emprestado para se dirigir à sede da PF. “Não vou levar esse relógio para a PF”, disse. Daquele momento em diante, Maluf passou 40 dias confinado em uma cela com 12 metros quadrados, dois beliches de cimento e um cano com água fria como chuveiro. Uma situação inusitada para um ex-prefeito, exgovernador e quase presidente que, como revela no livro, tem o hábito de passar os dias de folga em hotéis de luxo de Paris ou de outras capitais européias.

FILHO HUMILHADO
Na cadeia, recorda-se Maluf, a comida era horrível. O deputado, no entanto, assegura que o problema não estava na alimentação em si: “A diferença entre o arroz cru e um arroz bem soltinho e molinho está na boa vontade de quem o prepara”, diz. Maluf afirma que o que mais o afetou foi a humilhação a que fora submetido seu filho. Sua versão é a de que os agentes da PF decidiram fazer com o filho o que não conseguiram fazer com o pai: divulgar a imagem de um Maluf algemado. O deputado conta que ao chegar à sede da PF em São Paulo disse ao delegado Protógenes Queiroz que Flávio estava em uma das fazendas da família em Dourado (SP). Segundo ele, os advogados combinaram que Flávio se apresentaria às 7 horas do dia seguinte. No entanto, segundo Maluf, às 6 horas os agentes da PF invadiram a fazenda para prender o empresário. Flávio propôs aos policiais que usassem seu próprio helicóptero para se deslocar até São Paulo. Eles concordaram. No caminho Flávio ordenou ao piloto que pousasse na fazenda do advogado José Roberto Batocchio, que o acompanhou. Em São Paulo, os policiais se recusaram a usar o heliporto da Polícia Federal. Alegaram razões de segurança e pousaram no Centro Empresarial do Morumbi. Logo que desembarcou Flávio foi algemado na presença de um repórter de TV. “Fizeram da prisão de meu filho um espetáculo. Não queriam cumprir uma ordem judicial, queriam circo, queriam me humilhar”, diz o deputado.

Registros de 41 anos de uma carreira polêmica, marcada por
grandes obras e muitas denúncias

Fotos Claudio Gatti

MAURICIO SIMMONETTI

PAULIPETRO Maluf, então governador, visita obra da estatal que lhe rendeu vários processos, mas que ele considera símbolo de uma visão de futuro

EDUARDO SIMÕES

TRAIÇÃO DE PAULO EGYDIO
No livro, Maluf se coloca com um político “ignorado” pelo próprio partido, a Arena, legenda criada pelo governo militar para representar o sistema dos generais e ao qual foi filiado até sua extinção. Ele conta que em 1974, depois de ter sido prefeito nomeado de São Paulo e quando finalizava sua gestão à frente da Secretaria Estadual de Transportes, queria ser candidato da Arena ao Senado, tinha apoio de prefeitos e de delegados do partido no interior. Mas no início do ano recebeu a informação de que os militares já tinham definido a eleição. O futuro presidente da República seria o general Ernesto Geisel, o futuro governador de São Paulo seria Paulo Egydio Martins e para disputar a vaga no Senado pela Arena o candidato seria Carvalho Pinto. Maluf, então, foi a Brasília para conversar com Geisel. Segundo o deputado, o diálogo foi breve:

– General, o senhor quer ganhar a eleição ou quer que Carvalho Pinto seja o candidato ao Senado?

– Como assim? Nas pesquisas que temos o Carvalho Pinto é o preferido para o Senado.

– Não ganha, general. As pessoas querem renovação. Maluf relata que dias depois desse breve encontro, em março de 1974, foi convidado por Paulo Egydio para uma reunião em Campos do Jordão. Maluf foi de helicóptero e levou consigo o senador José Sarney. Queria uma testemunha, testemunha, mas Paulo Egydio pediu que a conversa fosse reservada.

– Apóie o Carvalho Pinto e você continua trabalhando comigo. Em que área você se sentiria confortável?, quis saber o futuro governador.

– Gosto das coisas que estou fazendo. Se eu puder continuar como secretário dos Transportes, melhor, respondeu. Maluf desistiu da sua candidatura e mergulhou na campanha de Carvalho Pinto, que perdeu a eleição para Orestes Quércia, do MDB. Dias depois, Maluf foi chamado à casa de Paulo Egydio. Segundo o deputado, na conversa regada a uísque, o governador lhe ofereceu um cargo em uma empresa que na prática não existia. “Não estou procurando emprego e muito menos salário. Emprego e salário tenho como diretor da Eucatex. O que eu almejava era um cargo onde pudesse construir alguma coisa”, disse Maluf.

BRIGA COM A MÃE
Durante toda a narrativa, Maluf demonstra enorme apreço à família. Relembra a trajetória dos pais e descreve em detalhes os almoços de domingo. Diz, por exemplo, que mesmo já como governador não ocupava a cabeceira da mesa, lugar que era reservado ao irmão mais velho, Roberto, principal responsável por conduzir as empresas da família. “Essa é a postura de respeito a meus pais”, conta Maluf. Mas uma história sem testemunhas que possam confirmá-la revela pelo menos uma áspera conversa com a mãe. Maluf diz que logo que assumiu a prefeitura em 1969 recebeu um pedido de dona Maria Estéfano, por telefone.

– Você pode me fazer um ato de caridade?, perguntou Maria Estéfano.

– Pois não, mãe, respondeu o então prefeito.

– É para o Jorginho (pessoa que prestara serviço na casa dos Maluf). Ele tem seis filhos, está passando necessidade e queria uma banca no Mercado Municipal.

– Avisa ao Jorginho que ele nunca terá uma banca no Mercado, porque lá só se é admitido por concurso. E mais, se souberem que indo à sua casa podem conseguir uma banca no Mercado, farão fila em sua porta. Quem fizer um pedido por seu intermédio jamais será atendido. Segundo o deputado, a mãe não ficou satisfeita com o que ouviu e só depois de algumas semanas as relações voltaram ao normal. “Fiz isso apenas para preservá-la”, diz. Maria Estéfano morreu em 1989 e no livro Maluf não revela o nome completo de Jorginho.

INÍCIO INESPERADO
Paulo Maluf foi nomeado pelo general Costa e Silva presidente da Caixa Econômica Federal em 1967, quando tinha 35 anos. Era um cargo de confiança do regime militar, mas no livro o deputado procura demonstrar que a nomeação não representava um alinhamento automático com a ditadura. Ele argumenta que não era o escolhido pelo general presidente e que só foi nomeado em razão de um deslize infantil do rival. Na época, Maluf contava apenas com a simpatia de Delfim Netto, futuro ministro da Fazenda, a quem conhecera na Associação Comercial de São Paulo.

O que estava acertado pelo presidente é que a CEF seria comandada por Antônio Ribeiro de Andrade. Segundo os relatos de Maluf, às vésperas da posse, Andrade acompanhava Costa e Silva num fim de semana em Petrópolis. No sábado à tarde, um repórter solicitou uma entrevista com o presidente, que se recusou a falar. Andrade foi conversar com o repórter e disse que o presidente estava empenhado em finalizar os planos de governo. O repórter, então, perguntou o que fariam à noite. Andrade respondeu descontraído: “À noite vamos jogar pôquer.” A informação ganhou destaque no jornal do dia seguinte. Costa e Silva ficou furioso. Andrade perdeu o cargo e para presidir a Caixa prevaleceu a indicação de Delfim.

Dois anos depois, novamente com o apoio de Delfim, Maluf foi nomeado prefeito de São Paulo pelo governador Abreu Sodré. Mais uma vez, conta Maluf, não era ele o candidato preferido dos militares. Até dezembro de 1968, Sodré trabalhava pela indicação de seu secretário da Fazenda, Luiz Arrobas Martins. Mas durante uma reunião na sede do governo paulista Martins fez críticas ao poder central. O conteúdo da reunião chegou a Brasília e o governador precisou trocar de candidato. Maluf se tornou a única opção viável.

INFÂNCIA RICA
Em seus relatos, o ex-governador faz questão de dizer que nasceu em berço abastado. Conta do prazer de morar em uma ampla residência num dos bairros mais nobres de São Paulo – aliás a casa onde reside até hoje. Descreve as ruas tranqüilas da região, onde brincava com os filhos do empresário José Ermírio de Moraes e não deixa de citar o Colégio São Luiz, comandado por padres jesuítas e na época um dos mais caros do Brasil. “A influência da Igreja foi muito grande em minha vida. Aos 11 anos tinha a convicção de que seria padre”, afirma.

ANA PAULA PAIVA/AG. ISTOÉ

CARROS VELOZES
Em diversas passagens do livro o deputado cita os carros da família e assegura que a sua paixão por automóveis velozes e luxuosos vem desde a infância, quando era levado à Eucatex em reluzentes Lincoln Continental. Lembra também das inúmeras vezes em que acompanhou a mãe para fazer compras e que nessas ocasiões saía da garagem um possante Rolls- Royce. Quando tirou a carteira de motorista, aos 18 anos, Maluf ganhou seu primeiro carro: um Jaguar vermelho. O deputado, hoje com 76 anos, continua um amante dos carros e da velocidade. Sempre que possível pilota seu Porsche em autódromos e não costuma fazer feio.

O livro que será lançado na segunda- feira 16 de junho pela Ediouro narra a versão de Maluf para os fatos recentes que marcam a história do País. Pode-se acreditar ou não nessas versões, mas o certo é que Paulo Maluf continua a ser um político amado e odiado.

ORGULHO Maluf mora na mesma casa há mais de 40 anos e reúne a família todos os domingos
Na quarta-feira 28, o deputado Paulo Maluf (PP-SP) estava eufórico. No almoço, recebeu 87 deputados e o ministro de Coordenação Política, José Múcio, em seu apartamento de Brasília para uma feijoada. Entre os presentes estavam o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, e o líder do PT, deputado Henrique Fontana. “Esse almoço mostra que o fato de ter sido preso não abalou meu prestígio, não é?”, disse Maluf à ISTOÉ minutos depois do almoço, quando falou sobre o livro que conta a sua versão da história recente do País.

ISTOÉ – Como surgiu a idéia do livro?
Paulo Maluf – Em 13 de maio completei 41 anos de vida pública. Muitos tentaram brecar minha carreira, mas enxerguei o futuro em ações como a exploração do petróleo e acabei processado por isso. Chegou a hora de contar a minha versão para os fatos.

“Se ser preso é um galardão de ex-presidente, ainda tenho chances”

ISTOÉ – O livro não é uma peça para uma futura campanha eleitoral?
Maluf
– Pode ajudar. Mas não pensei nisso. Decidi escrever antes mesmo de definir que serei candidato a prefeito.

ISTOÉ – Mesmo depois de ser preso e com vários processos, o sr. vai mesmo enfrentar nova campanha eleitoral?
Maluf
– Fui vítima de muitas injustiças e se a prisão tivesse relevância política o presidente da Câmara não estaria almoçando em minha casa. Washington Luiz terminou seu governo e foi preso e deportado. Getúlio seria preso se não tivesse se suicidado. Juscelino foi preso e o presidente Lula também foi preso. Se ser preso é um galardão de ex-presidente, ainda tenho chances. Só falta colocar a faixa presidencial.

 

 

 

 
 
 

 

 

 

da Redação
com Adriana Monteiro
Especial para o UOL
Em Belém

Contra inflação, Lula diz que vale até remédio amargo

Na semana que antecede mais uma reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) para decidir o rumo da taxa básica de juros do país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que fará "qualquer sacrifício" para evitar a volta da inflação. Economistas e analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Banco Central têm revisado para cima as previsões para a inflação em 2008 e, com isso, elevado a expectativa de que o BC vá elevar mais os juros neste ano. A taxa básica de juros está em 11,75% ao ano.

Veja trecho do discurso de Lula

    Em discurso durante cerimônia de lançamento de programas na Amazônia Legal nesta sexta-feira, em Belém, Lula declarou: "Tenham certeza do seguinte: eu farei qualquer sacrifício, seja remédio amargo... não foram poucas as vezes que eu tive que abrir a boca do meu filho caçula e meter remédio na boca dele, ele chorando, mas eu dava porque eu sabia que era necessário. Farei qualquer coisa para não permitir que a inflação volte neste país, porque quando ela voltar, vai afetar é o bolso do povo pobre trabalhador. Estejam certos de que nós no governo faremos o sacrifício que tivermos que fazer para manter uma política fiscal responsável."

    Lula voltou a bater em teclas que tem batido constantemente em discursos recentes, enaltecendo a situação da economia do Brasil em meio a crise financeira nos Estados Unidos e na Europa, e dizendo que a crise dos alimentos no mundo tem aspectos positivos para o país.

    "A gente não vai gastar aquilo que a gente não tem. A gente não vai jogar dinheiro fora. Vamos fazer as coisas corretas, porque o Brasil precisa de pelo menos 15 ou 20 anos de crescimento sustentável para que a gente se transforme numa economia grande e definitivamente saudável", afirmou.

    "Agradeço a Deus porque o Brasil está vivendo um momento em que a gente já não discute mais sobre a questão da divida externa. De 1980 a 2000, duvido que tinha algum discurso deste país que não falasse da divida externa. Hoje, nós não devemos nada ao FMI. Cinco anos atrás, todo final de ano, este país tinha que correr para pedir dólar emprestado para poder fechar sua conta. Nós hoje temos US$ 200 bilhões de reservas."

    "Tem uma crise nos Estados Unidos, tem uma crise na União Européia, foram bilhões e bilhões de dólares que dançaram na ciranda financeira. Até agora, nós estamos tranqüilos. Tem uma crise de alimento. Os preços dos alimentos estão subindo. E, graças a Deus, eu não vejo isso como problema, vejo isso como solução, porque esse país tem terra, tem água, tem sol, tem tecnologia e tem gente que sabe plantar. Se tem mais chinês comendo, mais indiano comendo, mais africano comendo, se tem mais nordestino comendo, ou se tem mais paraense comendo, não vamos reclamar, vamos plantar, produzir, para que a gente possa levar comida pra quem quiser comer", declarou o presidente no discurso.

    "Se depender deste país, ninguém vai passar fome no mundo. Nós temos condições. Querem comer pato no tucupi, nós sabemos produzir. Querem comer feijão com arroz, nós sabemos produzir. Querem comer broa de milho, nós sabemos produzir. Querem comer açaí, vem aqui para o Pará, que vai ter açaí pra vocês comerem. Nós temos que ver nesta crise uma grande oportunidade deste país dar mais um salto de qualidade."

    Última visita antes das eleições

    Promessa pré-eleitoral

      Durante a 1ª Reunião do Fórum de Governadores da Amazônia Legal, em Belém, Lula disse que que a capital paraense foi a última cidade que visitará antes das eleições municipais de outubro. Lula criticou o fato de a imprensa ter enfocado as disputas eleitorais nos municípios que tem visitado em vez das assinaturas de convênios junto ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

      "A partir de 6 de junho, não visito mais nenhuma cidade brasileira. Vou deixar o processo eleitoral para voltar a inaugurar hidrovias, ferrovias, aeroportos, escolas. Em vez da imprensa retratar que o PAC tem R$ 17 milhões para aplicar no Estado em obras, vai dizer que o pessoal do prefeito vaiou a governadora e o pessoal da governadora vaiou o prefeito", disse o presidente, referindo-se aos ataques verbais entre militantes do Partido dos Trabalhadores, do qual faz parte a governadora Ana Júlia Carepa, e do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), do qual faz parte o prefeito de Belém, Duciomar Costa.

      Manifestações

      No centro de convenções onde foi realizado o evento, manifestantes de várias categorias aproveitaram a vinda do presidente e de outras autoridades para fazer protestos. Trabalhadores sem-terra se organizaram de forma pacífica. Já os militantes do PT gritaram contra professores da rede pública estadual de ensino, que estão em greve há 44 dias.

      Rodoviários, também em greve há três dias, e mototaxistas, que permanecem em situação ilegal em Belém, buscavam espaço entre as quase 1.500 pessoas que entraram no ambiente interno do centro de convenções. Alguns conseguiram entrar. Outros ficaram do lado de fora.

      O policiamento, que contou com policiais militares, polícia de choque e cavalaria, além da guarda oficial da presidência da República e de batedores que acompanharam a comitiva de governadores e do presidente Lula até o centro de convenções. "Não registramos nenhuma ocorrência. As manifestações foram pacíficas e dispomos um efetivo suficiente para manter a segurança no local", Dario Teixeira, sub-comandante geral da Polícia Militar do Estado.

      Carlos Minc

      A visita a Belém também marcou a primeira aparição pública de Lula ao lado de Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente, que assumiu o cargo deixado por Marina Silva, depois da transmissão oficial de posse, na última terça. Alinhado ao discurso do presidente, o ministro fez uma breve participação no Fórum, declarando ser favorável ao desenvolvimento da Amazônia desde que os Estados, empresas e investidores assumam o compromisso de preservar o meio ambiente.

      Fundo para Amazônia preocupa

        Minc mostrou-se favorável à produção de biocombustível e da criação de uma guarda nacional florestal, nos moldes da guarda nacional. "Tudo será feito de forma democrática. Na Alemanha, disse que o Brasil sofre um ataque injusto de muitos países quando o assunto é biocombustíveis. Eu sou favorável à produção de biocombustíveis, por ser um combustível limpo e que reduzem as emissões na atmosfera", ressaltou.

        A exemplo de Minc, Lula falou sobre a crise dos alimentos que atinge vários países da África. "Não devemos reclamar, vamos plantar para levar comida a quem não está comendo. Se depender desse país, ninguém vai passar fome nesse mundo", discursou o presidente.

        Minc apresentou outras propostas voltadas para o desenvolvimento dos estados da Amazônia Legal. Ele destacou que o Ministério do Meio Ambiente passará a ter um critério ainda mais rigoroso nos licenciamentos ambientais, por meio da criação de um plano nacional de combate aos incêndios e queimadas. Um Fundo de Proteção à Amazônia deve ser instalado com investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) e de fundos privados, que aplicariam recursos em pesquisas científicas.

        Lula cobra da Vale indústria no Pará

        "Não sossegarei um dia enquanto a Vale não a fizer uma siderúrgica nesse Estado (Pará) para transformar em aço o minério que tira dessa terra. Não é possível que não haja uma iniciativa para colocar esse Estado na lista da indústria pesada desse país", disse Lula.

        Índios

        Uma comissão de índios caiapós marcou presença no Fórum de Governadores. O presidente Lula sentou para assistir a apresentação de curumins, que entoaram um cântico de saudação ao presidente. Os caiapós protagonizaram o episódio em que Paulo Fernando Rezende, engenheiro da Eletrobrás, foi ferido com um golpe de facão por índios no município de Altamira, no Pará, em protesto à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu.

         

         

         

        Folha Online

        Vereadores contratam filhos, sobrinho e até neta

        Hoje na FolhaPelo menos seis vereadores mantêm um total de 11 parentes trabalhando em cargos de confiança na Câmara Municipal de São Paulo, revela reportagem de Evandro Spinelli e Conrado Corsalette publicada na edição desta sexta-feira da Folha de S.Paulo (íntegra disponível apenas para assinantes do jornal ou do UOL).

        De acordo com a reportagem, o primeiro vice-presidente da Câmara, Adilson Amadeu (PTB), tem dois filhos contratados. Rodrigo Xisto Amadeu é funcionário do gabinete do pai. Bruno Xisto Amadeu está nomeado na liderança do PTB. O líder do PMDB, Jooji Hato, tem um sobrinho nomeado na liderança de seu partido e uma filha como assessora do vereador Milton Leite (DEM).

        "O corregedor da Casa, Wadih Mutran (PP), emprega uma filha no gabinete e uma neta na liderança de seu partido. Dalton Silvano (PSDB) emprega uma filha e uma irmã em cargos de seu gabinete. Toninho Paiva (PR) nomeou uma filha e um sobrinho. O líder do DEM, Carlos Apolinario, emprega em seu gabinete a mulher de seu sobrinho", afirma o texto.

        Nos casos dos assessores dos gabinetes dos vereadores, os salários são de R$ 1.106,36. Os assessores das lideranças partidárias recebem R$ 3.190,03 em valores brutos. Cada um dos 55 vereadores de São Paulo pode contratar até 18 assessores para seus gabinetes. Não há qualquer tipo de controle em relação ao trabalho desses funcionários.

        Os parlamentares defendem a contratação de parentes sob o argumento de que não há ilegalidade.


         

         

         

        Renata Lo Prete-Painel

        Próximo capítulo

        Ao insistir, em seu voto no caso das pesquisas com células-tronco, no dever do STF de avançar em decisões "de caráter aditivo", o presidente Gilmar Mendes antecipou o tom do próximo julgamento polêmico na agenda do tribunal: o da demarcação da reserva indígena Raposa/Serra do Sol. Tudo indica que o Supremo, além de decidir sobre a conveniência de criar ou não "bolsões" dentro da reserva, irá se manifestar sobre questões como soberania, fronteiras e presença do Estado na Amazônia. O que antes seria tido como intromissão foi defendido ontem pelo ministro como um novo papel da Corte -que, segundo ele, é "a casa do povo" tanto quanto o Congresso.

        Muito além. Gilmar frisou que o papel do STF "transcende o jurídico", citando julgamentos recentes, como o da fidelidade partidária. Chegou a dizer que o tribunal tem caráter "mais idealista" que o do Legislativo.

        Dia seguinte. O ministro Cezar Peluso resolveu esclarecer o teor de seu voto, pró-pesquisa, depois de ter sido procurado na noite anterior pela geneticista Mayana Zatz, que lhe informou sobre regras de fiscalização já existentes.

        Clube. Celso de Mello, Ellen Gracie e Ayres de Britto formaram grupo afinadíssimo durante todo o julgamento.

        Hora difícil. Paulinho (PDT-SP) encomendou a assessores uma lista de deputados que disputarão as eleições de outubro. Vai oferecer a militância da Força Sindical em troca de apoio no vindouro processo de cassação motivado pelas descobertas da Operação Santa Tereza.

        Porta de saída. O presidente do PSDB, Sérgio Guerra, deu prazo até hoje para que o prefeito de Praia Grande, Alberto Mourão, outro personagem da Santa Tereza, deixe a sigla. Do contrário, diz o senador, será expulso.

        Prorrogação. Para adiar a votação da nova CPMF, que ameaçava invadir a madrugada na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP) argumentou que "ainda dava tempo" de acompanhar a disputa de pênaltis entre o seu Corinthians e o Botafogo, pela Copa do Brasil.

        Na surdina 1. Enquanto governo e oposição se engalfinham a propósito da CPMF que virou CSS, os secretários estaduais da Saúde trabalham intensamente para modificar o projeto que regulamenta a emenda do setor.

        Na surdina 2. Os Estados querem incluir na proposta um "gato" que lhes garanta a possibilidade de continuar a computar os gastos com inativos dentro dos 12% do Orçamento que têm de investir em saúde (ainda que a maioria não cumpra esse percentual).

        O alvo. Pouco antes de ser surpreendido pela operação da PF, Anthony Garotinho (PMDB) escrevia, em seu blog, dura crítica à política de segurança pública do correligionário Sérgio Cabral. "Os resultados vão de mal a pior e os números oficiais mostram essa realidade", afirmou.

        Laços. Preso pela Operação Segurança Pública S/A, o deputado estadual Álvaro Lins (RJ) compartilhou o comitê financeiro do PMDB, na campanha de 2006, com o federal Leonardo Picciani. Dali saíram R$ 600 mil para Picciani, mais da metade do custo declarado de sua campanha.

        Por outro lado. Ana Júlia (PT-PA) não contesta Blairo Maggi (PR-MT), segundo quem o Pará desmata mais que Mato Grosso, mas alega que seu Estado é o que mantém a maior área remanescente de floresta (56%) dentre os campeões de desmatamento. Os dois estarão hoje na reunião dos governadores da Amazônia, em Belém.

        Tiroteio

        No teatro, o ator muda de personagem e continua a despertar emoções. Na cena política, ele se liquida.

        Do prefeito do Rio, CESAR MAIA (DEM), sobre o pré-candidato à sua sucessão Fernando Gabeira (PV), que disse que, se eleito, terá de "engolir algumas coisas" e se entender com Lula.

        Contraponto

        Data venia
        A sessão de ontem do STF já se estendia por cinco horas quando Cezar Peluso e Celso de Mello iniciaram acalorada discussão sobre a declaração final do resultado.
        Menezes Direito, contrário à liberação das pesquisas com células-tronco, tentou acalmar os ânimos:
        -Os vencidos hoje podem ser os vencedores amanhã.
        Mas foi a ministra Carmen Lúcia, uma das mais discretas durante os dois dias de julgamento, que apresentou o argumento capaz de dar fim à polêmica:
        -Presidente, vamos encerrar a sessão, por favor. Eu não sou célula-tronco, mas estou congelando!
        Imediatamente, Gilmar Mendes proclamou o resultado.

        Em vôo da FAB, familiares de Lula chegam a Roma antes dele

        De carona numa aeronave da Força Aérea Brasileira, a primeira-dama, Marisa Letícia, dois filhos, uma nora e um neto dela viajaram à Itália cinco dias antes de Lula.
        A viagem do presidente a Roma ocorrerá por conta de uma conferência da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação). Ele chega amanhã cedo, passa o final de semana de folga e, segunda e terça, vai a eventos oficiais.
        Marisa e seus familiares, entre os quais o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, embarcaram na noite de segunda num Boeing presidencial, com funcionários do Planalto encarregados da preparação da visita de Lula à Itália.
        No dia seguinte, acompanhados de seguranças, Marisa, os filhos, o neto e a nora foram de carro para Bérgamo. Segundo a Presidência, a primeira-dama, que tem cidadania italiana, recebeu homenagem da prefeitura.
        A Presidência disse que a viagem não acarretará gasto extra ao governo. Em Roma, se hospedarão na residência da embaixada brasileira. Conforme a Presidência, a carona a familiares de Lula não tirou a vaga de servidores escalados para a viagem.

        Garotinho formou quadrilha com ex-chefe da polícia, diz PF

        Procuradoria denuncia ex-governador do Rio, acusado de corrupção na segurança

        Agentes da polícia fizeram busca em duas casas de Garotinho; Álvaro Lins, que comandava a Polícia Civil, foi preso em flagrante

        O ex-governador do Rio Anthony Garotinho e o deputado estadual e ex-chefe da Polícia Civil do Rio Álvaro Lins, ambos do PMDB, foram acusados pelo Ministério Público e pela Polícia Federal de integrar uma "organização criminosa" que usou a estrutura da segurança do Rio para praticar corrupção, extorsão, facilitação de contrabando e lavagem de dinheiro com propósito de enriquecimento pessoal e arrecadação para campanhas políticas.
        Lins e seis pessoas -entre familiares seus e policiais com quem trabalhou- foram presos e três outros policiais estavam foragidos. O sucessor de Lins na chefia da Polícia Civil, Ricardo Hallak, se entregou na noite de ontem. Não havia mandado de prisão contra Garotinho (denunciado sob a acusação de formação de quadrilha armada), mas agentes da PF fizeram buscas e apreenderam computadores e documentos em suas casas em Campos (norte fluminense) e em Laranjeiras (zona sul do Rio).
        O superintendente regional da PF, Valdinho Jacinto Caetano, afirmou, sem citar nomes, alegando segredo de Justiça, que a "quadrilha" tinha um chefe político, "um chefe maior", e um chefe político-operacional, que controlava policiais. O único político denunciado foi Garotinho. De acordo com a PF e o Ministério Público, o esquema dava cobertura e proteção a empresários sonegadores de impostos e a empresários de caça-níqueis e jogos de azar. "O foco da quadrilha era nomear determinados delegados para chefiar delegacias mediante compromisso de repassar pagamento mensal", disse Caetano.
        Principal alvo da PF, que o investiga há ao menos um ano e meio, Lins foi preso em seu apartamento, em Copacabana, em flagrante, após a apreensão de documentos de propriedades que seriam suas de fato, mas registradas em nome de parentes da mulher, Sissy Bullos (ela e mais três da família foram presos e denunciados), e de outras pessoas. Os bens estão sob a custódia da Justiça.
        Deputado, Lins só pode ser preso em flagrante por crime inafiançável. A Folha apurou que a Justiça Federal, na decisão, afirmou ver indícios suficientes de lavagem de dinheiro e ocultação de bens, em "situação flagrancial". Para a PF, foi um sinal de que poderiam dar voz de prisão a ele se houvesse no apartamento elementos que confirmassem as suspeitas.
        "Em várias delegacias, os denunciados faziam vista grossa a condutas ilegais em troca de altas quantias", afirmou o procurador Maurício Ribeiro, segundo quem Garotinho dava respaldo político ao grupo. "Sem sua participação, a quadrilha não conseguiria exercer as atividades ilícitas", disse. De acordo com o procurador Paulo Corrêa, Garotinho nomeava de acordo com a vontade do grupo. "Se tinham interesse em determinada delegacia, que permitiria extorquir empresários, para colocar delegado, isso tinha que passar pelo crivo de Garotinho", afirmou.
        A denúncia acusa Garotinho de ter, quando era secretário da Segurança do governo de sua mulher, Rosinha Matheus, trocado o chefe da Delegacia do Meio Ambiente para favorecer o grupo. Essa substituição foi fundamental para que Garotinho fosse incluído na quadrilha. O advogado Sérgio Mazzillo confirmou que houve a substituição, mas a pedido da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro). Segundo ele, o delegado afastado por Garotinho está envolvido em irregularidades.
        O procurador Corrêa ressalvou que o governador foi denunciado por formação de quadrilha porque não há provas de participação na corrupção ou de que tenha se beneficiado financeiramente de forma direta. Para ele, o ganho do ex-governador foi "político".

        "Decoupling", a prova final

        Luiz Carlos Mendonça de Barros

        Os EUA não entraram em recessão porque suas empresas desviaram sua produção para outros países

        A LEITURA cuidadosa dos números do PIB americano relativo ao primeiro trimestre de 2008 nos mostra a intensidade do que se convencionou chamar de "DECOUPLING". Essa expressão tem sido usada nos últimos anos para chamar a atenção para um novo equilíbrio na economia mundial. Nesse novo mundo global, a economia americana já não tem mais a mesma posição de liderança que caracterizou as últimas décadas. No passado, o ciclo econômico nos Estados Unidos influenciava de forma marcante, e quase sincronizada, o comportamento das outras nações.
        Na virada do século, esse equilíbrio começou a mudar com a ascensão da China como economia de primeira linha. Com ela, vários outros países passaram a pesar na dinâmica do mercado global, levando a uma redução do peso americano na formação do PIB do mundo. O economista Jim O"Neill, do banco de investimento americano Goldman Sachs, foi o primeiro a alertar para essa nova realidade. Os chamados Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China, seriam no futuro próximo um novo centro dinâmico no equilíbrio mundial.
        Posteriormente ele adicionou outras economias menores e em estágio menos avançado de desenvolvimento a esse novo centro de poder econômico. Chamou-as de "NEXT ELEVEN". Esse grupo de países, mais alguns dos tigres asiáticos já envelhecidos pelo tempo, teria força suficiente para tornar o ciclo da economia americana menos importante no contexto global nas próximas décadas. Como toda coisa nova em economia, esse novo quadro de equilíbrio de forças foi recebido com certo escárnio pelo analistas econômicos mais conservadores. Mesmo aqui no Brasil, um dos países que mais se beneficiam com esse novo quadro, essa novidade foi questionada por muitos.
        Minha defesa entusiástica do fenômeno dos Brics nesta coluna também foi, várias vezes, recebida com risos irônicos. A crise na economia americana provocada pelo colapso do mercado imobiliário representou um teste muito duro para a tese do "DECOUPLING". A desaceleração na Europa parecia ser uma prova inconteste da absoluta dominância do ciclo econômico nos Estados Unidos nas várias regiões do mundo. Analistas mais afobados, inclusive o criador dos Brics, passaram a falar de um "RECOUPLING", ou seja, a volta do domínio americano.
        Os números do PIB no primeiro trimestre recolocam o debate nos seus termos devidos. Nos primeiros três meses do ano, a absorção doméstica nos EUA encolheu 0,1% em relação ao mesmo período de 2007, cruzando a fronteira tão temida da recessão econômica. Já o aumento de estoques pelo setor produtivo adicionou 0,2% ao PIB, fazendo com que a contribuição doméstica total seja de 0,1%. O 0,8% adicional veio da contribuição do comércio exterior, com exportações maiores do que as importações. Nos últimos 12 meses, esse número é superior a 1%.
        Ou seja, a maior economia do mundo não entrou em recessão porque o dinamismo do mundo emergente permitiu que as empresas americanas desviassem sua produção para outros países. As exportações crescem a taxas próximas a 15% ao ano há muitos meses.
        Esse fenômeno fica ainda mais claro quando analisamos os resultados das empresas americanas nesse período. Sem considerar as instituições financeiras, os ganhos no mercado doméstico apresentaram uma redução de 2,6% em relação ao mesmo período do ano passado. Já os lucros das empresas nas suas atividades no exterior tiveram um aumento de 35% nesse mesmo período. Façam seus julgamentos...

         

         

         

        Valor Online

        Eliana Cardoso

        Brasil - O poder das idéias

        Para sair do pântano do nada onde se afogara e içar-se à existência, o Barão de Münchausen, com as duas mãos, puxa-se pela peruca. Será que veio daí a expressão "força na peruca"? Levado por esse exemplo, faça o mesmo: não desanime. Se você anda desencorajado com a falta de imaginação dos economistas, inspire-se em Justin Lin um economista chinês que estudou em Chicago, voltou à China em 1987 e ali lecionou até se tornar economista-chefe e vice-presidente do Banco Mundial em maio de 2007. Ele descobriu o poder das idéias como motor do crescimento. 

        Mas vamos por etapas. Pois, para chegar ao pensamento de Justin Lin, vale começar pelo que já sabemos. Antes dele, John Maynard Keynes já afirmava: "Para o bem ou para o mal, nas idéias, e não nos interesses, está o perigo". 

        Inúmeros economistas (e eu também) acreditam que as inovações tecnológicas e as instituições que as sustentam são as forças que impulsionam o crescimento. Ao tomar de empréstimo tecnologia e instituições de países mais avançados, os países mais pobres podem gozar por algum tempo de taxas de crescimento extraordinárias. Quando conseguem adaptar suas instituições, são capazes de introduzir inovações a um custo menor e com menores riscos do que nos países onde elas se originaram. Podem então fechar a brecha que separa o país pobre do rico, como fez a Alemanha em relação à Inglaterra no século XIX, o Japão e a Coréia do Sul em relação aos EUA no século XX, a China e o Vietnã em relação aos países da OCDE nos dias de hoje. 

        Um economista conta com várias hipóteses para explicar o que torna um país capaz de deslanchar e sustentar o crescimento econômico com base nas inovações de métodos e produtos, como os Estados Unidos no começo do século XX ou a China de hoje. A primeira hipótese é a de que tudo depende da sorte. Depois vem a geografia, pois ela determina os custos de transporte, a ocorrência de doenças climáticas ou a abundância de alguns recursos chave. Em seguida, as instituições que criam incentivos para o trabalho e o investimento e a cultura que influencia as atitudes frente à riqueza, cooperação e criatividade. 

        A pergunta mais importante para quem toma medidas de política econômica é se o governo seria capaz de mudar as condições acima enumeradas e promover as instituições que facilitariam o desenvolvimento. Como o governo é operado por líderes políticos, teríamos de entender suas motivações. 

        Segredo da China está no pensamento de Confúcio 
         
        É possível que os políticos ajam não apenas por ambição pessoal. Talvez, ao desejo de acumular dinheiro e prestígio, somem-se motivações mais nobres, como o interesse público. Talvez. Mas o que se pode dizer com mais certeza é que, em geral, os líderes políticos são influenciados pelo pensamento social dominante em sua época. Ou, como dizia Keynes, cada um deles é prisioneiro do pensamento de algum economista defunto. 

        A influência do pensamento da época sobre a ação dos políticos serve de base aos argumentos de Justin Lin sobre o desenvolvimento econômico. Em suas "Marshall Lectures" na Universidade de Cambridge em 2007, ele afirma que, nas décadas de 1950 e 1960, a modernização (nos países socialistas e na América Latina, por exemplo) baseou-se em percepções incorretas das causas do desenvolvimento e dos elementos que o restringiam. 

        O pensamento dominante na época era o de que o mercado estava eivado de imperfeições e falhas de coordenação. Conseqüentemente, a estratégia recomendada aos países socialistas (ou em desenvolvimento) era o intervencionismo estatal, segundo o modelo de substituição de importações, com investimentos pesados em indústrias que faziam uso intensivo de capital. Essas economias como o Brasil experimentaram um surto de crescimento incapaz de se sustentar, porque aquela estratégia levava a crises periódicas do balanço de pagamentos. 

        Por não contar com os recursos naturais abundantes na América Latina e na África, boa parte da Ásia, ao contrário, viu-se forçada a adotar políticas pragmáticas que facilitaram o desenvolvimento, em vez de seguir o pensamento dominante. Seus governos tiveram de introduzir sistemas tributários eficientes e adotar políticas fiscais equilibradas, já que não podiam simplesmente apropriar-se das riquezas debaixo do solo. 

        Por volta da década de 90, uma nova forma de pensamento passou a dominar: a de que um país socialista deveria submeter-se a um tratamento de choque. A economia socialista, entretanto, herdara do período de substituição de importações uma estrutura de empresas incapazes de competir globalmente sem subsídios do governo. O país que tentava mudar essa estrutura de um só golpe se deparava com a bancarrota de um grande número de suas empresas, desemprego em massa, quedas brutais do PIB e graves crises internas. 

        A razão do sucesso da China foi ter conseguido escapar ao pensamento dominante e escolher o caminho das reformas graduais. Seu segredo, diz Justin Lin, estava no pensamento pragmático de Confúcio. 

        O caroço das idéias de Confúcio é "zhongyong", isto é, o caminho do meio, o equilíbrio de ouro que mantém as pessoas longe dos extremos e em harmonia com um mundo cambiante. A filosofia política promovida pelos líderes comunistas desde Mao até Jiang Zemin reflete os princípios que guiam o pensamento chinês: encontrar a verdade nos fatos, livrar a mente de dogmatismos, adaptar-se ao mundo em mutação e promover a harmonia. 

        Uma reforma que se adapta a esses princípios é gradual. Não segue uma receita grandiosa e predeterminada, mas identifica, a cada momento, a restrição mais importante ao crescimento e trata de eliminá-la. No caso do Brasil, desconfio que o maior impedimento ao crescimento é o queijo suíço em que se transformou nosso regime tributário. 

         

         

         

        Dora Kramer

        Contradição em termos

        Um presidente de conselho de ética parlamentar processado por empreguismo, abuso de poder e tráfico de influência é algo esquisito até para um país onde a lei permite a eleição de gente com folha corrida na polícia e contas em aberto na Justiça.

        Por qualquer ângulo que se olhe, a presença do deputado Sérgio Moraes (PTB-RS) na presidência do Conselho de Ética da Câmara no mínimo é uma contradição em termos, embora seja perfeitamente compreensível sob a lógica do salve-se quem puder instituída na República.

        Eleito por seus pares praticamente por unanimidade, o deputado cuja primeira missão será a condução do processo por quebra de decoro contra Paulo Pereira da Silva, responde a três ações no Supremo Tribunal Federal.

        É acusado pelo Ministério Público de ter feito contratações ilegais quando prefeito de Santa Cruz (RS), de tentar impedir a polícia de multar carros da prefeitura e de influir na instalação de um telefone comunitário (municipal) no armazém do pai.

        Sérgio Moraes não se sente, por isso, constrangido na condição de zelador da conduta ética na Câmara dos Deputados. “Cachorro que não tem pulga, ou já teve ou ainda vai ter”, diz ele, exibindo seu poder de argumentação e consistência de escrúpulos como credenciais ao posto.

        Sob o lema do “todo mundo faz”, ao qual acrescenta o princípio do “se não fez, ainda vai fazer”, o novo presidente do Conselho de Ética da Câmara assume já identificado com o réu de estréia.

        Em um dos processos, o do telefone no armazém, foi condenado, cassado do cargo de prefeito e reconduzido depois que o Tribunal de Justiça reformulou a decisão da primeira instância.

        Por isso, antecipa o uso do critério da causa própria no exame do processo de Paulo Pereira, “Não vou prejulgar porque quando aconteceu comigo me condenaram sem ouvir meus argumentos.”

        Pediu 15 dias para decidir se aceita ou não a representação da Mesa com o pedido de abertura de processo contra o deputado do PDT acusado pelo Ministério Público Federal de participar de uma quadrilha que desviava dinheiro do BNDES.

        O corregedor Inocêncio Oliveira, que também levou duas semanas para mandar o caso à Mesa, embora considerasse desde o primeiro momento as acusações “gravíssimas”, reagiu.

        Representou contra o novo presidente do conselho junto à presidência da Casa, alegando infração ao regimento, que determina a instauração imediata do processo.

        “Estarrecido”, Inocêncio atribuiu a lentidão à “inexperiência” do deputado de primeiro mandato e alertou para o risco de “a instituição ser atropelada por novos fatos”.

        Como o deputado corregedor despediu-se da inocência na pia de batismo, só pode estar acometido de um surto de otimismo.

        Nem o novo presidente do Conselho de Ética retarda o exame do processo por inépcia de principiante - antes o faz por tarimba de especialista - nem o Parlamento é uma instituição “sob risco” de desmoralização, muito menos o deputado Sérgio Moraes é uma exceção digna de fazer alguém se apavorar.

        Ele não é causa, é conseqüência. Sua escolha para a presidência do Conselho de Ética é apenas uma das várias manifestações do processo de desqualificação do Legislativo. Chega lá a bordo de um prontuário que, na atual conjuntura, acaba servindo como uma espécie de atestado de ótimos precedentes.

        A quem enxerga aí um exagero, cumpre lembrar: o fato de o novo presidente responder a processos só causa espanto do lado de fora do Congresso. Lá dentro isso é recebido com a mesma naturalidade reservada a parlamentares cujos crimes sejam anteriores aos respectivos mandatos.

        Não prevalecem as vozes que se levantam contra o jogo nessa regra. As poucas são abatidas a acusações de “farisaísmo” ou “udenismo”, muito bem aceitas por setores informados (e “informantes”) da sociedade.

        Assim, de aceitação em aceitação, as exigências se flexibilizam, os padrões se afrouxam, o patamar “de trabalho” é cada vez mais baixo, seguindo em rumo descendente.

        De maneira tal que não demora o dia em que a folha corrida na polícia e as contas em aberto na Justiça acabarão virando credenciais indispensáveis no rol de exigências de acesso ao Parlamento.

        A partilha

        A distância formal que o Palácio do Planalto mantém do embate pela aprovação do substituto da CPMF deixa as coisas assim combinadas entre governo e governistas: se a volta do imposto do cheque perder, a base no Congresso assume o ônus; se ganhar, o presidente Lula fica com o bônus.

        Há duas hipóteses para explicar que deputados e senadores aceitem esse tipo de acordo. Ou é fisiologismo agudo ou subserviência crônica.

        Ambas as possibilidades deixam o Legislativo em estado terminal, ou para recorrer ao diagnóstico do presidente do Senado, Garibaldi Alves, põem o Congresso “na UTI”.

        Mais vereadores, para quê?

        EDITORIAL

        A Câmara dos Deputados aprovou, por sintomáticos 419 votos contra 8, em primeiro turno, e por 359 votos contra 10 e 8 abstenções, em segundo turno, emenda constitucional que cria 7.554 cargos de vereadores em todo o País, justificando-a como forma de corrigir uma das muitas imperfeições da Constituição de 88, que determinou que a Lei Orgânica de cada município fixaria um número de vereadores proporcional à população local e dentro de três faixas de limites mínimos e máximos, de 9 a 21 vereadores nas cidades de até 1 milhão de habitantes; de 33 a 41 vereadores nos municípios com mais de 1 milhão e menos de 5 milhões de habitantes; e de 42 a 55 vereadores nos municípios com mais de 5 milhões de habitantes. Muito espertos, os vereadores fixaram para as suas Câmaras Municipais o número máximo de edis e se esqueceram de observar o princípio da proporcionalidade em relação à população. Criaram, assim, um monstrengo, em termos de representação política. Guarulhos, por exemplo, com 972 mil habitantes, tinha 21 vereadores, enquanto Cubatão, com uma população dez vezes menor, tinha 20 vereadores. Mas a emenda aprovada pela Câmara nada mais é do que uma ampliação do número de faixas de limites de vereadores.

        Em 2004, o Supremo Tribunal Federal (STF), julgando a constitucionalidade da Lei Orgânica de um pequeno município paulista, considerou que a observância do princípio da proporcionalidade era imperativa e determinou a redução do número de seus vereadores, de 11 para 9, adotando a fórmula de um vereador para cada grupo de 47.619 habitantes que ultrapassassem o limite mínimo da faixa demográfica e recomendou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que aplicasse a mesma fórmula na regulamentação das eleições municipais daquele ano: com isso foram reduzidas 8.528 das 60.276 vagas de vereadores existentes no País.

        Contra as medidas saneadoras do STF e do TSE houve forte reação de políticos que precisavam de Câmaras Municipais inchadas como trampolim para suas carreiras, e de parlamentares que perdiam parte de suas “bases” municipais. A mobilização dos descontentes foi tão eficiente que, menos de dois meses depois de baixadas as instruções do TSE, a Câmara dos Deputados aprovou, por 365 votos contra 19 e 8 abstenções, projeto de emenda constitucional que reduzia o corte do número de vereadores a 5.062 vagas. Feridos os seus interesses políticos e pessoais, os deputados foram capazes de votar em tempo recorde um projeto de emenda constitucional que, em condições normais, teria tramitação demorada.

        Felizmente, o projeto aprovado pela Câmara foi derrotado no Senado. Recebendo 41 votos favoráveis contra 11, o projeto não alcançou o quórum mínimo para aprovação. Durante os debates, ficaram claras duas posições. A do grupo, majoritário, que afirmava que os parlamentares não podiam “ficar submetidos à decisão do TSE”. E a do grupo minoritário, mas mesmo assim vencedor, que argumentava, como o senador Eduardo Siqueira Campos, que o País precisa de mais médicos e professores, e não de mais vereadores.

        Durante a votação, na terça-feira, do novo projeto de emenda constitucional, os mesmos argumentos foram usados, com variações. O presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, por exemplo, disse que o projeto propiciará “uma distribuição mais proporcional de vereadores”. Já o deputado Chico Alencar, do PSOL, lembrou que “não há demanda real da sociedade para aumentar em quase 8 mil o número dos vereadores”. E, de fato, não há.

        Mas o projeto aprovado pela Câmara vai além do aumento de vagas nas edilidades. Ele reduz o limite de repasse das prefeituras para as Câmaras Municipais de 5% a 8% da receita do município para 2% a 4,75%, sendo a variação não mais determinada pela população, mas pela receita municipal. À primeira vista, essa medida reduziria os gastos com o Legislativo municipal. Mas outro dispositivo elimina o limite de 70% para gastos com salários de vereadores e funcionários. Muitas Câmaras empenharão todo o orçamento com pessoal, deixando os gastos fixos e despesas correntes por conta do Executivo  melhor dizendo, dos contribuintes. Estes só podem esperar que, novamente, o Senado rejeite a emenda.

        Direto da fonte

        Sonia Racy
         
        Aero-lulinhas
        Agora vai. O Ministério da Aeronáutica assina na segunda-feira o contrato de compra dos dois aviões EMB-190, da Embraer, que vão substituir os dois "sucatinhas" do governo Lula.

        E, ao que tudo indica, por um valor menor que os US$ 82 milhões pedidos.

        Mundos e fundos
        A idéia de mudar o projeto do fundo soberano  fruto de reunião, quarta-feira, entre Guido Mantega, Antônio Palocci e Aloisio Mercadante  foi bem recebida pelo mundo real.

        Ele seria um fundo soberano nacional, montado com reais que sobram da arrecadação: uma maneira de evitar o aumento real da meta do superávit primário.

        No entanto, o governo Lula esbarra em problemas políticos para tirar o projeto do papel já que a proposta teria que passar pelo Congresso. Afinal, o Brasil está arrecadando os tubos e o Executivo ainda está pedindo mais via imposto destinado à saúde.

        Em Londres, Johan Eliasch, dono da Head, tem dito estar intrigado com a confusão envolvendo seu nome e sua propriedade na Amazônia. Não precisa. Ela faz parte, entre outras, de um bloco de justificativas para acionar medidas do governo Lula contra estrangeiros que queriam comprar terra na Amazônia.

        Mapa da mina
        Subprefeitos da capital estão recebendo visitas-surpresa da CEF e do BB.

        Estão promovendo "sabatinas" para saber do andamento de obras e para identificar nichos de mercado. Os sub-prefeitos desconfiam que a ação sirva para ajudar a campanha de Marta Suplicy nos grotões de São Paulo. E estranham. Contam que é a primeira vez que recebem visita semelhante.

        Tele-tube
        O comando de campanha tenta emplacar Geraldo Alckmin no programa de TV nacional da legenda em junho.

        Não será fácil. Segundo Sérgio Guerra, presidente do PSDB, o partido vai usar o tempo disponível para celebrar seu aniversário de 20 anos. Decisão válida para outros candidatos tucanos.

        Sem-cerimônia
        Passageiros do vôo 8081 da TAM, que vinha de Nova York para São Paulo no último domingo, ficaram indignados com o senador Heráclito Forte. No embarque, ele furou fila e se pôs, com a mulher, à frente até mesmo dos idosos e gestantes.

        Não consta que haveria votação no Senado segunda...

        Nelson Jobim tem encontro marcado com o embaixador dos EUA, Clifford Sobel, no fim de semana. Onde? Na fazenda de Celita Procopio de Carvalho, no interior de São Paulo.

        Em pleno aquecimento para as eleições municipais, os vereadores de Salvador se deram um presentão: 43 carros novos. O presidente da casa levou um Vectra e seus colegas, Corsas.

         

         

         

        Tribuna da imprensa online

        Carlos Chagas

        Índios: uma operação orquestrada

        BRASÍLIA - Enquanto o Supremo Tribunal Federal prepara-se para decidir a questão constitucional da reserva indígena Raposa-Serra do Sol, se o território deve ser contínuo ou não, grupos certamente minoritários de diversas tribos dedicam-se a contestar a lei capaz de garantir seus direitos. Assistem-se a invasões inusitadas, só esta semana, em Curitiba, Belo Horizonte e Cuiabá, cidades que certamente não se prestam à transformação em reserva exclusiva das populações indígenas.

        Na capital do Paraná foram dois prédios públicos ligados ao Ministério da Saúde, lá permanecendo cem funcionários como reféns. Próximo da capital mineira, duzentos índios interditaram a rodovia estadual onde trafegam caminhões da Vale do Rio Doce. Na capital do Mato Grosso, mais invasões de prédios públicos.

        A crônica das últimas semanas revela dezenas de incursões parecidas em outros estados, inclusive aquela em Altamira, no Pará, onde um engenheiro da Eletronorte foi agredido e esfaqueado.

        Muita gente pergunta se essas manifestações truculentas não são orquestradas, se não obedecem a uma estratégia. Seria muita coincidência se fossem espontâneas. E a quem interessa, senão o crime, por enquanto, ao menos a agitação?

        Os órgãos de inteligência do governo já devem ter detectado a trama, não errando quem supuser a presença de um monte de ONGs empenhadas na transformação de tribos em nações, para logo depois tornarem-se independentes. Só que o objetivo delas é a Amazônia, jamais o Paraná, Minas ou Mato Grosso.

        Então... Então, começa a emergir um raciocínio suplementar: a baderna promovida por grupos indígenas no País inteiro, milimetricamente estimulada, visa preparar manifestações maiores e mais explosivas caso o Supremo Tribunal Federal interrompa a reserva contínua, em Roraima. Seria a hora de dar um passo à frente na marcha para a contestação da soberania brasileira na região mais rica do planeta.

        A Anistia esqueceu a anistia

        Repercutiu de forma negativa no Congresso o último relatório da Anistia Internacional, que a respeito do Brasil não perdoa. Acusa o governo federal e governos estaduais de executarem "operações policiais militarizadas, exercendo violência, discriminação, corrupção e descontrole". A referência vai para a ação das polícias militares, em especial do Rio e São Paulo, no confronto com o narcotráfico e penduricalhos do crime organizado.

        Pretenderia a Anistia Internacional que o comércio de tóxicos fosse combatido por um batalhão de freirinhas, ou um contingente de congregados marianos?

        Segue-se uma referência à falta de garantias de direitos humanos básicos para os trabalhadores na execução das obras do PAC. O relatório cita a pavimentação de estradas e a construção de represas próximas das terras dos índios como lesivas aos direitos humanos. Alhos são misturados com bugalhos, com muita malícia, como se desejassem os mentores da associação que nossas rodovias continuassem esburacadas e a população do interior permanecesse iluminada a velas.

        Por último, ainda que nas entrelinhas, sugere a Anistia Internacional a abertura de processos criminais contra quantos participaram de atos de tortura no período da ditadura. Por mais amargo que seja, por mais que nos revolte, por mais que nunca devamos esquecer nem perdoar, vale lembrar ter sido a anistia a solução encontrada pelo Brasil para restabelecer a democracia.

        Acresce que revolver o lixo fétido dos anos de chumbo exigiria uma pá com duas faces. Melhor será utilizá-la para cobrir o entulho, como vem sendo feito a tanto custo. Até porque, tão lamentável quanto aquelas práticas do passado são as do presente. Que tal a Anistia Internacional promover uma devassa no que acontece em Guantanamo?

        Assim é demais

        Ataca novamente o Ministério da Saúde, prestes a substituir as hediondas imagens postas obrigatoriamente nos maços de cigarro por outras mais horrorosas ainda.

        O cigarro faz mal? Faz. Mata. É abominável? É. A fumaça incomoda a maioria dos não fumantes e será capaz, até, de merecer a acusação de contribuir para o aquecimento global. Só que tem um problema: querem acabar com o cigarro? Então que proíbam o funcionamento das fábricas. Que estabeleçam um plano de substituição do plantio das folhas de fumo por rabanetes.

        O que não dá é aceitar sem estrilar o farisaísmo do combate ao fumo através da agressão aos fumantes com fotografias de cidadãos estropiados, bebês natimortos, feridas abertas e sucedâneas. Porque fechar fábricas desequilibrará a economia nacional e até mundial.

        O cidadão que compra um maço de cigarros quer apenas os próprios, não pode ser obrigado a levar para casa ou colocar no bolso as desgraças universais. Fosse assim e imagens muito mais chocantes deveriam substituir os rótulos das garrafas de bebidas alcoólicas, os tubos de pasta de dentes, que em certos casos geram o câncer, ou, last but not least, estampar essa desgraceira nos pára-brisas dos carros saídos das montadoras, porque os veículos matam mais do que os cigarros.

        Vai aqui o apelo de um ex-fumante: à maneira do que os romanos de antanho faziam com os gladiadores, tratem pelo menos com respeito os que vão morrer...

        Apertem os cintos, vem turbulência

        Quem conversou com a ex-ministra Marina Silva nos últimos dias saiu com a impressão de que revanchismo não faz parte de seus planos, quando, na próxima semana, reassumir a cadeira no Senado. Mostra-se disposta a integrar-se por completo na bancada do PT, ainda que nem tanto às diretrizes da líder Ideli Salvatti, que jamais engoliu seu brilho e sua competência.

        Agora tem um adendo: Marina só votará os projetos que satisfizerem sua consciência. Não será marionete dos companheiros. Uma prova de fogo pode estar próxima, se a Câmara aprovar a nova CPMF e o projeto ganhar o Senado...

        Sérgio Moraes pode ser afastado

        Corregedor da Câmara entra com representação na Mesa contra novo presidente do Conselho de Ética

        BRASÍLIA - O corregedor-geral da Câmara, deputado Inocêncio Oliveira (PR-PE), entrou ontem com representação na Mesa Diretora da Casa contra o presidente do Conselho de Ética, deputado Sérgio Moraes (PTB-RS), por ele ainda não ter instaurado o processo de cassação do mandato do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força Sindical, acusado de envolvimento em esquema de desvio de dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

        A representação pode resultar no afastamento de Moraes do Conselho. Inocêncio afirmou que o presidente do Conselho tinha de agir "imediatamente" após receber o pedido e instaurar o processo, procedimento que sempre foi adotado anteriormente na Casa.

        Na representação, o presidente da Câmara reproduz definição do dicionário para a palavra "imediato", argumentando que não há espaço para prazo e que a decisão tem de ser "instantânea", "sem permeio". O regulamento do Conselho de Ética, que faz parte do Regimento Interno da Câmara, estabelece que o presidente do colegiado "instaurará imediatamente o processo" assim que receber a representação da Mesa Diretora.

        Moraes, no entanto, avisou quarta-feira que levaria até 15 dias para decidir o que faria em relação ao pedido de cassação. O pedido, aprovado pela Mesa da Câmara, chegou ao Conselho na terça-feira à noite. Quarta-feira, o PSOL protocolou um novo pedido de cassação do mandato de Paulinho.

        O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), deu razão a Inocêncio no caso da determinação regimental de instauração imediata do processo. "Inocêncio tem razão", afirmou Chinaglia. O presidente da Casa vai pôr em discussão, na Mesa, a representação do corregedor.

        O Código de Ética prevê o afastamento do membro do colegiado no caso de recebimento de representação contra ele. A representação formal contra Moraes acabou provocando uma troca de acusações entre Inocêncio e o presidente do Conselho. "Não será ninguém nem Vossa Excelência que irá atropelar o Conselho de Ética", discursou Moraes, ressaltando que não aceitaria pressão.

        Recuo

        Moraes, no entanto, recuou da decisão de fixar o prazo de 15 dias para decidir sobre o processo. Agora, ele diz que o prazo poderá ser de até sete dias. "Na terça-feira, vamos ter uma reunião do Conselho. Vou tentar que saia um relator de consenso. Se não sair consenso, em um ou dois dias em nomeio um relator", disse Moraes, em entrevista. "Imediatamente é após eu me inteirar dos fatos", acrescentou.

        O presidente do Conselho negou que esteja protegendo o deputado Paulinho ao atrasar a instauração do processo contra ele. Enquanto o processo não for aberto, Paulinho poderá renunciar para fugir do processo de cassação e não se tornar inelegível na hipótese de condenação pelo plenário.

        O regulamento do Conselho afirma que, ao instaurar o processo, o presidente do colegiado faz o registro e a autuação da representação, designa um relator ou uma subcomissão de três membros para analisar o processo e notifica o deputado acusado para que ele apresente defesa escrita no prazo de cinco sessões.

         

         

         

        Deus resolveu passar no Brasil e ficar, brinca Lula

        Presidente celebra grau de investimento e nova descoberta de petróleo.

        Enviado especial da BBC Brasil a San Salvador (El Salvador) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva brincou que a concessão do grau de investimento ao Brasil pela agência de avaliação de risco americana Fitch e a descoberta de mais uma jazida de petróleo nesta quinta-feira são um sinal de que ''Deus resolveu passar no Brasil e ficar. Passou e ficou''.

        Os comentários do presidente foram feitos em San Salvador, capital de El Salvador, após a participação do líder brasileiro no 2º Encontro Empresarial Brasil-Sica (Sistema de Integração Centro-Americana, grupo formado por El Salvador, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá e Belize).

        A Fitch passou a avaliação do país de BB+ para BBB-, seguindo movimento que já tinha sido tomado por outras agências, como a canadense DBRS, a também americana Standard & Poor's e as japonesas JCR e R&I.

        ''Fico extramemtne feliz quando recebo a notícia que a segunda agência reconhece o Brasil como investment grade. No fundo, no fundo, no fundo, nós estamos colhendo aquilo que foi plantado pelo povo brasileiro e acho que isso demonstra que quem trabalha com seriedade e muita objetividade termina vencendo, termina conquistando os seus objetivos.''

        De acordo com a agência, a elevação da avaliação do país reflete a considerável melhora do quadro financeiro nas contas externas e no setor público, que reduziu a vulnerabilidade do Brasil a choques externos e de câmbio, firmou a estabilidade macroeconômica e ampliou a perspectiva de crescimento no médio prazo.

        Petróleo

        Lula acrescentou ainda que uma outra ''notícia boa que vocês (os jornalistas) ainda não sabem, é que nós encontramos mais petróleo hoje''.

        Ele se referia ao anúncio feito nesta quinta-feira pela Petrobras sobre a descoberta de uma jazida petrolífera na costa oeste do Estado de São Paulo, em águas onde a profundidade é de 235 metros.

        A empresa é a concessionária exclusiva do bloco S-40, onde se localiza a nova descoberta, cujo potencial seria de mais de 12 mil barris por dia.

        Mesmo celebrando a descoberta, o presidente afirmou pela manhã que a comunidade internacional não está promovendo uma dicussão sobre a alta do barril de petróleo.

        ''Não se discute o aumento do petróleo, e estou falando contra mim mesmo. Estou falando contra mim porque o Brasil, além de já ser auto-suficiente em petróleo, acaba de descobrir grandes blocos de petróleo, com grandes possibilidades de tornar o Brasil um dos três países com maior reserva de petróleo do mundo.''

        Em um comunicado especial divulgado ao final do encontro desta quinta, os presidentes do Brasil e das nações centro-americanas solicitaram a convocação com urgência de uma Sessão Extraordinária da Assembléia Geral das Nações Unidas para tratar da busca do que definiram como "uma solução pragmática" para a atual crise.

        Fundo soberano

        Entre as outras ''boas notícias'' mencionadas por Lula esteve o anúncio da criação do fundo soberano.

        ''Já tomamos a decisão, vamos fazê-lo. Eu acho que é extramente importante que o Brasil crie um fundo soberano. Ele cumpre duas finalidades extraordinárias. Uma, que você tenha uma reserva, e outra, que você tira dinheiro que poderia gastar no custeio e no primeiro momento ele pode até servir de superávit primário.

        O presidente acrescentou que a criação do fundo sinaliza ''que não brincaremos com política fiscal e que não queremos retrocesso na economia brasileira e não queremos que a inflação volte''.

         

         

         

        Josias de Souza - Nos bastidores do poder

        Governistas jogam para 2009 cobrança da neo-CPMF

        Para vencer resistências, aliados de Lula ‘adoçam’ texto

        Além de protelar cobrança, amplia-se a faixa de isenção

        Concede-se 4 anos a Estados ‘inadimplentes’ com Saúde

         

         

        As resistências à recriação da CPMF não se restringem à oposição. Longe disso. Cerca de quatro dezenas de deputados da tropa governista ainda torcem o nariz para a proposta.

         

        Foi graças às suas próprias fragilidades que o generalato da tropa governista desistiu de medir forças com os oposicionistas PSDB, DEM e PPS na noite da última quarta-feira (30).

         

        Considerou-se que não eram negligenciáveis os riscos de derrota. Aos focos de rebeldia –concentrados no PMDB, PR, PSC e PV—sobreveio o esvaziamento do plenário.

         

        O quorum escasseava à medida que a sessão avançava em direção à madrugada. Estimou-se que a votação só ocorreria depois das duas da madrugada. Para complicar, a última versão do projeto só ficou pronta por volta das 22h.

         

        Desde o início da tarde, em sessão tumultuada, governistas e oposicionistas atacavam e defendiam uma proposta fantasma. Exceto por um seleto grupo de operadores governistas, ninguém apalpou uma mísera folha de papel.

         

        Capitaneado por Henrique Fontana (PT-RS), líder de Lula, o alto-comando governista achou melhor ganhar tempo. Tenta-se agora seduzir os aliados insurretos e até alguns oposicionistas.

         

        Abriu-se um canal de negociação com governadores, inclusive tucanos. Foram à mesa representados por seus secretários de Saúde.

         

        Além de vir edulcorada por uma nova denominação –CSS (Contribuição Social para a Saúde)-, a nova CPMF ganhou adoçantes adicionais. Eis alguns deles:

         

        1. Início da vigência: já não se pretende cobrar o tributo em 2008. “Entra em vigor no dia 1º de janeiro de 2009”, disse ao blog o líder Henrique Fontana.

         

        E quanto às verbas de 2008? “Neste ano, o governo vai fazer um esforço e colocar recursos extras, para dar início, desde logo, ao chamado PAC da Saúde”.

         

        Quanto? “Ainda há uma disputa. Tem desde o pedido máximo, de R$ 6 bilhões [feito pelo ministro José Gomes Temporão, da Saúde], até faixas intermediárias de R$ 3 bilhões, R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões. Mas a idéia é dar início já.”

         

        Na prática, o adiamento da vigência da CSS para 2009 embute uma dose de cálculo e outra de esperteza. Modificado na Câmara, o projeto terá de retornar ao Senado. Ali, dificilmente será votado antes do final de 2008.

         

        2. Faixa de isenção: inicialmente, pretendia-se isentar do pagamento da velha nova contribuição os brasileiros com renda de até R$ 1.245 mensais.

         

        Esse valor foi elevado para R$ 3.038. Uma cifra que equivale ao valor máximo das pensões e aposentadorias pagas pela Previdência.

         

        Chegou-se a esse valor por sugestão de Pepe Vargas (PT-RS), relator do projeto que tonifica o orçamento da Saúde.

         

        “Não tenho números precisos, mas creio que, com isso, estarão isentos entre 80 milhões e 90 milhões de brasileiros”, disse Pepe ao repórter. A nova cifra já estava disponível na quarta-feira. Mas entendeu-se que era preciso ganhar tempo, para que ela fosse deglutida.

         

        “Isso está nos ajudando muito com a nossa base”, diz Henrique Fontana. “Estamos mostrando que a grande maioria não paga e tem o benefício da melhoria da Saúde.”

         

        3. Governadores: Está-se discutindo a regulamentação da emenda 29. Foi aprovada em 2000. Levou para dentro da Constituição percentuais mínimos de investimento em Saúde para União, Estados e Municípios.

         

        Decorridos oito anos, das 27 unidades da federação, 21 descumprem o mínimo constitucional que deveriam destinar à Saúde: no caso dos Estados, 12% de suas receitas.

         

        Aprovando-se a nova lei, os Estados inadimplentes seriam forçados a reforçar o caixa da Saúde imediatamente, de uma tacada. Decidiu-se conceder-lhes um refresco.

         

        O relator Pepe Vargas vai adicionar no projeto uma regra que dá aos governadores prazo adicional de quatro anos para se ajustar à lei.

         

        “Eles poderão corrigir a defasagem à razão de ¼ a cada ano”, informa Pepe. “É um pedido dos governadores, que nos chegou por meio dos secretários de Saúde.”

         

        A lista de Estados fora da lei inclui São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul, governados respectivamente pelos tucanos José Serra, Aécio Neves e Yeda Crusius.

         

        A situação mais dramática é a de Yeda. Hoje, o governo gaúcho só destina à Saúde cerca de 6% de sua arrecadação, metade do que exige a Constituição.

         

         

         

         

        Reuters

        Objeto voador não identificado

        Explodiu no ar sobre uma ilha ao sul do Vietnã, disse a mídia estatal, um dia depois que a força aérea do Camboja reportou uma misteriosa queda de aeronave.

        A Agência de Notícias do Vietnã disse que residentes da ilha Phu Quoc, a apenas 10 km do Camboja, encontraram fragmentos de metal cinzento, incluindo um de 1,5m de comprimento.

        “A explosão ocorreu a cerca de 8 km de altura e talvez fosse um avião, mas as autoridades não puderam identificar se era uma aeronave civil ou militar”, disse um artigo com o título “OVNI explode sobre a ilha Pho Quoc”

        Soldados foram enviados para procurar por restos e sobreviventes, e as autoridades locais contataram as companhias aéreas no Vietnã, Camboja e Tailândia, mas não receberam informações sobre aeronaves desaparecidas.

        Os aldeões da região disseram na terça-feira que ouviram uma forte explosão. Na quarta-feira eles disseram à Reuters que encontraram pequenos pedaços metálicos próximos das linhas costeiras.

        Kung Mony, vice-comandante da Força Aérea do Camboja, disse na terça-feira que lhe disseram que uma aeronave havia caído na província de Kampot, mas momentos depois, voltou atrás negando em suas afirmações.
         
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        Nổ máy bay ở Phú Quốc?
         
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        Mảnh kim loại được người dân tìm thấy (ảnh báo Tuổi Trẻ)
        Người dân tìm thấy một số mảnh kim loại
         
        Một vật thể bay lạ đã phát nổ trên không trung ở phía bắc đảo Phú Quốc hôm thứ Ba 27/8.

        Báo chí Việt Nam đồng loạt đưa tin về việc này vào hôm 28/5, một ngày sau khi không lực Campuchia rút lại thông báo về một vụ máy bay rơi bí hiểm.

        Theo Thông tấn xã Việt Nam, người dân ở xã Gành Dầu và Cửa Cạn ở phía bắc Phú Quốc cho biết đã nghe thấy một tiếng nổ rất lớn.

        Họ cũng nói đã nhặt được các mảnh kim loại bị cháy sém rộng khoảng 70cm. Mảnh lớn nhất dài khoảng 1,5m.

        Báo chí trong nước cho hay, nhiều khả năng đây là vụ nổ máy bay xảy ra cách mặt đất khoảng 8km, nhưng chưa thể xác định là máy bay dân dụng hay quân sự cũng như từ đâu bay tới.

        'Không có bất thường'

        Tuy nhiên ông Lại Xuân Thanh, Phó Cục trưởng Cục hàng không dân dụng Việt Nam, được truyền thông trong nước trích lời cho biết đã kiểm tra các chuyến bay qua không phận, cũng như liên lạc với Campuchia, Thái Lan hay Singapore nhưng không phát hiện có điều gì bất thường.

        Điều đó có nghĩa khả năng nổ máy bay dân dụng là rất ít.

        Quân đội đã triển khai binh lính đi tìm kiếm các mảnh vỡ cũng như tham gia công tác cứu hộ tại khu vực xảy ra vụ nổ, cách tỉnh Kampot của Campuchia 10km.

        Dân làng ở tỉnh Kampot cũng cho hay họ nghe thấy một tiếng nổ lớn hôm 27/5.

        Họ cho hãng Reuters biết đã tìm thấy các mảnh kim loại gần bờ biển.

        Ông Kung Mony, Phó tư lệnh Không lực Campuchia, hôm 27/5 cho biết rằng ông nhận được tin một máy bay nước ngoài rơi tại tỉnh Kampot, nhưng sau đó đã rút lại thông báo đó.

         

         

         

        Toda Mídia

        Nelson de Sá 

        Warren Buffett e os socialistas modernos

        A enviada da CNBC, o canal financeiro da rede NBC, relata que Armínio Fraga, que "trabalhou para George Soros" e foi presidente do Banco Central, é "muito modesto" e não aceita a designação de Warren Buffett do Brasil. Buffett é o maior investidor dos EUA e, nas últimas listas das revistas, o homem mais rico do mundo.

        Sobre o "boom" do país, ele comenta que "o Brasil, de todos os Brics, é o mais ocidental" e "o interessante é que finalmente nos demos conta de que ser parte do mundo é uma coisa boa, agora vemos que nos relacionarmos com outros países em comércio e investimentos traz prosperidade". Em suma, no diálogo:

        -Nós estamos virando um país mais capitalista.
        -Como isso pode acontecer, dado o [governo] socialista?
        -Eles são socialistas modernos, não estão exortando revolução. E eu acho que muitas dessas idéias estavam aí e outras têm sido trabalhadas e de repente... nós vemos, por exemplo, negociantes locais erguendo empresas com boa governança e atraindo capital. Isso cria um círculo virtuoso. Você vê seu vizinho levantando capital, criando empregos, fazendo dinheiro e você também quer.
         
        Murdoch & Obama

        Rupert Murdoch deu conferência/entrevista ontem no D: All Things Digital, que é do "Wall Street Journal", ou seja, é do próprio Rupert Murdoch. Que é dono também da rede Fox, do canal Fox News, do MySpace, do "New York Post" e de muito mais nos EUA. Isso, sem falar do que tem na Grã-Bretanha, na China, na Austrália onde nasceu.

        Sua opinião mais esperada era sobre
        Barack Obama. O "NY Post" apoiou Obama em editorial, nas primárias democratas, e ele respondeu que, "sim", foi por ordem sua. Diz que não está pronto para votar em Obama, que descreve como um "rock star", mas:

        -Estou ansioso para me encontrar com ele. Eu quero ser convencido de que Obama é de verdade [the real thing], de que realmente vai conseguir. Estou aberto a isso.

        De todo modo, ele "pode não vencer na Flórida, porque os judeus suspeitam dele e também os hispânicos... e os brancos não vão falar disso, mas a raça vai contar".

        A cultura da fraude

        O Politico.com, um dos sites que pautam Washington, adiantou ontem à noite passagens das memórias do ex-porta-voz de George W. Bush. Em destaque, a avaliação de Scott McClellan de que o presidente não foi "aberto e franco sobre o Iraque" e governou em "campanha permanente".

        Diz ele que Bush confiou em "propaganda" para vender a guerra e que os jornalistas na Casa Branca foram acríticos na escalada. Em suma, o presidente e seus assessores "manipularam fontes de
        opinião pública", que por sua vez se deixaram manipular.

        O título do livro, segundo o "Washington Post" e o site, mas não na capa que se encontra on-line, é "O que aconteceu: Dentro da Casa Branca de Bush e da cultura da fraude de Washington" (What Happened: Inside the Bush White House and Washington's Culture of Deception). Chega às bancas dos EUA na semana que vem, pela editora Public Affairs, por US$ 27.95. Está na Amazon por
        US$ 15,37.

         



         

         

         

        Internet muda o aprendizado no Brasil

        A expansão do número de computadores, que incluiu milhões de pessoas na internet, também tem reflexos diretos na educação, tanto em casa quanto na escola.

        A expansão do número de computadores no Brasil, que incluiu milhões de pessoas na internet, também tem reflexos diretos na educação, tanto em casa quanto na escola. É o que mostram Flávio Fachel e Alberto Fernandez, na terceira reportagem da série que o Jornal Nacional exibe, nesta semana, sobre a tecnologia dos computadores na vida dos brasileiros.

        “Quero ser piloto de avião”. “Médico”. “Veterinária”, dizem crianças.

        Desejos de infância ilhados no meio do Atlântico. Para eles, faltam oportunidades nas escolas. Sempre foi difícil trazer e fixar professores do ensino médio em Fernando de Noronha. Imagine, então, manter um curso superior.

        Quem pretendesse ir além do ensino médio, precisava ir rumo às universidades do continente. Ano após ano, o paraíso no meio do Atlântico via os seus jovens mais brilhantes irem embora.

        É dia de despedida para Roberta Pereira. “Todo o pai tem que estar sempre com uma mala pronta dos filhos, porque de uma hora para outra eles têm que ir embora”, conta Elenilda Pereira, mãe de Roberta.

        Ela vai continuar os estudos longe da família, no Recife. “Muita tristeza e saudade”, lamenta Elenilda.

        Mas, no coração da ilha, os computadores ligados à internet avisam: para uma turma, o futuro pode ser em Fernando de Noronha mesmo. Eles vão ser os primeiros administradores, pedagogos e biólogos formados em Fernando de Noronha.

        “Vocês não vão ter acesso aos professores. O curso vai oferecer teleconferência onde o professor vai estar ao vivo no qual você vai perguntar aqui e o professor vai responder de lá”, explica o professor.

        Era tudo o que o aluno de biologia Fernando Paulo de Oliveira queria. Mergulhador experiente, acostumado a mostrar lagostas, arraias e tartarugas aos turistas, ele quer agora entender tudo o que vê no fundo do mar. Graças à Internet, o guia vai virar cientista.

        - O teu horizonte ia até onde?
        - Até aquela ilhota ali.
        - E agora, com esse curso?
        - Fica ilimitado. Jamais imaginaria chegar tão longe que hoje eu já imagino que eu possa chegar.

        Em uma escola do Rio, também não há limites para a imaginação. É desde cedo que se aprende a estar no comando da tecnologia.

        Aos 5 anos, aulas de robótica. O laptop se confunde com brinquedos educacionais. “Eu aprendo muita coisa”, conta uma menina.

        A imagem é bonita, mas a alfabetização tecnológica ainda está longe de ser regra no Brasil. Professores da Universidade de Campinas acompanharam o desempenho de alunos do ensino fundamental e do ensino médio em escolas públicas e chegaram a uma conclusão reveladora.

        “O resultado é que, independentemente da classe econômica e da série, os alunos que sempre usam o computador para fazer a lição de casa têm, em média, notas piores de alunos que nunca usam”, afirmou o professor Jacques Wainer, da Universidade de Campinas (Unicamp).

        A pesquisa não diz por que isso acontece. Mas quem acompanha de perto a relação entre os jovens e os computadores tem pistas.

        “Quando se fala: ‘Vamos abrir uma sala de informática’, estamos focando apenas na técnica. Desenvolver uma proposta pedagógica, desenvolver uma metodologia para o uso dessa tecnologia, capacitar continuadamente esses professores é realmente o que faz diferença”, afirma Rodrigo Baggio, do Comitê para a Democratização da Internet.

        Já há quem ouse chamar lugares assim de ‘cemitérios do conhecimento’. Nas bibliotecas escolares, enciclopédias inteiras esquecidas pelos alunos. Trabalho? Só para a equipe de limpeza.

        Quem tem mais de 30 anos, lembra como eram os trabalhos no tempo da escola. O professor passava o tema e os alunos vinham até as bibliotecas consultar livros para produzir as pesquisas.

        Hoje, na época da internet, são raros os alunos que vêm até as estantes pra resolver o problema. Preferem usar a ponta do dedo. “Dou um Control C + Control V”, confessa a estudante.

        Control C captura o texto na tela. Control V põe onde você quiser. Rápido e irresistível. São os comandos preferidos da geração ‘copia e cola’. “Não tenho o costume de ler. Não gosto e faço outra coisa”, revela a estudante.

        Diga isso para a exigente professora Cláudia Afonso. No ano passado, desconfiada, ela resolveu investigar de onde teria vindo tanto conteúdo nos trabalhos de iniciação científica. Descobriu que todos os alunos usaram as tais teclas milagrosas: Control C + Control V.

        “A gente fez uma contra-pesquisa na internet, buscando site por site de origem e riscando os trabalhos, dizendo: ‘Aqui está no site tal’. E demonstrei que havia ali uma cópia”, contou Cláudia Afonso.

        Um trabalho copiado no colégio, outro na faculdade. A psicopedagoga Alba Maria Leme Weiss alerta: a multiplicação da preguiça intelectual logo, logo, cobra seu preço. “A gente corre um risco de uma geração medíocre, de uma geração mediocrizada. De querer tudo rápido, tudo fácil, só que o mercado de trabalho não vai aceitar isso. A vida não aceita isso”, avalia Alba Maria.


        Os computadores estão chegando. O Governo Federal já começou a distribuir laptops para alunos da rede pública. A meta é fornecer, nos próximos anos, equipamentos para 300 escolas em todos os estados do Brasil, mas só as máquinas.

        Simão Pedro Marinho, consultor do Ministério da Educação, deixou claro de quem será a responsabilidade de transformar a geração ‘copia e cola’ em uma turma mais criativa. “Quem vai fazer essa história são as escolas. Não tenha dúvida, são as escolas. As escolas farão a mágica que puder fazer. E cada mágica no seu contexto”, ele alega.

        De cada 100 brasileiros, apenas 30 usam a internet para estudar e só quatro fazem cursos à distância pelo computador. Nesta quinta, você vai saber se estamos preparados para as conseqüências do uso de tanta tecnologia.

        E-mail evita guerra na fronteira do Brasil com Peru

        E-mail evita guerra na fronteira do Brasil com Peru

        Nesta semana, o Jornal Nacional vai exibir uma série de reportagens sobre o crescimento do uso do computador e da internet, e o poder dessas ferramentas.

        No Brasil, a tecnologia também está unindo pessoas e provocando mudanças profundas. Nesta semana, o Jornal Nacional vai exibir uma série de reportagens sobre o crescimento do uso do computador e da internet e o poder dessas ferramentas.

        Nesta segunda, os repórteres Flávio Fachel e Alberto Fernandez vão contar a história de uma mensagem eletrônica que evitou uma guerra.

        Internet. Um bilhão de pessoas conectadas em todo o planeta, 150 milhões de páginas, dois milhões de e-mails por segundo cruzando os continentes na velocidade de um clique.

        Que poder teria uma mensagem dessas para um povo com tradição guerreira milenar no meio da floresta?

        Alto-Juruá, fronteira do Brasil com o Peru, no Acre, terra dos Ashaninka. As mulheres cuidam da comida, das roupas, das crianças; os homens não descuidam da vigilância. Na mata, nos rios e até nos programas de recados no rádio que vão ao ar todos os dias na região.

        Eles não buscam só recados. Procuram pistas que indiquem a presença de invasores vindos do outro lado da fronteira. Madeireiros peruanos de olho no cedro e no mogno existentes na reserva indígena.

        Não é seguro usar nem um tradicional rádio, presente em quase todas as aldeias da Amazônia.

        “Falta ter segurança, porque às vezes tem coisa secreta que só a Polícia Federal e nós podemos saber”, explica um índio.

        A reunião ao luar, em volta da fogueira, é decisiva: "Umanarentzi", dizem os Ashaninka. Significa guerra. Guerra contra os invasores.

        De um lado, madeireiros peruanos, equipados com rádios sofisticados, de longo alcance e armas de grosso calibre, até fuzis.

        De outro, os índios Ashaninka se defendendo como sempre se defenderam: usando seus arcos e flechas.

        Assim que encontraram esse novo inimigo, os índios logo perceberam que iam precisar de armas bem mais poderosas.

        Uma antena para conexão, um painel solar para a energia, um computador, que só cinco índios sabem operar. Foi Benki, o filho do cacique, que teve a idéia de levar tecnologia para os guerreiros da floresta.

        A decisão da tribo de enfrentar os invasores virou mensagem eletrônica espalhada para ONGs de todo o mundo. E enviada também para o Governo Federal.

        "Queremos solicitar a presença das autoridades do nosso país", escreve um índio.

        As reivindicações indígenas foram recebidas na Presidência da República. A mensagem foi repassada para a Polícia Federal e para o comando do Exército.

        Os arcos e flechas Ashaninkas foram reforçados por um esquadrão de helicópteros das Forças Armadas. O Estado respondeu ao e-mail vindo da floresta, prendeu os invasores e as toras retiradas de forma ilegal foram dinamitadas.

        Os helicópteros foram embora e os Ashaninkas continuam a vigilância na fronteira. Só que, agora, os arcos e as flechas ganharam a força da comunicação instantânea, que faz toda a diferença para quem vive isolado na mata.

        A munição tecnológica que reforçou os Ashaninkas veio de uma ONG, o Comitê para Democratização da Informática, que já ajudou a levar a internet para quatro aldeias da Amazônia.

        “Os Ashaninkas descobriram uma forma de usar a internet como uma ferramenta de libertação. Essa prática deve ser adaptada a realidades distintas de comunidades diferentes, mas ela é a mesma, ela faz com que essas pessoas possam efetivamente se inserir num novo mundo”, disse Rodrigo Baggio, diretor-executivo do CDI.

        O computador que agora ajuda os índios a cuidar da fronteira é o mesmo que está chegando nas casas de muitos brasileiros.

        De 2000 a 2007, a quantidade de gente com acesso à Internet no Brasil saltou de cinco milhões para 39 milhões de pessoas. Foi o segundo maior crescimento registrado no planeta.

        Mesmo assim, na reportagem desta terça, você vai descobrir que tem brasileiro que não conseguiu um lugarzinho nessa grande janela aberta para o mundo.

        O abismo tecnológico entre duas cidades

        O abismo tecnológico entre duas cidades

        A tecnologia dos computadores é o tema da série de reportagens desta semana. Veja que entre uma cidade no Maranhão e outra em São Paulo existe mais do que a separação de dois mil quilômetros

        A tecnologia dos computadores é o tema de uma série de reportagens que o Jornal Nacional exibe nesta semana.

        Nesta terça, os repórteres Flávio Fachel e Alberto Fernandez vão mostrar duas cidades brasileiras: uma no Maranhão, outra em São Paulo.

        Entre elas, existe mais do que a separação física de dois mil quilômetros. Existe um abismo.

        Pela superestrada da informação, imagens podem dar a volta ao mundo em poucos segundos. Músicas atravessam os continentes espalhando culturas diferentes. Mensagens instantâneas conectam pessoas onde quer que estejam.

        Quer dizer, mais ou menos. Depende. Bem-vindos a Bacurituba, interior do Maranhão. A Internet não passa por aqui. Nenhum ponto de acesso, nada de computadores. Janela para o mundo é a paisagem que se vê todo fim de tarde da calçada.

        O telefone, inaugurado no Brasil por Dom Pedro II, chegou a essas bandas só há cinco anos.

        - Qual é a sensação que dá?
        - Abandono, fora do ar. Sinceramente, assim, sem nada.

        Dois mil quilômetros para o sul, noroeste de São Paulo, Sud Menucci, cidade cercada de canaviais e fazendas de leite. Não se engane: na casinha na roça tem telhado turbinado. As antenas captam o sinal da internet que inunda todos os cantos do município e que sai de uma torre da prefeitura.

        Um projeto pioneiro no Brasil que custou R$ 140 mil aos cofres do município e deu aos moradores internet grátis.

        Com ela, dá para: “Fazer pesquisa de escola, jogar”, diz uma menina”. “Dá para conversar na internet com minha irmã, porque ela está em Mato Grosso”, afirma outra.

        De volta a Bacurituba, no Maranhão. Lina tenta há 14 anos trocar cartas com a irmã que foi embora pro Rio. Sem saber ao certo para onde mandar a mensagem, a correspondência acaba devolvida.

        É a força da saudade que faz a professora continuar tentando. “Celeste, por favor, vê se dê notícias suas ao nosso pai, pois sei que ele sente saudades suas e para ele seria maravilhoso saber suas notícias”.

        Na cidade desplugada, é Linaldo que conecta os moradores com o mundo na pequena salinha dos correios. A velocidade das mensagens depende do meio de transporte. “A moto é a banda larga!”, brinca. Às vezes, é mais lento. “Tem que pular cerca também”.

        Seu Manoel também faz o que pode para conectar o povoado com o resto do planeta. “Essa calça é do Japão, essa sombrinha é da China, essa camiseta é de Pernambuco, tropa de elite, esse pinico é de São Paulo”.

        Já em Sud Menucci, a cidade conectada, caixeiro-viajante não tem vez e o dono da principal loja de produtos agrícolas viu as margens de lucro caírem de 50% para 20%, porque os fregueses agora comparam os preços pela internet.

        - Quanto você viu?
        - “R$ 12,80”.
        - Nós cobrimos. Fazemos por R$ 12. Não tem problema. Não quero perder o cliente, já que você usa internet para ver preço.

        Usuários por todo o lado, até no banco da praça central da cidade. Definitivamente, algo mudou. “Nós estamos plugados, nós estamos de olho, nós não somos caipira”, afirma um morador.

        No início, foram 20 casas. Em oito meses, já eram 500. Hoje, de cada duas residências do município, uma está ligada à internet.

        E essa não é só a história de como foi possível dar acesso grátis à grande rede de computadores para toda a cidade. É a história de como um pequeno cabo conseguiu mudar o destino de uma população inteirinha.

        Mãos acostumadas à lida no campo agora montam sofisticados computadores. A estudante Glysele Santos vai quebrar uma tradição de três gerações. Os avós e os pais ganharam a vida na lavoura. Ela quer ir atrás das novidades que brotam da tela do computador.

        “Todos têm a oportunidade de pesquisar se conectando ao mundo, obtendo informações em todos os sentidos. Agora não tem porteira, agora não tem nenhum limite para gente”.

        As diferenças entre quem tem e quem não tem acesso a computadores e internet no Brasil ainda são grandes. Mas estão diminuindo.

        Há três anos e meio, de cada 100 lares brasileiros, só 17 tinham um computador. Em 2007, já eram 24: 53% da população, mais da metade, já usaram computadores e 41% já acessaram a Internet.

        Para quem não pode comprar um computador, a principal porta de entrada para a grande rede são as lan houses, onde dá para se conectar pagando por hora.

        Mas e quando o computador está na escola? Nesta quarta, você vai saber se a tecnologia está ou não ajudando o desempenho dos estudantes brasileiros.

         
         
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        Reprodução

         


         

         

         

        O outro, o mesmo

        Editorial

        Caso Paulinho reflete o surgimento de uma "elite" que se beneficia das relações turvas entre sindicalismo e Estado

        NUM TEXTO fundamental para a constituição da literatura moderna, o poeta francês Jean-Arthur Rimbaud (1854-1891) afirmou, com tanta audácia gramatical quanto psicológica, que "eu é um outro".
        Retirada de seu contexto estético, a frase parece sintetizar uma das poucas linhas de defesa possíveis para o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), cujo envolvimento com lobistas e irregularidades vai dando exaustivos sinais de evidência.
        A Polícia Federal identifica na figura de "Paulinho da Força", como é conhecido o parlamentar, o beneficiário de dois cheques oriundos de um esquema de desvios de verbas do BNDES. O nome "Paulinho" e a abreviação "PA" constam da documentação apreendida pela polícia.
        Haverá muitos Paulinhos, por certo, no mundo das negociatas federais, e não se nega ao da Força Sindical o direito de dizer que "é um outro". Mas nem todo Paulinho tem o poder de indicar membros do conselho administrativo do BNDES, suspeitos de facilitar empréstimos a prefeituras e empresas. Desses empréstimos, uma porcentagem reforçaria para repetir os termos utilizados numa conversa grampeada pela polícia a conta bancária do "chefe lá de Brasília". A saber, um certo Paulinho.
        "Lá em Brasília", abre-se no Conselho de Ética da Câmara um processo contra o deputado pedetista. E este, que alega ser perseguido "pelas elites", conta com o foro privilegiado para responder às investigações da PF.
        Poucas vezes a desculpa de se dizer vítima das elites terá sido menos convincente. Originário de uma central sindical sempre disposta ao diálogo "de resultados" com o patronato, Paulinho é um caso típico da ascensão da burocracia sindical a posições estratégicas no Estado.
        Processo em que, de resto, velhos "xiitas" e clássicos "pelegos" convergem com as bênçãos do presidente Lula.
        Veio deste, com efeito, a decisão de canalizar a arrecadação do imposto sindical para as centrais trabalhistas que em outros tempos viam no mecanismo, corretamente, um fator de atraso e inautenticidade na organização dos assalariados. É assim que todo trabalhador, independentemente de sua adesão a um sindicato, continua a ter descontada uma parcela de seu salário para alimentar a força da elite sindical de plantão.
        Os resultados desse sindicalismo começam a aparecer. Resta acompanhar seu desenvolvimento na Justiça, e a melancólica repetição do ciclo de escândalos que acomete a política brasileira. A menos que Paulinho não seja Paulinho. Sempre surgem outros, aliás.

        Renata Lo Prete-Painel

        Entalado na garganta

        Agora necessitado do apoio de seus pares, que julgarão o inevitável pedido de cassação, Paulinho da Força (PDT-SP) colecionou desafetos no processo que começou em outubro passado, quando a Câmara derrubou o imposto sindical. Na ocasião, ele discursou: "Estou pedindo o nome de todos os deputados que votaram "sim". Vou orientar todos os sindicatos a colocá-los no poste a partir da semana que vem".
        Deputados de diferentes siglas lembram que Paulinho, hoje protagonista do escândalo de desvio de recursos do BNDES, levou uma claque aos corredores da Casa para pressioná-los em março deste ano, quando o imposto acabou ressuscitado. No dia da votação, puxou vaias das galerias contra os colegas.

        Paga. Além da imunidade, uma das razões que levam Paulinho a não renunciar ao mandato é a convicção de que será ajudado por setores do PT, sobretudo os ligados à CUT, que teriam contado com a boa vontade do PDT e da Força Sindical quando do escândalo do mensalão.

        Bifinho. O ministro Hélio Costa (Comunicações) nomeou ontem Pedro Magalhães para a diretoria dos Correios. Ele é irmão do deputado João Magalhães (PMDB-MG), envolvido no escândalos dos sanguessugas, em 2006.

        Efeito surpresa. A pressa em votar de vez a nova CPMF foi determinada, nos bastidores pelo Planalto, para evitar que a base aliada tivesse tempo de montar o balcão de pedidos em troca da aprovação.

        Sobre o nada. Da manhã até o início da noite de ontem, deputados se revezaram na tribuna da Câmara em inflamados discursos contra e a favor da nova CPMF, embora o texto do projeto ainda nem estivesse na Casa.

        Veja bem. Nos intervalos do julgamento no Supremo sobre pesquisas com células-tronco, o advogado-geral da União, José Antonio Toffoli, defendia que a criação da CSS (Contribuição Social da Saúde) tem caráter não-cumulativo, porque não recai sobre nenhuma cadeia produtiva, e sim sobre a movimentação financeira, atividade específica.

        Pelo gongo. O deputado federal Sérgio Carneiro (PT-BA) tem um álibi perfeito para escapar do dilema entre apoiar o irmão, o prefeito João Henrique (PMDB), ou o correligionário Walter Pinheiro na disputa em Salvador: seu título é de Feira de Santana, onde, aliás, será o candidato do PT à prefeitura.

        Sobrou o quê? O voto de Carlos Menezes Direito, impondo uma série de restrições às pesquisas com células-tronco, levou um dos representantes da comunidade científica que assistia ao julgamento de ontem no STF a comparar: "É como se ele decidisse a favor da liberdade de imprensa, desde que não se fale mal do Lula, dos governadores e dos senadores".

        Tempo! Diante dos votos intermináveis, Luís Roberto Barroso, advogado do Movitae, pró-pesquisas, sugeriu que os ministros do Supremo tenham limite de tempo para expor suas decisões, assim como os defensores têm para fazer a sustentação oral.

        Artista. O relator do processo, Carlos Ayres de Britto, compareceu à sessão vestindo sua "gravata da sorte", com desenhos de Pablo Picasso.

        Nano. Em meio ao debate sobre avanços científicos e tecnológicos, os ministros mostraram estar atualizados. Eros Grau e Ellen Gracie usavam laptops com telas bem reduzidas, à prova de espionagem de trocas de e-mail.

        Não fui eu. Entre os números que Blairo Maggi (PR-MT) levará amanhã ao fórum de governadores da Amazônia, com Lula presente, há um dizendo que o Pará desmatou 5.569 9km2 em 2007, contra 2.476 9km2 de Mato Grosso.

        Tiroteio
        Prefiro perder com o presidente Lula do que ganhar contra ele.

        Do prefeito FERNANDO PIMENTEL , declarando-se "ainda mais convicto" de sua posição favorável à aliança com o PSDB em Belo Horizonte, que será julgada amanhã pelo Diretório Nacional do PT, depois que Lula manifestou "apoio explícito" ao projeto em visita anteontem à capital mineira.

        Contraponto

        O cofrinho de cada um
        Tucanos e "demos" fizeram ontem um protesto, no plenário da Câmara, contra a criação da CSS (Contribuição Social da Saúde), que vem a ser a CPMF ressuscitada.
        A manifestação consistia em empunhar cofrinhos com uma inscrição contra o novo tributo. Ao passar pelo grupo oposicionista, Devanir Ribeiro (PT-SP) resolveu provocar o colega Lobbe Neto (DEM-SP):
        -Não combina. Onde já se viu um burguês como você guardando dinheiro no cofrinho?
        Neto devolveu à queima-roupa, resgatando um dos símbolos do escândalo do mensalão:
        -Melhor no cofrinho que na cueca...

        Governo pagou internet de filho de Lula, diz deputado

        ANDREZA MATAIS

        Sub-relatório aponta gasto de R$ 112,11 com boleto

        O sub-relator da CPI dos Cartões Corporativos, deputado Índio da Costa (DEM-RJ), acusou ontem a Presidência da República de pagar conta de internet de um filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O registro aparece entre as despesas da Casa Civil que foram encaminhados à CPI e indica pagamento ao provedor Universo Online Ltda. O boleto está em nome de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
        O deputado incluiu o gasto de R$ 112,11, no dia 2 de setembro de 2003, no sub-relatório que apresentou ontem à CPI e o considerou como "emblemático" dos erros, desvios e irregularidades do governo no uso do cartão corporativo.
        Na prestação de contas da Casa Civil, o "agente suprido" Waldir Richter Medeiros não menciona o gasto específico. Diz apenas que foram feitos saques, no período de 20 de agosto de 2003 a 18 de setembro do mesmo ano, "para a realização de pequenas despesas".
        O pagamento do título foi feito por Antonio F. D. Martins. A Casa Civil não informou se ele é funcionário do governo. Sobre a despesa com o filho do presidente, a assessoria do ministério disse que não poderia fazer comentários porque "os técnicos estavam ocupados".
        No sub-relatório, o pagamento foi considerado irregular. Índio da Costa pede ao Ministério Público que apure a despesa. "Por que razão e com que direito os impostos pagos pelos contribuintes servem para custear despesas da família do presidente?", escreveu ele.
        O sub-relatório também citou pagamento com o cartão corporativo num motel de Brasília. O gasto de R$ 100 foi feito por José Sobrinho, servidor da FUB (Fundação Nacional de Saúde). A UnB (Universidade de Brasília), que responde pela FUB, disse que não iria se manifestar ontem porque foi procurada depois das 18h pela Folha. O jornal só tomou conhecimento da informação depois da leitura do sub-relatório.
        O deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) também apresentou ontem o sub-relatório de sistematização. Tanto ele quanto Índio da Costa pouparam a ministra Dilma Rousseff e outros servidores da Casa Civil de responsabilidade pela confecção do dossiê que revelou gastos do governo Fernando Henrique. Para os dois deputados, quem cometeu crime foi José Aparecido Nunes Pires, ex-secretário de controle interno, que vazou o documento. Dilma e os demais funcionários nem sequer tiveram seus nomes citados no texto.
        Os deputados da oposição também não pediram o indiciamento de nenhum ministro ou autoridade do governo por mau uso de cartões corporativos. A base aliada comemorou.

        Kassab contrata ex-auxiliares de Alckmin

        CATIA SEABRA

        Prefeito recruta Ricardo Penteado e Sérgio Kobayashi, que trabalharam na campanha do tucano em 2006

        Depois de abarcar PMDB, PR e PV, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), decidiu recrutar "soldados" tucanos para a montagem de comitê eleitoral. Disposto a debilitar a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB), ele está contratando tradicionais colaboradores do ex-governador para a campanha à reeleição.
        A última conquista foi o advogado Ricardo Penteado, que representou Alckmin na disputa presidencial de 2006. Advogado do PSDB desde a eleição de Mario Covas ao governo, Penteado já avisou a Alckmin que trabalhará para Kassab.
        Segundo tucanos, Alckmin e Penteado tinham fixado a sexta passada como prazo para a negociação. Mas Alckmin não formalizou nenhuma proposta.
        O PSDB declarou gastos de cerca de R$ 1,1 milhão com o escritório de Penteado em 2006.
        Coordenador de mobilização da campanha de Alckmin à Presidência, o empresário Sérgio Kobayashi desempenhará o mesmo papel para Kassab.
        Recém-saído do PSDB -para se dedicar à atividade empresarial- Kobayashi participou de um almoço, há cerca de dois meses, com Kassab e outros coordenadores de campanha.
        Foi nesse almoço que Kassab convidou o publicitário José Maria Braga para a coordenação de comunicação da campanha. Braga foi recomendado pelo jornalista Luiz Gonzalez.
        Responsável pela comunicação das três últimas campanhas de Alckmin, Gonzalez deverá se exilar nesta eleição. Sob o comando de seus filhos, a Lua Branca Propaganda, empresa que fundou, é contratada pela prefeitura. Com a ruptura da aliança, terá de se afastar.
        Hoje dono da MPI (Marketing, Planejamento e Informação), Braga trilha trajetória que se confunde com a de Gonzalez desde 1989, quando deixaram a TV para se dedicar a campanhas presidenciais.
        Em 2005, por exemplo, Braga assumiu a vice-presidência da Lua Branca. Em 2006, a convite de Gonzalez, foi o responsável pela campanha de Guilherme Afif (DEM) ao Senado.
        Secretário de Comunicação do governo Alckmin -cargo que deixou em meio ao escândalo do banco Nossa Caixa- o jornalista Roger Ferreira deverá atuar na comunicação da campanha de Kassab.
        Hoje, associado ao sociólogo Antônio Lavareda -um dos consultores do DEM-, o cientista político Antônio Prado, o "Paeco", é outro antigo colaborador de Alckmin que deverá engrossar o time de Kassab.
        Em 2006, cuidou da análise de pesquisas do comitê de Alckmin. Foi convidado por Kassab.
        No tucanato, o temor é de que a investida seja debitada na conta do governador José Serra (PSDB). Serra e Kassab participaram ontem do 26º evento oficial conjunto do ano. Na entrega de duas novas estações da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) na zona leste, Serra ensaiou uns passos ao som de uma banda.

         

         

         

        Reinaldo Azevedo

        AOS TRÊS MINISTROS DO SUPREMO QUE AINDA NÃO VOTARAM:

        células-tronco embrionárias, a demonização do catolicismo e a ética reduzida ao puro pragmatismo

        Ontem foi um bom dia para eu proclamar uma das minhas máximas: o verdadeiro negro do mundo é o macho, branco, pobre, heterossexual e... católico! Por que “verdadeiro negro”? Porque ainda é a forma mais fácil de ser oprimido — pelo menos até eu emplacar o meu movimento em defesa dos “indiodescendentes” brasileiros e expropriarmos a “aldeiola” — é a versão indígena do quilombola — de Ipanema. O católico está prestes a se tornar uma “minoria sociológica” no Brasil — embora seja uma esmagadora maioria numérica. Mas se nota, sobretudo em boa parte da imprensa, o óbvio: o que vem da Igreja Católica não serve e, necessariamente, oprime as liberdades. Um católico está no último degrau da cadeia alimentar ideológica — ou no primeiro, a depender de por onde se comece a olhá-la. O católico é sempre o primeiro indivíduo a virar ração dos predadores da cultura ocidental.

        Por que digo isso? O ministro Carlos Alberto Direito foi o primeiro a fazer restrições à pesquisa com células-tronco embrionárias, ao menos na forma como ela está expressa na Lei de Biossegurança. Escrevo este texto antes de os jornais entrarem na Internet. Não vou mudá-lo depois. Mas intuo que repetirão o que as TVs não cansaram de martelar ao longo do dia: “Carlos Alberto Direito, ligado à Igreja Católica...” Ele não é “ligado” a coisa nenhuma. É católico, assim como outros, ministros ou não, são protestantes, budistas, agnósticos, ateus. A lembrança, claramente, buscava, ainda que de modo contido, deslegitimar o seu juízo, fazendo-o caudatário de uma “organização”, tratada quase como entidade secreta. E, no entanto, se estava falando daquela que é um dos pilares — não porque quero, mas porque é — da civilização ocidental.

        Três outros ministros também fizeram restrições às pesquisas — Ricardo Lewandowski, Cezar Peluso e Eros Grau. No caso deles, como nunca tiveram a “ousadia” ou o “topete” de se declarar crentes — nessa coisa tão exótica e estranha chamada Igreja Católica!!! —, não se procuraram razões escusas ou sub-reptícias para o voto. A determinação explícita, óbvia, escancarada, de demonizar a Igreja Católica ainda é maior do que a vontade de aprovar as pesquisas com células-tronco embrionárias. E, no entanto, eu lhes digo: ser católico não é ilegal, não é imoral e, creio, também não engorda: a gula é pecado.

        A inveja que tenho dos sábios
        Tenho algumas invejas nada agressivas, coisas leves mesmo: de quem sabe dirigir automóveis; de quem entende o jogo de beisebol; de quem anda em montanha russa... Sei que nunca farei nada disso. Só uma inveja realmente me corrói: a dos que estão certos de que a vida humana não começa na concepção. Invejo também a facilidade com que conseguem renunciar à lógica sem que se sintam flagrados numa falha intelectual. Explico-me.

        Plante uma semente de laranja no útero de uma mulher, e, creio, o máximo que vai nascer ali é uma infecção. “Aquilo” — por ora, chamemos assim o embrião — que lá é depositado deve guardar as informações da espécie, ou não daria origem a um semelhante. “Aquilo”, para que frutifique (não emprego o verbo por acaso), precisa estar vivo. E ISSO NOS LEMBRA QUE AQUILO ADMITE PELO MENOS DOIS ESTADOS: VIVO E MORTO. Ninguém me acuse de estar dando “personalidade” àquilo, de estar fazendo vãs prosopopéias: até um pé de alface pode estar vivo ou morto, não é, senhores ministros? Acho que posso dar àquilo a nobreza que se dispensa a um pé de alface, não? Mas sigamos.

        Se aquilo guarda todas as informações dos semelhantes de onde deriva, se aquilo se chama “embrião”, e se ele é um embrião humano, é preciso admitir que se está reivindicando a licença de, bem..., como dizer?, matar embriões humanos. Acho que não é, assim, tão chocante empregar para “aquilo” um verbo que cabe até às ervas daninhas: nós matamos ervas daninhas, afinal. Matamos até baratas. Logo, embriões também podem ser mortos — ainda que, à feição do ministro Ayres Brito, possamos preferir chamar aquilo de... sei lá, “aquilo”...

        Essa tal vida humana
        Acredito que a vida começa na concepção — e direi, adiante, por que isso, à diferença do que parece, nos protegeu ao longo da história e nos protege —, e se trata de uma posição bastante clara, de fácil compreensão. Sim, também é essa a opinião da Igreja Católica. Os cientistas e leigos favoráveis à pesquisa com embriões, obviamente, não podem concordar comigo ou com a Igreja — ou estariam admitindo a eliminação de vidas humanas para salvar... vidas humanas. Daí, então, o debate entre eles: “mas quando começa mesmo?” Bem, seja lá qual for o marco inicial que definam, indago: e que nome dar “àquilo” que vive — sim, é evidente que está vivo, ou não serve pra nada — entre a concepção e o que admitem ser o início da vida? Pré-vida? Semivida? Mais-ou-menos-vida? Quase-vida?

        Se não têm uma resposta para a questão “quando começa a vida?’, preferem, igualmente, não dar nome nenhum “àquilo”. Aquilo é aquilo. E toda a argumentação se desloca, então, do que é uma questão ética para o universo do puro pragmatismo: “os embriões serão descartados mesmo; seu destino é o lixo”; “os embriões são considerados inviáveis depois de três anos” (há vários relatos demonstrando que não é assim): “os embriões não estão sendo produzidos para pesquisa; são a sobra do que é obtido para reprodução assistida”; “os casais não querem saber mais dos embriões”.

        Observem, então, que o que requer uma definição ética se resolve apenas com respostas circunstanciais. Os quatro votos até agora favoráveis às pesquisas e contrários à ação de inconstitucionalidade fugiram da questão de princípio; dedicaram-se apenas às circunstâncias — à diferença dos quatro ministros que lhes fazem restrições: a estes, a questão de princípio interessou. Todo esse pragmatismo nos faz assim tanto bem?

        De volta ao catolicismo
        Volto à questão do catolicismo do ministro Direito, lembrado como uma “acusação”. Aquela periodização da história que opõe a Igreja Católica das trevas medievais às luzes que vieram antes (o helenismo) e que teriam vindo depois (o Iluminismo propriamente) é só uma tolice juvenil, que os professores de história insistem ainda hoje em inculcar nos estudantes. Boa parte das reservas à Igreja vem da suposição de que a religião tornou a vida da humanidade mais difícil; de que vida boa mesmo tinham os gregos e seu “antropocentrismo”, por exemplo — não é assim?

        Na edição nº 1988 de VEJA, de 22 de dezembro de 2006, escrevi um longo texto intitulado “Somos todos cristãos”. A íntegra está
        aqui. Reproduzo um trecho:

        "O sociólogo americano Rodney Stark sustenta que uma das raízes da expansão cristã é a caridade – elevada por Paulo à condição de primeira virtude. E a outra são as mulheres. Em The Rise of Christianity: a Sociologist Reconsiders History, Stark, professor de sociologia e religião comparada da Universidade de Washington, lembra que, por volta do ano 200, havia em Roma 131 homens para cada 100 mulheres e 140 para cada 100 na Itália, Ásia Menor e África. O infanticídio de meninas – porque meninas – e de meninos com deficiências era "moralmente aceitável e praticado em todas as classes". Cristo e o cristianismo santificaram o corpo, fizeram-no bendito, porque morada da alma, cuja imortalidade já havia sido declarada pelos gregos. Cristo inventou o ser humano intransitivo, que não depende de nenhuma condição ou qualidade para integrar a irmandade universal. As mulheres, por razões até muito práticas, gostaram.

        No casamento cristão, que é indissolúvel, as obrigações do marido, observa Stark, não são menores do que as das mulheres. A unidade da família é garantida com a proibição do divórcio, do incesto, da infidelidade conjugal, da poligamia e do aborto, a principal causa, então, da morte de mulheres em idade fértil. A pauta do feminismo radical se volta hoje contra as interdições cristãs que ajudaram a formar a família, a propagar a fé e a proteger as mulheres da morte e da sujeição.”


        É impressionante que a média do pensamento que se quer crítico, que defende com tanta energia que a religião fique longe dos debates sobre a ciência, pense na Igreja Católica apenas como fonte de restrições e proibições. A instituição cometeu alguns desatinos ao longo da história (será que a ciência nunca cometeu nenhum?), mas o fato inegável é que a inviolabilidade da vida está entre as causas originais de seu fortalecimento, de sua expansão e de seu enraizamento nas camadas populares — especialmente, sim, as mais pobres. Querer transformar esse legado em nada mais do que obscurantismo é, vejam só, uma forma de obscurantismo. E uma burrice também, decorrente da falta de informação.

        Concluo lembrando que outros embates virão pela frente — como o aborto de anencéfalos e, fatalmente, o aborto ele-mesmo. Considera-se a legalização dessas práticas um ato de liberdade, uma “modernização” da legislação. Temo, sim, pela violação de um princípio. Chegará o tempo em que definiremos, muito pragmaticamente, quais vidas merecem ser vividas — já que nos damos o direito de definir o que é ou não vida, ainda que se resista a dar um nome àquela “não-vida” que, se viva não fosse, de nada serviria?

        Aos ministros Celso de Mello, Marco Aurélio de Mello e Gilmar Mendes, uma modestíssima advertência: cuidado com o que há de trevas no pensamento dos monopolistas das luzes.

         

         

         

        Dora Kramer

        De braço dado com o acusado

        Junto com o processo por quebra de decoro parlamentar contra o deputado Paulo Pereira da Silva, começará no Congresso o espetáculo da indignação inerente a essas ocasiões. Contra as peripécias do colega, muitas já registradas pela Polícia Federal, várias vozes se levantarão.

        Convém, porém, que o colegiado não se esqueça de que não faz muito, cerca de dois meses, cedeu a poderoso lobby - Paulo Pereira à frente - contra o fim do imposto sindical.

        Manteve o trabalhador, sindicalizado ou não, obrigado a pagar um dia de salário por ano e garantiu receita de R$ 1,3 bilhão aos sindicatos. Parte do dinheiro, R$ 100 milhões, vai para as centrais sindicais, recentemente regulamentadas.

        Só isso permitiu ao presidente da República o veto que liberou os sindicatos da fiscalização do Tribunal de Contas da União. Uma ação conjugada: de um lado asseguram-se os recursos, de outro a gastança é liberada a título de preservação da autonomia sindical.

        Na esperta corporação chamada Parlamento, certamente não há excelência que ignore a relação entre o caixa dessas entidades e a (boa) vida financeira de vários de seus dirigentes.

        Quem por descuido desconheça, recomenda-se uma entrevista do deputado Paulo Pereira, ainda aos primeiros acordes do escândalo em curso.

        Na televisão, ao repudiar a suspeita de ter recebido propinas no valor de R$ 325 mil do “esquema” BNDES, o deputado disse o seguinte: “Alguém, como eu, que preside entidade com o número de filiados da Força Sindical, não precisa de dinheiro, muito menos de 300 mil reais.”

        Nada mais lhe foi perguntado; ele tampouco entrou em detalhes sobre a ligação entre a quantidade de associados da Força e a qualidade de suas finanças. Ficou assim uma coisa meio pesada no ar.

        Nesta altura dos relatos dos fatos investigados pela PF já deu tempo de a Câmara ligar a conduta do dirigente à dinheirama adicional por ela assegurada aos cofres das entidades.

        No curso do processo, muitos condenarão os atos de Paulo Pereira, mas não poderão dizer que a cigana enganou a corporação. Inclusive porque a comemoração foi barulhenta, farta e dizia respeito à entrada de dinheiro em caixa.

        Primeiro, foram ao Palácio do Planalto para saudar o veto presidencial à exigência de fiscalização. Na semana seguinte, um coquetel reuniu parlamentares e sindicalistas, num total de 1.500 pessoas - Paulo Pereira à frente - no Salão Negro do Congresso.

        A festa teve champanhe, uísque, canapés, sushis fresquinhos preparados na hora e distribuição de diplomas de deputado ou senador “amigo” dos sindicalistas.

        Estava lá todo o arco da representação: os presidentes da Câmara e do Senado, parlamentares de variados matizes e o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, presidente licenciado do PDT, partido de Paulo Pereira, braço parlamentar da Força.

        O episódio não mitiga o poder da Câmara de investigar e eventualmente condenar Paulo Pereira da Silva. Mas serve para recordar a suas excelências prestes a iniciar mais uma catarse: neste caso, andaram recentemente de braços dados com o acusado, que é apenas um dos personagens desse obscuro mundo das finanças sindicais ao qual o Parlamento acaba dar generosa contribuição.

        Papo-cabeça

        Autor do pedido anterior de vista, o ministro Carlos Alberto Direito socorreu-se na filosofia e lá ficou - ao abrigo do estigma da decisão de orientação religiosa - na maior parte de seu voto híbrido em tese, mas na prática contrário ao uso de células-tronco embrionárias em pesquisas científicas.

        Em sua longa e fundamentada argumentação, Carlos Alberto Direito passeou por vários campos, evitando, porém, o da fé, para concluir o seguinte: o ser humano só existe porque tudo o que nele existe está contido, potencialmente, no embrião que, na condição de representação essencial da existência, deve ser protegido pelo princípio constitucional da intocabilidade da vida.

        Ao fim da apresentação o ministro relator, Carlos Ayres Britto, resumiu as três horas de leitura em duas palavras, chamando o voto de Direito de “construção cerebrina”.

        Linha justa

        O recado importante mesmo, o presidente Luiz Inácio da Silva deu ao final da cerimônia de posse do ministro Carlos Minc: não há política de ministro, há a política do presidente.

        Junte-se a mensagem à brincadeira sobre possível parentesco do novo ministro com o homem da cobra - “Em uma semana falou mais que a Marina em cinco anos” - e Minc deve entender o seguinte: está liberado para pensar e falar, mas, na hora de agir, vale a regra de cima.

        A rigor, Lula não teria necessidade de lembrar de quem é a prerrogativa de delinear políticas. Se no caso do meio ambiente lembrou, é porque achou necessário.

        'Maio de 68' o que virou?

        Paulo Ghiraldelli Jr.

        'Maio de 68' não representa mais nada de importante? Depois de 40 anos das revoltas da juventude no mundo todo - por motivos variados em cada país -, o movimento que alguns chamaram de as 'barricadas do desejo' é visto como tendo fracassado e, ao mesmo tempo, mudado o mundo. Há alguma utilidade na sua lembrança senão a de criar algumas mesas-redondas em universidades?

        Durante esses 40 anos, a cada ano com final 8 fizemos algum tipo de retrospecto do que ocorreu no final da década de 60. Somente agora, todavia, é que realmente encerramos os dois vagalhões iniciados ao final daqueles tempos, pela esquerda e pela direita. E talvez sejamos capazes, finalmente, de dizer algo menos tolo do que até então dissemos sobre aquela época.

        Falamos em dois vagalhões. Comecemos pelo da esquerda.

        Um movimento que se iniciou naqueles anos foi o de contestação do comunismo, em especial o que havia no mundo soviético e satélites. Vários que incentivaram os movimentos de 'Maio de 68', ao menos no Ocidente, imaginavam ter nos modelos da China e de Cuba alternativas para o comunismo. Não era mais possível engolir o modelo soviético. Afinal, ali do ladinho de franceses - tão afoitos na época - estavam os jovens checos queimando seus corpos, em terrível auto-imolação contra a ditadura comunista. Passado 40 anos, o modelo alternativo mostrou-se tão caduco quanto o original soviético, e já está praticamente extinto. Pena que Cuba e China comecem a adotar o capitalismo sem pensar, ainda, em adotar a democracia.

        Uma parte dos frustrados com o 'Maio de 68' optou pela 'luta armada'. Na Europa, isso significou simplesmente o 'terrorismo' - que causou a morte de vários democratas autênticos. Foram assassinados barbaramente - Aldo Moro foi o símbolo maior dessa barbárie. Isso trouxe para a juventude que fez essa opção uma vida pouco aconselhável. Outra parte, menos autoritária, foi sendo pouco a pouco absorvida pela social-democracia tradicional ou, em seguida, pelo eurocomunismo. Nos EUA, alguns desistiram da política, esperaram as coisas esfriar e entraram para a 'política cultural', as políticas de esquerda dentro de universidades. Jocosamente, alguns disseram a tais pessoas: 'O lema de vocês, agora, é 'tomar o poder no Departamento de Letras, já que não se pode tomar a Casa Branca'.'

        Passemos para o vagalhão da direita.

        Logo em seguida veio o vagalhão conservador. Ronald Reagan e Margaret Thatcher fizeram história. Aliás, fizeram história por uma razão que, muitas vezes, os que chamam todos de 'neoliberais', sem saber o que significa a palavra, desconhecem. O fato é que Reagan e Thatcher rearranjaram a economia de seus países e deram alternativas sociais que o Partido Democrata e o Partido Trabalhista, respectivamente nos EUA e na Inglaterra, não sabiam dar na época. Quando os democratas e os trabalhistas puderam voltar ao poder, governaram países já fora da crise. É claro que pegaram países onde o Welfare State (Estado de Bem-Estar Social) havia encolhido, mas tiveram de agradecer o rearranjo econômico dado pelos conservadores.

        Passados 40 anos, estamos botando a cabeça para fora do 'Maio de 68'. Temos claro que havia bem menos democratas e libertários nos protestos do que contamos, depois, aos filhos e aos netos. E o mais engraçado de tudo isso é que, já no final da década de 1980, quando alguns entre nós ainda estavam comemorando o 'Maio de 68', e ainda omitindo o fato de que os ideais desse movimento não eram todos em favor da liberdade como pareciam, veio a inesperada queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989. Então, logo em seguida eclodiram as revoluções do Leste Europeu, que resultaram no estupendo fim da União Soviética (URSS). O comunismo estava acabado. A revolução armada saiu pela culatra: veio do lado oposto e em nome da liberdade individual - neste caso, sim, os melhores dias do 'Maio de 68' vingaram.

        E 40 anos depois, a menor flor do 'Maio de 68', a democracia, tornou-se efetivamente a única bandeira digna de defesa. Tal qual o fim da escravidão, ou a condenação do racismo, ou a defesa dos direitos iguais para mulheres, ou a proibição do trabalho infantil, a democracia está cada vez mais se tornando um cartão de visita. Ou praticamos alguma democracia e, então, nos dizemos civilizados, ou não podemos abrir muito a boca, pois somos vistos como bárbaros, a despeito do nível tecnológico que nossas sociedades possam apresentar. Essa flor menor do 'Maio de 68' cresceu e acabou se tornando mais forte do que as outras que estavam ali juntas, naquele tempo.

        É claro que iríamos escutar, à direita e à esquerda, nas mesas universitárias de maio, agora, em 2008, alguns falando de Cuba ou da China como lugares 'de esquerda' e que 'vencerão o imperialismo'. Essas palavras de ordem do porão, que não dizem nada de concreto, sempre sairão da boca de algum maluquinho. Também veríamos algum tolo querendo mentir para os mais jovens, Marcuse e outros frankfurtianos na vala comum de heróis socialistas lambuzados por tolices de Chomsky, em vez aproveitar a parte libertária dos escritos dos grandes filósofos que movimentaram 68 - aqueles conteúdos mais condizentes com a ampliação da democracia. Mas, agora, esse pessoal já fala para bem menos pessoas. As mesas são poucas. Talvez seja até melhor assim.

        O 'é proibido proibir' de 'Maio de 68' foi, de fato, derrotado. Mas já estava derrotado ali mesmo, entre seus pares. Foi preciso que todas as grandes tendências autoritárias que estavam contidas naquelas jornadas explicitassem os seus projetos nos anos 70, 80 e 90 para que pudéssemos, agora, começar a perceber que só o 'proibido proibir' tinha algum sentido. E ele apontava para o regime menos charmoso de todos, a democracia.

        Serra nega entrada da Cesp na venda da Nossa Caixa

        Renée Pereria, Elizabeth Lopes e Fernando Nakagawa

        Mercado, porém, volta a acreditar em privatização e ação da estatal sobe 8,8%

        O governador José Serra negou ontem que a Companhia Energética de São Paulo (Cesp) tenha entrado na negociação de venda da Nossa Caixa para o Banco do Brasil, conforme reportagem publicada pelo Estado. Segundo ele, trata-se de uma especulação. “Nunca tratei desse assunto com o governo federal. A Cesp é uma coisa e a Nossa Caixa é outra”, destacou o governador, após inaugurar uma estação de trem na zona leste da capital.

        Apesar da declaração, o mercado manteve o otimismo sobre a possível retomada da privatização da estatal antes do que muitos esperavam. As ações da empresa chegaram a subir mais de 10% durante o pregão de ontem, mas recuaram um pouco e fecharam em alta de 8,77%, cotadas por R$ 31,20. Entre analistas e especialistas do setor elétrico, a possibilidade de uma troca de favores entre o governo federal e estadual não é nada absurda.

        Segundo eles, o anúncio sobre a negociação entre os dois bancos foi feito uma semana depois de o governo de São Paulo ter enviado requerimentos à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e ao Ministério de Minas e Energia sobre o direito de prorrogação da concessão de Ilha Solteira e Jupiá, que vencem em 2015. Foi por causa da incerteza sobre a renovação da concessão dessas usinas que o leilão de privatização da empresa fracassou em março. O fato é que um novo leilão da estatal, com as pendências resolvidas, terá interessados de peso, como já avisou a Suez, empresa integrante do consórcio que venceu a licitação da Hidrelétrica de Jirau.

        AVALIAÇÃO PRECIPITADA

        O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, não entrou na discussão sobre Cesp, mas afirmou que é um pouco precipitado avaliar a eventual incorporação da Nossa Caixa pelo BB antes da apresentação de uma proposta formal entre as duas instituições.

        Em audiência na Comissão Mista de Orçamento do Congresso, ele afirmou que não faria uma avaliação teórica sobre o caso. “Não sabemos se o negócio vai ser feito com o BB, em leilão ou mesmo se será feito.”

        Questionado pelos parlamentares sobre uma eventual concentração do sistema bancário brasileiro, ele apresentou dados internacionais para mostrar que o índice de concentração, do ponto de vista dos ativos totais, é considerado baixo no Brasil. Com relação ao crédito e depósitos totais, a concentração é considerada média, destacou Meirelles.

        Ao apresentar os dados, o presidente do BC classificou a situação brasileira como razoável. Assinalou, porém, que a autoridade monetária deve trabalhar para aumentar a concorrência entre os bancos no mercado interno. “Há um longo caminho. O Brasil tem de progredir muito neste tema”, frisou.

         

         

         

        Josias de Souza - Nos bastidores do poder

        Senado aprova a elevação da tributação dos bancos

        É a “MP do pode tudo”, apelidou o senador Garibaldi Alves

        Editada para compensar CPMF, a medida renderá R$ 2 bi

        Projeto original, de 19 artigos, saiu do Congresso com 42

        Novidades afetam de produtores de álcool a importadores

        Uma delas pode elevar preços de cervejas e refrigerantes

         

          Leopoldo Silva/Ag.Senado
        Num instante em que o governo trama a recriação da CPMF, o Senado aprovou uma das medidas provisórias baixadas por Lula para recuperar parte da receita perdida com a extinção do imposto do cheque.

         

        Deu-se na noite desta quarta-feira (28). A MP já havia sido aprovada na Câmara, em 29 de abril. Os senadores a ratificaram. 

         

        A supremacia governista foi menos elástica do que supunha o Planalto: 39 votos a favor, 20 contra e uma abstenção.

         

        A medida provisória que Lula assinara em janeiro (número 413/08), foi convertida num projeto (14/08). Em parlamentês, a língua do Parlamento: projeto de lei de conversão.

         

        Na nova versão, os 19 artigos do texto original foram esticados para 42. Manteve-se o coração da medida provisória: a CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) cobrada de instituições financeiras saltou de 9% para 15%.

         

        Excluiu-se da encrenca a Bolsa de Valores. A despeito disso, a elevação do tributo deve resultar numa coleta adicional de R$ 2 bilhões em 2008. É essa a estimativa do ministério da Fazenda.

         

        Somando-se a esse aumento da CSLL a elevação do IOF, outra resposta do governo à extinção da CPMF, a perspectiva de coleta extra de tributos sobe para R$ 10 bilhões.

         

        De todas as novidades injetadas pelos congressistas na medida provisória de Lula a mais danosa é uma que nasceu de um velho lobby. O lobby dos fabricantes de refrigerantes baratos, as chamadas tubaínas.

         

        A tributação de refrigerantes, de águas minerais e de cervejas, antes calculada pelo volume dos produtos, passa a levar em conta também o preço cobrado dos consumidores.

         

        Os fabricantes de tubaínas, que levam às prateleiras vasilhames com preços mais baixos, serão premiados com tributação menor. Vale para o PIS, a Cofins e o IPI.

         

        Grandes fabricantes de refrigerantes e cervejas, em contrapartida, devem amargar um aumento de carga tributária.

         

        Algo que, se repassado para os preços, chegará ao bolso do consumidor. Há mais coisa polêmica na proposta que o Senado aprovou.

         

        O ministério da Fazenda aproveitara a edição da medida provisória para alterar a forma de tributação do II (Imposto de Importação) de produtos como têxteis, calçados, móveis, brinquedos e bebidas alcoólicas.

         

        Antes, esses produtos eram tributados por meio de percentuais que incidiam sobre o preço. Com a mudança, o tributo virou um valor fixo, em reais, calculado sobre a quantidade.

         

        Submetido a uma chiadeira ensurdecedora, o relator da medida provisória na Câmara, deputado Odair Cunha (PT-MG) optou por uma saída que deixa os importadores inteiramente nas mãos do governo.

         

        Delegou à Receita Federal a tarefa de arbitrar quais os setores que deverão ser submetidos à nova modalidade de tributação. César Borges (PR-BA), relator da matéria no Senado, manteve o texto da Câmara.

         

        Outra novidade refere-se ao pagamento de PIS e Cofins pelo setor sucroalcooleiro. Antes da MP de Lula, funcionava assim: as usinas pagavam 25%. Os distribuidores, 75%.

         

        Depois da MP, a tributação passou a incidir apenas sobre as usinas. Mais barulho. A Câmara optou, então, pelo meio termo: 40% para as usinas; 60% para os distribuidores. O Senado manteve.

         

        De resto, aprovaram-se, entre outras coisas:

         

        1. Prorrogação, até 2012, da isenção de PIS e Cofins para a importação de papel de imprensa;

         

        2. Isenção de PIS e Cofins na compra de veículos destinados ao transporte escolar rural;

         

        3. Benefícios tributários variados para os setores de turismo e infra-estrutura.

         

        Na prática, a medida provisória de Lula, adensada pelas modificações produzidas no Legislativo, virou um autêntico pacote tributário. Da forma como foi aprovado, o projeto modificou 15 leis.

         

        PSDB e DEM protestaram. O presidente do Senado, Garibaldi Alves, ironizou: “Essa é a MP do pode tudo.”

         

        O relator César Borges se queixou: “Tivemos pouco tempo para analisar a matéria.” O proto-governista Wellington Salgado (PMDB-MG) reconheceu: “Vou votar a favor porque o meu líder pediu. Mas será um voto duvidoso.”

         

        Assim como o senador Wellington, muitos dos presentes votaram sem saber ao certo o que estava sendo aprovado. Mas, a despeito dos protestos, da ironia e da admissão de alheamento, a coisa passou. Nesta quinta-feira (29), segue para a sanção de Lula.


         

         

         

        Lucia Hippolito

        Lucia Hippolito

        Ele perdeu a força?

        A Corregedoria da Câmara enviou o caso do deputado Paulo Pereira da Silva ao Conselho de Ética.

        O PSOL entrou com representação no Conselho de Ética contra Paulinho (e no Conselho de Ética do Senado contra Marconi Perillo, por abuso de poder econômico e uso de caixa dois na campanha para senador em 2006).

        O procurador-geral da República pediu ao Supremo Tribunal Federal que abra inquérito para investigar o envolvimento do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP) em grossa roubalheira no BNDES.

        Não há dúvida de que o deputado Paulo Pereira da Silva é a bola da vez. Se vai ser cassado, é outra história.

        Desde o primeiro momento, o deputado vem se escondendo atrás de seu cargo de presidente da Força Sindical e alegando que é vítima de perseguição política, por causa de seu estrondoso sucesso defendendo a causa dos trabalhadores na Câmara.

        E quem estaria perseguindo o nobre deputado? Ora, as elites conservadoras, quem mais?

        Menos, deputado, menos.

        Como deputado, Paulo Pereira da Silva é até bem apagado. Só não pertence inteiramente ao baixo clero porque preside a Força Sindical. Ele é muito mais um sindicalista na Câmara do que um deputado de origem sindical – como é o deputado Vicentinho, por exemplo. Existe diferença.

        Como sindicalista, Paulo Pereira da Silva sempre manteve as melhores e mais rendosas relações com as tais “elites conservadoras”. Afinal, a Força Sindical nasceu de um pedido do então presidente Fernando Collor aos empresários: que financiassem uma nova central sindical para se contrapor à CUT.

        Quem sustentou financeiramente a Força Sindical desde o nascedouro foi a contribuição mensal do empresariado brasileiro. Portanto, que elites conservadoras são essas, que querem o mal do deputado Paulinho?!

        Na Câmara, o Conselho de Ética tem novo presidente, eleito depois da morte do deputado Ricardo Izar (PTB-SP). É o gaúcho Sérgio Moraes, caso típico de raposa tomando conta do galinheiro. O nobre parlamentar tem três processos nas costas, do tempo em que era prefeito.

        Se o Conselho de Ética decidir enviar ao plenário o pedido de cassação do deputado Paulo Pereira da Silva, teremos um caso clássico de feitiço se virando contra o feiticeiro.

        Paulo Pereira da Silva não tem amigos na Câmara. Muito ao contrário. Desde que tomou posse, só fez críticas à Câmara. Não se integrou, não se interessou pelos trabalhos parlamentares. Continuou um sindicalista a serviço da Força Sindical.

        Durante a votação do imposto sindical, ameaçou usar a Força Sindical para distribuir fotos dos deputados que votaram pela derrubada do imposto: 215 na primeira votação e 171 na segunda.

        Apanhado em grampo telefônico pela Polícia Federal, ameaçou “mexer os pauzinhos” no Congresso para convocar o ministro da Justiça para explicar as ações da PF.

        Por isso mesmo, se o plenário da Câmara tiver que julgar o pedido de cassação, é possível que, protegidos pelo voto secreto, os deputados decidam dar o troco a Paulinho.

        Coisa que talvez não fizessem com voto aberto, por medo da truculência da Força Sindical.

        O deputado Paulo Pereira da Silva tem muito o que aprender sobre os usos e costumes do Congresso Nacional. Talvez não dê tempo, porque é cassação ou renúncia.

         

         

         

        Tribuna da imprensa online

        Carlos Chagas

        Quem não entrega BH, entregará Brasília?

        BRASÍLIA - Amanhã o Diretório Nacional do PT decidirá, em definitivo, aquilo que a Executiva Nacional já antecipou segunda-feira: o partido não aceita o acordo celebrado pela seção de Minas Gerais, abrindo mão de lançar um candidato próprio à Prefeitura de Belo Horizonte e aliando-se ao PSDB e ao PSB, de onde sairia o candidato, Márcio Lacerda.

        Caso o Diretório Nacional confirme a decisão, estará caracterizado um curto-circuito nas relações entre o governador Aécio Neves e o presidente Lula. Porque a ninguém será dado duvidar de que a cúpula mais alta do PT se pronunciará à revelia de seu chefe maior. É claro que, de público, o presidente lava as mãos e afirma tratar-se de um problema do partido. Em particular, porém, as coisas se passam de modo diferente.

        Ainda mais porque, pelo singular posicionamento da Executiva Nacional, dezenas de alianças estão autorizadas com outros partidos, inclusive os tucanos, mas desde que o candidato saia dos quadros do PT. O veto é egoísta, vale para impedir os companheiros de ficarem a reboque de outros candidatos, mas inexiste no reverso da medalha. Se for para um petista ser apoiado por outros, tudo bem.

        Os mineiros dedicam-se à missão quase impossível de tentar virar o jogo no Diretório Nacional, mas, pelo jeito, vão fracassar. O episódio dá bem a medida do que acontecerá na sucessão de 2010. Se não admitem perder a Prefeitura de Belo Horizonte para os adversários, estariam dispostos a entregar a presidência da República, abrindo mão do poder nacional que exercem?

        É por aí que surpresas, reviravoltas institucionais e golpes brancos poderão acontecer. No ano que vem, quando ficar claro que nenhum candidato do PT conseguirá eleger-se, os companheiros apelarão para todo o tipo de artifícios. A começar pela realização de um plebiscito e, depois, a natural reforma da Constituição para permitir ao presidente Lula disputar o terceiro mandato. Quem viver, verá.

        Exércitos brancaleone em luta

        Nesse estranho confronto entre os ministros Mangabeira Unger e Carlos Minc, verdadeira guerra entre dois exércitos brancaleone, registre-se o que aconteceu terça-feira. Antes de tomar posse, o novo ministro do Meio Ambiente anunciou, sem haver participado antes ao presidente Lula, que logo os dois estarão de botas e luvas, embrenhando-se em rios poluídos para catar lixo e, em especial, pneus velhos. Uma temeridade, imaginar o chefe do governo disposto a tal aventura.

        Para não ficar atrás, Mangabeira Unger deu entrevista ressaltando que "a Amazônia não é só assunto de ambientalistas", completando com outra pérola: "Eu me julgo ignorante em assuntos amazônicos, mas meu objetivo não é produzir efeitos midiáticos".

        Fosse outra a concepção do presidente a respeito de como governar o País e os dois ministros estariam demitidos antes mesmo da posse de Minc. Porque essa briga de meninos mal-educados só faz desmoralizar o governo. Como dizem que Lula cultiva dissenções entre seus auxiliares, a previsão é de que esse festival de baixarias vá continuar, pelo menos até que a farsa se transforme em drama.

        Paulinho na mira

        Não deixa dúvidas a decisão do corregedor da Câmara, Inocêncio Oliveira, de pedir à direção da casa a abertura de processo contra o deputado Paulo Pereira da Silva por quebra do decoro parlamentar, junto ao Conselho de Ética. Aceitando a representação, os integrantes da Mesa da Câmara tornarão proibida a renúncia do deputado, para escapar da cassação. E esta, ao que tudo indica, é inexorável, tamanho o volume de evidências colhidas contra o "Paulinho da Força Sindical" pela Polícia Federal.

        O episódio envolve conteúdo mais explosivo do que flagrar um deputado em práticas pouco éticas. Revela estar em frangalhos a outrora esperança sindicalista que dominou o país há algum tempo. Com a eleição do presidente Lula as centrais sindicais encolheram, perdendo seus objetivos de progresso social. Transformaram-se em núcleos de usufruto do poder, rótulo que não se aplica apenas à Força Sindical. Na CUT, se o açodamento não vai a tanto, fica perto.

        O que dizer da criação de montes de ONGs fajutas, saídas como filhotes do seio de uma organização que chegou a entusiasmar o Brasil, mas há anos se encontra inerte e inodora? Qual a grande causa, a grande mobilização que essas entidades têm promovido? No máximo, resumem-se a espetáculos de música popular oferecida a seus associados no Dia do Trabalho.

        Fecharam-se feito caramujo diante do governo dos trabalhadores, talvez imaginando sacrilégio se continuassem a lutar pela melhoria das condições de vida dos assalariados. Estariam imaginando que apenas os metalúrgicos paulistas são trabalhadores?

        Exemplo peruano

        De passagem por Brasília para acompanhar o presidente Alan Garcia, o embaixador do Brasil no Peru, Jorge Taunay, lembra como aquele país livrou-se dos efeitos da queda do dólar em sua economia. Logo que a moeda americana começou a dar sinais de enfraquecimento, o presidente do Banco Central peruano baixou determinações para coibir a ação do capital-borboleta, nome lá adotado para caracterizar seu sucedâneo no Brasil, o capital-motel, aquele que chega de tarde, passa a noite e vai embora de manhã, depois de estuprar um pouco mais nossa economia.

        No Peru, foi criada taxa de 60 a 120% para os especuladores que pretendessem apenas lucrar com operações relâmpagos. Capital estrangeiro, lá, só entra se for para investir em atividades produtivas, obrigado a permanecer longo período. Lucrando, é claro, mas colaborando para o desenvolvimento do País. Foi adotar essas medidas e o dólar recuperar-se até um patamar razoável, deixando de prejudicar as exportações. E nenhuma crise atropelou a economia local.

        Ainda a respeito do Peru, nosso embaixador ressalta ser visão do governo Alan Garcia que o Brasil é seu melhor parceiro. Continuam grandes nossos investimentos feitos lá. Entendem os peruanos que podem confiar em nós.

        Em ritmo de Olimpíada

        Com a chegada do ministro Gilmar Mendes à sua presidência, o Supremo Tribunal Federal adquiriu ritmo invulgar de trabalho. Depois da decisão a respeito das células-tronco, espera-se que ainda neste primeiro semestre a mais alta corte nacional de justiça resolva a questão da reserva indígena Raposa-Serra do Sol. Como sempre, fica impossível prever sentenças judiciais, mas importa que elas não demorem

        86 anos após execução homem é considerado inocente
        Romildo fotografando Lula/platéia

         

         

         

        Valor da calça: 67 milhões de dólares

        Pouco tempo depois de assumir o cargo de juiz administrativo em Washington (Estados Unidos), em maio de 2005, Roy L. Pearson Jr. deixou algumas roupas sujas numa pequena lavanderia da vizinhança que costumava freqüentar, de propriedade de uma família de imigrantes sul-coreanos.

        Ao receber as roupas lavadas, percebeu que uma de suas calças havia se extraviado. Dias depois, a lavanderia o chamou para entregar a peça faltante, mas Pearson a recusou, alegando que não era a mesma calça, pois a dele não teria bainha.

        Pearson então resolveu processar a empresa, alegando que ela teria descumprido a obrigação de “satisfação garantida”, assegurada por uma placa afixada na loja.

        Cobrou uma indenização de US$ 67.292.000,00. Isso mesmo: mais de 67 milhões de dólares por uma calça, que nada tinha de especial!

        O valor inicial tomou por base uma interpretação da lei local de defesa do consumidor, segundo a qual a empresa teria que pagar uma multa diária de US$ 1.500,00 por cada violação. Então, multiplicou essa quantia por 12 violações, por 1.200 dias e pelos 3 sócios da empresa, encontrando US$ 64.800.000,00.

        Em seguida, acrescentou uma indenização por danos emocionais (”sofrimento mental, inconveniência e desconforto”), que também multiplicou pelos 3 réus, até chegar ao valor de US$ 1.500.000,00.

        Somou ainda 1.300 horas de honorários advocatícios, que atingiram o montante de US$ 542.500,00. Detalhe: o advogado era ele mesmo.
         
        O total requerido a título de indenizações punitivas chegou a US$ 400.000,00.
         
        Pearson ainda requereu uma quantia equivalente a uma diária de aluguel de carro por semana, durante 10 anos, a fim de que pudesse se deslocar até outra lavanderia. Segundo o advogado da lavanderia, “Pearson acha que tem direito a uma lavanderia a menos de quatro quarteirões de sua casa”. O valor encontrado foi multiplicado pelos 3 sócios, atingindo US$ 45.000,00.
         
        Por fim, o autor da ação requereu o valor equivalente a uma calça nova, estimado no montante nada convencional de US$ 1.450,00. Novamente, multiplicou esse valor pelo total de 3 sócios, e encontrou US$ 4.350,00. Mas esse valor acabou sendo desconsiderado para a indenização requerida. É que, no fim das contas, o autor adotou outro critério ligeiramente mais favorável para chegar a um valor mais alto. Afinal, por que brigar por causa de uma calça? Arbitrou, então, o valor de US$ 4.500,00 como indenização compensatória pela fraude que teria sofrido.

        O valor pleiteado foi depois reduzido para “apenas” US$ 54 milhões.

        Perante o júri, em junho de 2007, Pearson derramou-se em lágrimas ao descrever a profunda tristeza sofrida pela perda da calça. A lavanderia alegou que Pearson estaria usando a ação para se recuperar financeiramente de um processo de divórcio.

        Pearson - de calças, no primeiro plano - faz suas alegações perante a juíza e os donos da lavanderia.

        Pearson de calças, no primeiro plano  faz suas alegações perante a juíza e os donos da lavanderia.

        Além da calça, Pearson perdeu a causa. Não recebeu nem o dinheiro nem a roupa, e ainda foi condenado a ressarcir as despesas processuais da lavanderia.

        O autor da ação também acabou perdendo o emprego. Seu mandato como juiz administrativo não foi renovado, porque uma comissão entendeu que o temperamento de Pearson não seria adequado para o cargo. Em maio de 2008, ele entrou com outra ação, agora contra o seu ex-empregador, pedindo a sua reintegração ao serviço e mais 1 milhão de dólares como indenização. Esta nova ação, assim como o recurso que Pearson interpôs na ação original, encontra-se pendente de julgamento.

        Pelo menos, Pearson ganhou algo: o primeiro lugar na competição fictícia The True Stella Awards de 2007, que escolhe os casos judiciais mais bizarros dos Estados Unidos a cada ano.

        Imagine só se Pearson tivesse esquecido alguma nota de dólar no bolso da calça extraviada. Os donos da lavanderia estariam sendo também processados criminalmente por lavagem de dinheiro.

        Atualização (em 27/05/2008): nenhuma relação com o filme O Terno de Dois Bilhões de Dólares, com Jackie Chan (que, por sinal, não é coreano, mas honconguês).

        (Com informações de: Terra, Wikipedia, Victims of Law e Planck’s Constant. Imagem: Dana Verkouteren - Associated Press)


         

         

         

         
        EPITÁFIO(S)
         
         
        Espírita: Volto já!

        Internauta:
        www.aquijaz.com.br

        Agronômo: Favor regar o solo com Neguvon.. Evita Vermes.

        Alcoolótra:
        Enfim, sóbrio.

        Arqueólogo: Enfim, fóssil.

        Assistente Social: Alguém aí, me ajude!

        Brother:
        Fui.

        Cartunista:
        Partiu sem deixar traços.

        Delegado: Tá olhando o quê? Circulando, circulando...

        Ecologista:
        Entrei em extinção.

        Enólogo: Cadáver envelhecido em caixão de carvalho, aroma Formol e 'after tasting' que denota presença de Micoorganismos diversos.

        Funcionário Público:
        É no túmulo ao lado.

        Garanhão:
        Rígido, como sempre.

        Gay: 
        Agora só a terra vai comer.

        Herói: Corri para o lado errado.

        Hipocondríaco: Eu não disse que estava doente?!?!

        Humorista:
        Isto não tem a menor graça.

        Jangadeiro Diabético: Foi doce morrer no mar.

        Judeu: O que vocês estão fazendo aqui? Quem está tomando Conta da lojinha?

        Pessimista: Aposto que está fazendo o maior frio no inferno.

        Psicanalista:
        A eternidade não passa de um complexo de superioridade mal resolvido.

        Sanitarista:
        Sujou!!!

        Sex Symbol: Agora, só a terra vai comer.

        Viciado: Enfim, pó!
         
        Político: Não bem assim,vamos fazer um acordo
        Novo ministro do Meio Ambiente toma posse
         
         
        Carlos Minc assumiu o Ministério do Meio Ambiente em Brasília e já tem a agenda cheia. Durante a cerimônia, o presidente Lula elogiou a ex-ministra Marina Silva e a comparou a Pelé.

        Lula ironiza Minc e diz que ministro falou mais em uma semana do que Marina em 5 anos


         

         

         

        CPMF, a revanche

        EDITORIAL

        Tiago Recchia

        Proposta de recriar imposto, promovida pela base de Lula na Câmara, é um acinte diante de tanta gordura tributária

        A EMENDA que propunha a renovação do imposto do cheque foi derrubada em dezembro, numa decisão soberana do Senado. A arrancada na arrecadação federal no primeiro terço de 2008 -12% de alta acima da inflação, no mínimo o dobro do ritmo de avanço do PIB, a despeito do fim da cobrança da contribuição- lançou por terra todas as previsões catastrofistas do Planalto acerca dos efeitos do fim da CPMF no Orçamento da União.
        Nadando em dinheiro, no primeiro bimestre o governo já abandonara o discurso de "cortar na veia mais uma vez", palavras presidenciais, a fim de custear despesas básicas. Aumentos salariais concedidos a vários setores do funcionalismo denunciaram a mudança dos ventos, no sentido da retomada do galope nos gastos, ditos correntes, com a máquina pública.
        Outro dado eloqüente acerca da pujança da receita surgiu ontem, quando foi divulgada a sobra de caixa do governo federal de janeiro a abril. O chamado superávit primário atingiu 5,3% do PIB, acima da meta para todo o setor público (incluindo Estados e municípios), de 3,8%. O resultado está associado ao volume recorde recolhido pelos impostos, e não a um repentino surto de austeridade no Executivo.
        Diante de tamanha gordura tributária, é acintosa a tentativa da base governista na Câmara, patrocinada pelo Planalto, de ressuscitar a CPMF, agora rebatizada de Contribuição Social para a Saúde (CSS), a uma alíquota de 0,1% -a da contribuição extinta em dezembro era 0,38%.
        As vantagens da CPMF -tributo fácil de arrecadar e que auxilia no combate à sonegação poderiam ser restauradas no bojo de uma reforma tributária que simplificasse o sistema, tornasse mais justa a arrecadação e diminuísse o peso dos impostos. Seria um modo de respeitar a decisão do Congresso, ancorada na ampla rejeição social ao nível absurdo da carga tributária.
        Não é isso, contudo, o que a base governista na Câmara pretende com o projeto que recria a CPMF. Trata-se de resolver à moda clássica, debitando a fatura ao contribuinte e aumentando ainda mais o fardo dos impostos, uma necessidade de gasto novo e duradouro com a Saúde, criada no Senado sob o beneplácito de governistas e oposicionistas. Trata-se, igualmente, da tentativa do lulismo de ir à forra pela derrota sofrida em dezembro.
        Esse revanchismo pueril atingiria, porém, outros alvos, o que os deputados deveriam levar em conta antes de corroborar a sandice. A proposta tripudia sobre o inconformismo da sociedade com o nível dos impostos, aumenta o engessamento da despesa pública, chancela a gastança na máquina estatal e retira do setor privado fôlego para investir.
        Por tudo isso, a CSS deveria ser fulminada no nascedouro

        Renata Lo Prete-Painel

        Um vice para Marta

        No vôo que levou Lula de SP a Brasília anteontem, Eduardo Suplicy perguntou a opinião do presidente sobre a questão do vice de Marta. Lula comparou a situação da ministra que estava a seu lado à que ele viveu em 2002. Disse que ela, forte nas camadas mais populares, deve procurar um companheiro de chapa que ajude a diminuir sua rejeição entre os mais ricos. Um empresário, afirmou, como José Alencar.
        Alguém mencionou Emerson Kapaz (que não é opção, pois está sem partido). Lula não comentou. Apenas insistiu que deve ser um empresário. Estavam na conversa também os ministros José Temporão (Saúde) e Franklin Martins (Comunicação Social).

        Meu voto. Suplicy não deu sua opinião, que já manifestara a Marta de outra feita: o senador acha que uma boa vice seria Luiza Erundina (PSB).

        Família. Estavam no vôo ainda Fábio Luís, o Lulinha, e Tiago, neto do presidente.

        Ajoelhou... André Vargas (PR), um dos petistas mais envolvidos na operação para derrubar o veto ao acordo com Aécio Neves em BH, se explica: "Com dois ministros mineiros, acho absurdo o PT não ter candidato", afirma o deputado, referindo-se a Patrus Ananias e Luiz Dulci, ambos contrários à aliança.

        ...tem que rezar. Segue Vargas: "Mas nenhum dos dois quis disputar, e agora é tarde. Não dá para esperar que o Diretório Nacional resolva o problema deles".

        Hã, hã... Manifesto do PSL: "Não pretendemos ficar a reboque de outros partidos. Não podemos ser usados como escada". Ontem, a sigla nanica aderiu a Geraldo Alckmin.

        Guru. Em site, o presidente do PSL-SP, Roberto Siqueira, ensina a "não perder tempo com encrenqueiros", evitar "contágio com quem diz que a coruja foi depenada" e "ir ao encontro de pessoas que querem comprar sua eleição".

        Pão e água. Geddel Vieira Lima desfilou na posse do colega Carlos Minc seis quilos mais magro. O embate com o PT na sucessão em Salvador tem feito o ministro peemedebista malhar em dobro.

        A pé. A dura declaração de Inocêncio Oliveira (PR-PE) contra Paulinho (PDT-SP), com água até o pescoço em razão da Operação Santa Tereza da PF, foi entendida na Câmara como sinal de que o baixo clero, sobre o qual o corregedor tem grande influência, não socorrerá o pedetista.

        Ghostwriter. Mais do que um parecer, o que o secretário Jorge Rachid (Receita) enviará hoje ao líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS), é a minuta do projeto de lei complementar que regulamenta a PEC da Saúde e recria a CPMF. E o governo ainda diz que não é com ele.

        Difícil. Há governistas na resistência à CPMF rediviva. O líder do PR, Luciano Castro (RR), manifesta "desconforto" em criar nova contribuição sem nenhuma contrapartida. Ele defende a aprovação do projeto da saúde como veio do Senado. As fontes de recurso seriam definidas depois.

        Os intocáveis. Depois de derrubar a MP que proibia a venda nas estradas no Senado, o lobby da indústria de bebidas conseguiu excluir o setor da taxação para financiar a saúde. Só o cigarro entrará no projeto. "Uma briga de cada vez", diz um líder governista.

        Despejo. Velada ontem, a CPI dos Cartões será enterrada hoje em obscura sala do Senado. A que é normalmente destinada às CPIs já foi reservada para outra reunião.

        Visita à Folha. Alexandre Schneider, secretário da Educação do município de São paulo, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Lu Fernandes, da empresa Lu Fernandes Editora & Escritório de Comunicação Ltda.

        com VERA MAGALHÃES e SILVIO NAVARRO

        Tiroteio

        O Supremo não vai reeditar a triste história do Tribunal da Inquisição, que obrigou Galileu Galilei a renegar sua convicção científica de que a Terra não era o centro do Universo.

        Do ministro CELSO DE MELLO , sobre o julgamento das pesquisas com células-tronco, que será retomado hoje pelo STF.

        Contraponto

        Por via das dúvidas
        A caravana do PAC levou ontem os ministros Márcio Fortes e paulo bernardo a São Luís. Na capital maranhense, no meio do evento para assinatura de convênios do programa, o titular das Cidades avisou ao microfone:
        -Tenho aqui um pedido da Dilma...
        -Pedido da Dilma?!-, indagou o colega do Planejamento, já imaginando alguma bronca da chefe da Casa Civil.
        Fortes correu a explicar que se tratava de outra Dilma, presente na platéia e interessada numa oportunidade de trabalho no projeto anunciado. paulo bernardo se acalmou, mas achou por bem aconselhar:
        -Se ela chama Dilma, é melhor atender o pedido!

        Lula e o vaivém dos impostos

        VINICIUS TORRES FREIRE

        Patrocínio mal disfarçado da recriação da CPMF mostra como funciona a política fiscal de Lula: é pura política 

        O PRESIDENTE reclamou que os empresários não repassaram para os preços a redução de custo decorrente do fim da CPMF.
        Lula desconfia do destino que o mercado dá a isenções fiscais, planejadas ou não. O que pensa sobre isenções de impostos concedidas voluntariamente por seu governo?
        Lula acaba de baixar sua nova política industrial, que em boa parte consiste de desconto de impostos. Empresas podem comprar máquinas novas sem pagar alguns tributos.
        O objetivo não é, claro, levar o empresário que investiu a cobrar menos pelos produtos que virá a produzir, dado que seu investimento saiu mais em conta. A intenção é baratear o investimento, é criar um incentivo adicional para a compra de máquinas e equipamentos.
        Mas como o governo sabe que o empresário deixaria de fazer o investimento caso não obtivesse a isenção fiscal? Não tem como saber muito bem. Como não teria condição de saber se empresários baixariam preços caso tivesse promovido uma isenção setorial de impostos, CPMF ou outro, com esse fim. A redução de preços dependeria da demanda, do grau de concorrência em cada mercado, de como o setor é afetado pelo comércio exterior etc.
        "Na margem", como dizem os economistas, algum investimento novo será realizado devido à isenção fiscal. Uma certa quantidade de investimentos ocorreria de qualquer modo, dadas as condições de demanda, câmbio e outros preços etc. (e o empresário poderia embolsar o ganho com a isenção fiscal). Mas outros investimentos poderiam estar na marca do pênalti: não seriam rentáveis e, pois, viáveis, sem a isenção fiscal.
        Mas esse é apenas o início do problema. Ao longo de décadas de confusão e excessos tributários, centenas de leis criaram um incentivo fiscal aqui, outro ali, para setores diferentes. Já não se sabe quem está sendo incentivado, com quais objetivos e efeitos. Para piorar, a depender da variação das condições macroeconômicas e setoriais, os incentivos podem estar no lugar errado.
        Sim, seria ingenuidade cretina e/ ou maluca imaginar que é possível controlar todos os efeitos de políticas públicas. Mas é mais fácil avaliar o resultado da isenção de impostos se a política é mais localizada, se seus objetivos são específicos.
        De resto, além das condições macroeconômicas e de cada mercado, o investimento depende de regulação, de custos em outras partes da economia (inclusive impostos), da infra-estrutura etc. Enfim, se o governo aumenta tributos em geral, pode anular o efeito da isenção setorial.
        Ou pode redistribuir renda, de quem paga um imposto para os isentos, sem atingir objetivos de interesse geral, como acelerar o investimento.
        Lula ainda não digeriu a derrota do fim da CPMF. Uma semana após renegar a paternidade do projeto de recriação do imposto sobre movimentação financeira, queixa-se em público de que a oposição lhe tirou a CPMF. Deixa rolar a articulação de sua coalizão partidária para criar um sucedâneo do imposto. Há gente, como este colunista, que era contra o fim da CPMF (desde que o excesso de arrecadação abatesse dívida pública). Mas falta coerência fiscal e tributária a esse governo que cancela impostos num dia e que quer inventar um novo noutra semana.


         

         

         

        UOL Economia

        Com informações de Reuters e Valor Online)

        Alimentos fazem inflação em São Paulo atingir maior nível desde 2003

        O aumento recente do preço da comida fez com que a inflação na cidade de São Paulo atingisse o maior nível em cinco anos. Os preços subiram 1,08% na terceira medição de maio, maior alta desde a primeira prévia de março de 2003, quando a elevação foi de 1,2%. Na segunda medição de maio de 2008, o indicador marcou 0,89%.

        Os números se referem ao IPC (Índice de Preços ao Consumidor) da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas).

        As maiores elevações foram constatadas em gêneros alimentícios, roupas e outros artigos de vestuário. O grupo "alimentação" teve a alta mais expressiva, de 2,61%, sucedendo elevação de 1,77% na segunda leitura de maio. Desde a segunda medição de janeiro de 2003, os preços desse grupo não subiam tanto. Na ocasião, a alta foi de 2,65%.

        Na seqüência, apareceu o grupo "vestuário", que partiu de um avanço de 1,22% para 1,6% entre uma medição e outra. O número só foi menor do que o verificado na segunda quadrissemana de junho de 2003 (1,74%).

        "Saúde" expandiu-se 0,83%, menos do que o 1,23% da segunda medição de maio. Produtos no setor de "despesas pessoais" aumentaram 0,71%, contra 0,66% na apuração antecedente. O grupo "habitação" registrou alta de 0,64% nos preços, após o 0,64% marcado na medição anterior.

        O levantamento revelou ainda que o ramo de "transporte" teve aumento de 0,29%, e "educação", de 0,03%. Na prévia anterior, houve acréscimo de 0,24% no primeiro e variação nula no segundo grupo.

        A Fipe calcula a inflação considerando a variação de preços dos produtos e serviços consumidos no município de São Paulo pelas famílias com renda entre 1 e 20 salários mínimos.


         

         

         

        Lucia Hippolito

        Lucia Hippolito

        A verdadeira história da recriação da CPMF

        Entusiasmada com a incompetência da oposição, a base governista vai tentar aprovar hoje a recriação da CPMF.

        Numa manobra prá lá de esperta, um “golpe de João sem braço”, como se dizia antigamente, o governo muda o nome do imposto, batiza de Contribuição Social para a Saúde (CSS) e tenta aprovar uma alíquota de 0,10%.

        É o tal negócio: a gente até pode passar a chamar jacaré de Ernesto, mas ele não vai deixar de ser um jacaré.

        E mais: para garantir aprovação certa, a base governista vai tentar criar a nova CPMF por lei complementar. Isto significa que será necessária apenas uma votação e o quórum para aprovação é maioria absoluta, isto é, 50% mais um da Câmara, o que equivale a 257 deputados.

        Passa fácil no plenário da Câmara.

        Se fosse por emenda constitucional, o novo imposto deveria ser aprovado em duas votações, e por quórum de três quintos, isto é, 308 deputados. Bem mais difícil.

        Curiosa mesmo é a argumentação para a volta da CPMF com outro nome. Alega a tropa governista que não se pode aprovar mais recursos para a saúde, porque o governo perdeu uma receita de R$40 bilhões com o fim da CPMF.

        Mas a velha CPMF tinha uma alíquota de 0,38%. A nova CPMF terá uma alíquota de 0,10%. A conta não fecha.

        O segundo argumento diz que não é necessária uma emenda constitucional, porque a Cide, por exemplo, o imposto sobre combustíveis, foi criada por projeto de lei.

        Mas de acordo com Everardo Maciel, ex-secretário da Receita Federal e emérito criador de novos impostos no governo Fernando Henrique, a Cide não é um imposto cumulativo, porque é cobrada uma única vez, na refinaria.

        Já a CPMF, com qualquer nome, é um imposto cumulativo, porque é cobrada cada vez que se assina um cheque, em suma, cada vez que se faz uma simples transação financeira.

        Portanto, segundo Everardo Maciel, não há a menor possibilidade de ser criada por lei complementar. É inconstitucional.

        Tem que ser por emenda constitucional.

        O caso tem tudo para ir parar no Supremo Tribunal Federal.

        Mas o verdadeiro motivo para a recriação da CPMF é muito mais prosaico.

        O presidente Lula quer dar o troco aos senadores que derrubaram a CPMF em dezembro do ano passado.

        Em geral, governantes convivem mal com críticas e com oposição. Governantes gostam de aplauso.

        Em Lula, isto chega a ser patológico. O presidente não tolera ser contrariado. Não tolera não ser aplaudido.

        Sua taxa de aceitação a críticas é baixíssima. Lula não compreende que possa ser contrariado. Afinal, é o presidente mais popular da história do país.

        Esta é a razão pura e simples da recriação da CPMF. O resto é esperteza e demagogia barata.

        Barata não, caríssima, porque vai sair do nosso bolso.

        Oposição dá vexame (mais uma vez...)

        A CPMI dos cartões corporativos vai terminando de acordo com o script. Nenhuma surpresa, nenhuma novidade.

        Para compor a CPI, o governo escolheu a dedo. Só membros do baixíssimo clero. Deputados e deputadas, senadores e senadoras e muitos suplentes, todos de quinto escalão.

        A estratégia da base governista para matar a CPI era: fazer valer a maioria; recusar a aprovação de todos os requerimentos incômodos; blindar a principal responsável pelo dossiê, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef; desqualificar todos os depoimentos inconvenientes que porventura viessem a ser prestados.

        E as táticas para atingir o objetivo foram as mais rasteiras: grosserias, gritarias, exibição de truculência, valeu tudo. Deputados prepotentes, mal-educados, desinformados. Deputadas descabeladas a gritar e a fazer caretas, senadores e senadoras à beira da histeria.

        Parlamentares do baixíssimo clero desesperados para aparecer na mídia, loucos por um holofote e prontos para fazer um favor ao governo. E doidos para serem credores do governo Lula.

        A estratégia revelou-se um sucesso completo. Nada se apurou, praticamente ninguém foi incomodado, quase ninguém foi convocado.

        Também aí só apareceu o quinto elenco. Funcionários subalternos, fossem eles titulares de órgãos importantes da Presidência da República, como a CGU e o GSI. Subalternos.

        Tudo ia muito bem, até que o PT decidiu dar sua colaboração. Como o partido gosta de viver perigosamente, ficamos sabendo que quem vazou o dossiê com as despesas pessoais do ex-presidente Fernando Henrique e da ex-primeira dama Ruth Cardoso foi... um petista histórico, vejam só!

        O PT não falha.

        Até agora, tudo dentro do script. O governo se comportou como governo, a maioria fez valer sua maioria. Nada a reclamar.

        Quem fez um papelão foi a oposição. Mais uma vez...

        Talvez já sabendo que também o governo Fernando Henrique não poderia explicar muitas das despesas que seus ministros fizeram com dinheiro público, oposição e governo acertaram um acordão para matar a CPI desde o nascedouro. Nada era para valer.

        As estrelas da oposição passaram longe da sala da CPMI. Não se interessaram pela investigação. Também decidiram entregar as vagas na CPI ao seu próprio baixo clero, só para cumprir tabela.

        Papelão!

        O governo fez o seu papel. Quem deu vexame foi a oposição.

        Mais uma vez...

         

         

         

        Dora Kramer

        Desordem dos fatores

        O intervalo de duas semanas entre a saída de Marina Silva e a entrada de Carlos Minc no Ministério do Meio Ambiente foi providencial: deu tempo para o presidente Luiz Inácio da Silva reescrever o episódio à sua moda e, assim, apresentá-lo ontem na solenidade de posse, no Palácio do Planalto.

        Na prudente distância das homenagens a Marina e das críticas ao tratamento dado a ela pelo governo, Lula pôde inverter a ordem de todos os fatores e oferecer “à companheira” a proteção magnânima reservada aos ofendidos.

        Marina Silva só não foi tão elogiada quanto alguns outros que não saíram por vontade própria, mas por ação de algum escândalo. Ainda assim, ouviu palavras de consolo por não ter merecido, “enquanto esteve no ministério”, as referências positivas feitas na imprensa quando da repercussão de sua saída.

        “Quero confessar: durante cinco anos vi poucas colunas falando bem da Marina”, disse Lula, ressaltando o quanto a então ministra “apanhou” da imprensa que, por essa versão, quando não a difamava, se omitia.

        “Quantas vezes ela me dizia que tinha dado entrevista, mas não saía nada nos jornais”, relatou - sempre com a imagem de uma Marina serena e sisuda, sentada bem atrás dele -, sem esquecer de atribuir também a insatisfação final de Marina ao parco noticiário a respeito do lançamento do Programa Amazônia Sustentável.

        Nem uma só palavra sobre a decisão dele, Lula, de entregar a coordenação do PAS ao professor Mangabeira Unger, coincidentemente ontem mesmo um confesso “ignorante” em matéria de Amazônia.

        Todas as reclamações internas contra o radicalismo ambiental de Marina e sua equipe, responsabilizados abertamente pela paralisação de projetos de infra-estrutura, na solenidade transformaram-se em intrigas mediante as quais a imprensa, e não o governo quase todo, procurava desgastá-la.

        Nem uma só referência, mesmo indireta, à série de embates, por vezes desmoralizantes, que terminaram por fazer Marina Silva no dia 13 de maio entregar o “pescoço” para preservar “o juízo”, como avisara dois anos antes.

        Nos revides e distorções, o presidente deixou-se trair sobre o que realmente o incomodou na saída da ministra: o noticiário favorável a ela e desfavorável ao governo dele.

        Lula falou disso o tempo todo, com o sinal trocado. Quis fazer graça com Marina e Dilma Rousseff e, pretendendo desmentir divergências, confirmou. Apontou para as duas, sentadas lado a lado na cerimônia, que continuaram impassíveis. Dilma ainda ensaiou um sorriso, morto, porém, ao nascer.

        E assim Lula foi tentando vencer a silenciosa supremacia de Marina aos trancos, até a metáfora futebolística final, completamente fora do lugar. Ao compará-la a Pelé, o presidente escolheu dois exemplos em que a substituição do craque se revelou um acerto do destino.

        Se a idéia era enaltecedora, o resultado foi depreciativo. E revelador no quesito despeito do autor.

        Brios seletivos

        Uma senadora no exercício da presidência de uma comissão parlamentar de inquérito chama a principal ministra do governo de mentirosa e a ministra, com desdém, mal responde.

        A despeito do inusitado da cena, não é o desapreço de Dilma Rousseff pelo Congresso o que chama atenção. Espanta é o repentino desapreço da ministra para com a credibilidade da própria palavra.

        Instada a dizer a verdade na Comissão de Infra-Estrutura do Senado, por uma muitíssimo infeliz comparação do senador Agripino Maia à conduta dela quando militante de esquerda, Dilma resguardou de imediato o seu passado com uma longa reprimenda ao incontinente.

        Acusada pela senadora Marisa Serrano de mentir aos senadores em plena democracia, a ministra não exibiu a mesma altiva indignação. “Não respondo a isso”, esquivou-se, sucinta.

        Quando José Aparecido Nunes Pires a desmentiu, confirmando no Senado a existência do dossiê, a ministra Dilma tampouco se manifestou em defesa de sua palavra.

        Calando, não apenas consentiu: mostrou que sua exaltação às virtudes da mentira não se prende a épocas; antes, diz respeito ao modo de ser fiel às causas.

        Melhor dizendo

        O PT não “vetou” a aliança entre o governador Aécio Neves e o prefeito Fernando Pimentel, em Minas Gerais.

        Na segunda-feira, a Executiva petista formalizou o gestual para acomodar as correntes internas mineiras de forma a não fechar desde já o jogo da sucessão estadual de 2010.

        Até porque nada garante que daqui a dois anos vá de fato interessar ao PSDB abrir mão do segundo maior colégio eleitoral do País em honra ao compromisso do apoio de Aécio à candidatura de Pimentel.

        A aliança para a eleição da Prefeitura de Belo Horizonte prosseguirá entre o PT e o PSB, sem a presença formal do PSDB. Como não há oponente competitivo, o tempo de televisão não faz a menor diferença.

        Lula quer estudar 'direitinho' o fundo soberano

        Vera Rosa

        Presidente avalia que momento político não é oportuno para submeter projeto ao Congresso

        O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem, em conversa reservada, que vai estudar “direitinho” a conveniência de lançar o Fundo Soberano do Brasil neste momento. Em reunião realizada no Palácio do Planalto, Lula pediu ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, que exponha hoje o projeto ao Conselho Político do governo, formado por 14 partidos da base aliada, e explique como será formado o seu caixa. “Não vamos fazer nada de forma açodada”, afirmou o presidente.

        Na semana passada, diante das resistências à criação do Fundo, o presidente resolveu adiar o envio da proposta ao Congresso. “É uma idéia inteligente, mas há muitas pessoas contra porque não se sabe se esses fundos de investimento vão funcionar”, argumentou o vice-presidente José Alencar, que ontem também tratou do assunto com Lula. “Talvez não dê para aplicar isso no curto prazo.”

        Num dia repleto de reuniões sobre o tema, Mantega detalhou a proposta a Lula, ontem à noite. Preocupado com a escalada da inflação e com as turbulências internacionais, o ministro avalia que o projeto deveria ser encaminhado logo ao Congresso, em regime de urgência. Articuladores políticos do governo, no entanto, convenceram o presidente a aguardar momento mais oportuno para lançar a idéia.

        Ontem, no Rio, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) disse que é favorável ao fundo, mas apenas no momento em que o País começar a extrair o petróleo recém-descoberto na camada pré-sal, na Bacia de Santos.

        Além das inúmeras resistências à proposta, que usaria recursos do superávit primário, o Planalto avalia que enviar agora projeto tão polêmico ao Legislativo - justamente na hora em que o governo tenta ressuscitar a CPMF - é o mesmo que dar um tiro no pé em ano eleitoral.

        Mais: a oposição não se cansa de dizer que o dinheiro a ser destinado ao Fundo Soberano - cerca de US$ 15 bilhões - deveria ser aplicado na área de saúde, evitando a recriação da CPMF.

        “Se o Congresso aprovar a Emenda 29 sem fixar as fontes de recursos para financiar a saúde, o governo será obrigado a vetar”, admitiu o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro. “Não se trata de ameaça, mas não se pode criar despesas sem especificar como pagá-las”, completou.

        CRÍTICAS

        Depois de muita especulação, o fundo soberano brasileiro foi oficialmente anunciado pelo ministro Mantega no dia 12 de maio. Na ocasião, ele afirmou que o instrumento teria diversas funções. Entre elas, apoiar a internacionalização das empresas do Brasil no exterior. O dinheiro para o fundo viria do excedente do superávit primário (economia do governo para pagar os juros da dívida pública).

        A idéia tem sido duramente criticada por especialistas. Eles argumentam que o País tem saldo negativo em suas contas quando o pagamento de juros é incluído no cálculo. Ou seja, diferentemente de países como a China (que tem seu fundo) não haveria excedente fiscal de fato para bancá-lo.

        Mesmo sem CPMF, receita do Tesouro sobe 17,8%

        Ribamar Oliveira

        Mesmo sem a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), a receita do Tesouro Nacional de janeiro a abril deste ano aumentou R$ 28,2 bilhões em relação ao mesmo período de 2007, informou o Ministério da Fazenda. O volume passou de R$ 158,4 bilhões a R$ 186,6 bilhões, um crescimento de 17,8%  bem acima da expansão nominal do PIB, estimada em 12,63%.

        Esse crescimento excepcional da arrecadação não decorreu apenas da elevação da receita com impostos e contribuições. Nos primeiros quatro meses deste ano, a arrecadação com a concessão de serviços públicos e royalties, principalmente do petróleo, aumentou R$ 4,5 bilhões ante o mesmo período do ano passado.

        A receita diretamente arrecadada pelos demais órgãos da administração pública federal aumentou R$ 881,4 milhões na mesma comparação. Já o crescimento da arrecadação com impostos e contribuições foi de 17,5%, passando de R$ 136,6 bilhões para R$ 160,5 bilhões. Os números não incluem as receitas obtidas com o INSS.

        Base rebatiza CPMF e vai tentar ressuscitá-la hoje

        Denise Madueño, Lígia Formenti e Luciana Nunes Leal

        Governistas querem mudar Emenda 29, que prevê mais recursos para saúde, e instituir contribuição com alíquota de 0,1% sobre movimentação financeira

        Com um novo nome, a base aliada do Planalto tentará ressuscitar hoje na Câmara a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Batizado de Contribuição Social para Saúde (CSS), o imposto também vai incidir sobre as movimentações financeiras, mas com alíquota de 0,1%.

        A CSS faz parte da estratégia governista para a votação da regulamentação da Emenda 29, que amplia a destinação de verbas para a saúde. Ela cria uma fonte de renda extra para bancar o setor e foi alinhavada ontem durante almoço entre líderes da base e o ministro da Saúde, José Gomes Temporão.

        Prevaleceu a idéia de se propor alterações ao projeto 306/08 - o que, na prática, dará um pouco mais de tempo para o governo escapar do desgaste de um eventual veto do projeto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já que a proposta terá de voltar ao Senado.

        Para aprovar a CSS, na Câmara e no Senado, é preciso apoio da maioria absoluta dos parlamentares das duas Casas (257 deputados e 41 senadores). Um quórum, portanto, menor do que o necessário para aprovar uma emenda constitucional, como era o caso da CPMF, derrubada no ano passado. A CSS deverá isentar, como sua antecessora, quem ganha até 3 salários mínimos, além de aposentados e pensionistas.

        Há dúvidas, porém, se tal contribuição poderia render os R$ 10 bilhões a mais sonhados pelo governo. Justamente por isso, a bancada estudava também a proposta de mais duas medidas: o aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos cigarros, que poderia contribuir com cerca de R$ 3 bilhões, e o destino do seguro obrigatório dos veículos para a saúde.

        O líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS), disse ainda que o texto substitutivo deverá alterar a vinculação dos recursos da União para a saúde. A idéia é retirar o repasse obrigatório de 10% das receitas brutas, como foi aprovado no Senado. Esse mecanismo seria substituído pela regra atual: o montante gasto no ano anterior mais a variação do Produto Interno Bruto (PIB), acrescido do total arrecadado com a nova contribuição.

        Ao tomar conhecimento da proposta, o líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP), disse que a oposição não aceita modificar a proposta já aprovada no Senado. Aníbal já apelidou a CSS de “contribuição sem sentido” . O tucano afirmou que o governo está fazendo chantagem com o Congresso e destacou que há dinheiro para aplicar na saúde pública. “O governo quer impor a nova contribuição e conseguir recursos adicionais sob pretexto de cobrir os investimentos na saúde. É conversa fiada”, disse Aníbal. Ele lembrou que a arrecadação do governo vem crescendo a cada mês.

        O líder do DEM, deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (BA), por sua vez, reiterou que o partido não aceitará nenhuma proposta de criação de um novo imposto. “Os recursos existem. O que falta é o governo dar prioridade para a saúde. Não vamos aceitar imposto novo e vamos levar ao Supremo Tribunal Federal, se o governo insistir com essa idéia”, avisou ACM Neto.

        O ministro José Gomes Temporão passou o dia de ontem defendendo a criação de um mecanismo para prever recursos extras para a saúde. “Não podemos aprovar uma proposta irresponsável. A regulamentação é um compromisso com gerações futuras e, justamente por isso, precisa ser sustentável”, completou. Para ele, o argumento da oposição de que o governo arrecada dinheiro suficiente é injustificável. “Não podemos ficar à mercê do que vai ocorrer no futuro, precisamos criar um ambiente estável.” E afirmou que a criação de uma contribuição social para a saúde é uma medida sensata. “Os recursos seriam usados em benefício de toda a população.”

        Ele questionou os argumentos da oposição, quando vetou a prorrogação da CPMF. “Que fim foi dado aos R$ 40 bi que deixaram de ser usados para a área social? Houve redução de preços? Não. Não sabemos para onde esse dinheiro foi.”

        Ontem, o ministro avaliava pedir o adiamento da votação da emenda. Consultores viam ainda uma série de questões sem respostas, sobretudo o risco de o novo imposto ser apontado como cumulativo - e, portanto, ilegal. Mas a estratégia de pedir alterações imediatas prevaleceu.


        FRASES

        José Aníbal
        Líder do PSDB na Câmara

        “O governo quer impor a nova contribuição e conseguir recursos adicionais sob pretexto de cobrir os investimentos na saúde.

        José Gomes Temporão
        Ministro da Saúde

        “Não podemos aprovar uma proposta irresponsável”

         

         

         

        Tribuna da imprensa online

        Carlos Chagas

        O presidente dos Estados Unidos da América do Sul

         

         

         

         

         

         

         

         

         

        BRASÍLIA - Uma dúvida paira sobre Brasília: partiu de Mangabeira Unger ou de Carlos Minc a estranha proposta feita pelo presidente Lula, segunda-feira, de um Banco Central único e de uma única moeda para todos os países da América do Sul?

        Porque, com todo o respeito, idéia tão esdrúxula quanto inviável só pode mesmo ser da lavra de um desses dois ministros aloprados. É a velha história de que a velocidade do comboio é dada pelo navio mais vagaroso. Que tal subordinarmos nossa política monetária aos interesses do Suriname ou da Guiana? Quem sabe ao Paraguai ou a Bolívia?

        Se for feita uma votação entre os doze países, imaginem qual a denominação que vencerá para designar a nova moeda? Ganha o "peso", de goleada. Passaremos a raciocinar em "pesos", mas qual será o seu valor diante do dólar e do euro? Haverá nivelamento completo ou teremos o "peso brasileiro" diante do "peso uruguaio"? A conversão das diversas moedas sul-americanas numa só contemplará os países mais endividados? E a inflação se refletirá em nossas dívidas pública e externa? Mais uma vez seremos bonzinhos com nossos vizinhos?

        É bom tomar cuidado e encontrar uma forma de calar sugestões desse teor, porque a próxima, pela lógica, só poderá ser a criação dos Estados Unidos da América do Sul. Nessa hora, talvez prevaleça a importância política, territorial e econômica do Brasil. E quem será o primeiro presidente do novo país? Ora...

        O colete à prova de balas

        Aconteceu a posse de Carlos Minc no Ministério do Meio Ambiente. Dentro de suas peculiaridades, o sucessor de Marina Silva não deixou de comparecer usando um de seus significativos coletes, mas há quem suponha, diante da presença do ministro Mangabeira Unger, que foi um colete à prova de balas. O tiroteio entre os dois não parou nem vai parar tão cedo.

        Desde que cogitado para ministro, Carlos Minc produziu propostas as mais inverossímeis e até hilariantes, quase todas mandadas para o espaço assim que anunciadas. Da transformação do Exército em Guarda Florestal à mudança da destinação da Amazônia, para se tornar um vasto jardim botânico, o ecologista de Ipanema vem surpreendendo, tanto quanto agredindo o bom senso.

        Nada mudou, emergiu uma nova leva de idéias capazes de despertar tanto surpresas quanto aplausos, a menos que o ministro tenha submetido seu discurso ao crivo do presidente Lula, de lápis vermelho na mão.

        Discutiu-se segunda-feira se a cerimônia no Palácio do Planalto deveria ou não ser aberta à imprensa, mas o sigilo valeu muito pouco, porque logo depois houve a transmissão do cargo, na Esplanada dos Ministérios. Parecia impossível isolar a mídia, como mais difícil ainda evitar a atração de Minc por microfones.

        Esse novo capítulo da novela melhor ficaria se passado em Sucupira. Lances de drama e de comédia andam sobrepondo-se, não devendo faltar até mesmo as Irmãs Cajazeira.

        O MST virou artigo de exportação

        Os órgãos de inteligência já haviam detectado faz muito, mas, agora, a informação ganhou os jornais: o MST amplia sua ação e sua ideologia para países vizinhos. Primeiro foi na Bolívia, mas ninguém deu bola, tão estranha parecia a incursão nos meandros da política externa de Evo Morales. Agora o fenômeno acontece no Paraguai, onde acaba de intensificar-se a ação de nossos "hermanos" sem-terra, estimulados por consultores a serviço de João Pedro Stédile.

        Vale de início a rotineira ressalva de todos os dias em que abordamos o MST. Trata-se do movimento social mais importante verificado entre nós em muitas décadas. Um exemplo de organização, como também um grito de justiça. Nada mais louvável do que a luta dos sem-terra por um pedaço de chão, em meio ao paraíso do latifúndio tantas vezes improdutivo.

        É claro que abusos têm acontecido, como a invasão de fazendas produtivas e a ocupação de prédios urbanos, sem falar na interrupção do tráfego em rodovias e ferrovias, espaços insuficientes para neles realizar a reforma agrária.

        Agora, é bom tomar cuidado quando o MST começa a dar filhotes, utilizando os mesmos processos injustificáveis aqui praticados. No Paraguai, o alvo está sendo a terra mais do que produtiva dos chamados "brasiguaios", gente que atravessou a fronteira, adquiriu fazendas, paga impostos e dedica-se à agricultura e à pecuária. Assim como os fazendeiros de cá, os de lá também estão se armando.

        Qualquer dia acontecerá uma chacina em castelhano, igual às aqui verificadas em português. Será de menor importância saber quem começou, se os jagunços a serviço dos donos da terra ou se os sem-terra empenhados em atropelar a lei.

        E com o agravante de que no Paraguai, como no Brasil, existem milhares de hectares improdutivos, cabendo aos respectivos poderes públicos fazer o que não fizeram até hoje: distribuir terras, dar assistência aos novos proprietários e integrá-los na sociedade que até agora os rejeitou. Só que não dá para começar invadindo fazendas onde se planta, se trabalha e se produz. Especialmente quando pertencem a brasileiros.

        Banqueiros europeus anunciam roubo

        Para quem duvidava das intenções de parte do mundo rico e desenvolvido, eis mais uma evidência: um certo banqueiro sueco travestido de inglês, Johan Eliasch, está reunindo potentados europeus para se valerem da abominável lei brasileira de gestão das florestas, adquirindo cada vez mais terras na Amazônia. Chegou a fazer contas, no que parece muito bom, e calculou que 50 bilhões de dólares bastam para comprar toda a região.

        Só ele detém 160 mil hectares no Estado do Pará, e continua comprando. Vale-se da nossa legislação lesa-pátria que dá 40 anos, renováveis por mais 40, para o comprador e seus descendentes fazerem o que quiserem com a terra: retirar madeira, explorar a flora medicinal, extrair do solo os minerais que bem entenderem, exportando-os, e, quem sabe, de quebra, manter em cativeiro algumas araras.

        Como mr. Eliasch exerce as funções de assessor especial do governo da Inglaterra, é bem provável que numa dessas viagens do primeiro-ministro à América do Sul acabe condecorado pelo Itamaraty.

        Por certo que não se trata de uma declaração de guerra, esse convite para os banqueiros internacionais comprarem a Amazônia, mas no reverso da medalha não pode ser ignorada pelo governo brasileiro. É um bandido. Um pirata dos tempos da rainha Elizabeth I. Como reagiriam os ingleses se um banqueiro brasileiro começasse a juntar seus companheiros para adquirir o Big-Ben?


         

         

         

        Folha Online

        RENATA GIRALDI
        da Folha Online, em Brasília

        Câmara aprova em 1º turno a PEC que aumenta o número de vereadores

         

        A Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira, em primeiro turno, a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que aumenta de 51.748 para 59.791 o número de vereadores.

        Após uma intensa discussão e mudanças de última hora, os deputados aprovaram por 419 votos favoráveis, 8 contrários e 3 abstenções o texto principal cujo relator, deputado Vítor Penido (DEM-MG), fazia alterações a cada nova polêmica.

        Nesta quarta-feira deve ser feito um esforço para a realização do segundo turno de votação da PEC dos Vereadores. Aprovada em segundo turno, a proposta será enviada para o Senado, que também deve submetê-la a dois turnos de votação com intervalo de cinco sessões entre elas. Para ser colocada em prática já a partir das eleições de outubro, a emenda tem de ser votada até 30 de junho.

        Pelo texto aprovado na Câmara, os municípios terão de gastar no mínimo 2% do orçamento que dispõe com as câmaras de vereadores e, no máximo, 4,5%. Os percentuais variam com base no número de habitantes e do total da receita arrecadada pelos municípios. Na prática, houve um corte de aproximadamente 50% na definição de gastos.

        Segundo Penido, a aprovação da emenda poderá garantir uma redução anual de gastos para os municípios. Pelos cálculos do deputado, atualmente o gasto total com as câmaras de vereadores é de cerca de R$ 6 bilhões. A partir da proposta, a despesa deverá ser de R$ 4,8 bilhões.

        Reflexos

        A proposta interfere basicamente nos municípios que têm de 15 mil a 1 milhão de habitantes. Pelo texto, o número mínimo de vereadores nos municípios com até 15 mil habitantes será de 9 vereadores e o máximo de 55, no caso das cidades com mais de 8 milhões de habitantes. Os cálculos consideraram 24 faixas diferentes para destinar o número de vereadores, de acordo com a quantidade de habitantes.

        Para o repasse do orçamento para as câmaras de vereadores, foram consideradas cinco faixas de receita. Os municípios que arrecadam até R$ 30 milhões terão de repassar 4,5% para as câmaras de vereadores; os que estão na faixa de arrecadação acima de R$ 30 milhões até 70 milhões terão de repassar 3,75%; já os que se encaixam entre R$ 70 milhões e 120 milhões terão de repassar 3,5% para as câmaras.

        Já os municípios que arrecadam de R$ 120 milhões a R$ 200 milhões deverão repassar 2,75% para as câmaras dos vereadores, enquanto os que têm arrecadação superior a R$ 200 milhões terão de repassar 2% para o legislativo.

        Negociações

        Desde 2004 a discussão sobre a PEC dos Vereadores tramita na Câmara. Sem consenso, o assunto foi submetido a várias mudanças e muitos debates. Nesta terça-feira, o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), comemorou a inclusão do tema na pauta.

        Já o vice-líder do PSOL na Casa, Chico Alencar (RJ), disse temer como serão executados os repasses para as câmaras de vereadores. O deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), disse também estar receoso sobre a forma como a votação ocorreu, uma vez que as alterações foram realizadas às pressas.

        Em 2004, uma resolução do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) extingüiu com 8.528 cadeiras de vereadores em todo país.

        26/05 - Por isso que o Morumbi ficou vazio ontem à  tarde, no jogo do Tricolor...

        ...tava todo mundo na Av. Paulista.!!!

         

         

         

        Folha Online

        RENATA GIRALDI
        da Folha Online, em Brasília

        Chinaglia encaminha representação contra Paulinho ao Conselho de Ética

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

         

        O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), afirmou nesta terça-feira que já enviou ao Conselho de Ética a representação contra o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força Sindical (PDT-SP), na qual sugere a abertura de inquérito.

        Segundo o petista, a decisão foi unânime por parte dos sete integrantes titulares da Mesa Diretora da Câmara. Chinaglia disse ainda que as eleições de outubro não deverão prejudicar a tramitação do processo contra Paulinho no Conselho de Ética.

        "Ano eleitoral não pode ser escudo senão daqui a pouco vão querer atuar contra a democracia", disse Chinaglia, informando ainda que não fez votação para definir pelo encaminhamento ao Conselho de Ética pois houve um acordo geral que o caso deveria ser enviado ao órgão.

        O corregedor-geral da Câmara, Inocêncio Oliveira (PP-PE), havia recomendado à Mesa Diretora da Casa, também hoje, a perda de mandato de dois deputados federais: Paulinho e Juvenil Alves (PRTB-MG). Inocêncio afirmou que "não há dúvidas" sobre as acusações aos parlamentares.

        Paulinho havia pedido, também nesta terça-feira, que Chinaglia enviasse o processo que o acusa de envolvimento no caso do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) ao Conselho de Ética.

        O pedetista é suspeito de envolvimento com o esquema de desvio de recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O esquema foi desmantelado pela Operação Santa Tereza da PF (Polícia Federal). Paulinho negou as acusações, afirmou que é vítima de "perseguição" e ganhou o apoio do PDT que se esquivou de encaminhar o caso para a comissão de ética da legenda.

        Juvenil é acusado de abuso do poder econômico. Ele é apontado pelo MPF (Ministério Público Federal) como mentor e chefe de uma complexa organização criminosa internacional denominada de "blindagem patrimonial". O esquema criminoso, desmontado pela operação Castelhana da PF em novembro de 2006, pode ter gerado aos cofres da Receita Federal um prejuízo de R$ 1 bilhão.

         

         

         

        Redação  

        Ministério lança novas imagens para embalagens de cigarro

        As novas advertências foram escolhidas em estudo pelo alto grau de aversão que causaram aos fumantes jovens

        SÃO PAULO - O ministério da Saúde lançou nesta terça-feira, 27, novas imagens de advertência para o verso das embalagens de cigarros. As imagens foram escolhidas com base em um estudo do Instituto Nacional do Câncer (Inca) que mediu o grau de aversão que as imagens alcançam.

        Foto: Divulgação

        "As imagens são fortes. Elas radicalizam a linha que vinha sendo adotada pelo Ministério da Saúde, mas foram construídos por um conjunto de evidências. Há toda uma avaliação para fortalecer essa estratégia", afirmou o ministro da Saúde, Jose Gomes Temporão.

        A pesquisa, desenvolvida de 2006 a 2008, mediu a reação que 212 pessoas entre 18 e 24 anos apresentaram às imagens. Foram selecionados para a pesquisa fumantes e não fumantes.

        Foto: Divulgação

        Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 90% dos fumantes adquirem o vício antes dos 18 anos, fazendo com que o tabagismo seja considerado uma doença pediátrica.

        "O nosso foco são os jovens. Nós percebemos que a indústria desenvolve estratégias para capturar essa garotada e queremos mostrar a outra face da realidade", disse o ministro.

        No estudo o Inca trabalhou em parceria com os Laboratórios de Neurobiologia da Universidade Federal do Rio de janeiro (UFRJ) e de Neurofisiologia do Comportamento da Universidade Federal Fluminense (UFF), com o Departamento de Artes & Design da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

        Política

        O Brasil adotou a política de imagens de advertência para a contenção do tabagismo em 2001, somente após o Canadá. A medida faz parte do Programa Nacional de Controle do Tabagismo, criado há 20 anos.

        Alguns resultados positivos já foram alcançados, como a redução da proporção de fumantes na população de 34,8%, em 1989, para 22,4%, em 2003.

        Fotos: Divulgação



         

         

         

        Processo contra YouTube ameaça a internet, diz Google
        O Google é o proprietário do site de compartilhamento de vídeos YouTube
         
        A empresa Google, proprietária do YouTube, afirmou que o processo judicial no valor de US$ 1 bilhão contra o site de compartilhamento de vídeos ameaça a liberdade na internet.

        A afirmação do Google foi feita depois que o grupo americano Viacom, um conglomerado de empresas do setor de entretenimento, anunciou que vai processar o site por sua incapacidade de manter material não autorizado fora da página.

        O grupo Viacom afirmou que conseguiu identificar 150 mil clipes não autorizados no YouTube.

        Os advogados do Google afirmaram no tribunal que a ação "ameaça a forma que centenas de milhões de pessoas trocam informações de forma legítima" pela internet.

        A equipe de advogados também afirmou que o YouTube obedeceu às exigências da lei de Direitos Autorais Digitais do Milênio, de 1998, e respondeu rapidamente a alegações de desrespeito desta lei.

        Nos documentos entregues ao tribunal de Manhattan, em Nova York, a Google afirmou que YouTube vai "além de suas obrigações legais para prestar assistência aos donos dos direitos, para proteger seus trabalhos".

        O grupo Viacom discorda, afirmando que nenhuma das duas empresas obedeceu aos padrões e acrescentou que Google e YouTube tinham feito "pouco ou nada" para impedir que material cujos direitos pertencem à empresa fossem colocados em suas páginas.

        Nova versão

        O conglomerado Viacom iniciou o processo em 2007 e entrou na Justiça americana com uma versão aperfeiçoada do processo em abril.

        "Quando entramos com este processo, não estamos apenas cuidando de nossos interesses, estamos cuidando dos interesses de todos que têm direitos autorais e que querem proteger estes direitos autorais", disse o presidente do grupo, Sumner Redstone no início do mês.

        "Não podemos tolerar a pirataria por parte de ninguém, incluindo o YouTube... eles não podem escapar (da lei) e roubar nossos produtos."

        O Google, por sua vez, respondeu que a única forma de resolver a questão seria na Justiça.

        "Vamos até o fim, até a Suprema Corte. Temos isso bem claro", disse o vice-presidente de parcerias de conteúdo do Google, David Eun.

        Depois do início do primeiro processo, o YouTube lançou uma ferramenta antipirataria que checa os vídeos colocados na página, comparando-os com o conteúdo original.

        Bob Esponja

        No processo, entregue em abril, o grupo Viacom alega que o YouTube permitia, sistematicamente, a divulgação de cópias não autorizadas de programas de televisão e filmes no site, que eram visto dezenas de milhares de vezes.

        O conglomerado afirma ter identificado mais de 150 mil destes abusos que incluíam clipes de programas como os desenhos Bob Esponja, South Park e programas como MTV Acústico.

        A companhia afirma que o desrespeito à lei no YouTube também inclui o documentário Uma Verdade Inconveniente, que foi visto cerca de 1,5 bilhão de vezes.

         

         

         

         

        Folha Online

        RENATA GIRALDI
        da Folha Online, em Brasília

        Para alegrar seu dia

        Lula ironiza Minc e diz que ministro falou mais em uma semana do que Marina em 5 anos

        O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ironizou hoje o novo ministro Carlos Minc (Meio Ambiente). Lula brincou que Minc em uma semana bateu o recorde da antecessora Marina Silva em quantidade de entrevistas concedidas à imprensa.

        "O Minc já falou em uma semana falou mais do que a Marina em cinco anos", disse o presidente. Em seguida, Lula disse uma alusão com o futebol: "Você entra para substituir o Pelé [Marina Silva]".

        O estilo despojado e moderno de Minc foi mantido na posse. O ministro usou um colete de lã em tom verde, camisa e calça sociais, e uma gravata artística, na qual estava escrito: "É proibido desmatar a Amazônia". Também manteve as pulseiras artesanais e o anel de prata com pedra de âmbar.

        Ao ser indicado ministro, Minc disse que não substituiria seu guarda-roupa por ternos e gravatas. Segundo ele, Brasília era "tão chata" que o meio para melhorá-la era, entre outras atitudes, manter seu estilo de roupa.

        Lula sugeriu ainda que se Minc tiver dúvidas, deve procurar conselhos de Marina. "É só telefonar para Marina".

        Homenagem

        Lula transformou nesta terça-feira a posse do ministro Carlos Minc (Meio Ambiente), no Palácio do Planalto, em homenagem à ex-ministra da pasta e senadora Marina Silva (PT-AC).

        Lula se esforçou para desfazer a imagem de conflito entre ele e Marina Silva e outros integrantes do governo, como os ministros Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos) e Dilma Rousseff (Casa Civil) e também de constrangimento com a saída da ex-auxiliar que virou uma espécie de símbolo de defesa ambiental.

        Lula praticamente dedicou a cerimônia inteira a fazer elogios à atuação de Marina. Apenas no final da solenidade mencionou Minc, quando disse que ele iria substituir uma espécie de Pelé ao ficar no lugar da ex-ministra. "Faz de conta que você está entrando no lugar do Pelé. O Pelé não era insubstituível. O Santos foi campeão do mundo contra o Milan sem o Pelé", afirmou Lula, referindo-se ao futebol e numa alusão que Marina seria o craque.

        Em seguida, o presidente não poupou elogios a Marina. "Eu posso dizer que o carinho, o respeito e da nossa relação de amizade e que nos momentos [mais difíceis] a nossa amizade é inabalável. Não há nada que possa dizer o 'Lula está magoado com a Marina'. E, não ficarei se o contrário não [ocorrer]", disse.

        Participaram da cerimônia os governadores do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), e do Piauí, Wellington Dias (PT), ministros, senadores e deputados, além de integrantes da bancada do Rio de Janeiro, além da própria Marina Silva e do ex-governador do Acre Jorge Viana (PT), que foi convidado para substituí-la.

        Na presença de Marina e Dilma, além de várias autoridades, Lula negou que as duas tenham tido divergências. Fez o mesmo em relação a Mangabeira. Em tom de brincadeira, o presidente disse que procurava saber quem era o "o pequeno anão" que passa informações à imprensa sobre eventuais divergências.

        Clima

        A cerimônia de posse de Minc marcou também o primeiro encontro de Lula com Marina. A ex-ministra não conversou nem se reuniu com o presidente desde que pediu demissão do governo. Ao ser questionada hoje se ela pretendia conversar com o presidente, Marina evitou responder.

        A saída de Marina do governo provocou críticas do presidente nas conversas com aliados. Lula não gostou da forma com sua ex-assessora deixou o Ministério do Meio Ambiente: por meio de uma carta de demissão encaminhada ao Palácio do Planalto.

        No entanto, publicamente, Lula optou por elogiar Marina. Esquivou-se de criticá-la, preferindo demonstrar compreensão pela decisão da ex-auxiliar, que deixou o Executivo, para retornar ao Senado.

         

         

         

        G1 o portal de notícias da Globo

        Mirella D'Elia Do G1, em Brasília

        STJ nega habeas corpus a pai e madrasta de Isabella

        Decisão foi unânime, quatro ministros da quinta turma votaram com o relator.
        Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá queriam esperar julgamento em liberdade.

        Por unanimidade, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou nesta terça-feira (27) o habeas corpus pedido pelo pai e pela madrasta da menina Isabella, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, para responder em liberdade ao processo. O tribunal julgou o mérito do pedido, ou seja, analisou a questão em definitivo.
        Logo após a decisão, o advogado do casal, Marco Polo Levorin, disse que não pretende recorrer agora ao Supremo Tribunal Federal (STF) e que, dependendo do resultado, pode entrar com um outro pedido no STJ. "Vamos aguardar o julgamento do mérito pelo Tribunal de Justiça de São Paulo", afirmou.

        Perguntado por jornalistas se teria sofrido uma derrota, o advogado respondeu. "No nosso entendimento, a prisão é ilegal. Não há razão para custodiá-los", declarou.

        O julgamento

        Durante o julgamento, os outros quatro integrantes da Quinta Turma do STJ seguiram o voto do relator do pedido, Napoleão Nunes Maia Filho, que já negara liminar (decisão provisória) ao casal no dia 16 de maio.

        A decisão foi técnica. O relator reafirmou ser contrário à liberdade do casal. Ele lembrou que, por entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na súmula 691, não caberia entrar com o habeas corpus no STJ contra decisão de um tribunal de instância inferior [o Tribunal de Justiça de São Paulo], que ainda não julgou a questão em definitivo, mas apenas negou uma liminar. “O meu voto é pelo não conhecimento [do pedido]”, disse durante o julgamento.

        “Embora o caso tratado tenha tido ampla repercussão, tecnicamente ele é bem simples. Não há hipótese, nem de longe, de exceção à súmula do Supremo”, disse o ministro Félix Fischer.

        O relator ressaltou que o tribunal não está formando um “juízo de culpabilidade”, mas verificando se os decretos de prisão do casal são sustentáveis do ponto de vista jurídico e não “monstrengos”. Para ele, não houve excesso na decisão da justiça que aceitou denúncia contra o casal, como alegado pela defesa. O ministro declarou que houve indícios suficientes para abrir processo contra eles.

        Defesa

        A defesa solicitava não só a libertação do casal, preso em penitenciárias de Tremembé, a 138 km de São Paulo, mas também a anulação da denúncia do Ministério Público, aceita pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).

        A decisão de recorrer ao Superior Tribunal de Justiça foi tomada pelos advogados de defesa após o desembargador Caio Canguçu de Almeida, da 4ª Câmara do Tribunal de Justiça de São Paulo, negar um primeiro pedido de habeas corpus em 13 de maio.


        Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá foram indiciados pela morte da menina Isabella em 29 de março. A criança morreu após ser jogada da janela do apartamento de Alexandre, no 6º andar de um edifício na Zona Norte de São Paulo. O casal está preso desde 7 de maio. Após várias transferências, atualmente, os dois foram levados às penitenciárias de Tremembé.

        Para alegrar seu dia
         
        Steely Dan- Do It Again
        5th Dimension - Age Of Aquarius Let The Sunshine In
        Voyage-SOUVENIRS

        Marilyn McCoo & Billy Davis Jr.- You Don't Have to Be a Star
        Grace Jones - La Vie En Rose
        Loleatta Holloway-RUNAWAY
        El Coco - Cocomotion
        Tavares - Heaven Must Be Missing An Angel
        Ritchie Family - The Best Disco In Town

         

         

         

        Blog do Sérgio Dávila

        Sérgio Dávila

        Recontar para não mudar

        Enquanto esperávamos pelo discurso de Barack Obama em Des Moines, no Iowa, na última terça-feira, uma amiga e eu discutíamos se John Edwards afinal é ou não um superdelegado. Ex-senador pela Carolina do Norte, ex-candidato a vice- presidente na chapa de John Kerry em 2004, ex-pré-candidato a presidente na corrida democrata atual, o político-coxinha de 54 anos tinha tudo para ser um deles.

        "Superdelegados" são uma invenção dos anos 80 e designam os cerca de 800 membros do partido de oposição a George W. Bush que votam de acordo com a própria veneta, sem dar satisfação a ninguém e desvinculados do voto popular.

        Foram criados como um mecanismo de segurança, para impedir que um concorrente ultrapopulista ou que fuja muito da cartilha do partido seja sagrado candidato.

        Pergunta daqui, pesquisa dali, apura acolá, a conclusão: John Edwards não é um superdelegado.

        No caminho, no entanto, fui pensando como os norte-americanos gostam de complicar as coisas simples. A escolha do candidato presidencial é um exemplo. Os "superdelegados" foram criados, na verdade, para salvar o povo de sua própria vontade. É uma das inúmeras travas e freios entre o ato de votar em um nome e esse nome assumir a Casa Branca. Há quem argumente -pessoas mais inteligentes do que eu, concedo- que o sistema todo serve para dar mais transparência a esse processo de escolha.

        Pode até ser. Eu respondo com uma frase: eleições de 2000. Como já contei aqui, saí de casa em Manhattan naquele novembro para passar um fim de semana em West Palm Beach, na Flórida, para reportar os problemas aparentemente simples e de fácil solução que envolviam umas cédulas eleitorais. Fiquei mais de um mês. No período, aprendi mais do que qualquer ser humano normal, inclusive eu, desejaria jamais saber sobre "chads pendurados", "chads estufados" ou "grávidos" e quetais.

        ("Chad" é o retangulozinho de papel que a cédula solta ao ser perfurada; o estufado revelaria a intenção do eleitor, não-realizada por um problema da física; o pendurado, idem, mas com intensidades diferentes, dependendo de por quantas beiras está pendurado, se uma, duas ou três -pendurado por quatro volta à categoria de "chad estufado".)

        Meus dois neurônios fizeram a sinapse e relacionaram os dois eventos, o das tecnicalidades envolvendo os "superdelegados" das eleições atuais e o das tecnicalidades envolvendo os pedacinhos de papel que, em última análise, acabaram por dar a Presidência a George W. Bush. Eles (os neurônios) foram estimulados pelo anúncio, da HBO americana, de que exibe hoje o filme "Recount", que reconta justamente esse processo das eleições presidenciais de 2000.

        Vai ser engraçado encontrar na TV toda a turma daquela época -Katherine Harris, a então secretária de Estado da Flórida, uma arrecadadora dos Bush tão parcial quanto importante no caso, já que era a responsável pela condução do processo eleitoral, interpretada aqui pela atriz Laura Dern; James Baker, o ex-secretário de Estado de Bush pai e enviado do time de Bush filho, interpretado pelo britânico Tom Wilkinson; quem será que fará a jornalista Greta Van Susteren pré-operação plástica, que dividia os plantões conosco e hoje, convertida à causa ultraconservadora, é uma das estrelas da Fox News?

        Mas já sei o que vou achar: quanto mais esse país roda, mais fica no mesmo lugar.
        Recount

        Obama quer novo enviado às Américas e encontro anual com líderes

        Pouco antes de divulgar sua política para a América Latina, na sexta, em que diz que
        apoiará a Colômbia em invasões territoriais atrás das Farc, Barack Obama conversou com Andres Oppenheimer, em Miami. O veterano jornalista acha que ele fez a lição-de-casa desde o último encontro dos dois, há dezoito meses, em que o candidato mal sabia os nomes dos presidentes do continente. Agora, não falou nada muito além do que discursaria logo depois, mas dois pontos da conversa chamam a atenção:

         o senador disse que pretende recriar o cargo de enviado especial para as Américas, que existiu até o governo Clinton. Na verdade, hoje esse posto é ocupado pelo secretário-assistente Thomas Shannon, mas ele responde a Condoleezza Rice, e o homem de Obama responderia ao próprio, segundo ele;

        tentaria fazer da Cúpula das Américas, que hoje se reúne a cada três anos, em um evento anual.

        Além disso, urgiria a OEA a tomar alguma medida em relação aos arquivos encontrados nos computadores dos líderes das Farc que citam Hugo Chávez e Rafael Corrêa. Nesse ponto, Obama reforça uma certa guinada à direita em seus discursos anteriores. Os eleitores podem aguardar novas guinadas. O provável é que Obama e McCain se encontrem em algum lugar do centro, para atrair o maior número de independentes, que devem desempatar essa eleição.

         

         

         

        Buemba! O Simão descobriu: a Marta é uma dragão queen!

        Buemba! Monkey News de segunda-feira. O Simão voltou a trabalhar. E isso quer dizer que tem piada pronta na área. A América Latina é o continente da piada pronta. Nesse fim de semana, as Farc anunciaram a morte de seu comandante, o "Tirofijo". Sabe quem assumiu no lugar dele? O "Cano"! Morre o tiro e fica o cano! Rarará! Essa é a prova mais contundente de que as Farc estão acabando! Que guerrilha é essa! Rarará!



        E outra coisa do fim des semana, que o Simão não foi, mas viu em todos os sites: a Parada Gay, o dia do borbulho gay! E qual a foto que mais borbulhou? A Marta, a madrinha da Parada.



        É praticamente uma drag queen; Drag, não. Dragão. Dragão queen! Rarará!

        Na foto não dá pra ver, mas ela usava um jeans dois números a menos. Deus é justo, mas o jeans da Marta é muito mais. Mas ela apoiou a primeira parada, ela que entrou com o projeto da união civil. Tanto que uma biba me diz sempre o seguinte: "Bicha que não vota na Marta é viado mal agradecido!" rarará!



        E o Kassab, que fecha tudo, dessa vez abriu a parada. Aí ele com a Isabelita dos Patins, outra drag bem conhecida. E o Kassab, pela defesa contra a homofobia, ganhou a chave da cidade do prefeito de Miami. Sabe o que ele vai fazer com a chave? Fechar bordel e boate! Rarará!

        E o nosso Ronalducho aproveitou a Parada Gay para lançar um evento futeBOIOLÍSTICO! Porque o que tinha de traveca com uniforme do Brasil em apoio à traveca do Ronaldo... estavam todas de meião, camiseta amarela com número 9 e shortinho atochado. Aliás, é tanta traveca que a Parada vai mudar o nome para Operada! Rarará!



        Se joga, Ronaldo! Rarará! Agora, imagina o Ronaldo na Parada Gay? Ele ia pensar que eram 3 milhões de garotas de programa. É em São Paulo foi assim: o Kaká foi pra Marcha de Jesus e o Ronaldo foi para Parada Gay. Cada um no seu campo! Rarará!

        E o Simão foi passar o feriado em Minas, fazendo uma trilha. E ele viu uma coisa incrível. Tem um motel em Minas chamado "Motel Itamar". Se tem uma coisa que não combina com motel é o Itamar. Só se o cara quiser broxar! rarará! Deve ter xampu de Viagra pra manter o topete de pé. Rarará! É piada pronta. E de mau gosto!

        E pegando carona nessa tendência de travecas que o Ronaldo lançou, o Simão descobriu como é a versão mineira de travesti. "Travesti é como torresmo: é uma delícia de comer, mas ninguém recomenda!" Rarará! E mineiro também diz que torresmo é uma paixão. Vai direto pro coração! Rarará!

        E os mineiros adoram o Aécio. É o melhor governo a distância que existe. Ele dirige Minas do gabinete do Leblon. Minas é linda, mas é assim: primeiro tem uma montanha, depois uma montanha mais alta, e depois uma outra montanha mais alta ainda.

        E tem ainda a CPMF, que todo mundo comenta, mas é um assunto chatérrimo, principalmente se a gente voltar a pagar!





        Outro dia o Simão ouviu um programa evangélico dizendo assim: "Mofo, vazamento, encosto." Vamos incluir a CPMF também? Tem que desencapetar o encosto. Rarará!

        Ilustrada

        Esse é um exemplo de cidadão, que respeita a sinalização!



        O problema é que ninguém quis cruzar com ele! Rarará!

        Antitucanês, mais direto impossível

        O antitucanês não é só no Brasil. E agora ele chegou a Dublin, na Irlanda. Um internauta que mora por lá mandou uma foto de um estabelecimento que tem no aeroporto de Dublin!
        Se quiser tomar alguma coisa, vá tomar no Cú Bar! Rarará!

        Cartilha do Lula

        Gaivota - é o companheiro GAY que VOTA! É um GAYVOTA! Rarará!

         

         

         

        Apagão Carcerário

         


        Na primeira reportagem da série especial sobre o sistema carcerário brasileiro, você vai ver o retrato de uma estrutura falida, insegura e malcheirosa.

        Se o retrato do que acontece atrás das grades de uma prisão é o espelho de uma sociedade, o Brasil pode entender a barbárie da qual se queixa nas ruas. Dentro das cadeias é ainda pior, conforme você acompanha na nossa série especial de reportagens "Apagão Carcerário".

        Em várias partes do Brasil nossas equipes de reportagem mergulharam num sistema que parece funcionar apenas para perpetuar o horror, e que torna quase impossível pensar na recuperação de quem entrou nele.

        "Isso aqui é uma fábrica de doido, porque não tem espaço pra gente aqui”, declara um detento.

        "A comida tá uma porcaria", reclama outro preso.

        “Um descaso, nós estamos largados à própria sorte", alega outro detento.

        Durante um mês e meio o Jornal da Globo acompanhou as investigações da CPI do Sistema Carcerário. Visitamos porões, corredores, pátios e celas de uma estrutura falida, insegura, malcheirosa... Um depósito de gente. O Brasil tem 422 mil presos. São necessárias mais 185 mil vagas.

        "Só vejo grades, paredes, até muralhas, mas meu pensamento eles nunca atrapalham”, canta o rapper Osmildo Santos, preso por assassinato no Instituto Penal Paulo Sarasate, na região metropolitana de Fortaleza. No presídio a polícia descobriu em fevereiro deste ano, um túnel de 45 metros, faltou pouco para os presos alcançarem o lado de fora.

        "O mundão aí fora, as crianças, os jovens, estuda. Não queira vir pra cá não, porque aqui é o inferno", alerta Osmildo Andrade Santos, preso.

        O inferno nesta penitenciária tem um apelido, Selva de Pedra: uma ala onde ficam os presos mais perigosos do estado. O aparato de segurança tem uma explicação: a polícia foi informada de que haveria uma arma de fogo com os detentos.

        Minutos depois da saída da equipe do JG, dois presos foram assassinados lá dentro com pedaços de ferro. Um deles estava com um cadeado na boca. Um recado macabro para quem, na lei do crime, fala demais.

        Em 2007, segundo o Ministério da Justiça, 1048 presos morreram dentro de cadeias e presídios brasileiros. Já para a CPI do Sistema Carcerário, o número é maior: 1250 mortos no ano passado.

        A média é de três mortes por dia. O presídio Urso Branco, em Porto Velho é um exemplo dessa violência. O local ficou famoso no mundo todo por causa das cenas de horror nas rebeliões de 2002 e 2004.

        Nos últimos cinco anos, mais de 100 presos foram assassinados dentro da cadeia. A maioria vítima de colegas de cela, que usaram o chucho, uma faca artesanal, para cometer o crime. Mas em dezembro do ano passado, um agente penitenciário foi surpreendido ao fazer uma revista. Ele levou um tiro no peito e morreu. Os presos estavam com dois revólveres dentro da cela.

        A reação da polícia deixou marcas. Dois presos foram mortos. O responsável por entregar as armas aos detentos, um outro agente penitenciário que acabou preso. Um ato que provocou mortes e um sentimento de revolta.

        “Revolta porque ele não só colocou a vida dos companheiros, ele colocou todo mundo em risco de vida", declara Wildney Jorge de Lima, diretor geral do Urso Branco.

        Estar na cadeia é correr riscos - seja preso, funcionário, policial ou visita. A dentista só concorda em tratar do paciente se ele estiver algemado. Para o detento, ficar numa ala dominada por uma facção rival é ser vizinho da morte.

        “Se eles souberem da gente, eles vão cortar nossa cabeça, então a gente corre perigo e nossos familiares não estão sabendo disso e nós precisamos sair daqui”, fala um detento.

        O perigo é real diz um agente penitenciário que pediu para não ser identificado. Ele conta que já viu diretor de presídio, por medo ou vingança, ordenar a transferência de preso para uma cela onde o detento só tem inimigos.

        “O cara chora, diz pelo amor de Deus. Mas a gente bota lá dentro. É determinação lá de cima. No outro dia o cara tá morto. Já aconteceu, acontece e vai continuar acontecendo”, conta o carcereiro.

        A Comissão de Diretos Humanos da Câmara dos Deputados recebeu em 2007, 60 denúncias de violência contra presos.

        "A gente não pode olhar pra eles, pedir uma regalia aqui, ou então uma melhoria, eles tiram a gente, às vezes, algemado e espanca lá fora", conta um detento.

        O agente penitenciário diz que os espancamentos são comuns e explica por quê. “Hoje uma cadeia superlotada, se não tiver, é até contraditório isso, mas se não tiver porrada, tem rebelião. Se você não quebrar os presos, eles vão vir pra cima de ti e vão te quebrar. Então é a sobrevivência do mais forte. Ou tu é a caça ou é o caçador", alega.

        Em Minas Gerais nos deparamos com a imagem do caos, que no local atende pelo nome de cadeia pública. Flagramos as celas abarrotadas. Em um distrito policial, em Contagem, no dia da visita da equipe do JG, 34 homens dividiam o espaço que seria para no máximo 15.

        "Tem dois meses que a gente tá aqui e não recebe nenhuma visita”, fala o preso.

        Na maioria das cadeias públicas do país, para dormir só revezando.

        “Metade em pé, metade deitada, porque tem 21 presos onde cabe seis", fala o detento.

        Na penitenciária de Florianópolis, Santa Catarina, a saída para a superlotação foi colocar os presos em contêineres com vigilância reforçada.

        Em Fortaleza, a campeã de reclamações é a comida. Presenciamos o almoço servido em sacos plásticos.

        "De repente eles sumiram com os vasilhames deles. Nós não sabemos a razão e o porquê, e para que eles não fiquem sem alimentação, a gente fornece então o tal do saquinho", explica Terezinha Barreto, vice-diretora IPPS.

        Nos bastidores, a polícia disse saber por que os presos ficam com os pratos de plástico. Para derreter e fabricar facas artesanais.

        Em um pavilhão do presídio central de Porto Alegre as celas não tem grades. Foram arrebentadas pelos presos. Para evitar rebeliões, a brigada militar dosa repressão e concessão. Ventiladores, televisores e geladeiras fazem parte do acordo.

        “É muito na relação de confiança. Nós temos uma superlotação. Se o preso não incomoda, faz tudo aquilo que é determinado pelas normas legais, pelas normas da administração, não tem porque não fornecer", alega o Tenente Cel. Éden, diretor do Presídio Central. Cada preso no Brasil custa R$ 1.600 por mês aos cofres públicos. É bem mais do que ganha um agente prisional em Goiás, que precisou comprar as algemas, porque o estado não fornece.

        “Meu salário é R$ 640 líquido, o contrato nosso é de R$ 700”, conta Humberto Stefan, vigilante penitenciário.

        “É um sistema falido, caótico, precário, terá muita dificuldade de recuperar um sequer", diz o deputado Neucimar Fraga, presidente da CPI do Sistema Carcerário.

        “O produto que sai do presídio é um individuo que está maximizado na carreira do crime, ele já aprendeu a praticar o crime e ele sabe que não ficará muito tempo preso. Isso foi a falência do sistema penal a longo prazo e é o problema que nós enfrentamos hoje“, fala Marcio Christino, promotor de Justiça Criminal – SP.

        É nesse ambiente que Padre Marco fala de paz e amor há mais de 12 anos.

        Questionado sobre se é difícil falar de Deus na cadeia, o padre Marco Pacerini, coordenador Pastoral Carcerária diz: “Acho que é mais difícil falar de Deus fora da cadeia, falar de Deus para os juízes que falam em nome de Deus, falar de Deus para os desembargadores que falam em nome de Deus, para a sociedade que enche a boca de Deus, para os evangélicos, os católicos e que deixam acontecer esse desrespeito à pessoa humana. A minha dificuldade é falar de Deus, de justiça, lá fora, não é aqui dentro não".

        O segundo distrito policial de Contagem, que aparece superlotado na reportagem, foi desativado pela secretaria de Defesa Social de Minas Gerais, depois da nossa visita e está passando por reformas. Os 114 detentos foram transferidos para outras unidades.

         

         

         

        Leandro Mazzini

        A grande jogada de Lula e Serra

        Há duas lógicas na venda da Nossa Caixa, banco do governo de São paulo, para o Banco do Brasil. Primeiro, o governador José Serra livra-se do incômodo de, futuramente, ser chamado de privatizador, uma pecha que a esquerda prega no PSDB. Outra é o bom acordo de compadres envolvendo os cofres públicos. Ao largo disso, trata-se de uma grande verdade oculta na grita dos bancos privados para que haja um leilão. Ninguém, nem os privados tampouco o BB, quer perder a bolada dos R$ 15 bilhões em depósitos judiciais. No entanto, claro, o BB sai na vantagem. Só instituições públicas podem administrar tais contas.

        Esse dinheiro é aquele que fica parado (aparentemente) sob a tutela do banco. O que se faz com ele? Empresta-se para o governo, a juros altos, e este financia obras ou empresta. A quem? Ao cidadão. No fim das contas, quem se responsabiliza pela bolada em jogo é a União. A Nossa Caixa, nas mãos de Serra e do presidente Lula, é um golpe constitucional no apetite dos bancos privados. E uma grande jogada política.

        E$peculadore$

        Responsabilizar a leve alta da inflação pelo aumento no preço dos alimentos é um acinte, disse à coluna um especialista no mercado. Justifica, e bem: as cotações das commodities agrícolas são feitas em dólar, que há meses só fazem desestabilizar-se frente ao real.

        E$peculadore$ 2

        Há dois anos, o dólar desvalorizou quase 90% enquanto o euro galga valores nas cotações.

        E$peculadore$ 3

        Os juros das commodities foram corrigidos com as cotações do petróleo e do minério, em índices assustadores. Não se pode imaginar que o cidadão beba petróleo ou coma pelots.

        Reforço carioca

        Geraldo Alckmin, pré-candidato do PSDB à prefeitura de São paulo, almoçou ontem com o deputado federal Otávio Leite (PSDB-RJ), entusiasta de suas campanhas desde 2006. Leite, rubro-negro, levou a tira-colo o presidente do Flamengo e ex-deputado Márcio Braga.

        Time do Alckmin

        Só que Alckmin, todo simpático, disse que seu time no Rio, para risada geral, é o Bangu.

        Time do Alckmin 2

        Dez deputados federais foram a São paulo ontem prestar apoio à candidatura do ex-governador.

        Brizola vive

        Leonel Brizola, que fundou aquele outro PDT, ganhou uma biografia organizada por Marieta de Moraes Ferreira, lançada ontem na Assembléia Legislativa do Rio.

        O reformista

        Incumbido pelo Planalto de percorrer o país a fim de derrubar obstáculos à reforma tributária, o ex-governador do Rio Grande do Sul Germano Rigotto terá missão árdua hoje. Participa, às 14h, de audiência pública na comissão especial que trata do assunto na Câmara. Rigotto é membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, patrocinado pelo presidente.

        Le squelette

        O Hotel Le Méridien, edifício mais alto de Copacabana, corre o risco de virar o grande esqueleto da praia no mais conhecido cartão-postal do país. Tal como o Hotel Nacional em São Conrado.

        Cascatão

        O grupo espanhol IberoStar, que levou US$ 15 milhões da Previ, fundo de pensão do BB, para reformar o hotel fechado, nada fez até agora. E pede mais dinheiro. O Le Méridien é conhecido pela sua cascata de luz no réveillon.

        Oposição na telinha

        O PPS começa hoje a veicular na TV suas inserções partidárias, durante a programação. Dia 29 terá o programa de 10 minutos em rede nacional.

        O pacificador

        O presidente do PPS, Roberto Freire, trabalha para apoiar a chapa dos seus sonhos: José Serra presidente, com Aécio Neves de vice. Conversa com os dois para isso. "São os dois melhores gestores do país, com os dois maiores colégios eleitorais", diz Freire.

        O opositor

        Para Freire, que apoiou Lula até 2004, é preciso a construção de um bloco de oposição que tire do governo "essa camarilha".

        Homens do presidente

        Quem representa o presidente Lula em viagens para vistoriar o PAC esta semana é o ministro das Cidades, Márcio Fortes. Ele e paulo bernardo (Planejamento) vão ao Maranhão e Rio Grande do Norte. Depois, Fortes vai para o Ceará, Paraíba, Rio, e enfim com Lula sobe para Belém, na sexta.


         

         

         

        Renata Lo Prete

        Cara de paisagem

        Decorrido um mês desde que o prefeito de Praia Grande, Alberto Mourão, foi apontado pela Polícia Federal como um dos personagens centrais do esquema de desvio de recursos do BNDES, seu partido, o PSDB, não se mexeu. A cúpula nacional, sempre pronta a comentar os escândalos com digitais petistas, jamais tratou do assunto formalmente.
        Provocado pelo presidente do Conselho de Ética tucano, deputado Affonso Camargo (PR), o presidente do PSDB paulista, deputado Mendes Thame, alegou que para tomar qualquer atitude é preciso aguardar o indiciamento de Mourão, também suspeito de ter passagens aéreas e estadia num hotel no Rio bancadas por uma casa de prostituição.

        Na raça 1. Para os líderes governistas que articulam o retorno da CPMF, pouco importa se a nova contribuição será questionada na Justiça. O grupo, que volta a se reunir hoje, espera apenas o parecer da Receita para dar roupagem legal à proposta. "Temos número na Câmara para tratorar. Depois, o STF decide", resume um dos envolvidos.

        Na raça 2. Secretários estaduais de Saúde desembarcam em peso amanhã na Câmara para pressionar pela aprovação da emenda 29, que destina mais recursos à área. Com ou sem nova CPMF.

        Veja bem. Carlos Alberto Direito, que paralisou o julgamento das pesquisas com células-tronco com um pedido de vista, não deverá declará-las nem constitucionais nem inconstitucionais ao retomar seu voto amanhã no STF. O ministro será contra, mas com outra argumentação.

        Assim não. O ministro Reinhold Stephanes (Agricultura) acha que a Embrapa tem tecnologia para aperfeiçoar os dados sobre desmatamento coletados pelo Inpe, mas não é chamada para o debate.

        Amuleto. Quando alguém comenta as sucessivas descobertas de campos de petróleo anunciadas durante sua gestão à frente da Petrobras, o baiano José Sérgio Gabrielli mostra a fitinha do Senhor do Bonfim que traz amarrada ao pulso: "E por que você acha que eu uso isso?".

        Muy amigo. Menos de uma semana depois de fazer elogios a José Serra num evento público em São Paulo, Lula riu gostoso ontem diante da sonora vaia produzida pelos petistas na platéia quando o prefeito de Diadema, José de Fillipi Jr., criticou em seu discurso o "baixo investimento" da administração estadual tucana no município.

        Onde já se viu? Em recente visita a Guarulhos para inaugurar obras, Lula passou um sabão no prefeito Elói Pietá (PT) por seu comportamento na sucessão municipal. Descontente com a vitória do deputado estadual Sebastião Almeida sobre a atual vice, Eneide Lima, na prévia petista, Pietá começou a "liberar" os partidos aliados para tomarem outro rumo na eleição.

        Costuras. Escolhido no domingo candidato do PT à Prefeitura de Salvador, o deputado Walter Pinheiro está praticamente fechado com PSB e PC do B. Com a ajuda do governador Jaques Wagner, tenta atrair o PV, que estava em negociação do prefeito João Henrique (PMDB).

        Missão. Ninguém entendeu a presença do senador Marconi Perillo (PSDB-GO) no encontro de deputados federais paulistas, ontem, em apoio à candidatura de Geraldo Alckmin a prefeito. Ou melhor, todo mundo entendeu que Perillo, amigo do peito do líder da bancada na Câmara, José Aníbal, estava ali exclusivamente para falar mal de José Serra.

        Porta-voz. Candidato à reeleição em Curitiba, Beto Richa (PSDB) fala hoje em nome de prefeitos do mundo todo em encontro sobre "Cidades e Biodiversidade" realizado em Bonn, na Alemanha.

        Tiroteio

        Escolas de lata são especialidade demo-tucana. Kassab as idealizou, quando secretário de Celso Pitta, e Alckmin as copiou no governo do Estado.

        Do vereador paulistano ANTONIO DONATO (PT) em resposta à atual administração, que critica Marta Suplicy por não ter conseguido acabar com as escolas de lata da rede municipal.

        Contraponto

        Imagem comprometedora
        Conhecido pelos inflamados discursos contra a "elite burguesa", o senador José Nery (PSOL-PA) foi alvo de brincadeiras dos colegas Heráclito Fortes (DEM-PI) e Marconi Perillo (PSDB-GO) durante recente missão parlamentar que percorreu seis países africanos. Na Nigéria, Nery se deixou fotografar com a comitiva a bordo de um vistoso Lincoln cedido pela embaixada.
        -Vou enviar esta foto já para a Heloísa Helena!-, ameaçou Perillo, referindo-se à presidente do PSOL.
        Nery pareceu levar na brincadeira, mas, ao desembarcar em São Tomé e Príncipe, fez questão de perguntar:
        -Aqui também tem aquele carro?

        Tentativas de apagar Maio de 68

        SCARLETT MARTON

        Descontextualizar os movimentos de 1968 é o primeiro passo para conferir a eles outro sentido e, assim, reescrever a história 

        NUM DE seus últimos comícios em abril de 2007, o então candidato à Presidência da República Nicolas Sarkozy exortou os franceses a liqüidar a herança de Maio de 68. A frase não se deveu apenas a mais um rompante do político nem sempre feliz em suas declarações; ela veio dar nome a um movimento que há algum tempo se mantém ativo.
        Porque, quando se trata de 1968, se tornou lugar-comum falar em liberação sexual. Visto como um conflito de gerações, se ele deixou alguma herança, teria sido a prática de uma educação laxista, que pôs em risco os valores basilares da sociedade.
        O fato é que não se pode dissociar os movimentos de 1968 do contexto histórico em que ocorreram. Se de forma aparentemente concertada eclodiram nos mais diferentes pontos do planeta, assumiram por certo colorações locais.
        No Brasil, 1968 esteve marcado pela luta contra a ditadura militar; nos EUA, veio reforçar os protestos contra a Guerra do Vietnã; na França, seguiu-se às revoltas dos camponeses, que haviam incendiado várias regiões do país. Descontextualizar os movimentos de 1968 é o primeiro passo para conferir a eles outro sentido -e assim reescrever a história.
        Em que pese a aparente contradição dos termos, estamos em meio a uma revolução conservadora dotada de uma radicalidade muito maior do que a revolução com que então se sonhou. É nesse contexto que se situam as apropriações ideológicas do maio francês; procurando "liqüidar a sua herança", elas visam sobretudo a desprovê-lo de seu conteúdo revolucionário.
        Que se tome "Amantes Constantes", de Philippe Garrel. O filme começa com uma cena das barricadas em Paris, em que o protagonista lança um paralelepípedo e logo aparece vestido com trajes do século 18. Ao associar de modo sub-reptício Maio de 68 e a Revolução Francesa, induz o espectador a ver o acontecimento, na melhor das hipóteses, como mais um feito da burguesia. Tanto é que, passados os primeiros minutos, explora as relações amorosas dos personagens, na trilha da invenção burguesa da vida interior.
        Também "Os Sonhadores", de Bertolucci, se inicia com uma cena de protesto em 1968, pretexto para que os três personagens centrais se encontrem. A partir daí, o filme narra as vivências que têm o irmão e a irmã, com o novo amigo, enclausurados num grande apartamento. Quando por fim uma pedra estilhaça o vidro da janela, eles saem do confinamento e se juntam a uma passeata. Nem por isso são levados a passar da esfera privada para a pública, pois a rua pode bem ser o prolongamento da casa.
        Apropriações ideológicas igualmente se verificam em boa parte das publicações mais recentes. Caso típico é o livro de André Glucksmann e seu filho Raphael, recém-lançado na França e já traduzido no Brasil. Com Maio de 68 explicado a Nicolas Sarkozy, Glucksmann sai mais uma vez em defesa do establishment.
        Se em 1968 fizera parte de um grupo maoísta, entre 1975 e 1977 se apresenta com Bernard-Henri Lévy sob a etiqueta de "novos filósofos".
        Visto com bons olhos pelo governo de Giscard d'Estaing, procura assegurar um bom lugar na cena parisiense. Desde então, segue a sua carreira bem-sucedida de autor mediático.
        A profusão de depoimentos sobre o maio francês nem sempre caminha a seu favor. Enfatizando seu caráter espetacular, acaba em geral por esvaziá-lo. Aqui se aplica bem um dos slogans que, inspirado nas idéias de Guy Debord, então se estampavam nos muros do teatro do Odéon em Paris: "Não nos demoremos no espetáculo da contestação, mas passemos à contestação do espetáculo". Comemorar o acontecimento pode bem contribuir para converter a memória coletiva em instrumento de domesticação.
        Maio de 68 não se situa, por certo, nos parâmetros das revoluções do século 20, como a russa ou a cubana. Pois, à diferença delas, seus participantes não pretenderam tomar o poder, mas quiseram contestá-lo.
        Os estudantes que em Paris então desceram às ruas se posicionaram contra as estruturas universitárias e a disciplina acadêmica, os mandarins da cultura e o dogmatismo reinante.
        Bem mais: puseram em xeque a autoridade em geral, desde a figura do catedrático, passando pela do policial, até a de um dirigente político, como De Gaulle.
        Uns vêem Maio de 68 como uma revolução política; outros como uma revolução cultural. Prefiro acompanhar Michel Serres, que o entende como a irrupção de uma radical transformação antropológica. Pois, então, inventou-se uma nova visão de mundo, uma nova concepção do homem e da sociedade. Se não vingou, nem por isso deixou de existir.

         

         

         

        Toda Mídia

        Nelson de Sá 

        Rombo, que rombo?

        Nas manchetes de Folha, "Globo" e "Estado", o déficit ou rombo nas contas externas, "o pior desde 1947" ou "da história", causado pela valorização do real. Para o Banco Central, o ritmo das remessas de lucros e dividendos deve cair e, a partir de maio, o saldo comercial deve crescer. E os investimentos externos no país devem financiar o rombo.

        O "Valor Econômico", com avaliação diferente sobre a notícia, nem menciona o rombo na sua primeira página.

         

         

        Cuba não tem liberdade, diz Obama

        Barack Obama, no discurso sobre a América Latina, abordou Brasil, Colômbia, Venezuela, mas o foco foi Cuba, até pela platéia. Abaixo, uma passagem, em vídeo do canal da Associated Press no YouTube.

        Obama não é diferente, diz Fidel

        Com chamada de capa no "Granma", mas sintomaticamente publicado na página 2, o colunista cubano Fidel Castro, agora "companheiro", não mais comandante, questiona pela primeira vez o candidato democrata Barack Obama. O presidenciável vem de detalhar o que pretende para a ilha e toda a América Latina, no que Fidel descreve como uma "fórmula de fome" para os cubanos.

        Em suma, escreve ele, "o discurso de Obama pode ser traduzido como uma fórmula de fome para a nação; as remessas, como esmolas; e as visitas a Cuba, como propaganda para o consumismo e o modo de vida insustentável que o apóia". O irmão Raúl, no poder, não opinou.

        A inflação emergente

        O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, posa com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em dia de noticiar um tremor posterior ao terremoto no país, hoje no "China Daily". Em meio a novos relatos heróicos, nada do escândalo de construção das escolas que desabaram.

        Sobre a inflação, que a nova "Economist" avisa ter como foco os Brics, o jornal estatal afirma que "as velhas ferramentas não são o bastante para conter". Por velhas ferramentas, entenda-se a alta dos juros, o que o banco central chinês já fez, sem resultado. A saída seria elevar a oferta de carne, ovos, produtos agrícolas.
         
        O "Hindu", que traz em manchete a ascensão da oposição conservadora nas eleições regionais na Índia, destaca também a inflação, com as altas dos preços de gasolina e diesel.

         

         

         

         

        Reinaldo Azevedo

        FAÇAMOS O QUE DILMA NO FEZ NO PROGRANA DO JÔ:FALAR A VERDADE

        Falarei de Dilma Rousseff? E o que faz esta foto aí acima? Vocês entenderão.

        A ministra estreou ontem como “política” com aspirações a testar um dia a sorte nas urnas. Sim, até havia pouco, Dilma só fazia pronunciamentos mais ou menos oficiais, mesmo quando no “palanque”. No começo desta madrugada, no programa Jô Soares, assistimos à performance da candidatável. Performance fraca. Dilma é ruim de cintura pra chuchu. Fernando Haddad, da Educação, no mesmo sofá e diante de um entrevistador igualmente friendly, conseguiu ser mais palatável. Ele também superestimou, como de hábito nessa profissão, os números de sua pasta. Mas é dono de uma fala bem mais fluida e de um discurso mais organizado do que o da companheira. E não precisou exagerar no oposto da verdade — que vem a ser a famigerada “mentira”. Tenho uma vaga memória da Família Trapo. Ontem, o Bronco, Ronald Golias, certamente teria feito a festa.

        A grande mentira
        Num post da noite passada, chutei que Jô Soares poria no ar, mais uma vez, o discurso de Dilma respondendo àquela famosa pergunta do senador José Agripino (DEM-RN) durante o depoimento da ministra na Comissão de Infra-Estrutura. Na mosca! Mais uma vez, tivemos de ouvir Dilma dizer que mentiu, sim, sob tortura, “o que não é fácil” (claro, fácil é mentir no sofá, não na cadeira do dragão). Mais: daquele seu discurso, ecoa a frase: “Na democracia, senador, a gente diz a verdade”. A platéia e o apresentador aplaudiram. E Jô Soares: “O senador poderia ter ficado calado. Que vergonha!”

        É mesmo. Uma vergonha! Minutos antes, diante de um Jô Soares sempre muito amigável, ela tinha acabado de negar a existência do dossiê — o mesmo hoje reconhecido até pela Polícia Federal. Insistiu na tese do banco de dados. E não teve receio: “Se tiraram informação de lá, é outra coisa”. Quem “tiraram”, cara pálida? Já está provado também que o arquivo nos computadores da Casa Civil é rigorosamente igual ao dossiê divulgado.

        Ok. Jô Soares não faz jornalismo, mas entretenimento. Nada contra. Se, no entanto, entrevista uma ministra de estado e trata de política, parece-me que o entrevistado tem de ser confrontado com os fatos. A ministra aplaudida porque, no Senado, num rasgo retórico, afirmou que, na democracia, é preciso dizer a verdade tinha acabado de contar uma estrondosa mentira. E não parou por ali. Afirmou que conheceu vagamente o agora ministro Carlos Minc (Meio Ambiente). Não! Ambos pertenceram ao mesmo grupo terrorista, a VAR-Palmares, nascida da aliança da Colina com a VPR. Ela planejou o assalto ao famoso “cofre de Adhemar”, que ele ajudou a executar. Dilma negou seu envolvimento direto no episódio — o que também vem a ser o oposto da verdade. Não participou da invasão da casa porque era importante demais na organização para se expor.

        Mais mentiras

        Mas e daí? O território era absolutamente hospitaleiro. Na passagem do primeiro para o segundo bloco, travou-se o seguinte diálogo:
        Jô – Tenho muita admiração por sua participação na luta armada. Eu sei que você fica sempre muito acanhada quando se fala nisso.
        Dilma – Não é acanhada. Eu fico sempre muito emocionada.

        Na volta do intervalo, Dilma vendeu a tese furadíssima, também mentirosa, de que a guerrilha e o terrorismo foram só uma forma de resistência à ditadura. E atribuiu a própria luta ao que chamou “generosidade dos jovens”. Comentando o assalto ao cofre do Adhemar, recorreu ao sujeito indeterminado: “fizeram”, “pegaram”, “o que se dizia é que tinha documentos”... Tratou do episódio como se não fosse com ela.

        Como se nota, essa gente só reivindica heroísmo quando pode aparecer como vítima. Num dado momento da conversa, contou que chegou a cozinhar com Carlos Lamarca. Deve ter sido realmente um momento encantador. Em 1970, ano em que Dilma foi presa, Lamarca tinha como seu prisioneiro o tenente Alberto Mendes Júnior, da PM de São Paulo. É aquela foto lá do alto. A exemplo de Dilma ao ser presa, ele também tinha 23 anos (ela faltou com a verdade no Senado ao dizer que tinha 19). Mas o tenente teve menos sorte do que a agora ministra: Lamarca e os companheiros esmagaram seu crânio a coronhadas de fuzil. Segundo a Dama de Vermelho, o assassino cozinhava muito bem. Mas esmagava crânio com ainda mais competência. Ela falou do terrorista com doce nostalgia.

        Dilma também se escusou de dizer a verdade — para quê?; não havia menor necessidade — ao comentar a saída de Marina Silva. A sua versão foi de fazer inveja aos melhores momentos do estado soviético: Marina teria saído porque julgou “que o trabalho dela havia sido concluído”. Ora, nem a carta de demissão da ex-ministra permite essa ilação.

        Mentiras outra vez
        A “entrevista” começou e terminou com o PACtóide. Revejam a fita. Dilma Rousseff afirmou sobre o programa: “quase R$ 504 bilhões [de investimento] que nós fizemos neste período”. Assim mesmo. Com o verbo no passado. Como se todo o dinheiro que se ambiciona ter para o PAC até 2011 já tivesse sido investido. Em São Paulo, disse, “o investimento chegou a R$ 8 bilhões”. De novo, com o verbo no passado. Assim como é fácil vender terrorismo como resistência, também se consegue fazer gato passar por lembre. Do que estava previsto para o PAC no ano passado, foram gastos apenas 28%. Neste ano, até meados deste mês, ridículos 0,57%. Vale dizer: o governo tem mais sete meses para tentar gastar 99,43%... Estes números foram exibidos pela senadora Katia Abreu (DEM-TO) no dia do showzinho particular de Dilma e não foram contestados pela ministra. Nem podem. São dados oficiais, do Siafi.

        Lula é o pai do PAC; Dilma é a mãe. Chamem Golias. Vamos reeditar a Família Trapo.

        PS: Ah, sim. Ex-fumante, a ministra admitiu que, de vez em quando, dá umas baforadas em cigarrilhas — que, consentiu, podem ser até as alheias. Quem fuma cigarrilhas holandesas — Café Crème (R$ 13 por 10 unidades) — por ali é Lula. Vai ver ela anda baforando as cigarrilhas do presidente. Teria vindo daí a suposição (que tanto inquieta boa parte do PT) de que ela é a preferida do Apedeuta para a as sucessão? O cachimbo da gramática, este ela já partilha com Lula: segundo disse: “Nós precisamos DE melhorar a transparência”. Nem diga.

        PS2 - Fiquei sabendo que Dilma, a mãe do PAC, se refere a Roberto Teixeira, o primeiro-compadre, como "paizinho". Huuummm. Vai ver ele é o avô do PAC.


         

         

         

        Lucia Hippolito

        Lucia Hippolito

        O PT contra Fernando Pimentel

        A Executiva Nacional do PT insiste em manter o veto à aliança entre PT e PSDB em Belo Horizonte.

        Só para lembrar: a aliança foi costurada entre o governador Aécio Neves (PSDB) e o atual prefeito da capital, o petista Fernando Pimentel.

        O candidato será Márcio Lacerda, do PSB, secretário de Aécio e aliado do deputado Ciro Gomes.

        É claro que seria recomendável que os partidos da base governista fizessem alianças entre eles para a disputa municipal.

        Mas acontece que as coisas não se comportam assim na política brasileira. Enquanto não for alterada a lógica atual, a política regional continua poderosíssima.

        Não parece ser outra a razão do veto da Executiva Nacional. Aparentemente, os petistas tentam impedir o fortalecimento do tucano Aécio Neves, liderança nascida e criada fora de São Paulo.

        E tucanos e petistas têm sua principal força em São Paulo – e não pretendem perder o controle para lideranças de fora do estado.

        O PT paulista foi duramente atingido pelo escândalo do mensalão e dos “aloprados” que queriam comprar um dossiê contra José Serra.

        Porém, continua controlando com mão de ferro o aparelho partidário. Só aceita lideranças paulistas – ou não-paulistas, mas sob seu controle.

        Na realidade, o PT não quer barrar o crescimento da liderança do governador Aécio Neves, mas da liderança do prefeito petista Fernando Pimentel. Também nascido e criado fora de São Paulo. Inadmissível para aqueles que controlam o PT.

        Como até as árvores da avenida Afonso Pena já sabem, Fernando Pimentel é o candidato de Aécio ao governo de Minas em 2010.

        E sem a bênção de Aécio Neves, não se elege nem síndico de edifício em Minas Gerais, hoje em dia.

        O ministro Patrus Ananias sabe disso. O ministro Luiz Dulci também.

        Este parece ser o verdadeiro sentido do veto à aliança entre tucanos e petistas em Belo Horizonte.

         

         

         

        Tribuna da imprensa online

        Carlos Chagas

        A arte de dupligovernar

        BRASÍLIA - Ao assumir o primeiro mandato, mesmo sem ter lido o fenomenal "1984", de George Orwell, o presidente Lula decidiu copiar parte do singular modelo de governar exposto no texto. Porque, pelo livro, aliás, escrito em 1937, os donos do poder ditatorial no mundo inteiro utilizavam o artifício de "duplipensar". Traduzindo: os povos, todos escravizados, deveriam acostumar-se a viver sabendo que amor era ódio, paz era guerra, preto era branco. E assim por diante.

        O nosso "Grande Irmão" do lado de cá do mundo aprimorou a controversa estratégia. Não apenas passou a "duplipensar", como inaugurou o "dupligovernar".

        Nos principais setores de atuação do governo, o Lula sobrepôs e continua até hoje aplicando conceitos, programas e personagens, uns contra os outros. Começou na política externa. O ministro de Relações Exteriores era e ainda é o embaixador Celso Amorin, mas, no Palácio do Planalto, a política externa era e ainda é conduzida pelo assessor especial, Marco Aurélio Garcia.

        Não raro conflitam-se as metas de lá e de cá, como se confundem os interlocutores internacionais do Brasil. Mas teve e tem mais, porque o então chefe da Casa Civil, José Dirceu, despachou-se por meio mundo, celebrando acordos, acalmando credores e expondo uma terceira face da política externa brasileira.

        Catapultado, Dirceu foi substituído pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, que também percorre os vários continentes, exercendo funções que dentro da racionalidade seriam do Itamaraty.

        Mas tem mais. Na política econômica, registraram-se desde o início o "duplipensar" e o "dupligovernar". Mandava Antônio Palocci, na Fazenda, ou mandava Henrique Meirelles, no Banco Central? Hoje, em vez de Palocci, entrou em campo Guido Mantega, mas a dualidade é a mesma. Luiz Furlan, no Desenvolvimento Industrial, como agora Miguel Jorge, parecem pilotos de um avião proibido de aterrissar, mesmo com o combustível esgotado.

        No Meio Ambiente, outro video-tape dessa estranha maneira de governar. Com Marina Silva, até pouco, e agora com Carlos Minc, a política ambiental fugiu do respectivo ministério. O leme encontra-se disputado por Mangabeira Unger, Reinhold Stephanes e até pelo governador Blairo Maggi, de Mato Grosso, cada qual buscando a sua praia. Trata-se de uma sopa de letrinhas em alfabetos diversos, do latino ao árabe. Não dá para formar palavra alguma, quanto mais uma frase.

        Os exemplos repetem-se todos os dias. Quem coordena e dirige a reforma agrária? O ministro da pasta, Guilherme Cassel, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, ou o ministro da Justiça, Tarso Genro?

        Numa palavra, o "Grande Irmão" a todos confunde e a todos controla. Talvez por isso seja tão popular e, quem sabe algum dia, entre lágrimas, venhamos a reconhecer: amamos o "Grande Irmão"...

        Perda fundamental

        Perdeu o Senado uma de suas maiores figuras, aliás, magro, seco, inflexível e ético como poucos. O senador Jefferson Peres já faz falta, mesmo falecido há quatro dias. Era tão competente como representante do Amazonas que chegava a imaginar serem todos como ele, em matéria de objetividade e dignidade. Clamava pela ação do governo na região e não fazia caso das ameaças de internacionalização, registrando sempre que nem a ONU nem qualquer organização internacional teria poderes e condições para tanto.

        Muito menos os Estados Unidos, dizia, porque os tempos eram outros, diversos da política do "big stick". Seus amigos alertavam para o perigo de tanto idealismo, tendo em vista que depois de Teddy Roosevelt os americanos meteram-se em mil e uma guerras e invasões, culminando agora com o Afeganistão e o Iraque. Ele sorria e apelava para que tivéssemos um pouco mais de confiança no gênero humano. Mas não deixava de brandir tacape e borduna no governo, qualquer governo, aliás, não apenas do Lula. A política para a floresta é que estava errada, como vai continuar errada depois da partida de Jefferson Peres para o céu.

        A hora do basta

        Tudo tem limite. São nossos irmãos, credores de uma civilização que os dizimou, merecem todos os cuidados do poder público, como brasileiros que são, mas os povos indígenas estão exagerando. Só na semana que passou atropelaram quantas vezes a lei?

        Nada há a opor a que apareçam pintados, seminus, cheios de penas, com arcos e flechas nas reuniões de seu interesse. Trata-se da cultura deles, que devemos respeitar. O que não dá para aceitar é que compareçam armados de facões e, pior ainda, os utilizem para demonstrar seu desagrado, ferindo pessoas que defendem interesses diversos dos deles. Ou que seqüestrem funcionários públicos com invulgar rotina, interrompam o tráfego em rodovias e promovam entreveros que nem sempre se devem ao fato de terem sido provocados.

        Existem tribos perdidas no fundo da floresta ainda vivendo como há mil anos, mas os povos indígenas que se manifestam, democraticamente ou não, falam pelo telefone celular, manobram computadores e moram nas cidades, freqüentando as aldeias apenas para marcar posição. Estão e mais querem aculturar-se, apesar das pinturas e das danças de guerra.

        Não são mais incapazes, conforme o velho Código Civil de Clóvis Bevilacqua, mas relativamente capazes. Merecem todos os cuidados do poder público, que tem sido uma lástima e uma vergonha para nós, mas permitir que façam justiça pelas próprias mãos é coisa de ONGs malandras, interessadas em dominá-los e em transformar tribos em nações, para depois dominá-las.

        No recente episódio de Altamira, quando agrediram com bordunas e atacaram um engenheiro da Eletrobrás com facões, importa revelar: quem comprou cem desses facões no comércio local foi o Cimi, órgão da Igreja. Lutar para preservar, sim. Lutar para impedir a exploração econômica, também. Mas lutar porque alguém pensa e se manifesta diferente deles, jamais...

        Os cavaleiros de Granada

        Reuniram-se em Brasília quase todos os presidentes das Repúblicas da América do Sul. Cada discurso mais vibrante do que outros, todos em defesa da soberania do continente, da Amazônia, dos povos que habitam essa e outras regiões. Convescotes, também, abraços, tapinhas no ombro, até de personagens em litígio. Qual, no entanto, o resultado prático da criação da União das Nações Sul-Americanas?

        Nenhuma situação que lembre os versos de Cervantes sobre os cavaleiros de Granada, aqueles que alta madrugada, brandindo lança e espada, saíam em louca cavalgada. Para quê? Para nada...

         

         

         

        Valor Online

        Em Diadema, presidente elogia o prefeito e candidato à reeleição

        Embora na fileira atrás de seu púlpito estivessem dois ministros petistas candidatos nas eleições municipais deste ano a prefeituras estratégicas para a legenda, Marta Suplicy (Turismo), em São Paulo, e Luiz Marinho (Previdência), em São Bernardo do Campo, o candidato eleito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ser o alvo de seus elogios não era da Esplanada, e sim o dono da festa: o prefeito de Diadema, José de Filippi, ex-tesoureiro do PT que tentará a reeleição em outubro. 

        As menções a ele e à "revolução" que, segundo o presidente, Filippi deflagrou na cidade ocuparam praticamente todos os 21 minutos do discurso de Lula, que se iniciou falando de eleição, para gritos, aplausos e fotos das cerca de 1.500 pessoas presentes em uma das principais avenidas do centro de Diadema. 

        "Em dezembro de 1983 a gente tinha eleito aqui o primeiro prefeito do PT, Gilson Menezes, e aqui em dezembro de 1983, inauguramos o primeiro pronto-socorro de Diadema. Passados 25 anos, o mandato do companheiro Filippi termina dia 31 de dezembro à meia-noite. E no último ano do governo Filippi a gente inaugura esta obra que sem dúvida nenhuma é a melhor obra de saúde inaugurada em todo o ABC paulista", disse. 

        Após essa introdução, Lula apresentou a obra, um imponente complexo de saúde com quatro andares e mais de 20 mil metros quadrados, ao custo total de pouco mais de R$ 70 milhões, dos quais metade veio do Ministério da Saúde e a outra metade da prefeitura. O governo do Estado contribuiu com R$ 1,5 milhão 

        Em seguida, uma sucessão de elogios ao prefeito. Primeiro, à sua persistência: "Eu, Filippi, não podia deixar de te dar parabéns. O Filippi ligava falando que tava faltando dinheiro e o ministro falava que cada dinheiro que dava a mais ele aumentava mais (a obra)". Depois, à sua administração revolucionária. "Vocês conseguiram transformar Diadema em uma das cidades mais extraordinárias do ABC. Aquela cidade que era a prima pobre tem o prazer de anunciar que o que é respeito ao povo pobre venha ao Quarteirão da Saúde para ver o que é a decência e a qualidade. Isso, companheiro Filippi, é uma revolução que a história vai contar." E, por fim, à possibilidade de Diadema influenciar outras prefeituras. "Muitos prefeitos deviam passar aqui nessa avenida e voltar para a sua terra com vontade de fazer igual" (CJ) 

        Política - O contraditório tucano

        Raymundo Costa

        É uma política singular a do PSDB. Os tucanos têm o candidato favorito nas pesquisas de opinião para a eleição de presidente: chama-se José Serra, faz um governo bem avaliado em São Paulo e tem disciplina partidária. Mas não toleram quando este candidato faz movimentos que o tornem viável eleitoralmente e assegurem a volta do partido ao poder. 

        José Serra é uma espécie de candidato interditado. É direito de qualquer outro tucano se movimentar, compor alianças ou simplesmente dizer que será candidato mesmo contra todos os prognósticos. Basta lembrar de Geraldo Alckmin em 2006, quando Serra era o nome do PSDB mais bem situado nas pesquisas, como agora. 

        Outros tucanos podem até dormir com o inimigo, sem recriminações. Veja-se o caso das negociações de Aécio Neves com o PT para a eleição do prefeito de Belo Horizonte. Mas quando o agente é Serra, trata-se de heresia. Boa parte dos tucanos qualifica logo de "desagregador" qualquer passo do hoje governador paulista, seguido da acusação de que ele não hesita em "atropelar adversários" em nome de projetos pessoais. 

        Essas qualificações voltaram agora que Serra fechou o apoio de Orestes Quércia (PMDB) para a reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM) e encheu de gás a candidatura de Antônio Imbassahy (PSDB) a prefeito de Salvador, ao levar o radialista Raimundo Varela (PRB), o favorito nas pesquisas de intenção de voto, a compor a chapa tucana. 

        Santo de casa, Serra não faz milagres em grande parte do PSDB, mas na cúpula do PT a avaliação em curso é que ele está "dando um baile" nos petistas. Primeiro com a aliança entre Quércia e Kassab. Depois, ao juntar Varela a Imbassahy, em Salvador. Sem mencionar que deixou o PT sem fala ao abrir negociação com o Banco do Brasil (BB) para a transferência do controle acionário da Nossa Caixa. 

        Serra já se acostumou a engolir sapos no PSDB. As mesmas acusações de hoje eram feitas em 2002, na campanha presidencial que perdeu para Lula, quando foi abandonado à própria sorte pelos companheiros de partido. O atual senador Tasso Jereissati, então presidente do PSDB, foi quem oficializou sua candidatura na convenção tucana. Dias depois declarava amor eterno à candidatura do conterrâneo Ciro Gomes. 

        Petistas respeitam Serra mais que PSDB 

        Até amigos próximos não resistiram ao "tiro ao Serra", o esporte predileto dos tucanos em 2002: em entrevista a uma revista, Fernando Henrique Cardoso soprou que ele fora contra o Plano Real; e já com a campanha a caminho do final, disse a um presidente argentino que Serra perderia a eleição para Lula porque era um candidato "sem carisma". Apesar disso, Serra atendeu apelos do PSDB para disputar a Prefeitura de São Paulo em 2004. 

        Respeitado e temido no PT, Serra enfrenta a adversidade no PSDB. Articula de modo a não ferir as suscetibilidades de Aécio Neves e de Minas Gerais, ao mesmo tempo que tenta avançar com discrição nos Estados, pois se convenceu que São Paulo, sozinho, já não elege um presidente da República, apesar de ser o maior colégio eleitoral do país. E no PSDB, é em São Paulo que se armam tocaias bem grandes a sua candidatura. 

        A candidatura Alckmin a prefeito é uma dessas tocaias. É certo que o ex-governador está empatado nas pesquisas com a candidata do PT, Marta Suplicy, mas a disputa de Alckmin pela indicação tucana tem contornos mais pessoais que políticos. O argumento da estação é que Alckmin tem de ser candidato porque não confia que o vice-governador Alberto Goldman, quando Serra se desincompatibilizar para concorrer, abra mão de ele próprio disputar o cargo. 

        "Isso é uma calhordice", rebate Goldman. O vice diz que, por um um acordo que seja bom para as eleições em São Paulo e para as alianças que o PSDB precisa fazer no futuro, está "disposto a qualquer coisa". Entre elas "participar com entusiasmo de qualquer acordo que possa resolver esse conflito que nós temos aqui na cidade de São Paulo, em troca de uma perspectiva melhor para todos nós, que é a eleição de 2010, na qual o objetivo maior é tirar o PT do governo federal". 

        Em resumo, Serra parece ter se cansado de engolir sapos, aprofunda o racha no PSDB e joga o jogo de sua vida sem fazer alarde. Os adversários, quando se dão conta, o fato já está consumado. Que o diga o PT

         

         

         

        Dora Kramer

        Ordem de reunir

        O presidente Luiz Inácio da Silva não sossega enquanto não revidar de alguma forma a derrota sofrida em dezembro do ano passado, quando o Senado rejeitou a prorrogação da CPMF.

        Foi o resultado mais surpreendente e politicamente mais significativo dos cinco anos de governo Lula. Deu ensejo a todo tipo de análises, muitas até francamente exageradas.

        Decretou-se o fim dos embates do governo no Congresso, onde segundo alguns autores daqui até o fim do mandato de Lula não aconteceria mais nada, a não ser irrelevâncias.

        A oposição, embalada pela inesperada vitória, chegou a enxergar na rejeição da CPMF a construção da barreira definitiva a qualquer tentativa de mudança da regra do jogo eleitoral para dar ao atual presidente a chance de disputar um terceiro mandato consecutivo.

        De lá para cá o governo já voltou a competir e a ganhar no Legislativo. O mundo não se acabou sem a CPMF e a vida tampouco foi cruel com o Executivo, que arrecada muito e gasta ainda mais.

        Mesmo assim, o presidente da República não sublima aquele fracasso. Manda sua tropa no Congresso se reunir de novo para tentar ressuscitar o imposto do cheque - com outro nome, outra alíquota, destinação específica, por meio de legislação infraconstitucional, seja de que forma for - e dedica-se com afinco a uma ofensiva para tirar da CPMF a carga negativa que deu impulso à sua rejeição.

        Semana passada falou das obras que poderiam ser feitas com os R$ 40 bilhões perdidos e ontem falou dos preços que não baixaram apesar do fim do imposto.

        Uma simplificação, claro. Nem o efeito do fim de uma cobrança sobre transações financeiras, extinta cinco meses atrás, pode ser medido assim a olho nu nem a nova proposta renderia a arrecadação lamentada pelo presidente, dada a redução da alíquota de 0,38% para 0,10%.

        Mas Lula quando quer alguma coisa faz assim mesmo: simplifica as variáveis, reescreve o enunciado do problema e sai a campo dando ao fato até ontem negativo a versão positiva sob a ótica para ele mais conveniente.

        No presente momento é o que está fazendo em relação à CPMF. Doura a pílula do imposto, isso dá para ver. Agora, com qual objetivo exatamente ainda não é possível enxergar.

        A história oficial, de que o governo quer, mas não patrocina por tática política, não se sustenta. A começar pela desenvoltura presidencial na defesa aberta e sistemática da CPMF.

        Quando Lula faz pessoalmente propaganda do imposto, sinaliza que o assunto é prioritário o bastante para não ser deixado só aos cuidados da base parlamentar.

        Falta, porém, definir com nitidez qual seria essa prioridade. O dinheiro parece pouco para justificar o tamanho da briga. Uma ação preventiva para amenizar possíveis efeitos de vetos presidenciais a demagogias ainda dependentes de votações no Congresso também soa desproporcional.

        O mais provável é que o presidente esteja reunindo a tropa para dar um troco bem dado na oposição e acumular forças no Congresso para algum lance seguinte à eleição municipal. Pode ser o fim da reeleição e, no embalo, um atalho ao terceiro mandato.

        Poderosos “pauzinhos”

        Hoje faz 13 dias que o corregedor da Câmara, deputado Inocêncio Oliveira, se impôs um prazo de 48 horas para decidir o que fazer diante das denúncias de envolvimento do deputado Paulo Pereira da Silva no esquema de corrupção investigado pela Polícia Federal no BNDES.

        Na ocasião, o corregedor qualificou como “grave” a situação de Paulo Pereira, também presidente da Força Sindical, e disse basear sua opinião no fato de “a cada dia” surgirem novos elos entre o deputado e o grupo que, segundo a PF, operava empréstimos fraudulentos no banco.

        Agora a polícia incluiu o nome de Paulo Pereira no organograma da “organização criminosa” descoberta pela Operação Santa Tereza.

        O corregedor ficou de encaminhar o caso ao Conselho de Ética ou a uma comissão de sindicância da Câmara, mas não se manifestou mais e nenhum partido se dispôs a acompanhar o PSOL no pedido de abertura de processo por quebra de decoro a ser apresentado ao conselho.

        Há duas possibilidades para essa demora: ou o deputado-corregedor quis demonstrar rigor, mas não encontrou nos fatos sustentação à sua tese sobre a gravidade da situação de Paulo Pereira - o que o torna devedor de um pedido público de desculpas ao colega ou o silêncio é fruto de um acordo tácito do Parlamento, cuja natureza talvez encontre explicação nos próprios autos do inquérito.

        De acordo com o Ministério Público, quando um dos primeiros a serem pegos na operação  o advogado Ricardo Tosto, conselheiro do BNDES por indicação da Força deixou a prisão no início de maio, Paulo Pereira telefonou para ele prometendo “mexer os pauzinhos” no Congresso para retaliar contra o Ministério da Justiça e a PF.

        PF intima mulher de Paulinho

        Fausto Macedo e Roberto Almeida

        Polícia quer saber de Elza origem de recursos depositados em ONG

        A Polícia Federal intimou Elza de Fátima Costa Pereira, tesoureira do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e mulher de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força - deputado pelo PDT paulista que a Operação Santa Tereza incluiu em organização criminosa supostamente criada para desvio de verbas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

        A PF também convocou para depor o vice-presidente da Força Sindical, Eleno José Bezerra, o vice-presidente estadual do PDT, José Gaspar Ferraz de Campos, e José Brito de França, ex-assessor parlamentar do deputado Roberto Santiago (PV-SP). Os três são citados na investigação.

        A blitz federal ocorreu em 24 de abril, após 5 meses de apuração e interceptação telefônica. Treze são os réus da ação penal em curso na 2.ª Vara Federal de São Paulo, denunciados pela Procuradoria da República por formação de quadrilha, peculato, tráfico internacional de mulheres, lavagem de dinheiro e uso ilícito de dinheiro público.

        A Polícia Federal afirma que a boate WE Original, que movimenta cerca de R$ 10 milhões por ano, era reduto do esquema BNDES. O empresário Manuel Fernandes Bastos Filho, o Maneco, dono da WE, mesmo foragido tentou sacar R$ 1 milhão de conta bancária de um familiar dele, mas o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou e bloqueou a transação.

        Os agentes que participaram da investigação querem saber de Elza Pereira a origem de recursos depositados em conta do Centro de Atendimento Biopsicossocial Meu Guri, organização não-governamental que ela preside. Eles suspeitam que parte do dinheiro que o BNDES liberou em forma de empréstimos a prefeituras e empresas privadas teria sido destinada à ONG de Elza. Foi identificado pelo menos um depósito de R$ 37, 5 mil em favor da Meu Guri, realizado no dia 1º de abril, auge do esquema BNDES.

        O repasse foi feito pelo lobista João Pedro de Moura, amigo e aliado de Paulinho. A Moura, preso desde 24 de abril por ordem judicial, a PF e a Procuradoria da República atribuem o papel de mentor e principal operador da trama com recursos públicos - que teriam sido repartidos entre os integrantes da organização depois de transitar pelo caixa de administrações municipais que tomaram financiamentos do banco de fomento.

        Elza não é ré no processo criminal, mas a PF suspeita que a ONG que ela dirige foi usada para ocultar e lavar dinheiro ilícito. Ao se referir à Meu Guri, os federais fazem anotação taxativa no Relatório de Inteligência Policial (RIP) nº 11, à página 29. “De posse do dinheiro desviado dos recursos provenientes do BNDES, cada integrante da organização criminosa adotou um mecanismo para ocultação deste capital, lavagem de dinheiro.”

        O comprovante do depósito na conta da Meu Guri foi encontrado na casa do lobista, que ontem foi interrogado na Justiça Federal. Moura está preso preventivamente.“Essa instituição (Meu Guri) está relacionada com a Força Sindical e tem como presidente a pessoa de Elza Pereira, esposa de Paulinho”, ressalta o relatório.

        A PF também investiga a ONG Luta e Solidariedade, que teria ligações com Eleno Bezerra, aliado de Paulinho. Os agentes localizaram depósito de R$ 82 mil na conta da ONG.

        Leonidas Scholz, criminalista com duas décadas e meia de atuação nos tribunais, assumiu a defesa de Paulinho. “À luz de tudo o que eu li (dos autos) é possível concluir que (as acusações da PF) não passam de presunções”, declarou o advogado. Ele não aceita os critérios que a PF usa para supor que PA é Paulinho  as duas letras estão grafadas em documentos apreendidos e são citadas em grampos telefônicos. “PA pode ser Paulo Alberto ou Pedro Antonio”, rebate o criminalista.

        O 'esquema BNDES'

        EDITORIAL

        Entre hoje e amanhã o PSOL deverá entrar com pedido para que o Conselho de Ética da Câmara abra processo por quebra de decoro parlamentar contra o deputado pedetista Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, visando à cassação de seu mandato. O envolvimento do político-sindicalista no escândalo de desvio de dinheiro do BNDES parece cada vez mais demonstrado, à medida que vêm a público as conclusões da Polícia Federal (PF) sobre os documentos recolhidos no curso da Operação Santa Teresa - que começou em abril para apurar suspeitas de tráfico de mulheres pelos donos de um prostíbulo de São Paulo, chamado WE Original; de grampo em grampo telefônico, os federais chegaram ao que denominam "esquema BNDES".

        As mais recentes informações obtidas na PF consistem em evidências de que Paulo Pereira da Silva recebeu pelo menos dois pagamentos, somando pouco mais de R$ 100 mil, a parte que presumivelmente lhe caberia pela liberação de parcelas de dois empréstimos da instituição - um para a Prefeitura de Praia Grande, no litoral paulista, outro para as Lojas Marisa. A suspeita é de que o parlamentar embolsou ao todo R$ 325 mil em propinas. O principal dos quatro mentores da extração acelerada de recursos do banco é João Pedro de Moura, o lobista, ex-conselheiro do BNDES (por indicação da Força Sindical) e amigo próximo do deputado, de quem foi assessor. Os três outros membros do "organograma da organização criminosa" traçado pela Polícia Federal são o advogado Ricardo Tosto, também ex-conselheiro do banco, um dos sócios do bordel WE Original, Manuel Fernandes de Bastos Filho, que teria fugido para Portugal, e o proprietário da consultoria Progus, Marcos Vieira Mantovani.

        Em tese, o noticiário sobre as ligações do deputado Pereira da Silva, da maioria governista, com o esquema BNDES já estaria há três semanas sob exame da Corregedoria da Câmara. Mas, para surpresa de ninguém, o corregedor Inocêncio de Oliveira, do PR de Pernambuco, não dá sinais de pressa. Ele ainda não teria decidido se encaminha o caso ao Conselho de Ética. Não menos sintomático tem sido o silêncio geral na Câmara sobre mais essa denúncia de malfeitorias a atingir um de seus integrantes. "Ou não perceberam a gravidade do assunto ou é espírito de corpo mesmo", comenta o deputado Chico Alencar, do PSOL do Rio de Janeiro. Se algo mobilizou os brios da Casa foi a revelação de que agentes da Polícia Federal filmaram ali um encontro de Pereira da Silva com o bom amigo João Pedro de Moura. Até o PSOL condenou a "invasão". O ministro da Justiça, Tarso Genro, a quem a PF responde, retrucou que as tomadas se restringiram aos corredores da Câmara, onde "qualquer um pode filmar ou fotografar".

        Não se sabe se o esperto Paulinho estará disposto a enfrentar um possível processo, que talvez lhe custe o mandato e a suspensão dos direitos políticos, ou se renunciará à cadeira antes disso. Mas, se optar pela renúncia, estará abrindo mão de seu capital mais precioso - o direito ao foro privilegiado, graças ao qual só o STF, por iniciativa do procurador-geral da República, poderá investigá-lo. Além da "clara participação" de Pereira da Silva - sobre o que a PF é taxativa, com base em gravações de conversas, filmagens, canhotos de cheques, planilhas, entre outros documentos -, o aspecto mais perturbador do escândalo é a infiltração de traficantes de influência no segundo maior banco de investimentos do mundo, depois do Banco Mundial, em favor de uma clientela disposta a pagar para receber. A comissão, ou "taxa de sucesso", era de 1,95% sobre o valor liberado. Exibindo as credenciais da proximidade com o político pedetista, Moura ofereceu seus préstimos a mais de 200 prefeituras.

        O BNDES nega a possibilidade de favorecimentos na liberação de créditos, pois "as decisões são todas colegiadas". Mas, se todos os projetos são analisados por um colegiado técnico, "por que então empresas e prefeituras de diversas cidades estariam fazendo uso dos serviços da (consultoria) Progus e de seus "agenciadores"?", pergunta a Polícia Federal. E "por que João Pedro de Moura é tantas vezes indicado (por empresários e autoridades) para tratar de assuntos relativos à liberação de verbas públicas"?

         

         

         

        Josias de Souza - Nos bastidores do poder

        Grampo revela lobby de suplente de ministro na ECT

        O diálogo que você lerá a seguir foi captado por um grampo da Polícia Federal. Deu-se em 5 de dezembro de 2006.

         

        De um lado da linha está Carlos Eduardo Fioravante da Costa, ex-diretor Comercial dos Correios e segundo suplente do ministro Hélio Costa (Comunicações) no Senado.

         

        Na outra ponta do telefone está um personagem que a polícia identificou como Paulinho. É dono de uma franquia dos Correios em São Paulo, a Agência Anchieta.

         

        Fioravante comunica a Paulinho que está acertando com a direção dos Correios em São Paulo o desligamento de uma outra franquia: a Postal Teng Ltda, controlada por Armando Ferreira da Cunha, conhecido como Português.

         

        A Postal Teng, assentada no Shopping Tamboré, era, na época, a maior franqueada da ECT no país. No telefonema, Fioravante quis certificar-se de que o descredenciamento tonificaria os negócios do amigo Paulinho, da Agência Anchieta.

         

        Fioravante diz no telefonema que o diretor regional dos Correios em São Paulo, Marcos Antonio Vieira da Silva, receava pelas repercussões políticas do desligamento da Postal Teng.

         

        Pedira a sua interferência junto ao ministro das Comunicações, para anular o prestígio do Português, personagem que cultivava relações com políticos de relevo.

         

        O suplente do ministro dispôs-se a entrar em campo. Mas, antes, queria certificar-se dos benefícios que a providência traria ao amigo Paulinho. Ouvido pelo blog, Hélio Costa deplorou o uso de seu nome. Segue abaixo o extrato de conversa captada pelo grampo policial:

         

        Fioravante: “Você está sozinho ou tem alguém do teu lado?”

        Paulinho: “Estou totalmente sozinho, estou em casa.”

        [...]

        Fioravante: “Presta atenção [...], ele [o diretor dos Correios em São Paulo] disse que só fará isso [o desligamento da Postal Teng] se eu me comprometer a dar apoio político a ele e segurar as ondas que vierem, porque você sabe que as amizades que o cara [o Português] tem, entendeu? Mas ele disse que se a gente fechar ele descredencia [...]. Eu estou avaliando com você isso, eu sei que vai ter muita gente beneficiada com isso aí, mas eu quero saber se você é um grande beneficiado nisso.”

        Paulinho: “Sem dúvida nenhuma eu sou um dos grandes beneficiados por conta desse trâmite todo aí de clientela [...].”

        Fioravante: [...] O interesse que pode ter por trás disso, se você for o beneficiado, eu vou dar esse apoio ao Marcos [diretor da ECU em SP], porque o Marcos precisa disso, ele se sente muito frágil, uma porrada segura e ele não quer tomar para depois, sabe, correr o risco de perder o lugar [...]. O apoio que estou fazendo é o seguinte: você fala com o ministro [Hélio Costa] se for preciso? Eu vou dizer que falo e ele vai fazer. Mas eu vou fazer isso se o beneficiado for quem eu não conheço, o Eduardo e o caralho eu não faço. Agora, se for você, eu vou fechar com ele [...].

        Paulinho: “Não, tudo bem Fiora, é evidente que vai acabar beneficiando outras pessoas que não só eu, porque quando essa clientela ficar no mercado, aí é evidente que eu vou tentar pegar uma fatia. Agora, é importante, quer dizer, nós termos a definição também de clientes, por exemplo, como a Riachuelo, o ABN Anro, quer dizer o Banco Real é tranqüilo porque eu já tenho a vinculação [...]”.

        Fioravante: “Não, mas eu quero dizer a você que o trabalho é para, primeiro, você sabendo na frente de todo mundo, você já sai na frente, seguindo o não-credenciamento eu vou trabalhar para que autorize aquilo que já está credenciado em alguém para ser credenciado por você, isso eu vou combinar com o Marcos [...]. O único cara que teve comportamento até agora 100% conosco em relação à palavra dada foi você, isso conta para caralho [...]. Então [...], você correndo na frente eu vou, Marcos vai autorizar que vai ser credenciado por você [...]. Então eu estou avisando para você correr na frente, eu estou te dizendo o seguinte: vou desligar de você, vou passar um rádio para ele [Marcos] e, a partir de hoje, o cara está descredenciado.”

        Paulinho: “Maravilha, fechado [...].

        No mesmo dia, 5 de dezembro de 2006, Fioravante, o segundo suplente de Hélio Costa, travou outro diálogo captado pelo grampo da PF. Dessa vez, com Marcos Silva, o diretor dos Correios em São Paulo.

         

        “Assinei a carta de descredenciamento daquele nosso amigo lá do interior, o Português”, comunica Marcos. E Fioravante: “Isso você acha que é irreversível?”

         

        “É, não vai ter jeito”, responde Marcos. “A não ser que, vamos dizer, a gente teria que construir... No sentido de ele vender a franquia dele, botar laranja lá é burrice, né? Tem mais que vender, passar aquilo para a frente [...].”

         

        Os diálogos foram anexados há 12 dias num processo que corre na 4ª Vara Federal de Brasília. Traz capa o número 2007.34.00.042990-2. É uma ação civil pública.

         

        De um lado, como autor, está o Ministério Público Federal. Do outro, no pólo passivo, a ECT (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos).

         

        O processo trata de um tema espinhoso: a relação dos Correios com a sua rede privada de franqueados. São, hoje, cerca de 1.400 empresas em todo país. Respondem por algo como 35% de todo o faturamento dos Correios.

         

        As primeiras franquias foram celebradas em 1989. Proliferaram a partir de 1992. A parceria revelou-se proveitosa. Há, porém, um problema: a escolha dos franqueados é feita sem licitação.

         

        Um defeito que, em 1994, o Tribunal de Contas da União detectou e determinou que fosse corrigido. Decorridos 14 anos da decisão do TCU, os Correios ainda não fizeram uma mísera licitação.

         

        Por meio de medida provisória, já aprovada pelo Congresso e convertida em lei no último dia 2 de maio, Lula autorizou, em novembro do ano passado, a renovação dos contratos. De novo sem licitação.

         

        Daí a ação civil do Ministério Público Federal. Assina-a o procurador da República Pedro Antonio de Oliveira Machado. Pede que o Judiciário obrigue o governo a purificar a relação dos Correios com as franqueadas, realizando, finalmente, a licitação.

         

        O procurador decidiu injetar as escutas telefônicas da PF nos autos para demonstrar ao Judiciário o quão promíscua são as relações dos Correios com as firmas de franquia.

         

        As escutas, feitas com autorização judicial, compõem diligência batizada de “Operação Selo”. É a segunda etapa da investigação deflagrada pelo escândalo dos Correios, aquele caso que desaguou, em 2005, no mensalão.

         

        Os grampos revelam que a relação dos Correios com sua rede de franqueados se processa numa atmosfera em que o interesse público se mistura à conveniência privada e à esperteza política.

         

        Carlos Eduardo Fioravante da Costa, o segundo suplente do ministro, foi alçado, sob Lula, ao posto de diretor Comercial dos Correios, o setor que lida com os franqueados. Foi afastado nas pegadas do escândalo do mensalão.

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        Pintou o campeão
         
         
         
         

         

         

         

        PF INCLUI PAULINHO NO ORGANOGRAMA DA QUADRILHA QUE AGIA NO BNDES

        Roberto Almeida e Fausto Macedo

        Nome do deputado aparece ligado ao do lobista João Pedro de Moura, apontado como um dos mentores do esquema

        O nome do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força, é parte do “Organograma da Organização Criminosa - ‘Esquema BNDES’”, registrado na página 97 do Relatório de Inteligência Policial 11 da Operação Santa Tereza - peça que analisa os documentos recolhidos pelos federais e relacionados ao suposto desvio de verbas do BNDES. Para a PF, Paulinho teria recebido cheque de R$ 18.397,50 relativo ao primeiro desembolso do banco para a Prefeitura de Praia Grande (SP) e outra ordem de pagamento de R$ 82.162,93, referente a empréstimo às Lojas Marisa.

        O organograma construído pelos federais aponta que há quatro mentores para o suposto esquema. Um deles é o lobista, assessor e amigo de Paulinho João Pedro de Moura, o que envolveria diretamente o deputado e justificaria a inclusão do nome do parlamentar no documento. Na última vez em que comentou as investigações da PF, em 9 de maio, Paulinho disse: “O que Moura fez, nós (Paulinho e seu advogado, Antonio Rosella) não discutimos.”

        Segundo a PF, Moura percorreu cerca de 200 prefeituras dando como referência sua amizade com Paulinho para fechar novos contratos. Os demais líderes apontados pela PF são o ex-conselheiro do BNDES Ricardo Tosto, o sócio do prostíbulo WE Original Manuel Fernandes de Bastos Filho (foragido) e o proprietário da Progus Consultoria e Assessoria, Marcos Vieira Mantovani.

        Para confirmar a participação dos envolvidos no suposto esquema, a PF recorreu ao BNDES para esclarecimentos. O banco de fomento, por meio do chefe de gabinete da presidência, Paulo Todescan, amparado pelo chefe do Departamento Jurídico, Denilson Nunes, explicou que o “BNDES não possui um setor específico para detectar fraudes” e “não recomenda aos seus clientes o uso de empresas de consultoria, como a Progus” - empresa de Mantovani, apontado pela Procuradoria da República como consultor da suposta quadrilha.

        O banco defende-se, ao descrever os trâmites para liberação de verbas. De acordo com o BNDES, “seria praticamente impossível algum tipo de favorecimento para liberação de créditos, pois as decisões relativas a liberação de créditos são todas colegiadas”.

        A PF, porém, indaga: “Se para aprovação de verbas através do BNDES todos os projetos são analisados por um ‘colegiado’ (sabemos, através dos representantes do BNDES que se trata de um colegiado ‘técnico’), então por que empresas e prefeituras de diversas cidades estariam fazendo uso dos serviços da Progus e de seus ‘agenciadores’?” A questão baseia-se no documento apreendido pela PF sobre operação das Lojas Marisa - empresa que, por nota, negou saber de qualquer esquema. A Progus cobrava uma “taxa de sucesso em 1,95% sobre valor das liberações dos recursos conforme projeto contratado com o Banco Financiador”.

        Os federais indagam ainda: “Por que João Pedro de Moura é tantas vezes indicado para tratar de assuntos relativos a liberação de verbas públicas, sempre indicado por empresários e autoridades públicas?”

        Na página 122 do relatório, em seção intitulada “Comentários Finais”, os federais explicam as razões pelas quais inserem o nome de Paulinho no organograma. “Com relação às autoridades, Deputado Federal Paulo Pereira da Silva e Prefeito Alberto P. Mourão (de Praia Grande), ficou clara a participação destes na organização criminosa, conforme provas apresentadas neste relatório que somam-se a outras, de relatórios anteriores.” Segundo a PF, há mais material apreendido nas buscas que precisa de análise, o que possibilitaria a identificação de mais pessoas envolvidas.

        Dívida elevada impede o Brasil de crescer mais, diz agência de risco

        Renée Pereira

        Consultora da Standard & Poor’s que promoveu o Brasil defende reformas e adverte para risco de rebaixamento

         O Brasil terá dificuldades para elevar os atuais níveis de crescimento econômico se não conseguir aprovar reformas importantes, como a tributária e previdenciária. Para a diretora da Standard & Poor’s (S&P), Lisa Schineller - a mulher que ajudou a promover o País ao grau de investimento -, daqui para frente o maior desafio do governo é melhorar a política fiscal, atrair mais investimento e expandir a atividade econômica.

        “Nossa avaliação é que nas condições atuais o nível de crescimento sustentável do País ficará entre 4% e 4,5%”, diz, em entrevista exclusiva ao Estado. “O Brasil ainda não tem habilidade de crescer 5,4% por ano.”

        Ela reconhece que a parte fiscal é um dos pontos mais fracos do rating do Brasil. “A relação dívida/PIB (Produto Interno Bruto) de 47% é muito alta. É quase o dobro da média da categoria BBB, que é de 20% do PIB.” A política do governo, para resolver esse problema, completa Lisa, é manter uma queda da dívida mais lenta.

        “Uma redução mais profunda teria um impacto mais favorável no ritmo de crescimento e facilitaria um nível maior de investimento. As reformas podem ajudar o País a ter uma economia mais forte.”

        Apesar da elevada dívida, Lisa esclarece que a S&P concedeu o grau de investimento pela combinação de uma série de outros indicadores, como a “impressionante” melhora da vulnerabilidade externa, compromisso de uma política pragmática fiscal e monetária e nível de crescimento mais sustentável.

        Além disso, há maior segurança para o investidor de que o governo tem capacidade de honrar compromissos, avalia Lisa, que acompanha o rating do Brasil há nove anos. “Em quase uma década de política consistente na parte macro, as mudanças foram surpreendentes, com inflação baixa e melhora nas contas fiscais e externas.” Tudo isso foi levando em conta no momento de inserir o Brasil no clube de países considerados mais seguros.

        Mas o trabalho ainda está no início. A nota dada pela S&P é apenas o primeiro nível da escala grau de investimento rumo ao AAA. Ela alerta que chegar a esse grupo não significa estar imune a qualquer rebaixamento de classificação. Na história da S&P, nove países já perderam o grau de investimento. Dois deles são da América Latina - Colômbia e Uruguai -, que ainda não conseguiram recuperar a nota.

        Em todos os casos, diz Lisa, o rebaixamento ocorreu por causa da política fiscal, maior fragilidade do Brasil. “Para manter o grau de investimento é preciso manter uma política pragmática.”

        A diretora da S&P reconhece que o bom momento do cenário global deu espaço para o Brasil promover as mudanças. “Mas o governo também teve méritos.” Isso porque outros países, inclusive da América Latina, não tiveram a mesma evolução. Nem Venezuela e Equador, que têm petróleo e mais espaço para crescer, conseguiram desempenho semelhante ao do Brasil, diz Lisa.

        “A Argentina cresceu muito depois da crise, mas suas políticas tem várias inconsistências em termos de inflação.” No Brasil, diz ela, houve mais compromisso por parte do governo. Um exemplo é a manutenção da independência operacional do Banco Central.

        A executiva avalia que a decisão da autoridade monetária de elevar os juros na última reunião do Comitê de Política Monetária traduz isso. “O nível de crescimento vai suavizar, mas é um mal que precisa ser feito para conter a inflação e ter mais benefícios no futuro.”

        'Endividamento de 47% do PIB é muita coisa'

        Economista adverte que nove países já perderam grau de investimento por deverem muito

        Em quase uma década de política consistente na parte macroeconômica, as mudanças foram impressionantes, com baixo nível de inflação, melhora nas contas fiscais e externas, que reduziram de forma significativa a vulnerabilidade do País. Parte disso tudo teve a ajuda do cenário mundial favorável. Mas temos outros países que não usaram esse mesmo espaço como o Brasil. Na América Latina, Venezuela e Equador, produtores de petróleo, teriam mais espaço para crescer. Mas têm problemas na situação macro e inconsistência de suas políticas. A Argentina cresceu muito depois da crise, mas suas políticas também têm várias inconsistências em termos de inflação. No Brasil, houve manutenção do marco macro, compromisso de redução da dívida, melhora do perfil da dívida e independência do Banco Central. Houve aumento das reservas internacionais, que deu uma posição de quase credor externo. Sem dúvida, com mais reformas (Previdência, tributária e nos vários custos do País), o ritmo de crescimento potencial pode ser ainda maior. É um desafio, pois a dívida/PIB é grande.

        MANUTENÇÃO DO RATING

        É preciso manter a política pragmática. Temos nove países que perderam o grau de investimento na história da S&P. Dois na América Latina, Colômbia e Uruguai, que ainda estão com grau especulativo. O motivo da perda do rating foi a política fiscal, um dos pontos mais fracos do rating do Brasil. A dívida/PIB de 47% é muito alto. É quase o dobro da média da categoria BBB, que é 20% do PIB. E por que o Brasil pode ter um rating com dívida nesse nível? Por que o rating reflete uma combinação de indicadores, como a melhora na vulnerabilidade externa, compromisso de política pragmática fiscal e monetária e o nível de crescimento mais favorável. Nossa avaliação é que o nível de crescimento sustentável é de 4% e 4,5%.

        DESAFIOS

        A reforma tributária, no Congresso, é um bom passo para vencer os desafios. É verdade que ela não implica redução da carga tributária, que é alta, mas propõe melhora na qualidade e composição dos impostos. Isso beneficia o nível de crescimento e de investimentos. Uma melhora de médio e longo prazos nas contas previdenciárias seria outra coisa a ser feita. Acho difícil conseguirem aprovar a reforma tributária agora por causa das eleições municipais. Mas sempre há uma chance. Já a reforma da Previdência ainda não tem proposta. Portanto, não vejo nenhuma mudança no rating do Brasil no segundo mandato do presidente Lula.

        JUROS E INFLAÇÃO

        O Brasil não tem habilidade de crescer 5,4% por ano. Isso é maior que o ritmo de crescimento potencial. As pressões de inflação aqui sem dúvida refletem as pressões globais, com alta dos preços de energia, alimentos, mas também refletem o ritmo de demanda doméstica muito forte. Então o BC tem de responder. Isso vai suavizar o ritmo de demanda doméstica e resultar num menor nível de atividade. O ritmo de crescimento dentro do mercado brasileiro tem de ser mais devagar para benefícios maiores no futuro. Uma política para manter a inflação sob controle é muito importante. O compromisso do governo com isso ao longo da década é parte da nossa avaliação do grau de investimento.

        CÂMBIO

        Sou defensora do câmbio flutuante. A melhora da taxa de câmbio reflete a melhora na economia, o preço das commodities e nível fraco do dólar americano. Sem dúvida, implica desafios para alguns setores. Por isso, as reformas são importantes, pois reduzem o custo Brasil e dá maior produtividade ao setor privado. É uma maneira saudável para evitar os problemas de alguns setores.


         

         

         

        Renata Lo Prete

        Canetada atômica

        Escolhido para chefiar o Ibama na gestão de Carlos Minc no Ministério do Meio Ambiente, o geógrafo Roberto Messias Franco, quadro do PT mineiro, assume o cargo com uma recomendação: conceder nas próximas semanas o licenciamento prévio da usina nuclear de Angra 3, um investimento de R$ 7,2 bi.
        A Eletronuclear e o pool de empreiteiras que tocarão as obras pressionam. O ministro Edison Lobão (Minas e Energia) tem pressa. Mas, além do exército de ambientalistas, Messias tem pelo caminho a Procuradoria da República em Angra dos Reis (RJ), que aponta irregularidades no processo: falta de estudos de impacto ambiental, de um plano de emergência e de um depósito permanente para os resíduos.

        Caseiro. A procuradora em Angra dos Reis, Ariene Alencar, destaca ainda que a Eletronuclear não apresentou um laboratório independente para fazer o monitoramento ambiental. A estatal alega que ela própria teria um órgão para realizar a fiscalização.

        Arquivo. Da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, em junho do ano passado, sobre a construção de Angra 3: "Não há necessidade da energia nuclear, nós temos fontes renováveis de energia".

        Quem usa? O Palácio do Planalto diz que o apartamento em São Bernardo do Campo, vizinho à cobertura do presidente Lula e cujo condomínio foi pago com dinheiro do fundo partidário do PT, "serve de base de apoio para a segurança". Mas a descrição na planilha de gastos da Secretaria de Administração da Presidência contabiliza somente pagamento do aluguel de uma simples "sala" no edifício, e não do imóvel.

        Quem paga? Amparada pelo dispositivo de dispensa de licitação, a nota de empenho número 900127, referente ao aluguel, foi lançada em 20 de fevereiro deste ano, e emitida no dia seguinte, às 11h22. Foram desembolsados R$ 8.721,24 com a finalidade: "locação de sala no Condomínio Residencial Hill House".

        Vai nessa. Não obstante a atração do ministro Guido Mantega por microfones, um conhecedor da relação afiança: o ministro da Fazenda jamais soltou na praça uma idéia que não tivesse sido antes combinada com Lula.

        Se vira. Diante das repercussões negativas, o presidente corre a desautorizar Mantega e repreendê-lo por falar demais. Nisso, Lula é igual a FHC, diz um aliado de ambos.

        Deixa ficar 1. Geraldo Alckmin tem dito a aliados que nada fará para que os tucanos abandonem seus cargos na administração de Gilberto Kassab (DEM). Afirma que chegará ao segundo turno, ganhará a eleição e aí precisará dos correligionários na máquina da prefeitura.

        Deixa ficar 2. Nessas conversas, Alckmin repete que, após a convenção, "são só três meses de campanha" até o segundo turno, quando "estaremos juntos contra a Marta".

        Guerra. Apesar da intenção de José Serra (PSDB) de vender a Nossa Caixa para o Banco do Brasil , a bancada na Assembléia planeja fazer algum barulho na negociação. O deputado Enio Tatto (PT) avisou que pedirá a convocação do presidente do banco, Milton Luiz de Melo Santos, na Comissão de Finanças.

        Relax 1. Na lista de deliberações das últimas reuniões da Mesa Diretora da Câmara consta um pedido da deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO) de reembolso referente a um período que ela diz ter passado "internada" em um spa para "reforço imunológico", no valor de R$ 18.516,22.

        Relax 2. A área técnica da Câmara recomendou vetar o pagamento. Argumentou que, "do ponto de vista médico, não há amparo técnico nem científico para o tratamento".

        com VERA MAGALHÃES e SILVIO NAVARRO

        Tiroteio

        Minc já chega disputando com Mantega o troféu de incontinência verbal da Esplanada.

        Do senador ARTHUR VIRGÍLIO (PSDB-AM) a respeito do novo ministro do Meio Ambiente, que prometeu para hoje novos dados do Inpe sobre desmatamento, sendo depois desmentido pelo instituto.

        Contraponto

        Quem ri por último
        Durante a votação da lei para experimentos científicos com animais, na quarta-feira, o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), corintiano roxo, estava inquieto por causa do jogo do seu time contra o Botafogo, pela Copa do Brasil. Chico Alencar (PSOL-RJ) pediu aparte:
        -Comunico que saiu um gol alvinegro!
        -Mas suspeito que seja do alvinegro do meu Estado, tripudiou Chinaglia, ao saber que o Corinthians marcara.
        Mais tarde, o petista discursava sobre "a dor dos animais", quando José Carlos Aleluia (DEM-BA) interpelou:
        -Por falar em dor, ela vai ficar mesmo do lado paulista!-, disse, em alusão à vitória de virada do Botafogo.

        Governo paga a empresas 54 vezes o que doaram ao PT
         
        FERNANDA ODILLA
         
        Só das 20 maiores contribuintes, partido recebeu R$ 8,7 milhões no ano passado

        No segundo mandato de Lula, empresas receberam R$ 473 milhões do governo federal; PT foi o partido que mais obteve contribuições

        Parte das 20 empresas que mais doaram dinheiro ao PT em 2007 recebeu no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pagamentos do governo federal que totalizam ao menos 54 vezes o valor repassado ao partido.
        A contabilidade do PT entregue no último dia 30 ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) registra R$ 8,7 milhões em doações feitas por 20 empresas em 2007, metade desse valor oriundo de empreiteiras ou empresas de construção civil.
        Consulta ao Portal da Transparência do governo federal (
        www.transparencia.gov.br) mostra que 8 das 20 doadoras receberam do governo, diretamente ou por meio de empresas do mesmo grupo, um total de pelo menos R$ 473 milhões em 2007 e 2008. A empreiteira Andrade Gutierrez foi a maior doadora do PT em 2007, com R$ 1,5 milhão. Do Portal da Transparência, ela consta como beneficiária de R$ 45 milhões desde 2007.
        O valor obtido no portal é subestimado, já que não abrange possíveis subsidiárias não detectadas pela reportagem e pagamentos feitos pelas estatais, que não são abrangidas pelo portal do governo.
        Um exemplo: a UCT Engenharia doou R$ 800 mil para o PT e não aparece no portal como beneficiária em 2007 e 2008. Mas ela firmou em outubro do ano passado contrato no valor de US$ 139,7 milhões para, em parceria com a Rolls-Royce Energy Systems, fazer a provisão, montagem e operação dos módulos de engenharia elétrica da P-56, plataforma da Petrobras na Bacia de Campos.
        O tesoureiro do PT, Paulo Ferreira, argumentou que todas as grandes empreiteiras e bancos, principais doadoras do PT nos últimos anos, têm alguma relação com os governos federal, estadual e municipal. "Não vejo estranheza em colaborarem, porque nossos doadores são esses grandes grupos." Ferreira afirmou que algumas empresas assumiram o compromisso de ajudar, ainda em 2007, a quitar dívidas de campanha da reeleição de Lula.
        A Folha procurou as empresas doadoras do PT para saber o que as motivou a colaborar financeiramente com o partido. As que se dispuseram a falar disseram que ou simplesmente atenderam ao pedido de doação, ou são tradicionalmente colaboradoras de partidos.
        "Nosso melhor vendedor de álcool é o presidente", afirmou o diretor de operações da sucro-alcooleira Goiasa Goiatuba Álcool, Júlio Capobianco Filho. A empresa doou R$ 800 mil para o PT. No portal, o grupo do qual faz parte a empresa aparece como beneficiário de R$ 142 milhões desde 2007. "O grupo não doa para ter contratos, mas, sempre que procurados, avaliamos os pedidos", disse Capobianco Filho, acrescentando que já foi chamado de "burro" por doar ao PT.
        A assessoria da Andrade Gutierrez disse "que acredita no exercício da cidadania corporativa" e que se reserva ao direito de não comentar a doação. A WTorre informa não estar envolvida com nenhuma obra do governo federal, mas que prefere doar em anos sem eleição.
        Entre os quatro maiores partidos, o PT foi o que obteve maior volume de recursos de empresas privadas. O PSDB arrecadou R$ 3 milhões. As doadoras do PSDB receberam do governo federal, de acordo com o Portal da Transparência, R$ 134 milhões. PMDB e DEM não registraram doações.
        Anualmente, os partidos políticos são obrigados a apresentar a suas prestações de contas ao TSE, que as julga depois de uma lenta análise. Caso sejam rejeitadas, o partido fica por um ano sem o dinheiro do fundo partidário, principal fonte de recurso das legendas
        A prestação de contas do PT de 2006 ainda está pendente de julgamento, com recomendação da área técnica do TSE pela rejeição por vários motivos, entre eles suposto uso irregular de dinheiro do fundo partidário e recebimento de doação de fonte vedada pela lei.

        Doadoras do PSDB obtêm contratos de R$ 3,4 bilhões

        Andrade Gutierrez e Odebrecht ganharam licitações em Minas Gerais e São Paulo

        Construtoras doaram ao todo R$ 2,4 milhões ao partido nacional em 2007; empresas dizem que doação foi feita de acordo com a lei

        As duas principais doadoras de recursos ao PSDB nacional em 2007, as construtoras Andrade Gutierrez e CBPO Engenharia (empresas do Grupo Odebrecht), mantêm contratos que ultrapassam R$ 3,4 bilhões com os governos de Minas e São Paulo, os dois Estados de maior orçamento administrados pelo PSDB.
        Em Minas Gerais, as empresas fecharam contratos com o governo do tucano Aécio Neves que, somados, superam o montante de R$ 1,35 bilhão. Em São Paulo, as construtoras participam de duas obras prioritárias para o governo de José Serra -o Rodoanel e a Linha 4 do Metrô-, respondendo por contratos que, juntos, passam de R$ 2,1 bilhões. O total de contratos é de R$ 2,3 bilhões.
        As doações que os dois grupos empresariais fizeram ao PSDB somam R$ 2,4 milhões -R$ 2 milhões da Andrade Gutierrez e R$ 400 mil da CBPO.
        Andrade e CBPO tinham contratos com a Cemig (estatal de energia) para a primeira fase do programa Luz para Todos. Esses contratos, firmados em 2005, terminaram em maio do ano passado. Dos quatro lotes do programa, a CBPO ganhou dois, totalizando R$ 646 milhões. A Andrade Gutierrez ficou com outro lote no valor de R$ 288 milhões.
        No ano passado, os grupos Andrade Gutierrez e Odebrecht venceram também lotes da concorrência para construção do novo centro administrativo do governo, idealizado por Aécio e com projeto do arquiteto Oscar Niemeyer. O valor da licitação da obra, em Belo Horizonte, foi de R$ 948,6 milhões.
        A Odebrecht faz parte do grupo que ganhou o lote de R$ 367,6 milhões e deve ficar com 60% desse valor (R$ 220,4 milhões). Já o grupo da Andrade Gutierrez obteve um lote de R$ 393,4 milhões e receberá 50% do valor (R$ 196,7 milhões).

        São Paulo
        Segundo levantamento feito pela liderança do PT na Assembléia Legislativa paulista, a Andrade Gutierrez tem um contrato de R$ 492,9 milhões para as obras do trecho sul do Rodoanel. Outro contrato, de R$ 219 milhões, é para o lote 3 da linha 4 do Metrô. Além disso, é responsável por obras de recapeamento da estrada Raposo Tavares, pelas quais recebeu R$ 38 milhões este ano.
        A CBPO é líder do Consórcio Via Amarela, encarregada da construção da linha 4 do Metrô, com contrato de R$ 1,6 bilhão (valores nominais). Os contratos foram assinados na gestão Geraldo Alckmin (PSDB).
        A Odebrecht disse à Folha que "eventuais contribuições são feitas conforme a legislação" e que "detalhes podem ser obtidos com os órgãos competentes, já que números e doadores são públicos". Segundo a Andrade Gutierrez, "as doações a partidos políticos realizadas pelo grupo foram feitas de forma oficial, de acordo com as regras da legislação".

        Naquele ano, eleitoral, o PT arrecadou R$ 43 milhões em doações, sendo que as empreiteiras (R$ 12,5 milhões) e os bancos (R$ 8,8 milhões) foram os mais generosos. O topo do ranking tinha Andrade Gutierrez (R$ 6,4 milhões) e Santander Banespa (R$ 3,2 milhões).

        PSDB estuda ação contra PT na Justiça Eleitoral

        O PSDB estuda ingressar com ação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para que o PT seja punido com a suspensão do repasse do fundo partidário por ter usado dinheiro público para pagar despesas de um apartamento usado por familiares do presidente Lula.
        A Folha revelou ontem que a equipe técnica do TSE constatou que o PT gastou R$ 4.536,70 com taxas de condomínio de uma cobertura freqüentada, segundo funcionários e moradores do edifício Hill House, pelos filhos do presidente. O apartamento é no mesmo andar e fica de frente para a cobertura 122, comprada por Lula em 1996.
        "Nossos advogados estão estudando de que forma podemos entrar com uma ação no TSE por uso indevido do fundo partidário. O PT não acha que ganhou uma eleição, mas que tomou uma cidade", afirmou o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM).
        O Planalto justificou que o PT bancou os custos do imóvel de 2003 a 2007 porque a cobertura era usada para guardar arquivos que o presidente doou à legenda quando foi eleito. A partir de 2007, os arquivos foram retirados do local, e as despesas passaram a ser cobertas pelo Planalto, sob o argumento de que isso "preenche necessidade de segurança" de Lula.
        Para o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), a denúncia é tão "grave" quanto a revelada pela CPI dos Correios de que dívida pessoal do presidente foi paga por terceiros. O petista Paulo Okamotto, presidente do Sebrae, assumiu a dívida de R$ 29,4 mil.
        Por meio da assessoria, o presidente do TSE, ministro Carlos Ayres Britto, disse que não pode comentar o assunto porque o caso ainda não foi a julgamento. O PT não quis comentar.

         

         

         

        Reinaldo Azevedo

        1964, 1968, 2008 e uma fala de Franklin Martins

        A revista dominical do Correio Braziliense fez neste domingo matéria especial sobre o 1968, o ano que não acaba nunca... de encher o nosso saco! Ah, sim, crianças: a minha paciência com isso é bem pequenininha. Até porque só pode se encantar com a essência daquele movimento — que ganhou forma mais aparentemente universal na França — quem não leu as Memórias, de Raymond Aron. Em trechos contundentes, ele narra a estupidez obscurantista daqueles “jovens revolucionários”. O salto tecnológico a que o mundo assistiu nos últimos 40 anos — especialmente do fim dos anos 70 para cá — têm relação direta com o espírito anti-68. Vale dizer: foi fruto da revolução econômica que os caudatários daquele libertarismo chamam de “neoliberal”. Ronald Reagan foi muito mais importante para a humanidade — e para a causa da liberdade —do que Jean-Paul Sartre e sua cara “de terreno baldio” (segundo o próprio em suas memórias precoces). Mas vá tentar dizer isso...

        Adiante. Um dos entrevistados na reportagem especial foi Franklin Martins, ex-militante do MR-8 e um dos seqüestradores do embaixador americano Charles Burke Elbrick, trocado, em 1969, por 13 presos políticos. Num dado momento, afirma o agora ministro da Comunicação Social: “É melhor ser herdeiro de 68 do que de 64. Ter uma ditadura é muito pior do que ser herdeiro de um movimento que atingiu ou não resultados. O erro é querer reduzir 1968 a uma coisa só.”

        Concordo ou desanco? Desanco, mas concordo com uma parte: “O erro é querer reduzir 1968 a uma coisa só”. Isso é verdade. Havia certamente aqueles que queriam o fim da ditadura e a democracia. Não é o caso de Franklin Martins. Membro do MR-8, grupo que aderiu ao terrorismo, ele estava entre aqueles — a exemplo de Dilma Rousseff e Carlos Minc — que lutavam para instituir uma ditadura no Brasil. Repito aqui o que escrevi no dia 29 de agosto do ano passado: “A democracia no Brasil não morreu em 1964 porque a direita deu um golpe. Morreu porque não havia quem a defendesse, de lado nenhum. Um governante responsável não teria promovido, ele próprio, a subversão, como fez João Goulart, incentivado pelos nacionalistas bocós e pelos bolcheviques tupiniquis, que imaginavam que ele pudesse ser o seu Kerensky. Não podia. Era ainda mais idiota.”

        A fala de Franklin Martins remete à velha mitologia de que “a turma de 1968”, inclsuive os que recorreram ao terrorismo, queriam um país democrático, daí ele considerar que é “melhor ser herdeiro de 68 do que de 64”. Depende! Membro que era do MR-8, Franklin, então, era um stalinista. Digamos que os “herdeiros de 64” carregassem 424 mortos nas costas. Os de 68 levam os 35 milhões de Stálin. Mas essa é uma conta macabra, né? Franklin poderia se orgulhar, então, de, em 1968, ter sido um democrata, enquanto o pessoal que fez 1964 optou pela ditadura. Foi?

        Faz mais de um ano, instituí aqui um prêmio para quem localizasse um texto, um que fosse, dos grandes teóricos de esquerda ou das organizações esquerdistas brasileiras pré e pós-68 que defendesse a democracia. É evidente que nunca ninguém apresentou coisa nenhuma. E nem vai. Quem chegou mais perto, só no fim dos anos 70, foi o gramsciano Carlos Nelson Coutinho, segundo quem a democracia era uma questão fundamental para a construção do... socialismo!!! “Socialismo com democracia” é coisa mais complicada do que a quadratura do círculo. Será que apenas o Brasil operaria esse milagre? É... Só a gente teve Pelé...

        Essa questão tem alguma relevância hoje em dia? Tem, sim. Segundo matéria há tempos publicada pelo Estadão e jamais desmentida, no marco zero do dossiê, está uma reunião da qual participaram os ex-“meiaoito” Franklin e Dilma Rousseff. Assim como eles acharam, no passado, que a conjuntura e a ideologia justificavam ações terroristas, acham, no presente, que sua suposta superioridade moral os autoriza a adotar procedimentos que enxovalham o estado de direito. Afinal, eles têm uma causa, não é?

        E foi o mito da “resistência” que levou Dilma, em cujo gabinete se fez um dossiê que desmoraliza a democracia, a fazer o famoso discurso no Senado em resposta ao senador Agripino Maia. Afinal, esse pessoal acha preferível ser herdeiro intelectual de uma ditadura que matou muitos milhões a ser herdeiro de um outra que matou poucas centenas.

        Para uma pessoa de caráter, basta uma única morte para que soem os sinos.

        Foto: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona

        A sonda Phoenix pousou em Marte com sucesso. Na foto, um dos "pés" da nave na hora do pouso em solo marciano.
        Foto: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona
        A imagem mostra um dos painéis solares da sonda, que serão responsáveis pela energia durante a missão da Phoenix.
        Foto: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona
        A sonda pousou numa região até então inexplorada do Planeta Vermelho - a planície ártica. Na foto, imagens da superfície dessa área.
        Foto: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona
        O principal objetivo da Phoenix é é explorar o solo marciano para detectar possíveis depósitos de gelo.
        Foto: NASA/JPL-Caltech/University of Arizona

        A equipe da NASA responsável pela missão, que irá durar três meses, quer descobrir se o planeta seria capaz de abrigar formas de vida.
         
         

         

         

         

        Tribuna da imprensa online

        Carlos Chagas

        Me engana que eu gosto

        BRASÍLIA - Está por horas a apresentação de projeto de lei, pelos líderes da base parlamentar oficial, fazendo ressurgir o imposto do cheque e das operações financeiras. Um dos primeiros signatários será o líder do governo no Senado, Romero Jucá. Não deixa de ser estranho, trata-se do mesmo parlamentar que, logo depois da derrota da CPMF antiga, no Senado, declarou alto e bom som que até o final do período do presidente Lula nenhum novo imposto seria criado no Brasil.

        Nessa história de horror, vale referir a postura do Palácio do Planalto. Esta semana o presidente queixou-se da falta de dinheiro para a saúde pública. Disse que os senadores deveriam carregar o peso de haver retirado 40 bilhões anuais dos cofres públicos ao negar a prorrogação da CPMF, em dezembro. Um dia depois, mandou avisar que o governo não patrocinaria a apresentação do novo imposto. Se os líderes quisessem, a iniciativa e a responsabilidade seria deles...

        Só que os lideres estarão logo apresentando a nova proposta por inspiração de quem? Por ordem de quem?

        Para as coisas ficarem pior, apesar de a alíquota dessa apropriação indébita vir a ser menor do que a antiga, vale informar que continuarão isentos do imposto do cheque todos os investimentos estrangeiros. Quer dizer, o Zé da Silva que retira seu salário mínimo do banco estará contribuindo com quatro reais para o governo, mas o especulador-motel, que traz milhões de dólares de tarde, passa a noite e retira-se pela manhã, sairá com juros de mais de seis por cento sobre o capital, mas não contribuirá para melhorar a saúde pública brasileira.

        O presidente Lula lava as mãos, em público, ainda que em particular possa atuar para convencer deputados e senadores a endossarem o projeto.

        Que venham os caiapós

        Apenas amanhã a CPI dos Cartões Corporativos decidirá se deve ou não acarear os dois funcionários envolvidos no vazamento do dossiê elaborado sobre os gastos pessoais do governo Fernando Henrique. Tudo indica que não haverá acareação, já que na noite de quarta-feira passada as bancadas do governo se retiraram do plenário para não dar número e empurrar a decisão com a barriga.

        Tanto faz se José Aparecido Pires e André Fernandes serão postos frente a frente, pois mentiram e continuarão a mentir, sem que nada possa ser feito. O ex-controlador das despesas da Casa Civil voltará a repetir ter sido o dossiê preparado por um auxiliar dele, e que transmitiu "sem querer" o texto para computador do amigo.

        Já o assessor do senador Álvaro Dias, do PSDB, repetirá ter ouvido de Aparecido que a inspiração para o vazamento do dossiê partiu da chefe de gabinete da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.

        Parece coisa de comadres. Melhor dizendo, uma farsa, ou melhor, um espetáculo de circo, com a diferença de que os palhaços não se encontram no centro do picadeiro, porque os palhaços somos nós. Às bancadas do governo interessa sepultar o assunto, em especial porque Aparecido declarou, na CPI, que nem Dilma nem sua chefe de gabinete sabiam de nada. Só restará à maioria governista pedir o encerramento dos trabalhos e vangloriar-se de haver poupado a possível candidata à sucessão de 2010.

        Esta semana, em Altamira, no Pará, um grupo de índios caiapós deu uma surra e ainda esfaqueou um engenheiro da Eletrobrás, Paulo Fernando Rodrigues, que pouco antes havia defendido a implantação da usina hidrelétrica Belo Monte, na região. O funcionário falou o que eles não queriam ouvir e a reação não se fez esperar.

        Já imaginaram se os caiapós vierem para Brasília assistir à sessão da CPI? Vai ser o diabo...

         

         

         

        Josias de Souza - Nos bastidores do poder

        PT busca um empresário para ser o vice de Marta

        Sérgio Lima/Folha
        O PT tenta transformar infortúnio em vantagem política. Como não conseguiu atrair nenhum partido de relevo para a campanha de Marta Suplicy, o petismo ficou livre para escolher o companheiro de chapa que bem entender.

         

        A solução mais simples seria pinçar um vice dos quadros do PT. O partido decidiu, porém, fugir do convencional.

         

        Tenta acomodar na cédula, ao lado de Marta, um nome que traga enganchado na biografia algo além da militância política.

         

        Discute-se nos subterrâneos a hipótese de convidar para o posto de vice de Marta um empresário. Os operadores políticos do PT voltam os olhos para o “Comitê pró-Lula”.

         

        Trata-se de um grupo de empresários que apoiou Lula nas campanhas de 2002 e de 2006. Na primeira campanha, somavam 30. Na segunda, reduziram-se a menos de duas dezenas.

         

        Soprada nos ouvidos de petistas que assessoram Lula, no Planalto, a idéia foi bem recebida. Foi vista como chance de transformar limão da falta de alianças em limonada.

         

        Um auxiliar do presidente citou ao blog um nome que reuniria os predicados que freqüentam os sonhos do PT de São Paulo: Lawrence Pih.

         

        É dono do maior moinho de trigo da América Latina: o Moinho Pacífico. Funcionou como espécie de coordenador do Comitê pró-Lula.

         

        Mal comparando, tenta-se repetir com Marta uma fórmula adotada por Lula. Foi ao Planalto, em 2002, tendo o dono da Coteminas, José Alencar. Repetiu a dose em 2006.

         

        Na seara paulistana, a escolha do vice ganha relevo especial. Embora não admita, Marta deseja voar alto em 2010. Mira o governo de São Paulo. Cultiva ambições presidenciais.

         

        Ou seja, se for eleita, Marta, hoje a mais bem-posta nas pesquisas de São Paulo, dificilmente exercerá o mandato de prefeita até o final, em 2012.

         

        De resto, se tiver êxito na estratégia de acomodar um “nomão” ao lado de Marta, o PT imagina que oferecerá aos eleitores um diferencial que seus adversários não terão como igualar.

         

        Geraldo Alckmin (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM) estão amarrados em costuras tradicionais.

         

        Alckmin deve ter como vice o deputado estadual Campos Machado, presidente do PTB em São Paulo. Kassab terá de absorver um indicado de Orestes Quércia, mandachuva do PMDB.

         

        Resta agora saber se, uma vez convidado, um empresário vai topar a troca dos rigores da atmosfera privada pelo ambiente gelatinoso da administração pública.

         

         

         

        Reinaldo Azevedo

        O boa-vida  - Lula, o nosso monarca absolutista

        O PT pagou, como vocês podem ver abaixo, contas particulares de Lula e seus familiares com dinheiro público. Se não é surpresa, dado o costume, não deixa de ser impressionante. Por quê? Lula é um homem de posses. Seu patrimônio, hoje, certamente ultrapassa R$ 1 milhão entre propriedades e dinheiro aplicado. Poucos metalúrgicos do ABC tiveram essa sorte, não é mesmo? Não obstante, essa gente torra dinheiro do erário por qualquer merreca. Mas, então, é preciso avançar na consideração: a “merreca”, o valor pequeno, é só a revelação jocosa do vício.

        Há quanto tempo Lula não sabe o que é suar para ganhar a vida? “Oh, lá vai o moralismo udenista!” Se for, paciência. Mas o fato é que, desde 1975, ele passou a ser sustentado por terceiros — primeiro pelo sindicato e depois pelo PT. Agora, tem os benefícios dispensados ao presidente da República. Só aqueles que são próprios e inerentes ao cargo? Quem é que sabe? Seus gastos pessoais e os de sua grande família são considerados matéria de segurança nacional.

        Investigue-se a vida de Lula, e sempre vai aparecer algum abnegado pagando a conta. Primeiro foi o compadre Roberto Teixeira, que lhe cedia, de graça, a casa. Teixeira é tão bem enfronhado em negócios que envolvem o governo, que o empréstimo, claro, sempre valeu por um investimento. Depois apareceu o doador universal Paulo Okamotto, aquele que teria pagado uma dívida do presidente que o próprio não reconhecia. A CPI do Mensalão tentou quebrar seu sigilo bancário, mas o então ministro do Supremo Nelson Jobim, hoje titular da Defesa, não deixou.

        Uma parte da política brasileira vive em regime de monarquia absolutista, e o rei, claro, é Lula. O empresário ou o banqueiro mais ricos do país precisam suar a camisa para manter o sua atividade. Lula não! É um homem que sempre conseguiu botar feijão em casa com suas idéias. Seu negócio nunca vai à falência porque ele vive de vender futuros e de superfaturar o vento. Na semana que termina, lançou um sigla nova, a Unasul. Não existe. É o PAC da diplomacia. Mas e daí? Volto à facilidade de Lula para ganhar dinheiro.

        Desde que iniciou sua trajetória sindical, não deixou de receber seu salário um miserável dia. Chegou até a ser o presidente de uma ONG, o Instituto da Cidadania, que recebia doações. Na reta final da ditadura, mesmo afastado do sindicato, continuou a ter as contas pagas pelo “movimento”. Mas Lula achou que era pouco. Requereu uma pensão mensal e vitalícia como perseguido da antigo regime. Assim, reitero, mesmo sem jamais ter deixado de receber salário uma miserável vez, nós pagamos para ele, todo mês, quase R$ 5 mil — além do salário que recebe como presidente. Do primeiro café da manhã ao papel higiênico, ele não precisa gastar um tostão — passando pelas cigarrilhas holandesas que fuma.

        Dá pra entender a celeuma que se criou no país quando os cartões corporativos fizeram acender a luz vermelha e despertaram a curiosidade sobre os gastos da família Lula da Silva. A cada enxadada, uma minhoca — como se diz lá em Dois Córregos.

        E a facilidade de Lula para se dar bem na vida revela um componente genético. Até o fim de 2002, o notório Lulinha, por exemplo, era monitor de jardim zoológico. “Moço, onde ficam as antas”. E ele mostrava onde ficavam as antas. Em 2006, no fim do primeiro mandato do pai, iniciado em 2003, o rapaz já era um milionário. Nunca a intimidade com antas foi antes tão bem remunerada. O Planalto tem uma resposta? Tem sim. Reproduzo trecho de reportagem da Folha:


        Por meio de sua assessoria, o Palácio do Planalto informou que "a ocupação do apartamento preenche uma necessidade de segurança da Presidência da República".
        "Essa necessidade foi satisfeita durante o período em que o PT foi locatário do imóvel para manter o arquivo do Instituto
        de Cidadania, doado pelo presidente da República ao partido. E, posteriormente, quando o PT encerrou o contrato de locação, essa necessidade foi satisfeita com a locação pela Presidência. Hoje o imóvel serve de base de apoio para a segurança, sobretudo na área de comunicações", completou
        a assessoria.
        O Planalto confirmou que familiares do presidente usam o imóvel. "O apartamento foi freqüentado, tanto no período da ocupação pelo PT quanto agora, por diversas pessoas da relação do presidente, inclusive familiares." Segundo a assessoria, "a segurança do presidente não se esgota na figura dele, ela se estende aos seus familiares".


        O Planalto confirmou que familiares do presidente usam o imóvel. "O apartamento foi freqüentado, tanto no período da ocupação pelo PT quanto agora, por diversas pessoas da relação do presidente, inclusive familiares." Segundo a assessoria, "a segurança do presidente não se esgota na figura dele, ela se estende aos seus familiares".

        Viram?
        A resposta acima dá uma idéia do que se poderia encontrar se as contas de Lula fossem abertas. Volto à minha máxima: “No país, são inimputáveis as crianças, os idiotas clínicos e os petistas”.

         

         

         

        Diogo Mainardi

        NÃO SOFRO DE DIEGOMAINARDICE
        O que eu sabia sobre Sabrina Sato: ela participa de um programa de TV. Agora sei também que ela tem uma pinta na testa. Mais ainda: sei que ela desistiu de tirar a pinta. Esse foi o fato que atraiu o maior número de leitores da Folha Online, alguns dias atrás. A nota era acompanhada por uma fotografia de Sabrina Sato sorridente, com sua pinta na testa. Pinta é um negócio nojento. Tire a pinta, Sabrina Sato.

        A TV está sendo progressivamente esvaziada pela internet. Pela primeira vez, no Brasil e no resto do mundo, a TV perde público. Os espectadores desligam seus aparelhos e migram em massa para o computador, passando mais tempo na internet. E qual é o principal assunto na internet? A TV. No caso, a pinta na testa de Sabrina Sato. Ou, pouco antes, igualmente entre as notícias mais lidas da Folha Online, o choro de Deborah Secco num programa de auditório.

        Além de ler sobre a TV, a platéia da internet faz comentários atarantados sobre a TV. Assim como faz comentários atarantados sobre todos os outros temas. A internet é como o teatro de José Celso, em que a platéia é chamada para o centro do palco e se torna protagonista do espetáculo. Amadoristicamente, cada um desempenha seu próprio papel, improvisando um comentariozinho desimportante aqui, outro ali. O mundo se transformou num gigantesco Teatro Oficina, onde se encena um espetáculo infinito de José Celso, do qual ninguém pode fugir. Trata-se de um pesadelo bem mais medonho do que qualquer distopia totalitária imaginada por George Orwell ou Aldous Huxley. Quero minha dose de "Soma"!

        Umberto Eco criou a fantasia demagógica do "lector in fabula", em que o leitor é estimulado a participar do romance com suas idéias, transformando-se, ele mesmo, em autor. A internet é isso: um monte de maus leitores dotados de más idéias que cismam em interagir com maus autores. É o território dos opinionistas que opinam sobre a opinionice de outros opinionistas. É a água parada onde prolifera a diegomainardice hemorrágica.

        Pode parecer um contra-senso, mas eu nunca sofri de diegomainardice. Só opino porque é meu trabalho. Se desse, eu desligaria imediatamente o computador e passaria o resto do dia estatelado na cama, na frente da TV, assistindo a um programa de culinária, um seriado americano, um torneio de golfe ou uma comédia antiga com Alberto Sordi. O que eu tenho a opinar sobre o programa de culinária ou o seriado americano? Alegremente, nada. A TV é minha droga da felicidade, meu sedativo, meu "Soma". Desde que eu fique distante de Sabrina Sato e de sua pinta na testa. Ela faz aflorar um monte de idéias em minha mente, todas elas rabiosas e incongruentes, transportando-me para o palco do Teatro Oficina, onde José Celso e sua platéia encenam eternamente a Guerra de Canudos. E agora? Como a gente sai daqui?


         

         

         

        CLÓVIS ROSSI

        Um

        SÃO PAULO - A sabedoria popular diz que todo político é ladrão. É uma injustiça? É. É preconceito? É. Mas convenhamos que o mundo político brasileiro não poupa esforços diuturnos para transformar esse preconceito em um conceito aceitável.
        Prova-o a repercussão da morte do senador Jefferson Péres. Dos leitores no seu "Painel" a colegas da política, as duas grandes características destacadas na vida do senador foram a firmeza de convicções e a honestidade.
        Claro que ambas são qualidades, mas, em algum tempo remoto, foram também -e acima de tudo- obrigações. Obrigações primárias. Para políticos, então, mais ainda.
        Deles, como da mulher de César, exigia-se que, além de serem honestos, parecessem honestos. No Brasil contemporâneo (e não tão contemporâneo assim), até políticos honestos não parecem honestos porque a sabedoria popular não consegue acreditar que freirinhas em bordel lá estejam para catequizar as moças.
        Tanto é assim que até um político 100% político, como é o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ), reconhece: "Pessoas dessa qualidade se tornam cada vez mais raras na vida pública".
        De fato, no Congresso Nacional abundam os casos de congressistas que, em vez de biografia, têm folha corrida.
        O diabo é que todos eles, assim como todos os demais detentores de mandatos, são eleitos, o que levou o próprio Péres a dizer, da tribuna, durante o episódio do mensalão: "A crise ética não é só da classe política, não, parece que ela atinge grande parte da sociedade brasileira", conforme ajuda-memória do site "Congresso em Foco".
        Por isso, afirmava também que abandonaria a política. Quem foi mesmo que disse "pobre do país que precisa de heróis"? Mais pobre ainda é o país que precisa de um político honesto. Um.

         

         

         

        Dora Kramer

        Conciliação de ocasião

        Desde o início do ano embalado no sobe-desce de palanques por um discurso agressivo contra a oposição, na terça-feira passada o presidente Luiz Inácio da Silva subitamente mudou de tom.

        Ao lado do governador José Serra, o candidato da oposição mais bem posicionado nas pesquisas à sua sucessão, Lula exaltou os benefícios da boa convivência entre adversários que, segundo ele, representa "um novo jeito de fazer política".

        Na versão do presidente, a participação do presidente da República e do governador de São Paulo de uma solenidade para assinatura de empréstimo de R$ 1,8 bilhão do BNDES para obras do metrô paulista demonstra a "contribuição" de ambos para essa nova política. "O Serra pode ser meu adversário e eu adversário dele. Mas fomos eleitos e nosso eleitor merece respeito."

        Antes dele, o governador Aécio Neves já havia apresentado suas credenciais de candidato a fiador da conciliação nacional, lançando a tese de que alianças partidárias entre contrários sinalizam a inauguração de "uma fase mais madura da política no Brasil".

        O eleitorado olha isso e, se estiver desprevenido, pode até levar os discursos ao pé da letra. Os otimistas começarão a conjeturar sobre a hipótese de uma aliança PT-PSDB no plano nacional, animados com a possibilidade de o Brasil arquivar no passado as leviandades e realmente entrar na fase de relações civilizadas, racionais e totalmente referidas na produção do bem-estar da população.

        Os pessimistas ficarão ressabiados. Poderão se perguntar que razões objetivas existiriam para justificar a premência de uma união entre governo e oposição em tempos de normalidade institucional, e ponderar se é realmente saudável a anulação do contraditório na democracia.

        Dúvidas de todo pertinentes, pois nas democracias mais avançadas governo é governo, oposição é oposição e ninguém associa essa dicotomia a imaturidade ou a atraso. Ao contrário, a cooptação, a mistura de papéis e a ausência de identidades partidárias nítidas é que denunciam o anacronismo das relações.

        Mas como a realidade está aí mesmo para pôr as coisas no lugar, logo ela se encarregará de mostrar que não existem grandes maquinações do bem ou do mal por atrás desses súbitos desejos de conciliar.

        Trata-se de um jogo de profissionais. Embate de gente grande. Lula tem a popularidade e o poder de pintá-la com cores de quase unanimidade nacional. José Serra tem o comando do maior estado do País e a melhor posição para 2010 na perspectiva eleitoral de hoje. Aécio Neves governa o segundo colégio eleitoral do Brasil, onde reina absoluto.

        Donos desses respectivos capitais, brigar agora por quê? Mas, exatamente porque detêm tão preciosos patrimônios é que a nenhum deles interessa a tese da conciliação, servida no momento à apreciação do público por uma questão de cálculo político.

        Quanto mais amistoso o presidente Lula aparecer nas fotografias junto a adversários politicamente fortes, mais reforço ele obtém à sua imagem de figura imbatível, residente em patamar superior e a quem ninguém ousa enfrentar.

        Ganha ainda dois preciosos dividendos: enquanto corre pelo País propagando ações de seu governo, mostra-se generoso e disposto a dividir com a oposição os feitos administrativos, dos quais é o maior beneficiário, pois nos palanques a marca em tom berrante é a do PAC federal.

        Prova é a anunciada decisão de Lula de não participar de comícios no primeiro turno da eleição municipal, nem em São Paulo, porque não abre mão da prerrogativa de presidir solenidades do PAC durante a campanha. Quer fazer isso mesmo em cidades onde o prefeito seja adversário de um aliado seu.

        Mas os oposicionistas parceiros da "nova política" nem de longe saem perdendo. Compartilham com Lula a popularidade, obedecem às pesquisas que indicam a preferência do eleitor por relações amistosas (uma obviedade, já que ninguém se manifesta racionalmente a favor do conflito) e não criam atritos inúteis com quem não será candidato. Mantidas as normas atuais, bem entendido.

        Essa fidalguia toda, porém, é seletiva, tem limites e prazo de validade. Só acontece entre oponentes cujo peso possa representar algum tipo de ameaça ao outro, é reservada a ambientes públicos e começa a expirar logo depois das eleições municipais.

        A partir daí, a tendência é minguar até não existir entre PT e PSDB nenhum resquício de harmonia ao fim do ano de 2009.

        Aí a regra será outra. O discurso da conciliação necessariamente terá de ceder o lugar, porque passará a prevalecer aquele aviso dado algumas vezes pelo presidente Lula aos navegantes inimigos sobre a certeza inabalável de que conseguirá dar continuidade a seu projeto de poder.

        Como a oposição lutará pela ocupação do mesmo espaço, convenhamos, a tese da "nova política" não passa pelo crivo nem da mais básica das leis da Física.

         

         

         

        Josias de Souza - Nos bastidores do poder

        No Senado, honestidade vale mais morta do que viva

        No ano da graça de 2001, a presidência do Senado foi disputada à maneira dos caiapós de Altamira: na base do facão.

         

        Disputaram a cadeira o baiano Antonio Carlos Magalhães (PFL, à época) e o paraense Jader Barbalho (PMDB).

         

        Prevaleceu, como se sabe, Jader. Depois, descobriram-se “barbalhidades” que assentaram na história do Senado uma de suas páginas mais funestas.

         

        Poderia ter sido diferente. Sob o ruído rascante dos facões, o senador José Jefferson Carpinteiro Péres (PDT) constituía uma alternativa mansa.

         

        Ofereceu aos colegas o bom nome e a biografia impoluta como opções ao escárnio. Jefferson Péres era chamado, então, de “terceira via”.

         

        O Senado preferiu a via de sempre, a tradicional, a “barbalha”. E arrastou para dentro do plenário as malfeitorias que levariam o Congresso à crise e Jader à renúncia.

         

        Mais tarde, Jefferson Péres viu formar-se à sua frente uma barricada. Ergueu-a o ex-senador Ney Suassuna (PB), na ocasião líder do sempre majoritário PMDB de Jader.

         

        Negaram à correção uma cadeira no Conselho de Ética do Senado. O vetado, em entrevista ao repórter Carlos Marchi, reagiu com o humor que lhe era próprio, corrosivo:

         

        "Eu aceitei com humildade, porque o Suassuna, com seu espírito de modernidade, achou que estou superado, com meus 75 anos. Eu defendo umas teses que não são muito atuais – ética, moral, essas coisas. Para o Suassuna, isso é coisa superada."

         

        Enrolado no escândalo das sanguessugas, Suassuna sucumbiu ao entrincheiramento do eleitor paraibano. Jader foi devolvido ao Congresso pelas urnas do Pará. Voltou rebaixado a deputado. Mas voltou.

         

        Na manhã da última sexta-feira, um infarto apontou para Jefferson Péres (PDT-AM) a última, a inevitável, a inelutável via. O senador foi ao esquife com 76 anos. E converteu-se, aos olhos dos colegas, num santo instantâneo.

         

        Seguiram-se à morte lamentações unânimes. “O Senado perde a sua referência moral”, lamuriaram muitos. “É uma perda irreparável”, choramingaram outros tantos.

         

        No Brasil é assim. O cidadão nasce, cresce e vive sob a pele de homem. Mas fenece como santo. Entre nós, a morte é de uma eficácia promocional hedionda.

         

        Os cemitérios brasileiros são hortas de virtudes. O morto com defeitos é uma utopia. A morte canoniza até os piores canalhas.

         

        No caso de Jefferson Péres, todas as loas são justificáveis. Não era santo. Mas levou para a cova a ventura de ter cruzado o pântano da política incólume.

         

        Em meio à impudência, escreveu uma biografia de decência. Compensava a miudeza do físico com o comportamento graúdo. 

         

        Esquivava-se das nomeações políticas. Mantinha a mulher no gabinete, negando a ela o acesso ao salário da Viúva. Não punha a mão em verba de representação. Devolvia os presentes que aportavam sobre sua mesa.

         

        Nas muitas crises do Legislativo –à de Jader sobreveio a de Renan Calheiros— Jefferson Péres nunca foi pilhado em gestos ou intenções suspeitas. Confrontado com tentativas de acobertamento, postava-se do lado dos que queriam arrancar a coberta.

         

        Andava desiludido o senador. Falava em abandonar a vida pública. Havia uma dose de cálculo na fuga anunciada das urnas de 2010. Sabia que não eram negligenciáveis as chances de ser barrado pelo voto.

        A morte, em sua nefasta sabedoria, poupou o eleitor amazonense de um desatino. E forçou os colegas do senador a pronunciarem um lote de hosanas que soam como expiação tardia de um pecado imperdoável.

         

        Os senadores enxergam no cadáver de Jefferson Péres virtudes que não foram capazes de valorizar enquanto o virtuoso ainda equilibra-se dentro dos sapatos. 

         

        No Senado, a honestidade vale mais morta do que viva, eis a revelação que José Jefferson, carpinteiro de um Péres raro, deixa como legado.

         

         

         

        Folha Online

        PT pagou conta privada de Lula com dinheiro público

        Hoje na FolhaO PT bancou, com recursos públicos do fundo partidário, taxas condominiais de uma cobertura usada por familiares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Bernardo do Campo, informa neste domingo reportagem de Leonardo Souza e Ranier Bragon, publicada pela Folha (a reportagem está disponível apenas para assinantes do jornal e do UOL).

        Segundo a reportagem, o imóvel, de número 121, é no mesmo andar e fica de frente para a cobertura 122, comprada por Lula em 1996, no condomínio Hill House.

        A Folha informa que, em análise da prestação de contas do PT de 2006, a equipe técnica do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) constatou que o PT gastou R$ 4.536,70 com taxas de condomínio do apartamento 121, "não justificado pelo partido a utilização e finalidade em área residencial".

        O partido teria arcado com despesas desse apartamento desde 2003.

        À reportagem, por meio de sua assessoria, o Palácio do Planalto informou que "a ocupação do apartamento preenche uma necessidade de segurança da Presidência da República".

        "Essa necessidade foi satisfeita durante o período em que o PT foi locatário do imóvel para manter o arquivo do Instituto de Cidadania, doado pelo presidente da República ao partido. E, posteriormente, quando o PT encerrou o contrato de locação, essa necessidade foi satisfeita com a locação pela Presidência. Hoje o imóvel serve de base de apoio para a segurança, sobretudo na área de comunicações."

         

         

         

        Agência Estado

        Lula intervém em discussão entre Minc e Maggi

        Foto: Agência Estado
        O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe Carlos Minc, novo ministro do Meio Ambiente em substituição a Marina Silva.
        O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe Carlos Minc

        O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu intervir no bate-boca entre o futuro ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, e o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR). Em reunião que pretende fazer com os dois, no máximo até terça-feira, dia em que Minc tomará posse, Lula vai pedir que eles suspendam as agressões mútuas. Um auxiliar do presidente disse ao jornal "O Estado de S. Paulo" que, a cada desaforo de um para o outro, Lula reclama: "Será que esses dois não percebem que isso prejudica a imagem do País lá fora, justamente num momento tão bom para os nossos negócios?"

        Foi Minc quem puxou a briga. Logo que aceitou o chamado para suceder a senadora Marina Silva, na semana passada, atacou Maggi, um importante aliado de Lula, defensor intransigente do agronegócio. De Paris, onde estava e de onde concedeu entrevistas, Minc elegeu Maggi como "inimigo da floresta" e insinuou que o governador só não planta soja nos Andes porque não pode.

        Maggi reagiu dizendo não ter terras nos Andes e que é folclore a informação, circulante nos meios ambientais, de que é o maior plantador individual de soja do mundo. Minc rebateu insinuando que Maggi era um piromaníaco. E, na quarta-feira, anunciou que o desmatamento aumentou 60% em Mato Grosso no mês de abril, antecipando anúncio oficial que será feito na segunda-feira. Maggi contestou os dados. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

         

         

         
         

        http://maryvillano.blogspot.com/

        MARCAS FAMOSAS

        Cada marca tem sua história, e algumas são bem curiosas.

        01 Aspirina
        É da casca do salgueiro que vem o princípio ativo da aspirina. A salicina e o salicilato, extraídos dessa árvore, eram usados contra a cefaléia na Mesopotamia, 3 mil anos a.C. No entanto, a aspirina foi patenteada pela indústria alemã Bayer em 10 de outubro de 1897. O químico Felix Hoffmann, com a ajuda do professor Heinrich Dreser, sintetizou o ácido acetilsalicílico para aliviar as dores reumáticas do seu pai. O nome do remédio mais popular do século foi formado assim: "a" vem de acetil; "spir" é a raiz do ácido epírico (substância quimicamente idêntica ao ácido acetilsalicílico); e o "ina" é um sufixo que se adicionava ao nome de todos os medicamentos no final do século XIX.

        02 Alka-Seltzer
        No inverno de 1928, Hub Beardsley, presidente dos Laboratórios Dr. Miles, visitou uma redação de um jornal e viu que nenhum funcionário havia faltado por causa da gripe que estava contagiando todos. Explicaram-lhe que eles tomavam uma combinação de aspirina e soda cáustica. Beardsley pediu aos seus químicos para testarem a fórmula. O químico Maurice Treneer foi mais longe e criou o Alka-Seltzer 3 anos depois.

        03 Creme Nívea
        Foi criado em dezembro de 1911 pela farmácia de manipulação do doutor Oskar Troplowitz, que descobriu como unir água e óleo para hidratar a pele. O Eucerit, retirado da lanolina e combinado com óleos, água, compostos de glicerina, ácido cítrico e essências de rosas e lírios, formava o creme. "Branco como a neve", foi batizado de Nívea e era comercializado numa latinha amarela. A embalagem ganhou a cor azul com letras brancas em 1925. Depois da Segunda Guerra Mundial, a marca Nívea foi expropriada. A partir de 1952, a empresa Beiersdorf iniciou uma longa jornada pelos países para readquirir os direitos sobre a marca.

        04 Colgate
        A industrialização da pasta dentifrícia começou em 1890, nos Estados Unidos. Foi o fabricante de sabonetes William Colgate, um imigrante inglês, quem teve a idéia de lançar um creme dental em tubos de estanho flexíveis.

        05 Cotonetes
        A idéia de uma haste com a ponta de algodão foi lançada nos Estados Unidos pela Johnson & Johnson em 1921. No começo, o Wooden Applicator, uma haste de madeira com algodão em apenas uma das pontas, tinha o seu uso restrito a hospitais, na aplicação de remédios. Em 1947, o sucesso do produto fez a Johnson & Johnson lançar o Johnson's Cotton Tipped Applicator, disponível para venda direta ao consumidor e indicado para o público infantil. Em 1963, as hastes foram mudadas de madeira para plástico.

        06 Concorde
        Em novembro de 1962, França e Inglaterra desenvolveram o projeto do avião supersônico Concorde, que depois de 7 anos de estudos e testes, decolou dia 2 de março de 1969, na cidade francesa de Toulouse. O primeiro vôo, comandado por André Turcat, durou 28 minutos. O avião media 62,10 metros de comprimento, 11,40 metros de altura e 25,56 metros de envergadura. Voava a 18 mil metros de altitude a 2.200 km/h (quase duas vezes a velocidade do som), com autonomia de 6.580 quilômetros. Pesava 185 toneladas, levava 8 tripulantes e até 144 passageiros. O seu primeiro vôo comercial foi em 21 de janeiro de 1976. No Concorde, a viagem Paris-Rio de Janeiro durava 6,5 horas, enquanto um Jumbo 747 demorava cerca de 12 horas. O soviético Tupolev Tu-144, o primeiro avião supersônico civil, decolou antes do Concorde, em 31 de dezembro de 1968.

        07 Channel Nº5
        A partir do seu primeiro emprego, numa loja de chapéus, a francesa Coco Chanel abriu as suas próprias lojas, tornando-se numa das mais importantes estilistas do mundo. O Chanel nº 5 é elaborado com uma mistura de 60 fragrâncias. O 5 era o seu número da sorte, tanto que Coco apresentou o produto no dia 5 de maio de 1921. Mas foi Marilyn Monroe quem tornou o perfume um sucesso. Ao ser entrevistada, perguntaram o que vestia para dormir. Marilyn respondeu: "Apenas algumas gotas de Chanel nº 5".

        08 Canivete Suíço
        Sabendo que o exército do seu país importava canivetes alemães, Karl Elsener abriu a sua fábrica em 1884. Os seus primeiros canivetes Victorinox foram entregues aos soldados suíços em outubro de 1891. Colocou o brasão do país para diferenciá-los dos alemães e batizou o produto homenageando os seus pais, Victor e Victoria. Para ampliar o negócio e atrair utilizadores mais refinados, Elsener aperfeiçoou o canivete e, assim, surgiram os modelos com ferramentas: abre latas, chave de fendas, punção e saca-rolhas, serrote, alicate, abre garrafas, palito de dentes, pinça, gancho de pesca, lente de aumento e até uma pequena bússola. O produto popularizou-se depois da Segunda Guerra Mundial, com as unidades militares americanas. Hoje, a linha para oficiais tem 100 diferentes combinações.

        09 Caneta Bic
        Marcel Bich, depois de trabalhar numa empresa de tintas durante a Segunda Guerra Mundial, em 1949, comprou uma pequena fábrica de canetas esferográficas. As canetas vazavam tinta e sujavam os dedos, mas faziam sucesso, e Bich decidiu investir no produto. Procurou o seu inventor, Ladislao "Laszlo" Biro, comprou a patente e iniciou a fabricação da caneta Bic, cujo modelo é praticamente o mesmo até hoje. Atualmente, são vendidas 10 milhões de canetas por dia.

        10 Barbie
        A boneca mais famosa do mundo, lançada em 1958, foi inspirada em Barbie Handler, filha da americana Ruth Handler, fabricante de brinquedos. Ruth achava as caras das bonecas da época infantis demais e desenhou a Barbie com um ar mais adulto. Ao lado do marido Elliot, que fabricava casas de bonecas, em 1945 ela fundou a fábrica de brinquedos Mattel. Desde o seu lançamento, a boneca já vendeu mais de um bilhão de unidades. Se todas elas fossem colocadas em pé, umas sobre as outras, dariam mais de sete voltas ao redor da Terra. A cada dez segundos, uma boneca Barbie é vendida no mundo. Ken, o namorado de Barbie, de 1961, também foi inspirado no filho do casal.

        11 Kinder Surpresa
        Fundada em 1944 na cidade de Alba, Itália, a Ferrero é o terceira maior fabricante de chocolates do mundo. A menina dos seus olhos é o ovo Kinder Surpresa, lançado em 1975. Os ovos são recheados com cápsulas de plástico que guardam pequenos brinquedos desmontados. Diariamente, são vendidos 5 milhões de ovos Kinder no mundo. Produzidos para ser vendidos em países de clima frio, o chocolate não é comercializado no verão.

        12 Kellogg's
        Em 1860, os Adventistas do Sétimo Dia que foram para Battle Creek, Michigan, formaram uma comunidade que ficou famosa pelo seu estilo de vida e alimentação saudável. O adventista John Harvey Kellogg, depois de estudar medicina, voltou a Battle Creek e tornou-se diretor do centro de saúde. Percebeu, então, que as refeições vegetarianas eram muitos leves e os pacientes partiam após curta estadia. Kellogg e o seu irmão, Will Keith, começaram a criar novas e saborosas formas de alimentos. Preparavam no vapor e na pressão vários tipos de grãos e, assim, criaram uma variado menu vegetariano. No entanto, ainda faltava um pão de grãos integrais com pouco amido. Após muitas experiências, chegaram acidentalmente aos flocos de trigo. Depois surgiram os flocos de arroz e os de milho (corn flakes). O tigre Tony, símbolo dos Kellogg's, foi criado em 1952 pela agência de publicidade americana Leo Burnett.

        13 Jacuzzi
        A Jacuzzi foi fundada no início do século XX por 7 irmãos, imigrantes italianos que se instalaram nos Estados Unidos. A empresa era bem-sucedida fabricando hélices de avião e bombas de irrigação para agricultura. Em 1956, uma pessoa da família precisou de um tratamento de hidroterapia. Os engenheiros da Jacuzzi adaptaram uma dessas bombas para ser usada numa banheira. E Roy Jacuzzi viu aí um bom negócio e colocou as banheiras de hidromassagem no mercado em 1968.

        14 Harley-Davidson
        Foi de um barracão na cidade de Milwaukee, Estados Unidos, em 1903, que saiu a primeira moto batizada com o sobrenome dos seus criadores: o desenhista William Harley e o engenheiro Arthur Davidson. E era preciso pedalar para pegar. Para a Primeira Guerra Mundial, a empresa recebeu do exército americano a encomenda de 20 mil unidades, algumas com metralhadoras. Na Segunda Guerra Mundial, voltou à luta: 90 mil motocicletas de 750 cilindradas serviram as forças americanas.

        15 Gillette
        King Camp Gillette, em 1895, percebeu que para se barbear, apenas era necessária a ponta da lâmina da navalha. Pensou então em fabricar uma lâmina de aço pequena e descartável. Os industriais não acreditavam ser possível fazer uma lâmina pequena, de bom corte e barata a ponto de ser deitada fora depois. Com a ajuda do mecânico William Nickerson, resolveram os problemas técnicos. Assim surgiu a Gillette Safety Company, em 28 de setembro de 1901. A produção começou em 1903 e no primeiro ano foram vendidos 51 aparelhos e 168 lâminas. Os negócios dispararam em 1905. Durante a Primeira Guerra Mundial, o governo americano encomendou 3,5 milhões de aparelhos e 36 milhões de lâminas para os seus soldados. Nessa época, a empresa já vendia 1 milhão de aparelhos e 120 milhões de lâminas por ano. A Gillette lançou o conceito de 2 lâminas paralelas em 1971 e o Sensor, em 1990.

        continua...

        continuação

        16 Guinnes: livro dos recordes
        Em 1954, durante uma caçada Irlanda, Hugh Beaver, concluiu que não havia caçado tarambolas porque os pássaros eram rápidos demais. Naquela noite, disse aos seus amigos que aquela era a "ave de caça mais rápida que temos". Mas não se chegou a um consenso e também não havia nenhuma enciclopédia com a resposta. Hugh, então diretor-executivo da Arthur Guinness, Son and Company, fabricante da cerveja Guinness, pensou num livro que tivesse todos os tipos de recordes. A tarefa parecia grande demais, até que apareceram os gêmeos Norris e Ross McWhirter, jornalistas devoradores de trivialidades que colecionavam uma imensidão de fatos e números. Quatro meses após uma conversa com Hugh, os McWhirter haviam compilado e publicado o primeiro Guiness, então com 198 páginas. Quatro meses depois, era o número 1 na lista dos livros de não-ficção mais vendidos em Inglaterra.

        17 Farinha Láctea Nestlé
        Em 1867, Henri Nestlé, um químico alemão que morava em Vevey, na Suíça, descobriu um mercado emergente: o dos alimentos infantis. Começou a fabricar uma farinha nutritiva para crianças, à base de cereais e leite: a Farinha Láctea Nestlé. O nome Nestlé, em alemão, significa "pequeno ninho". E foi justamente esse o símbolo da empresa, porque traduz o carinho da mãe com os filhos. A Nestlé, é a maior indústria alimentícia do mundo.

        18 Fanta
        Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, quando a fábrica alemã da Coca-Cola deixou de receber o xarope usado no preparo do refrigerante, os donos da fábrica tiveram de ir à procura de novos ingredientes e inventaram a Fanta. O nome, escolhido pelos empregados da empresa, foi tirado da palavra fantástica, que é parecida em muitas línguas. Entre 1945 e 1955, a marca Fanta foi usada apenas para não perder o registro. Só foi ressuscitada de verdade para o lançamento de um refrigerante de laranja criado pela Coca-Cola italiana em abril de 1955. Fez sucesso e foi conquistando o mundo, chegando aos Estados Unidos em 1959.

        19 Donuts
        Em 1946, os donuts do americano William Rosenberg faziam tanto sucesso que o horário do lanche das indústrias da região da Nova Inglaterra passou a ser ajustado ao seu itinerário. Para facilitar o consumo, o donut vinha envolto no açúcar e o café simples, sem açúcar, era servido numa caneca. Todos os clientes mergulhavam o doce no café antes de saboreá-lo. Os clientes satisfeitos insistiram para que ele abrisse uma loja. E assim formou-se a grande rede. As rosquinhas foram criadas no século XVI por padeiros holandeses, mas ainda não tinham o tradicional furo no meio. Isso só apareceu em 1847, criado pelo marinheiro americano Hanson Gregory. Essa criação valeu-lhe uma placa de bronze na sua cidade natal, Rockport.

        20 Danone
        Em 1919, o espanhol Isaac Carasso começou fabricar iogurte com leite fresco num pequeno galpão depois de ouvir falar dos benefícios do alimento. Batizou-o de Danone, as primeiras letras do nome do filho, Daniel, unidas à palavra inglesa one, pois o menino era o primogênito. O negócio prosperou por Espanha e, em 1932, Daniel Carasso montou uma fábrica em França. Daniel era judeu, e, quando estourou a Segunda Guerra Mundial, foi obrigado a exilar-se nos Estados Unidos. Lá fundou a Dannon Companny. Nesse período, as fábricas francesa e espanhola tinham ficado com pessoas de confiança e, quando Daniel voltou à Europa, em 1952, reassumiu o controlo.


        21 Playboy
        Em 1953, aos 27 anos, o americano Hugh Hefner era diretor de circulação da revista Children's Activities. Ele acreditava que havia mercado para uma revista de jovens adultos, mas as publicações masculinas eram sobre caçadas, armas, carros, etc., e ignoravam os assunto que mais preocupava os homens: mulheres. Por 500 dólares, comprou os direitos de fotos que Marilyn Monroe tirou para um calendário no início de carreira, emprestou dinheiro com amigos e parentes e criou uma revista. O nome seria Stag Party (em português, farra) e o símbolo, um veado fumando à espera de uma companhia feminina. Na véspera do lançamento, porém, Hefner descobriu que havia uma publicação com esse nome. Pensou em vários outros - Top Hat, Bachelor, Gentlemen - até que um amigo sugeriu Playboy, nome de uma fábrica de carros falida. E Hefner encomendou ao desenhista Arthur Paul uma nova mascote. O coelho foi adaptado e hoje é uma marca mundialmente conhecida. Em outubro de 1953, dos 69.500 exemplares do primeiro número, 54.175 foram vendidos.

        22 Ovomaltine
        O químico suíço Georges Wander pesquisava de um complemento alimentar nutritivo e forte e interessou-se pelo extrato de malte, obtido da cevada. A sua morte fez com que o seu filho, Alberto, continuasse as pesquisas. Em 1904, Alberto Wander criou a fórmula do Ovomaltine, com extrato de malte de cevada, ovos, leite integral, cacau, vitaminas e sais minerais. Dois anos depois, começou a produzi-lo na cidade de Berna

        23 Nintendo e Sega
        O mais antigo fabricante de jogos de vídeo é a Nintendo. Fusajiro Yamauchi fundou, em 1889, a Nintendo Koppai, fabricante do hanafuda - um baralho japonês. Em 1959, passaram a comercializar baralhos com os personagens Disney. A Nintendo criou uma divisão para cuidar de jogos em 1969. O primeiro jogo de vídeo, o TV Game 6, só surgiu em 1977. O game boy, jogo de vídeo portátil da Nintendo, foi lançado em 1989. A Sega foi fundada pelo americano David Rosen no Japão, em 1954, para atuar inicialmente no mercado de flipers. O nome Sega vem de Service Games.

        24 Nescafé
        Nos anos 30, houve uma superprodução de café e os preços do produto no mercado internacional desceram bastante. O Brasil, o maior produtor da época, entrou numa crise séria. Entre 1931 e 1938, foram destruídas 65 milhões de sacas de café. Então as autoridades brasileiras sugeriram que a Nestlé, que já fabricava leite em pó, desenvolvesse um café solúvel. As pesquisas de Hans Morgenthales levaram 7 anos e o seu grande mérito foi descobrir que se deveria acrescentar hidratos de carbono à matéria-prima para manter o aroma do café. A produção de Nescafé foi iniciada em 1939.

        25 McDonald's
        Ray Kroc vendia multimixers, máquinas que batiam 6 milk-shakes de uma só vez. Em 1954, ele foi conhecer um pequeno drive-in de hambúrgueres que precisava de 8 dos seus multimixers de uma só vez. Era o estabelecimento dos irmãos Dick e Maurice McDonald, onde as pessoas faziam fila para comprar um hambúrguer por 15 centavos ou uma porção de batatas fritas por 10 centavos. Krok imaginou que se os McDonald abrissem mais 10 estabelecimentos, ele poderia vender 80 multimixers. Os irmãos já tinham vendido franquias, mas muitas não mantinham os padrões e prejudicavam a imagem do estabelecimento. Mesmo assim, Kroc convenceu-os a abrir novas lojas. Partiu para Chicago com uma planta do restaurante, uma receita para as batatas fritas e um contrato que lhe dava permissão para encontrar novos locais para as filiais. Uma das únicas exigências era a de que todos os restaurantes deveriam ter a aparência exata daquele de San Bernardino. A primeira loja, aberta em abril de 1955, em Des Plaines, Illinois, foi um grande sucesso. Em 1957, eram 37 estabelecimentos. A dedicação de Kroc aos estabelecimentos era total, e logo se cansou da letargia dos irmãos McDonald. Comprou a companhia com 2,7 milhões de dólares vindos de um investidor.
        Na década de 60, os estabelecimentos ganharam lugares para se sentar. O sistema drive thru apareceu no início dos anos 70. Ronald McDonald, símbolo da rede, foi criado em 1963.

        26 Levi's
        Levi Strauss chegou aos Estados Unidos em junho de 1847. Foi trabalhar para os seus irmãos mais velhos, vendendo tecidos e objetos domésticos em Kentucky. Dois anos depois, partiu para a Corrida do Ouro, na Califórnia. Vendeu todos os seus pertences, mas não conseguiu desfazer-se de uns rolos de lona. Quis vendê-los como material para tendas ou para cobrir carroças, mas as pessoas queriam calças resistentes. Em 1850, contratou um alfaiate e transformou a sua lona em macacões, que foram vendidos rapidamente. Logo abriu uma pequena confecção de calças em San Francisco. E quando Levi trocou a lona pelo serge de Nimes (tecido de Nimes), mais resistente e durável, tingiu-o com índigo. Os americanos, que chamavam o tecido de denim, passaram a chamar a calça de Levi's blue denim ou blue jeans. Na década de 1860, o alfaiate Jacob Davis colocou rebites para reforçar os bolsos que se rasgavam. Levou a bem-sucedida idéia para Levi e tornaram-se sócios. O número 501 marcava o lote de tecido das primeiras calças jeans de que o mundo teve notícia. Por isso, o modelo foi chamado de Levi's 501.

        27 Lego
        O carpinteiro dinamarquês Ole Kirk Christiansen começou fabricar, em 1932, carrinhos de madeira artesanais para o seu filho, Godtfred. Depois começou fazer brinquedos desmontáveis até criar, em 1942, as primeiras pecinhas de plástico para encaixar. A palavra Lego vem da expressão leg godt, que significa "bem jogado".

        28 Lacoste
        Em 1927, o tenista francês René Lacoste foi o principal responsável pela primeira vitória francesa na Taça Davis e colecionou títulos nos famosos torneios de Roland Garros, Wimbledon e Forrest Hills. Ele usou a figura de um crocodilo como brasão num blazer azul-marinho e numa camisa de mangas curtas, com gola e botões que iam até ao pescoço, desenhados por ele mesmo. O uniforme inusitado apareceu pela primeira vez no Torneio Aberto dos Estados Unidos. Dois anos depois, ele abandonou os courts por causa de uma tuberculose e dedicou-se totalmente aos negócios da sua marca.

        29 Kodak
        O americano George Eastman, inventor do filme em rolo, revolucionou o mercado em 1888 criando uma máquina fotográfica simples, leve e barata. Ela foi batizada de kodak, nome curto e fácil de ser pronunciado em qualquer língua. Ao terminar o filme, o cliente deveria levar a máquina até o local onde havia comprado para que ele fosse retirado. As fotos eram reveladas e entregues em 10 dias. Com o slogan "Aperte o botão que nós fazemos o resto", 90 mil máquinas kodak foram vendidas no primeiro ano.

        Wikipédia


         

         

         

        Isabela Boscov

        Um Indiana calculado além da conta

        O Reino da Caveira de Cristal se esforça muito
        para agradar e, pior, nem sempre consegue

        Cate, como a soviética Irina, e Ford: ela mastiga o cenário e ele é engolido pelo roteiro

        Na semana passada, uma reportagem de VEJA explorou os bastidores de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, Estados Unidos, 2008). O filme era um segredo guardado a sete chaves e deixava em suspenso uma pergunta: Harrison Ford, sessentão, manteria acesa a chama do personagem? Com o filme em cartaz no Brasil desde quinta-feira, já se sabe a resposta. Ford não se mostra minimamente superado. Ele reconfirma que nasceu para o papel e continua sendo a melhor parte da aventura. A aceleração vertiginosa do cinema de ação tampouco tirou o lugar de um entretenimento um tantinho mais lento como este aqui – seu ritmo é um alívio diante de tanta hiperatividade. Num aspecto, contudo, dezenove anos de espera pela continuação de uma das séries mais criativas do cinema foi tempo demais. A demora afetou o prazer e a espontaneidade com que o diretor Steven Spielberg e o produtor George Lucas conceberam os três primeiros episódios da franquia, e que não resistiram à maquinação excessiva envolvida em O Reino da Caveira de Cristal.

        Na superfície, esse quarto episódio se parece muito com os anteriores. Em 1957, o arqueólogo Indiana é de novo alvo do interesse de um governo totalitário que quer se beneficiar de seu conhecimento – agora os soviéticos, personificados pela militar Irina Spalko (Cate Blanchett, mastigando o cenário, como convém). O conhecimento em questão tem a ver com o célebre "caso Roswell", de 1947 – a suposta queda de uma espaçonave no Novo México, da qual teriam sido recolhidos os corpos de alienígenas , e conduz a um outro artefato lendário, um crânio de cristal associado à mitologia maia. Para encontrá-lo antes dos soviéticos, Indiana, como sempre, terá de se valer de ajudantes de valor questionável, como o comparsa Mac (Ray Winstone) e o jovem Mutt Williams (Shia LaBeouf), que, como o arqueólogo virá a descobrir, é filho de seu grande amor do passado, Marion Ravenwood (Karen Allen). E aí começam os problemas. Em Os Caçadores da Arca Perdida, Harrison e Karen tinham uma química fantástica  a qual não existe mais. Winstone é um ator sólido, mas seu personagem está longe de sê-lo. E, contraposto à simplicidade de Ford, Shia soa ruidoso e dispersivo. Indiana, portanto, não depende apenas de um vilão à altura para que o seu melhor venha à tona. Ele necessita igualmente de bons parceiros, como o incomparável Sean Connery de A Última Cruzada. Sem essa combustão entre Ford e os atores que o cercam, seu humor seco perde aquele estampido e, com ele, muito do prazer que poderia proporcionar.

        O mais difícil de explicar a contento em O Reino da Caveira de Cristal é a inferioridade do roteiro. Ele rodou de um para outro dos melhores profissionais do ramo durante anos. Quando Spielberg, Lucas e Ford se decidiram pelo tratamento de David Koepp, de Homem-Aranha, imaginava-se que teriam encontrado a perfeição. O que o espectador encontra é outra coisa: à parte alguns momentos em que aquele velho júbilo da série é revivido, o que se tem é uma história que se alonga em explicações desnecessárias, cujo tom reminiscente de Eram os Deuses Astronautas? há de irritar a muitos e cujos saltos desajeitados nada têm em comum com a fluidez dos três primeiros filmes. Ver Indiana Jones em ação tem de ser uma experiência semelhante à de assistir a Mikhail Baryshnikov dançando O Corsário: sabe-se que chegar àquele efeito exigiu um trabalho descomunal, mas ele nunca é percebido. Aqui, o esforço é visível. E nada poderia estar mais fora de compasso com o espírito desse personagem que, em si mesmo, continua atraente: primeiro, querer agradar – e, o mais grave, nem sempre conseguir.

         

         

         

        Monica Weinberg 

        Internet mais segura

        Existem hoje no Brasil 21 milhões de pessoas que fazem uso 
        regular da internet. Dessas, 30% relatam pelo menos um caso
        em que a rede lhes causou alguma espécie de prejuízo.

        Ilustrações Rob

        Marcos Rosa


        Os números surgiram em um levantamento nacional conduzido pela advogada Patricia Peck (foto ao lado), especialista em direito digital, cujo trabalho consiste justamente em levar à Justiça os casos em que os prejuízos financeiros na rede alcançam cifras mais altas. A atual pesquisa chama atenção para quatro diferentes situações em que as pessoas ficam mais vulneráveis ao navegar – a proliferação de vírus é a mais freqüente. Ainda que apenas uma minoria passe por uma má experiência desse tipo, não é exagero adotar algumas das medidas preventivas – e muito simples – sugeridas aos internautas por Patricia Peck e outros especialistas ouvidos por VEJA.

        Situação: alguém faz compras na internet e jamais recebe a mercadoria 
        Razão mais comum: a tal loja virtual não existe. Ela fica no ar tempo suficiente para atrair determinado número de clientes – depois, desaparece da rede
        Medidas de segurança:
        • Na hora de pagar, preferir cartão de crédito a depósito em conta-corrente ou boleto bancário. Caso a pessoa se dê conta do golpe antes de pagar a fatura do cartão, ainda é possível cancelar a operação – algo que a lei garante
        • Entrar no site 
        www.registro.br, onde há uma lista de lojas brasileiras on-line, e procurar aquela na qual pretende fazer a compra. Para constar do site, o negócio precisa ter CNPJ, endereço fixo e telefone, o que reduz a quase zero o risco de se tratar de uma fraude
        • Pesquisar em sites especializados na avaliação de lojas on-line, sempre baseados no depoimento de quem já testou o serviço. O mais completo deles é o 
        www.reclameaqui.com.br

        Situação: a pessoa costuma usar a internet para investir em ações, quando é surpreendida por operações que ela nunca fez – e por menos dinheiro na conta 
        Razão mais comum: o sistema ao qual as corretoras estão ligadas, conhecido como home broker, pode ter sido invadido por um hacker. O home broker é relativamente novo e, segundo os especialistas, ainda requer avanços para oferecer tanta segurança quanto o sistema bancário on-line
        Medidas de segurança:
        • Optar por sites cujo endereço seja encabeçado por "http". Isso indica que eles passaram por uma certificação de segurança – e que todos os dados enviados às corretoras são criptografados 
        • Ao cadastrar-se em determinada corretora, procurar por um termo de compromisso na página virtual. Por meio dele, o cliente tem a garantia de que, em caso de alguma operação indevida, não será dele o prejuízo – mas, sim, da própria corretora

        Situação: ao baixar um programa da internet, veio um vírus junto
        Medidas de segurança:
        • Fazer o download apenas de sites oficiais. O serviço de mensagens instantâneas Messenger, por exemplo, pode ser baixado por meio de uma série de sites, mas o único que garante segurança total é o do próprio programa
        • Manter o antivírus atualizado. Quarenta novos vírus aparecem todo dia na rede – e é nos sites que eles proliferam primeiro
        • Programas aparentemente inofensivos, como aqueles que fornecem relógios ou proteção de tela, são freqüentes fontes de vírus. Preferir os sites mais conhecidos para fazer isso

        Fuja deles

        Existe um tipo de e-mail do qual é melhor fugir: ele costuma vir recheado de toda espécie de promessa – e contém vírus. Eis uma lista com alguns dos que mais circulam hoje no Brasil e dicas para saber quando se está diante de um deles:

        Remetente: Receita Federal
        O que diz: o CPF precisa ser regularizado 

        Remetente: Vox Card 
        O que diz: você recebeu um cartão de alguém que não tem coragem de se declarar

        Remetente: fabricantes de celulares, como Nokia e Samsung 
        O que diz: quem reenviar o e-mail para outras vinte pessoas recebe um celular novo

        Remetente: Loteria do Reino Unido 
        O que diz: você está concorrendo a um prêmio no valor de 800 000 libras

        O que deve causar desconfiança

        Remetente
        Quando o endereço revela excesso de consoantes ou traz o nome de uma empresa na primeira parte e, na segunda, aparece um provedor gratuito, como Yahoo! ou Hotmail

        Texto
        Palavras em ordem estranha ou com a grafia errada. Quando os e-mails vêm de fora do Brasil, passam por programas de tradução automática – nem sempre precisos

        Links
        Quando se pousa o cursor sobre links enviados em alguns desses e-mails costumam surgir símbolos como "ftp", "\", ".exe", ".scr" e ".bat".                    Eles são típicos de programas para instalar no computador – e não de sites

        Medidas de segurança para
        evitar esses e outros vírus

        1. Antes de abrir qualquer arquivo, é melhor submetê-lo a um antivírus – ainda que a mensagem tenha sido enviada por um amigo: em 40% dos casos, tais e-mails vêm de pessoas conhecidas que não têm idéia do que está contido ali

        2. Jamais instalar um programa que venha anexado a um e-mail

        3. Ao receber um link, não clicar automaticamente em cima dele. É melhor copiar e colar o tal endereço virtual em uma nova janela, para aí, sim, acessá-lo

         

         

         

        Renato Cruz, NEW HAVEN

        Crescem as ameaças à liberdade na internet

        Países usam a tecnologia e a força para impedir a livre expressão

        As iniciativas de controle da internet por governos aumentam em todo o mundo. A OpenNet Initiative - uma parceria entre a Universidade de Toronto, Harvard, Cambridge e Oxford - identificou que pelo menos 24 países praticam hoje algum tipo de filtragem da rede mundial, bloqueando conteúdo considerado inadequado. Em 2002, eram somente dois.

        "A internet é uma força para a abertura da sociedade", afirmou Karin Karlekar, editora da Freedom of the Press, pesquisa anual da Freedom House sobre liberdade de imprensa. "Por causa disso, vários governos estão expandindo seus métodos para controlar e monitorar a internet." Karin participou ontem do evento Computers, Freedom, and Privacy 2008.

        O Brasil é considerado parcialmente livre, na pesquisa Freedom of the Press. Mesmo com as garantias constitucionais de liberdade de expressão e de imprensa, tem havido decisões judiciais que punem a divulgação de notícias contra políticos e pressões de grupos criminosos contra a imprensa. "Não há restrições à internet (no Brasil)", diz o relatório.

        "Existem muito pouca, se houver alguma, restrição à liberdade da internet nas Américas", disse Karlekar. "A exceção é Cuba." Apesar disso, a editora da Freedom of the Press apontou que está havendo uma pequena mudança, com alguns blogueiros cubanos que conseguiram furar o controle estatal. O acesso, no entanto, continua a ser um problema sério em Cuba. "Ainda é quase impossível conseguir um computador. A internet é muito restrita."

        A dificuldade de acesso pode ser uma ferramenta importante para a censura na rede. "A forma mais efetiva de controle de internet é impedir que as pessoas tenham acesso, como em Cuba e na Coréia do Norte", afirmou Robert Faris, pesquisador da OpenNet Initiative. "O Vietnã justifica a filtragem como uma forma de proteger as crianças da pornografia. Na prática, eles bloqueiam conteúdo político e a maioria da pornografia ainda está disponível."

        A Ásia tem países onde a internet é extremamente livre, como Coréia do Sul, Japão e Taiwan, e países onde ela é extremamente controlada, como China, Coréia do Norte e Mianmar. No ano passado, Mianmar chegou a cortar toda a conexão com a internet, como uma forma de conter os protestos contra a ditadura militar.

        A China tem uma política nacional de filtragem da internet, chamada Projeto Escudo Dourado. Internacionalmente, o sistema foi apelidado de Grande Firewall da China. Firewall é o nome da tecnologia que permite o bloqueio de conteúdo da internet. O alvo do sistema são conteúdos que questionem a autoridade governamental ou que incentivem o descontentamento social. "De 26 jornalistas presos na China, 18 estão atrás das grades por causa de atividades relacionadas à internet", apontou Robert Dietz, coordenador do Programa para a Ásia do Comitê de Proteção aos Jornalistas.

        Na maioria dos países, os provedores de acesso recebem uma lista do governo com os sites que precisam ser bloqueados. Essa estratégia não funciona muito bem, porque pode haver diferenças de acesso de um provedor para outro. "Existem exceções, como a Arábia Saudita e Marrocos, onde o controle é centralizado na operadora estatal de telecomunicações", disse Faris.


         

         

         

        ISTOÉ - Independente

        LUIZA VILLAMÉA

        Nápoles vira um lixão

        FRANCO CASTANO/AP/IMAGEPLUS

        Com toneladas de sujeira espalhadas pelas ruas, cidade italiana enfrenta até risco de epidemia

        Tradicional pólo turístico, a cidade de Nápoles, no sul da Itália, virou o retrato do caos. Pelo menos 3,5 mil toneladas de lixo se amontoavam por suas ruas e avenidas centrais na semana passada, atraindo insetos e ratos. Outras 50 mil toneladas se acumulavam nos arredores da cidade. O risco de epidemias entrou para o cotidiano dos napolitanos. Com o calor e a putrefação do material orgânico, o ar ficou irrespirável. No auge de uma crise que começou a se agravar na virada do ano, moradores da cidade decidiram colocar fogo na imundice acumulada. A queima, por sua vez, passou a liberar para a atmosfera grande quantidade de dioxinas, substâncias altamente tóxicas. Em apenas um dia os bombeiros tiveram de apagar 84 focos de incêndio. “Todos falam, todos brigam, mas ninguém resolve nada”, afirmou o pesquisador Danilo Parisi, 54 anos. “Estamos impotentes, sem saber o que fazer para evitar uma contaminação química ou por bactérias.”

        CAOS Para combater a imundice acumulada, napolitanos provocaram incêndios que ameaçaram se alastrar

        Mergulhada há 15 anos na chamada “emergência dos resíduos”, a cidade já passou por várias crises no setor, controlado pela máfia napolitana, a Camorra. Jamais, porém, havia chegado a um ponto tão assustador. A possibilidade de risco à saúde alarmou até os marines americanos baseados na região, que acabam de despachar para análise amostras de terra e de água colhidas em 130 de suas 1.800 casas. Com os aterros sanitários saturados, nos últimos meses a cidade incinerou cerca de 65 mil toneladas de lixo na Alemanha, mas está longe de encontrar uma solução para o problema. “Nápoles está no limite”, reconheceu publicamente Antonio Bassolino, que administra a região à qual pertence a cidade. Para ele, só uma ação em parceria com o governo central tem chances de resolver o problema, que já rendeu um processo contra a Itália, movido pela Comissão para Meio Ambiente da União Européia.

        Em busca de uma solução, o primeiro- ministro Silvio Berlusconi realizou na cidade a primeira reunião do Conselho de Ministros de seu governo, na quarta-feira 21. Promessa de campanha, o encontro foi precedido por uma ampla faxina no entorno da monumental Praça do Plebiscito, onde se localiza a prefeitura. A sujeira, porém, continuava intocada a pouca distância dali. Esse é um problema vivido diariamente pela professora Marisa Verrone, uma napolitana de 45 anos que não tinha lixo na porta de casa na semana passada. “Mas basta colocar o nariz a poucas centenas de metros para ser circundado pela maré de imundice”, conta Marisa. Desolada com o problema, ela não demonstrava esperança de ver uma solução a curto prazo. “A arma do voto é inútil quando em todas as partes falta vontade política para gerenciar a coleta do lixo de uma maneira moderna e responsável.”

        Berlusconi, no entanto, saiu da reunião ministerial anunciando medidas drásticas para combater o drama do lixo, que comparou a “uma emergência nacional, como um terremoto ou uma erupção vulcânica”. Uma de suas primeiras medidas foi declarar os lixões como zonas de interesse estratégico nacional a serem vigiadas por militares. “Qualquer pessoa ou minoria organizada que bloquear ou dificultar o uso dos lixões será castigada com penas severas, que vão de três meses a um ano de prisão”, anunciou o novo chefe do governo italiano. Um recado direto para a Camorra, que, além de controlar o serviço há décadas, é acusada de ter despejado nos aterros da região lixo tóxico proveniente da Europa Central. Ao colocar em colapso o sistema sanitário napolitano, a máfia inviabilizou a cidade. Um dos grandes centros turísticos da Itália e ponto de partida para roteiros que incluem Pompéia, a Ilha de Capri e a Costa Amalfitana, Nápoles está, literalmente, às moscas. Até o requintado restaurante Caruso, instalado no Grand Hotel Vesúvio, com vista panorâmica para a baía de Nápoles, fechou as portas. Só será reaberto quando o drama do lixo for um episódio do passado.


         

         

         

        ISTOÉ - Independente

        RUDOLFO LAGO

        A maldição de Collor
        Por que, em uma sina surpreendente, todos os que se envolveram com o ex-presidente enfrentaram grandes reveses em suas vidas, e alguns até destinos trágicos

        ROBERTO CASTRO/AG. ISTOÉ
        Fernando Collor de Mello, ex-presidente

        O ex-presidente e atual senador Fernando Collor (PTB-AL) é lacônico quando comenta a história de que paira uma maldição sobre as cabeças daqueles que contribuíram ativamente para o seu impeachment, em 1992. “Sou uma pessoa que crê em Deus. Deus põe, Deus dispõe”, diz ele. O fato é que, um a um, todos os principais protagonistas da investigação que desvendou o esquema de corrupção comandado por Paulo César Farias, ex-tesoureiro de Collor, acabaram passando por martírios – em alguns casos bem maiores que os do próprio ex-presidente. É uma fieira de mortes trágicas, doenças graves, acidentes, cassações e reputações comprometidas. É daí que surgiu a idéia de uma “maldição do impeachment”. A última vítima dessa praga parece ter sido o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias. Ex-presidente da União Nacional dos Estudantes durante o processo de impeachment, Lindberg foi o principal líder da “geração cara-pintada” que, vestida de preto, saiu às ruas pedindo a deposição de Collor. Era o início de uma trajetória que pretendia galgar Lindberg à condição de jovem líder político. Lula apostava alto nele como nova geração petista na qual se deveria investir. Colhido pelas denúncias publicadas por ISTOÉ, Lindberg agora responde a processo movido pelo Ministério Público. Poderá ficar inelegível nas eleições de outubro. No mínimo, será um dissabor grande para quem começou a política chamando Collor de “ladrão”.

        Collor rejeita a tal maldição. Repete que é católico, devoto de Nossa Senhora de Fátima (ele anda sempre com um button com a imagem da santa na lapela, ao lado do button dourado de senador). “Inventam muitas coisas a meu respeito”, diz ele. Mas o fato é que sua ex-mulher Rosane Collor e uma ex-mãe-de-santo, Maria Cecília da Silva, têm repetido com freqüência que sessões de magia negra aconteciam nos jardins da Casa da Dinda, a mansão que a família de Collor tem no Lago Norte de Brasília, onde ele morava quando era presidente. Rosane e a ex-Mãe Cecília – assim ela era conhecida quando mãe-de-santo – se converteram ambas à igreja evangélica El Shaddai. A última vez que Rosane contou detalhes sobre as sessões de magia negra foi ao jornal evangélico Folha Universal, no dia 28 de fevereiro. Segundo Rosane disse ao jornal, Collor acreditava que “os trabalhos poderiam mandar o mal de volta” sobre quem desejava algo ruim a ele. De acordo com o que relatam Rosane e a ex-Mãe Cecília, galinhas e outros animais eram sacrificados durante esses rituais.

        O que Collor de fato fazia nos famosos jardins da Dinda, só quem esteve presente pode saber. A verdade, porém, é que o destino daqueles que se opuseram a ele e foram protagonistas do processo de impeachment realmente impressiona. A começar por seu irmão Pedro Collor, autor da primeira denúncia contra o ex-presidente. Ainda enquanto se desenrolava o processo, Pedro Collor descobriu que tinha um tumor maligno no cérebro. A doença avançou de forma rápida e, dois anos depois, em 1994, o irmão mais novo de Collor morreu. É verdade, porém, que o câncer parece ser um fator genético na família. O irmão mais velho de Collor, Leopoldo, também padece em São Paulo com a doença.

        O outro principal denunciante do esquema, Francisco Eriberto França, tem sofrido problemas com os quais ele não contava quando resolveu dizer o que sabia. Eriberto era motorista da Presidência e resolveu contar à ISTOÉ que muitas vezes era encarregado de pegar dinheiro de propinas no escritório de Collor e do ex-piloto de seu avião a jato, conhecido por Morcego Negro, Jorge Bandeira de Mello. Embora não esperasse necessariamente recompensas, Eriberto sonhava com algum reconhecimento. Chegou a tentar a vida política. Fracassou. Depois de pular por vários empregos, chegou ao fundo do poço, vivendo por alguns anos como guardador de carros nas ruas, quando não chegava a tirar R$ 300 por mês. Hoje, vive com um salário de R$ 1,8 mil como auxiliar de produção na Radiobrás, TV estatal do governo. Eriberto não fala diretamente sobre uma possível maldição, mas uma das suas maiores rotinas é reclamar da falta de sorte. “Às vezes, bate um certo arrependimento”, confessa. “Esperava um pouco mais dos políticos que me incentivaram a contar o que eu sabia”, considera.

        Pivô do escândalo que culminou com o impeachment, PC Farias nunca rompeu publicamente com Collor. Mas os dois afastaram-se após a deposição do ex-presidente. PC chegou a fugir do País para não ser preso. Falase na existência de dinheiro que PC arrecadou e nunca apareceu. De qualquer modo, em 1996, Paulo César Farias foi assassinado em sua casa na praia de Guaxuma, ao lado de sua namorada, Suzana Marcolino. No campo das mortes trágicas, há ainda a do deputado Ulysses Guimarães, que, com seu prestígio, ajudou a sepultar as chances de Collor ao cunhar uma frase histórica pouco antes da votação que aprovou na Câmara o início do processo de impeachment. Collor o havia chamado de senil. “Sou velho, mas não sou velhaco”, respondeu Ulysses. O Senhor Diretas e Senhor Constituinte não chegou sequer a assistir à deposição de Collor. Em outubro de 1992, um helicóptero que transportava Ulysses caiu no mar próximo de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. O deputado desapareceu e seu corpo jamais foi encontrado.

        Os políticos envolvidos com o impeachment, procurados por ISTOÉ, evitaram falar em maldição, até por não quererem admitir publicamente que passaram ou passam por maus momentos. Ibsen Pinheiro, que presidia a Câmara, foi cassado dois anos depois, envolvido no escândalo dos anões do Orçamento. Benito Gama e Amir Lando, respectivamente presidente e relator da CPI do PC, estão hoje no ostracismo político, recolhidos aos seus Estados de origem, Bahia e Rondônia, por não conseguirem mais se reeleger. Duas ex-estrelas petistas de primeira grandeza, José Dirceu e José Genoino, que como deputados foram implacáveis na denúncia de Collor, cairiam em desgraça no primeiro mandato do presidente Lula, abatidos pelo escândalo do mensalão. Dirceu teve inclusive seu mandato de deputado cassado, mas Genoino voltou à Câmara em 2006, embora como pálida sombra do grande articulador que foi no passado. A vítima mais recente foi o senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Na era collorida, Renan era o líder do governo na Câmara. Depois que estourou o escândalo, acabou rompendo com o ex-presidente e, numa entrevista, confirmou a existência do esquema. Durante um bom tempo, ele parecia ter escapado da maldição. Virou ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso e presidente do Senado na era Lula. Quando tudo parecia lhe sorrir, justamente no momento em que Collor elege-se senador, aparece a história de que ele tivera uma relação extraconjugal com a jornalista Mônica Veloso e que, dessa relação, nascera uma filha. Da briga por pensão, surgiram denúncias de corrupção e enriquecimento ilícito. Para escapar da cassação, que parecia iminente, Renan renunciou à presidência do Senado.

        A LISTA DOS ATINGIDOS
        A trajetória trágica ou infeliz dos principais protagonistas do processo de impeachment

        LINDBERG FARIAS
        Como presidente da UNE, foi o símbolo principal da geração cara-pintada, que saiu de preto às ruas para exigir o impeachment de Collor. Filiado ao PT, elegeu-se prefeito de Nova Iguaçu. Agora é investigado por suspeita de corrupção na prefeitura

        RENAN CALHEIROS

        Ex-líder de Collor na Câmara, Renan rompeu com ele durante a investigação do esquema. Em 2008 renunciou à presidência do Senado acusado de usar dinheiro de uma empreiteira para pagar pensão à ex-amante

        JOSÉ DIRCEU

        Como deputado do PT, Dirceu foi um dos mais ativos parlamentares do impeachment. Chefe da Casa Civil de Lula, deixou o governo por envolvimento no escândalo do mensalão e foi cassado como o “chefe da quadrilha”

        JOSÉ GENOINO NETO

        Deputado federal e uma das principais lideranças do PT na Câmara. Eleito presidente do PT, envolveu-se no escândalo do mensalão. Renunciou à presidência, mas voltou à Câmara em 2006, embora com prestígio reduzido

        BENITO GAMA

        Presidente da CPI, colocado no posto por ACM para ser aliado de Collor na investigação. Ao ver a gravidade das denúncias, mudou de lado. Rompido com ACM, perdeu espaço político e não conseguiu reeleger-se deputado

        IBSEN PINHEIRO

        Presidente da Câmara, conduziu o processo que culminou no impeachment. Em 1994 viu-se envolvido na investigação da CPI do Orçamento, e acabou cassado. Voltou à Câmara em 2006, mas não tem o mesmo peso político

        AMIR LANDO

        Relator da CPI do PC. Foi ministro da Previdência no governo Lula, mas saiu pouco tempo depois, reclamando de falta de espaço. Não conseguiu reeleger-se senador, e hoje vive uma situação de ostracismo.

        PEDRO COLLOR

        O irmão do presidente foi o primeiro a denunciar do esquema montado por Paulo César Farias. Logo depois do impeachment, Pedro Collor descobriu que tinha um tumor no cérebro. Morreu em 1994

        PC FARIAS

        Ex-tesoureiro da campanha de Collor, PC foi o mentor do esquema de propinas. Acabou assassinado, junto com sua namorada, Suzana Marcolino, na sua casa na praia de Guaxuma, próxima de Maceió, em 1996.

        ULYSSES GUIMARÃES

        Durante o processo de impeachment, a imagem de Ulysses foi fundamental para dar credibilidade ao processo. Em outubro de 1992, morreu em um acidente de helicóptero perto de Angra dos Reis. Seu corpo nunca foi encontrado.

         

         

         

        17 de março de 1993


        Última pá de lama

        Pedro Collor revela que o
        ex-presidente consumia cocaína
        no governo e aponta dois
        casos de adultério de Rosane

        Atingiu-se o fundo do pântano. Na sexta-feira passada, o repórter Teodomiro Braga, correspondente do Jornal do Brasil em Washington, iniciou a publicação de uma série de três entrevistas exclusivas em que Pedro Collor joga a última pá de lama na reputação de seu irmão, o ex-presidente da República Fernando Collor de Mello. Em Miami, onde dá os toques finais a um livro sobre a quadrilha da Dinda, cujo lançamento está previsto para abril, Pedro Collor contou que:

        •Fernando Collor pretendia separar-se de Rosane durante a crise conjugal de agosto de 1991. Desistiu porque a primeira-dama ameaçou desmascará-lo numa entrevista coletiva, contando que ela colocava supositórios de cocaína no presidente.
        •A primeira-dama teve dois romances extraconjugais durante a passagem de seu marido pela Presidência. Grávida de um de seus amantes, Rosane teria feito um aborto.
        •Collor é um marido violento. Em seu primeiro casamento, com a socialite Lilibeth Monteiro de Carvalho, chegou a espancá-la com tamanha fúria que a mulher foi obrigada a chamar um médico, pois ficara surda. Noutra ocasião, para escapar de uma surra, Rosane fugiu de casa.
        •O ex-presidente teve um relacionamento homossexual com o empresário e deputado Paulo Octávio, do PRN de Brasília.
        •No porão da Casa da Dinda, Collor e Rosane praticavam rituais de magia negra. Espetavam com agulhas bonecos representando seus adversários.

        A entrevista de Pedro Collor ao Jornal do Brasil descreve um mundo lamentável, que provoca asco. Mas convém estudá-lo por inteiro. De 1989 a 1992 a população brasileira foi submetida a uma impostura chamada Fernando Collor de Mello. Uma parcela dessa fantasia, do estadista dinâmico, inimigo dos privilégios e da corrupção, foi desfeita no ano passado, com as investigações que levaram ao impeachment. A outra parte, do pai de família que acusou o adversário Luís Inácio Lula da Silva de tentar convencer uma namorada a fazer aborto, do temente a Deus que fazia cooper com camisetas dizendo "não" às drogas, começa a se desfazer agora.

        As denúncias do irmão informam a população sobre o caráter e a personalidade do político que se tornou presidente da República com 35 milhões de votos. Colocam em discussão a atuação de empresários, políticos e dos órgãos de imprensa que ajudaram a forjar a imagem de Collor. Todos colaboraram para que só se conhecessem as virtudes de Collor. Seus defeitos só vieram à tona muito depois. A rigor, nem há novidades substanciais na entrevista de Pedro Collor ao JB. Seus principais temas - drogas, homossexualismo e caráter fraco - foram abordados pela revista dominical do jornal inglês The Sunday Times em janeiro de 1991. Explica-se: o repórter John Ryle publicou aquilo que ouviu de um punhado de grã-finos. Ou seja, a elite dava livre curso, encarava como verdadeiras as histórias horrorosas sobre o presidente. Agora que as virtudes se foram, o país realiza um doloroso acerto de contas com os defeitos de Fernando Collor.

        Na sexta-feira, o presidente afastado divulgou um manifesto dirigido "à família brasileira". Plagiando a si próprio, ele diz que Pedro Collor sofre de "delírio paranóico"  argumento que perdeu a consistência depois que o irmão teve a humildade de submeter-se a um exame de sanidade mental e foi aprovado. Querendo colocar-se na posição de mártir, Collor diz que "levaram minha cidadania, minha alegria, minha paz". Também poderia ter lembrado que, enquanto isso, ele levou, segundo as contas modestas de seus advogados, 52 milhões de dólares da campanha presidencial. O ex-presidente também dirigiu um apelo "à responsabilidade dos que fazem a comunicação neste país para que não abram espaço a um sensacionalismo tão barato". É uma preocupação anacrônica. O ex-presidente teve uma boa oportunidade para evitar o "sensacionalismo barato" quando disse a Claudio Humberto Rosa e Silva, que publicou as suas declarações no livro Mil Dias de Solidão, que Thereza Collor, mulher de Pedro, teve um romance com um outro cunhado. Não há quaisquer evidências de que o romance ocorreu, e Fernando Collor não teve nenhum escrúpulo para fazer o seu ataque mentiroso. Foi o ataque de Collor que motivou a reação de Pedro. É uma vingança. Nem tudo o que ele disse pode ser verdade. Mas não custa lembrar que Pedro Collor nunca falhou. Tudo o que ele disse a VEJA, em maio de 1992, acabou sendo comprovado pela CPI e pelas investigações da Polícia Federal. A seguir, as cinco principais denúncias de Pedro Collor.

        Cocaína no Planalto
        De há muito há falatório associando Fernando Collor a drogas. Em Brasília, onde passou a juventude, Collor ganhou o apelido de "Fernandinho do Pó". Em Alagoas, quando era governador do Estado, políticos que freqüentavam seu gabinete tinham a convicção de que Collor era um usuário constante da droga, que, suspeitava-se, ficava guardada na parte de trás de sua poltrona. Na campanha presidencial, o pai de uma socialite carioca ligada às artes plásticas que mora nos Estados Unidos telefonou à filha recomendando que votasse no candidato do PRN. Ela respondeu que até que poderia votar nele, mas lembrou que Collor era o mesmo rapaz que, no passado, ele expulsara de casa por estar drogado. No ano passado, em sua entrevista a VEJA, Pedro Collor disse que o irmão consumira cocaína e LSD na adolescência, e que inclusive o iniciara no consumo de drogas. Perguntado se o presidente se drogava depois de chegar ao Planalto, Pedro respondeu: "Não sei". Agora, com sua memória seletiva, Pedro diz que sabe.

        Segundo Pedro Collor, quem divulgou que Collor usava cocaína foi a primeira-dama, que, ameaçada por um pedido de divórcio durante a crise matrimonial do casal, resolveu chantagear o presidente. "Rosane disse a amigos que iria revelar à imprensa, entre outras coisas, que ela colocava supositórios com cocaína em Fernando", afirma Pedro Collor. "Ela falava que queria ver se ele tinha aquilo roxo para levar adiante a intenção do divórcio." Conforme o relato do irmão do ex-presidente, Rosane estava disposta a fazer a denúncia numa entrevista coletiva marcada para o dia 12 de agosto de 1991, poucos dias depois de Collor se apresentar em público sem a aliança do casamento. Na última hora, Rosane cancelou a entrevista e apenas concordou em mostrar sua aliança para fotógrafos e cinegrafistas. Para Pedro Collor, entre o anúncio da coletiva e seu cancelamento, a primeira-dama e o presidente negociaram a manutenção do casamento.

        "Já vi vários casos de pessoas que tomaram cocaína com supositórios", afirma o farmacologista Fernando Varela de Carvalho, professor da Santa Casa de São Paulo. "Algumas tinham medo de Aids, e por isso abandonaram as seringas. Outras queriam esconder alguns sintomas do uso de cocaína, como a vasodilatação, que, em determinadas pessoas, faz verter sangue pelo nariz." Numa conversa descontraída, até o tesoureiro PC Farias contou que ouvira falar de viciados que usam supositórios para consumir cocaína. PC falou em tese, e em nenhum momento se referiu a seu amigo Fernando Collor.

        Quando elaborou a lista de padrinhos de seu primeiro casamento, Collor não se esqueceu do advogado carioca Allan Mihai Fauru, que, mais tarde, foi indiciado como traficante em Maceió e condenado a seis meses de prisão. Com Fauru, veio também a mulher, Elizabeth Luporini, que, quando Collor se tornou presidente da República, foi empregada como secretária do embaixador Marcos Coimbra, cunhado e secretário da Presidência da República. As investigações da CPI descobriram que Luporini era dona do telefone que recebia o maior número de ligações da EPC, o bunker financeiro de PC Farias. Homem de confiança do presidente, a tal ponto que foi encarregado de sustentar a lorota uruguaia, o ex-secretário particular Cláudio Vieira tinha, entre seus assessores, um funcionário, Flávio Monteiro, investigado pela Polícia Federal por tráfico de drogas.

        Adultérios de Rosane
        O primeiro casamento de Collor, com Celi Elizabeth Monteiro de Carvalho, teve um final tão rumoroso que, temendo um escândalo, advogados de ambas as partes tomaram providências para que as salas dos tribunais não se transformassem na lavanderia de um inferno doméstico. Segundo Pedro Collor, depois do nascimento de Joaquim Pedro, o segundo filho do casal, o ex-presidente perdeu o interesse no relacionamento. Collor chegou a espancá-la, ausentava-se de casa com freqüência e levava uma vida promíscua com prostitutas em Maceió. "Depois de mais de dois anos de abstinência sexual, ela pediu a separação", diz. Conforme Pedro Collor, uma das marcas do segundo casamento do ex-presidente foram os adultérios de Rosane.

        Um dos casos teria sido com o empresário carioca Júlio Lopes, dono do Centro Educacional da Lagoa. No mês passado, durante um jantar em Miami, o irmão do ex-presidente contou a Lopes que iria relatar o episódio em seu livro. "Pode pôr", disse ele. "Vai fazer bem para o meu currículo." Na sexta-feira passada, procurado por VEJA, o empresário garantiu que tudo não passou de uma brincadeira. "O Pedro interpretou mal", disse ele. Sua atitude em 1991, no entanto, era outra. Durante um jantar no restaurante Guimas, no Rio, onde o jornalista Luiz Gutemberg lançava seu livro Cadastro Geral dos Inimigos do Presidente, o empresário da noite Ricardo Amaral apresentou-o a diversas pessoas como "o namorado da primeira-dama". Na ocasião, Júlio Lopes não se queixou de que estava sendo mal interpretado. Lembrando um outro jantar, na casa de um amigo comum, Ricardo Amaral informou aos presentes que, desacompanhada, Rosane ficara o tempo inteiro com Lopes até que "os dois pombinhos terminaram a noite aos arrulhos de paixão". Segundo Pedro Collor, os dois tiveram outros encontros a sós. Confiante em seu prestígio junto à presidência da LBA, Lopes esteve em Brasília para uma audiência no gabinete da primeira-dama, à qual apresentou um projeto na área educacional que pretendia tocar com dinheiro público.

        continua...

        continuação

        Outro nome ligado à crise do casamento de Collor e Rosane é o mineiro Luiz Mário de Pádua, que na época trabalhava no cerimonial do governo do Distrito Federal. Em sua entrevista, Pedro Collor conta que o presidente descobriu esse romance da mulher no dia em que a primeira-dama lhe comunicou que estava grávida. "Ele não podia ser o pai da criança porque fez vasectomia antes de casar com Rosane e não tinha contado para ela. Ele ficou furioso com a notícia, mas não falou nada para Rosane. No dia seguinte, chamou Eunícia (Eunícia Guimarães, a secretária da primeira-dama) e exigiu que ela lhe contasse a história da gravidez. E ficou sabendo de Luiz Mário", diz o irmão. Outro detalhe é que, segundo Pedro Collor, Ledinha, a irmã do presidente casada com o embaixador Marcos Coimbra, chegou a descobrir, numa joalheria de Brasília, que Rosane havia comprado um Rolex para dar de presente ao namorado.

        Na sexta-feira passada, Luiz Mário desmentiu o romance e o relógio. "Tenho uma imitação de Rolex, que comprei com meu dinheiro, e possuo até a nota fiscal", disse. "Nunca tive nada com a primeira-dama. Essa é uma história absurda." A irmã Leda também nega. "Isso não tem o menor fundamento. Nunca fui a uma joalheria saber se Rosane havia comprado um relógio para dar de presente." Já a versão de Joyce Cardoso, amiga do ex-casal presidencial, tem algumas nuances. "Não posso dizer se tiveram um flerte", admite ela, antes de levantar uma dificuldade logística. "Mas caso mesmo, de dormir, acho impossível. Ela precisaria de um lugar para ir e aí eu saberia." A amiga Eunícia Guimarães diz que "jamais" esteve no Planalto para conversar com Collor sobre a gravidez de Rosane, mas acha que, de fato, é possível que a primeira-dama tenha demonstrado um interesse especial por Luiz Mário, na época. "Sentir atração, tudo bem", analisa Eunícia. "Mas daí a fazer alguma coisa vai uma grande distância."

        Leleco Barbosa, um dos caciques colloridos do Rio de Janeiro, sustenta que a gravidez de Rosane chegou ao conhecimento de diversos amigos do casal. "Na época fiquei sabendo da conversa de Eunícia Guimarães com Collor e da história da vasectomia. Isso todo mundo soube", diz. Leleco só não soube do conteúdo da conversa da secretária de Rosane com o presidente. "Não sei, mas ela deve ter feito aborto, não é?", indaga. "Do aborto e da vasectomia eu não sabia, mas o caso com o mineiro e a história do relógio aconteceram de fato", diz uma integrante do clã Collor de Mello. "Dona Leda também ficou sabendo e, antes de adoecer, comentou barbarizada que não acreditava no que estava acontecendo", completa.

        Luiz Mário deixou Brasília quando a crise do casamento presidencial estava no auge e só retornou depois da posse de Itamar, quando recebeu o posto de gerente de projetos do Ministério da Saúde. Sua saída da capital federal é um mistério até hoje. Ele tomou o rumo de Belo Horizonte sem avisar ninguém e, embora exista uma ponte aérea ligando as duas cidades, preferiu fazer a viagem, de 700 quilômetros, de automóvel. Por quê? "Eu estava saindo do trabalho, tinha um automóvel à disposição e preferi viajar assim", diz ele, singelamente. Existe outra explicação. O governador de Brasília, Joaquim Roriz, contou a um senador que Luiz Mário deixou a capital federal de automóvel para atender a um conselho seu. Segundo esse senador ouviu de Roriz, Collor telefonara ao governador, apoplético, dizendo que Luiz Mário deveria se afastar de Brasília no mesmo instante. Assustado, temendo até a fantasiosa possibilidade de que seu funcionário sofresse um atentado a caminho do aeroporto, Roriz recomendou a Luiz Mário que viajasse de carro.

        Sexo e caráter
        O inventário de aventuras extraconjugais de Fernando Collor foi feito por vários de seus amigos. Numa conversa com o presidente de uma grande estatal, sem que lhe fosse perguntado, o tesoureiro PC Farias contou que "o presidente está com uma menina". Em sua entrevista ao Jornal do Brasil, Pedro Collor disse que, quando era governador de Alagoas, o irmão teve um caso com Taís, mulher do porta-voz Claudio Humberto. "Ela era minha funcionária na TV Gazeta e vivia suspirando pelo Fernando", diz Pedro Collor. Claudio Humberto vai processá-lo. "Minha mulher nunca andou por aí mostrando as pernas. É uma coisa nojenta esse cafajeste querer usar a Taís para se vingar daquilo que o seu irmão disse."

        Thereza Collor, por sua vez, insinua que Fernando Collor teve um caso com a atriz Cláudia Raia. "Ela fazia o tipo mulher aranha e vivia fazendo massagem nas costas do Fernando", disse Thereza. Segundo ela, certa noite, para facilitar a hospedagem de Cláudia Raia na Dinda, Collor providenciou acomodações improvisadas para seus dois filhos, Arnon Affonso e Joaquim Pedro, no porão da residência. Cláudia Raia desmente o romance e encarregou os amigos de negá-lo mais uma vez. "Ela faz massagem em todo mundo, até em mim", afirma o ator Eduardo Martini.

        O caso, no entanto, é confirmado por um empresário de Brasília que há muito tempo mantém-se a par das intimidades do presidente. Segundo esse empresário amigo de Collor, o caso com Cláudia Raia é tão verdadeiro como é falso o romance de Collor com Celita Jackson, a relações-públicas do hotel Plaza, de Nova York. Rumores sobre esse envolvimento surgiram quando o presidente passou boa parte de um fim de semana no Plaza, trancado no quarto, e, depois de mandar um auxiliar dizer que estava assistindo a uma prova de Fórmula 1 pela TV, saiu perambulando de cabelo molhado pelo saguão perguntando aos repórteres quem tinha vencido a corrida. O amigo do presidente informa que Collor estava mesmo acompanhado, na ocasião, mas por uma escort girl que levou de Brasília. Permanece, ainda, o mistério Renata Scarpa, mulher do empresário-amigo Cidão Diniz, companhia no frenético réveillon de Angra dos Reis.

        Deve-se ao livro de Claudio Humberto a confirmação, oficial, de que Collor tem um terceiro filho, James Fernando, nascido de uma aventura com uma garota de programa de Maceió, Jucineide Braz. James Fernando tem 12 anos. Collor foi capaz de manter sua existência em segredo até 1990. Poderia ter aproveitado a ocasião para assumir o menino, ainda que tardiamente, mas não o fez. Preferiu mentir e depois escondê-lo num apartamento no Recife, garantindo o silêncio de sua mãe com uma ajuda em dinheiro. Poucas atitudes revelam o caráter de um homem como sua postura diante de um filho inesperado. Collor sabe disso. Tanto que, na campanha presidencial, sua equipe de propaganda empenhou-se em denunciar que Luís Inácio Lula da Silva tinha uma filha fora do casamento, com a enfermeira Mirian Cordeiro. Hoje, constata-se uma diferença entre ambos. Lula reconheceu a filha logo que ela nasceu e, embora a mantivesse longe da curiosidade alheia, lhe deu seu nome e, depois de um período de afastamento, passou a tratá-la plenamente como filha. Collor nunca tratou James Fernando como filho. Em vez disso, enviava-lhe dinheiro.

        O amigo Paulo Octávio
        Pedro Collor insinua que Fernando Collor e o deputado Paulo Octávio tiveram um relacionamento homossexual. Aconselhado por advogados a evitar declarações que pudessem comprometê-lo, o irmão do ex-presidente faz a revelação medindo cada palavra. "No tempo de estudante, quando chegava em casa de madrugada, costumava encontrá-los trancados no quarto do Fernando", diz. "Fazendo o que eu não sei," acrescenta. "Do jeito que Pedro Collor está, quero ver o que vai contar na próxima vez. Quem sabe, conte quem era o ativo e quem era o passivo", afirma o deputado Paulo Octávio, casado, dois filhos. "Se eu era homossexual, por que ele me convidou para ser padrinho de seu casamento?" Quando Collor separou-se de sua primeira mulher, um general que serviu no SNI, hoje na reserva, recebeu como verídico o relato de que o divórcio se consumara no momento em que Lilibeth surpreendera o marido na cama, em companhia do amigo.

        A xangozeira

        Para cativar o eleitorado religioso, Collor adorava tirar fotografias ao lado de Frei Damião e de forrar seu gabinete com imagens sagradas. Nos jardins da Dinda instalou uma estátua de Nossa Senhora da Rosa Mística. O ex-presidente gostava de ajoelhar-se diante dela para filmagens produzidas especialmente para a TV. Para Pedro Collor tudo isso era teatro. Católico e neurolingüista nas horas vagas, segundo o irmão nos momentos difíceis Collor recrutava os serviços de uma certa dona Cecília, uma xangozeira - adepta de Xangô, na liturgia de umbanda - de Arapiraca, no interior de Alagoas. Aconselhado pela xangozeira, em diversas ocasiões Collor tomou banhos de ervas, destinados a afastar os maus espíritos. Segundo Pedro Collor, num desses rituais a primeira-dama chegou a lambuzar seu corpo de preto e vermelho e depois dançou no ritmo frenético de quem incorporou a pomba-gira, uma das entidades mais esquisitas do candomblé. Na véspera do impeachment, até o presidente teria incorporado um espírito, vestido de branco e rodopiando em volta de uma mesa de granito com retalhos de animais sacrificados por dona Cecília. "Eles fizeram tantos rituais desse tipo que numa época chegou-se a temer que não haveria mais bodes em Brasília e seriam obrigados a mandar trazê-los de outros lugares", relata um membro da família.

        Numa outra parte da entrevista, Pedro Collor investe contra o cunhado Marcos Coimbra, o embaixador nulidade que estava entrando para a história devido a duas atitudes marcantes. Primeiro, ter mendigado uns caraminguás para PC Farias junto a Luís Octávio da Motta Veiga. Segundo, por ter se envolvido numa polêmica urinária. Ele disse a Claudio Humberto que Bernardo Cabral se sujou ao saber que perdera o cargo de ministro da Justiça. Depois, a pedido de Cabral, desdisse o que disse antes. Segundo Pedro Collor, Marcos Coimbra preferiu continuar usufruindo as mordomias de uma viagem com o presidente a acompanhar a agonia de seu filho Gastão, que morreu de câncer em 1991.

        A briga entre os irmãos Collor parece não terminar nunca. Dificilmente, no entanto, descerá a níveis mais baixos. A grotesca lavagem de roupa suja, no entanto, teve sua serventia no passado e a terá no futuro. Foi ela que deu início à descoberta de quem era Fernando Collor: um presidente corrupto, um chefe de quadrilha que violava a Constituição e levava o país para o abismo. No futuro, ela servirá para que se tenha mais empenho em saber quem são os candidatos à Presidência da República. Se, em 1989, se soubesse um décimo do que se sabe hoje sobre o passado de Fernando Collor, dificilmente ele teria sido eleito. O Brasil não teria passado por dois anos de ruína e ladroagem.

         

         

         

        O nepotismo no serviço público

        EDITORIAL

        Depois de cinco anos de tramitação no Senado, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) finalmente aprovou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que proíbe a nomeação de parentes até terceiro grau para cargos em comissão e de confiança na administração pública, direta ou indireta. A proibição se aplica a todos os níveis de governo, aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, aos Ministérios Públicos e aos Tribunais de Contas. Além do texto votado no Senado, há três outros projetos que tentam impedir o nepotismo no serviço público e que há anos estão engavetados na Câmara.

        A morosidade com que a PEC está tramitando é explicada pela resistência de muitos políticos a uma medida moralizadora que fecha as portas para a velha praga do empreguismo. Com 81 parlamentares, o Senado emprega 6,2 mil funcionários, dos quais 2,8 mil são nomeados por livre indicação. Com 513 deputados, a Câmara emprega 16,6 mil. Muitos deles, nomeados para ocupar cargos comissionados e os chamados "cargos de natureza especial", são parentes até terceiro grau de congressistas. Há alguns anos, quando órgãos de comunicação pediram a lista de servidores do Legislativo, a direção da Câmara não forneceu os dados e baixou uma portaria determinando que essa solicitação só poderia ser acolhida se fosse feita pelo procurador-geral da República.

        Não é difícil entender a razão de tanto segredo e de tanta resistência à entrega desses dados. As poucas listas de servidores divulgadas revelam casos de nepotismo, desvio de função e funcionários fantasmas, envolvendo de simples assessores a integrantes da alta cúpula de partidos políticos. Uma das práticas mais comuns entre deputados e senadores é a indicação de parentes para integrar equipes de trabalho de colegas. É o chamado "nepotismo cruzado".

        Na última quinta-feira os jornais noticiaram que o filho do ministro das Comunicações, Hélio Costa, que é senador licenciado, é funcionário fantasma do gabinete do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA). Contratado em 2003 com um salário de R$ 2,6 mil, o filho de Costa mora em Juiz de Fora, onde estudou comunicação social e trabalhou como designer. Indagado a respeito das funções de seu assessor, Ribeiro respondeu que jamais falou com ele e que não o conhece.

        Para impedir que um parente de um deputado ou senador seja indicado para trabalhar no gabinete de outro parlamentar, o texto aprovado pela CCJ impede a nomeação de familiares dentro de um mesmo Poder. Quem descumprir a regra sofrerá ação por improbidade administrativa. E o ato de nomeação do familiar será automaticamente anulado. A única exceção é para parentes que ingressarem no Poder por concurso público ou que já ocupavam funções antes da eleição ou nomeação do parente. Medidas semelhantes já foram adotadas, sob forte resistência corporativa, pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).

        Para ser aprovada, a PEC precisará do voto de 49 dos 81 senadores, em duas votações. Se passar, seguirá para a Câmara, onde necessitará de 308 votos favoráveis, dos 513 deputados, também em dois turnos. Como se vê, ela terá uma tramitação difícil e o tom da resistência foi dado pelos dois senadores que votaram contra o projeto na CCJ. "É preciso se cercar de pessoas de confiança e não há problema em ter algum familiar que você confie", disse Wellington Salgado (PMDB-MG). O senador Epitácio Cafeteira (PTB-MA) afirmou que não conhece um único político que não tenha empregado parentes, "a não ser que ele seja filho de chocadeira". A resposta partiu do líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM). "Já que estamos na granja, não tenho notícia de que nenhum galo ou galinha tenha nomeado parente para alguma coisa", disse ele.

        Configurando uma praga desde os tempos das capitanias hereditárias, o nepotismo no serviço público se agravou há 20 anos, após a promulgação da Constituição de 88. Em vez de proibir sumariamente o empreguismo de parentes, a Carta deixou brechas que propiciaram uma explosão de contratações de pais, mulheres, filhos, irmãos e primos de dirigentes dos Três Poderes. A PEC que a Comissão de Constituição e Justiça do Senado acaba de votar é uma excelente oportunidade para fechar essas brechas.

        Dora Kramer

        Tempos difíceis

        O cientista político Antonio Lavareda, conselheiro da aliança PSDB-PFL antes, durante e depois do governo Fernando Henrique Cardoso, confirma a impressão geral. Na avaliação dele, a atuação da oposição, hoje, não está à altura da tarefa de quem precisa enfrentar um presidente da República bem avaliado como Luiz Inácio da Silva.

        Falta, sobretudo, estratégia para furar o cerco da popularidade de Lula e estabelecer seus próprios termos de diálogo com a sociedade. Resumindo, e aí não são palavras de Lavareda, age às tontas. Sabe aonde quer chegar - ao Palácio do Planalto -, mas não dá sinais de ter a mais remota idéia de como fazer o caminho até lá.

        Pensando nisso e olhando o favoritismo do Partido Conservador para as eleições gerais de 2010 na Inglaterra depois de mais de uma década de domínio do Partido Trabalhista, Antonio Lavareda fez um texto sobre as razões dessa virada e mandou para "os amigos da oposição" a título de ajuda na reflexão sobre como vencer o seu grande desafio: sobreviver na era Lula e, de preferência, prevalecer no coração do eleitorado quando o pós-Lula vier.

        Hoje, lembra Lavareda, o líder dos Conservadores, David Cameron, tem 20 pontos percentuais de vantagem sobre os Trabalhistas nas pesquisas. Mas a maré já foi bastante adversa nos anos de glória de Tony Blair.

        "Derrotados de forma avassaladora em 1997, os conservadores foram à luta", iniciando a trajetória de reinvenção do partido. Enquanto os ventos não mudavam para o adversário "carismático e com boa imagem internacional", o Partido Conservador não esperou sentado pelos ganhos decorrentes das dificuldades do adversário que, depois de Blair, ainda teria fôlego para ganhar mais uma eleição.

        O partido reformulou sua estrutura interna, abriu espaço à participação dos filiados, patrocinou referendos sobre questões polêmicas, atuou firme na atração de novos militantes, aumentou o rigor ético na seleção de candidatos, "saiu" do Parlamento para discutir temas de interesse nacional em audiências públicas país afora e adotou uma nova linha de combate ao governo.

        "Os conservadores passaram a se concentrar na cobrança da melhoria dos serviços públicos e procuraram capitalizar o desapontamento do eleitorado com as promessas não cumpridas pelos trabalhistas", relata Antonio Lavareda.

        No texto enviado aos "amigos da oposição", Lavareda não faz juízo de valor nem comenta as situações. Deixa as comparações e as conclusões ao encargo do raciocínio dos destinatários.

        Mas, se lhe perguntam qual seria a atitude ao alcance da oposição para 2010, não tem dúvida: "É esquecer Lula; deixar de lado a economia (salvo se a inflação aumentar); focar no governo/serviços públicos; e, sobretudo, personalizar a disputa contrapondo as qualidades de fulano versus os defeitos de beltrano ou beltrana..."

        Outro rumo

        O vice na chapa do tucano Antonio Imbassahy para a prefeitura de Salvador não será o radialista Raimundo Varella conforme se aventou, mas Miguel Kertzman, do PPS.

        O presidente do partido, Roberto Freire, informa que hoje será oficializada a aliança. Esta sim, com o aval do governador de São Paulo, José Serra, e não a anterior que tentou juntar Varella a Imbassahy, uma iniciativa da Igreja Universal, segundo Roberto Freire.

        PPS e PSDB, diz, caminharão juntos onde for possível, já em ritmo de ensaio geral para a eleição presidencial de 2010. Mas em São Paulo, por exemplo, não será possível. Diante da divisão do PSDB, diz Freire, o PPS manterá a candidatura da vereadora Soninha Francine.

        Sem pai

        Esta será a primeira eleição na Bahia depois da morte de Antônio Carlos Magalhães. Será também a primeira em que as candidaturas não serão organizadas segundo critérios do "carlismo" ou "anticarlismo".

        Embora tanto aliados quanto adversários de ACM participem da disputa, a lógica das alianças não terá como referência a figura do senador falecido no ano passado.

        O parâmetro, por décadas uma cláusula pétrea na política baiana, já levou o PSDB ao palanque do PT e a ausência dele leva, por exemplo, ACM Neto a se articular com Geddel Vieira Lima, arquiinimigo do avô.

        Jefferson Peres

        Celebrado pela consistência moral, o senador Jefferson Peres não via nisso motivo para homenagens.

        Se oportunidade tivesse de comentar a própria despedida, diante da exaltação geral à sua conduta ética como atributo de exceção, o senador provavelmente repetiria o que dizia em vida.

        "Agir eticamente para mim é tão natural quanto o ato de respirar. Não é pose, não é bandeira eleitoral, não é construção artificial de imagem para uso externo, é compromisso de vida."

        Frases e pensamentos de Friedrich Nietzsche
         

        “Somente música ruim faz dinheiro hoje.”

        “A vantagem de uma memória ruim é que se aproveita várias vezes pela primeira vez as mesmas coisas boas”.

        “O tipo mais comum de mentira é aquela preferida para si próprio”.

        O mais valoroso dentre todos nós raras vezes tem o valor de afirmar tudo o que sabe.

        Nunca odiamos aos que desprezamos. Odiamos aos que nos parecem iguais ou superiores a nós.

        Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade.

        Hoje é pobre, mas não porque lhe tenham tirado tudo, sim pela recusa de tudo. Que lhe importa?! Está habituado a encontrar. Os pobres compreendem mal sua voluntária pobreza.

        Nossos pensamentos são as sombras de nossos sentimentos sempre mais obscuros, mais vazios, mais simples que estes.

        Quando o reconhecimento de um grande número por um único repele qualquer espécie de pudor, a glória começa a nascer.

        É necessário saber dissimular com as pessoas que têm vergonha de seus sentimentos; concebem um ódio repentino pela pessoa que as apanha em flagrante delito de ternura, de entusiasmo ou de nobreza como se seu santuário secreto tivesse sido violado.
        Se quereis ser-lhes benéficos nesse momento, fazei-as rir ou tratai de lhes sugerir, brincando, alguma fria maldade: seu humor gela e dominam-se.

        É um pensador: isto quer dizer que se empenha em tomar as coisas com maior simplicidade que realmente contém.

        Nenhum vencedor acredita no acaso.

        O que nós fazemos nunca é compreendido, apenas louvado ou condenado.

        Quando amamos, queremos que nossos defeitos permaneçam ocultos, não por vaidade, mas porque o objeto amado não deve sofrer. Sim, aquele que ama desejaria aparecer como um deus, e isto não por vaidade.

        Já dei tudo. Nada me resta de tudo quanto tive, exceto tu, esperança!

        Eu também quero a volta à natureza. Mas essa volta não significa ir para tráz, e sim para a frente.

        A vaidade alheia só nos é antipática quando vai de encontro a nossa.

        Aforismo e sentença são formas eternas. Orgulho-me de dizer em dez palavras o que outros dizem em vários volumes.

        Aforismo e sentença são formas eternas. Orgulho-me de dizer em dez palavras o que outros dizem em vários volumes.

        Aforismo e sentença são formas eternas. Orgulho-me de dizer em dez palavras o que outros dizem em vários volumes.

        A independência é o privilégio dos fortes, da reduzida minoria que tem o calor de auto-afirmar-se. E aquele que trata de ser independente, sem estar obrigado a isso, mostra que não apenas é forte mas também possuidor de uma audácia imensa. Aventura-se num labirinto, multiplica os mil perigos que implica a vida; se isola e se deixa arrastar por algum minotauro oculto na caverna de sua consciência. Se tal homem se extinguisse estaria tão longe da compreensão dos homens que estes nem o sentiriam nem se comoveriam em absoluto. Seu caminho está traçado, não pode voltar atrás, nem sequer lograr a compaixão dos seres humanos

         

         

         

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        "O MEU DESALENTO É PROFUNDO"
        Dircurso do Senador Jefferson Péres, dizendo que abandonaria a vida pública após o fim do mandato desenganado com a a atividade política (28 de agosto de 2006)

        "Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, depois de uma longa ausência de algumas semanas, volto a esta Tribuna para manifestar o meu desalento com a vida pública deste País

        Gostaria de estar aqui discutindo, como fez o Senador José Jorge, a respeito das riquezas naturais do Brasil, com as quais ele tanto se preocupa, e não como falarei, sobre algo muito pior: a dilapidação do capital ético deste País.

        Senador José Jorge, poderíamos não ter um barril de petróleo nem um metro cúbico de gás, mas poderíamos ser uma das potências mundiais em termos de desenvolvimento.

        O Japão não tem nada. Não tem petróleo, gás ou riquezas minerais. A Coréia do Sul também não tem nada disso, Senador Antonio Carlos, e nos dá um banho em termos de desenvolvimento não apenas econômico, mas também humano.

        O que está faltando mesmo a este País e sempre faltou é uma elite dirigente com compromisso com a coisa pública, capaz de fazer neste País o que precisaria ser feito: investimento em capital humano.

        Vejam que País é este. Estamos aqui com seis Senadores em pleno mês de agosto, porque estamos em recesso branco. Por que não se reduz a campanha eleitoral a trinta dias e transfere-se o recesso de julho para setembro? Nós ficaríamos com o Congresso aberto, de Casa cheia, até 31 de agosto. Faríamos trinta dias de campanha em recesso oficial, remunerado.

        Estamos aqui no faz-de-conta. Como disse o Ministro Marco Aurélio, este é o País do faz-de-conta. Estamos fingindo que fazemos uma sessão do Senado, estamos em casa sem trabalhar. Estou em Manaus há quase um mês, recebendo, sem fazer nada para o Congresso Nacional, pelo menos.

        Como se ter animação em um País como este com um Presidente que, até poucos meses atrás, era sabidamente "como o é" um Presidente conivente com um dos piores escândalos de corrupção que já aconteceu neste País e este Presidente está marchando para ser eleito, talvez, em primeiro turno? É desinformação da população? Não, não é.

        Se fizermos uma enquete em qualquer lugar deste País, todos concordarão, ou a grande maioria, que o Presidente sabia de tudo. Então, votam nele sabendo que ele sabia. A crise ética não é só da classe política, não, parece que ela atinge grande parte da sociedade brasileira. Ele vai voltar porque o povo quer que ele volte. Democracia é isso. Curvo-me à vontade popular, mas inconformado.

        Esta será uma das eleições mais decepcionantes da minha vida. É a declaração pública, solene, histórica do povo brasileiro de que desvios éticos por parte de governantes não têm mais importância. Isso vem até da classe dos intelectuais, dos artistas. Que episódio deplorável aquele que aconteceu no Rio de Janeiro semana passada! Artistas, numa manifestação de solidariedade ao Presidente, com declarações cínicas, desavergonhadas, Senador Antonio Carlos Magalhães!

        Um compositor dizer que “política é isso mesmo, fez o que deveria fazer”, o outro dizer que “política é meter a mão na ‘m’”! Um artista, em qualquer país do mundo, é a consciência crítica de uma nação. Aqui é essa, é isso que é a classe artística brasileira, pelo menos uma grande parte dela, é o povo conivente com isso.

        E pior, pior ainda: os artistas estão fazendo isso em interesse próprio, porque recebem de empresas públicas contratos milionários - isso é a putrefação moral deste País - , e o povo vai reconduzir o Presidente porque “política é isso mesmo”.

        Tenho quatro anos de Senado. Não me candidatarei em 2010, não quero mais viver a vida pública. Vou cumprir o mandato que o povo do Amazonas me deu, não vou silenciar. Ele pode ser eleito com 99,9%. Eu estarei aí na tribuna dizendo que ele deveria ter sido mesmo destituído.

        O que ele fez é muito grave. É muito grave. Curvo-me à vontade popular, mas não sem o sentimento de profunda indignação. A classe política já nem se fala, essa já apodreceu há muito tempo mesmo. Este Congresso que está aqui, desculpem-me a franqueza, é o pior de que já participei.

        É a pior legislatura da qual já participei, Senador Antonio Carlos Magalhães. Nunca vi um Congresso tão medíocre. Claro, com uma minoria ilustre, respeitável, a quem cumprimento. Mas uma maioria, infelizmente, tão medíocre, com nível intelectual e moral tão baixo, eu nunca vi. O que se pode esperar disso aí? Não sei. Eu não vou mais perder o meu tempo. Vou continuar protestando sempre, cumprindo o meu dever.

        Não teria justificativa dizer que não vou fazer mais nada. Vou cumprir rigorosamente o meu dever neste Senado até o último dia de mandato, mas para cá não quero mais voltar, não!

        Um País que tem um Congresso desse, que tem uma classe política dessa, que tem um povo... Senador Antonio Carlos Magalhães, dizem que político não deve falar mal do povo. Eu falo, eu falo. Parte da população que compactua com isso? É lamentável. E que sabe. Não é por desinformação, não. E que não é só o povão, não. É parte da elite, inclusive intelectual.

        Compactuam com isso é porque são iguais, se não piores. Vou continuar nessa vida pública? Para quê, Senador Antonio Carlos Magalhães? Eu louvo V. Exª, que é um pouco mais velho do que eu e vai continuar ainda. Mas, para mim, chega!

        Vou continuar pelejando pelos jornais e por todos os meios possíveis, mas, como ator na vida política e na vida pública deste País, depois de 2010, não quero mais! Elejam quem vocês quiserem! Podem chamar até o Fernandinho Beira-Mar e fazê-lo Presidente da República - ele não vai com o meu voto, mas, se quiserem, façam-no.

        O meu desalento é profundo. Deixo isso registrado nos Anais do Senado Federal. Infelizmente, eu gostaria de estar fazendo outro tipo de pronunciamento, mas falo o que penso, perdendo ou não votos pouco me importa. Aliás, eu não quero mais votos mesmo, pois estou encerrando a minha vida pública daqui a quatro anos, profundamente desencantado com ela. 

        Já dei tudo. Nada me resta de tudo quanto tive, exceto tu, esperança!

        Torna-te aquilo que és.

        Friedrich Nietzsche


         

         

         

        Cortesia de palanque

        editorial

        Afagos entre adversários nos comícios do PAC obedecem à lógica de um momento peculiar na economia e na política

        A FAVELA de Heliópolis, na zona sul de São Paulo, presenciou um momento de elegância política na última terça-feira. Por ocasião de mais um lançamento de obras do PAC, reuniram-se no mesmo palanque o presidente Lula, o governador José Serra, o prefeito Gilberto Kassab e a ministra Marta Suplicy.
        O ambiente primou pela camaradagem. Kassab, do DEM, agradeceu ao petista Lula e ao tucano Serra, sublinhando seu próprio empenho em dar continuidade à gestão da petista Marta Suplicy. Lula reconheceu ser adversário político de Serra, mas ressaltou a importância da parceria administrativa. O governador foi além ao dizer que há convergências nas posições dos governos estadual, municipal e federal no que tange ao problema das favelas.
        Nada melhor, com efeito, do que ver em prática a parceria entre representantes de correntes políticas diversas quando está em jogo a realização de obras voltadas para o conjunto da população. Mas a racionalidade administrativa conta menos, neste episódio, do que as velhas artimanhas da política.
        Interessa ao governo Lula revestir o PAC de caráter suprapartidário, ainda que o programa dê ocasião a uma óbvia seqüência de comícios para o petismo em todos os cantos do país.
        No quadro paulistano, o congraçamento teve o efeito de isolar a candidatura de Geraldo Alckmin. O pretendente tucano à prefeitura aparece nas pesquisas como adversário mais forte do que Kassab na disputa com Marta Suplicy; a estes dois últimos, convém uma provisória conjunção de forças.
        Intrigas deste tipo, mais próximas de um "reality show" do que de uma disputa ideológica consistente, são ainda assim um aspecto menor do fenômeno estrutural em curso. Há algumas décadas não se verificava a disponibilidade de recursos para obras públicas que, atualmente, os níveis de crescimento econômico (moderados) e de arrecadação (altíssimos) podem propiciar.
        Ocorre, nas diversas instâncias do Poder Executivo, um pouco o inverso daquela situação cristalizada no adágio popular, segundo o qual "em casa onde falta o pão, todos brigam e ninguém tem razão". Um ameno e sorridente partido -o Partido das Obras Públicas- compõe num mesmo palanque administradores dos mais diversos partidos, enquanto no Legislativo as infindáveis rusgas entre governo e oposição parecem descolar-se da realidade eleitoral concreta.
        No comício de Heliópolis, deu-se um breve entrevero. O vereador Agnaldo Timóteo (PR) exigia ser admitido no palanque das autoridades. Lula interveio em seu favor. Há lugar para todos; e, enquanto jorrarem as torneiras, não há ideologia que resista.

        Lulinha, paz e civilidade

        Valdo Cruz

        BRASÍLIA - A não ser que surjam fatos novos e comprometedores, tudo indica que se frustrou a primeira tentativa de inimigos explícitos e enrustidos de fragilizar uma eventual candidatura de Dilma Rousseff em 2010.
        A CPI dos Cartões perdeu gás e ruma para um fim melancólico. Nada muito diferente do que se poderia imaginar, já que, como bem lembrou Clóvis Rossi, todo mundo ali era farinha do mesmo saco.
        Caminho liberado, então, para Dilma tocar sua vida e construir sua candidatura, com a bênção de Lula? Talvez sim, mas é bom lembrar que as pedras no seu caminho não se resumem a dossiês.
        Um interlocutor próximo de Lula diz que ele não é de apostar todas as fichas num alvo só. Lembra, por exemplo, que, nos últimos dias, o presidente pisou no freio da candidatura Dilma. Por dois motivos. Um a favor, outro nem tanto.
        Primeiro, Lula sentiu que ela tinha virado a bola da vez da oposição e avaliou que era preciso preservá-la. Segundo, Dilma poderia ficar forte demais e gerar atritos desnecessários dentro do governo.
        Segundo um amigo de Lula, a ministra é, realmente, seu nome preferido para 2010. O presidente, porém, anda sinalizando internamente que tem dúvidas sobre a viabilidade da candidatura de Dilma.
        A vantagem para Lula, nesse caso, é que sua chefe da Casa Civil só existe por causa dele. E ela sabe disso. Se achar que a ministra não vai decolar, não enfrentará nenhum problema em retirá-la do xadrez da sua sucessão.
        Não por outro motivo, Lula vai, a cada momento, fazendo seus acenos na direção de outros nomes, como Ciro Gomes e Aécio Neves, enquanto rema a canoa de Dilma. Sem falar nos gestos de boa vontade para com José Serra.
        Lula não esconde de ninguém que seu objetivo é evitar que o tucano paulista ganhe em 2010. Mas, como o seguro morreu de velho, se ele ganhar, quer garantir uma transição civilizada e uma vida de ex-presidente em paz.

        Loura dura vê a coisa preta

        Nelson Motta

        RIO DE JANEIRO - Vai longe o tempo em que John Lennon e Yoko Ono cantavam "Woman Is the Nigger of the World". Era uma dupla ousadia: "nigger" é um palavrão tão ofensivo para os afro-americanos que, mesmo quando indispensável, jornais e TVs não ousam dizê-lo e o substituem por "the "N" word".
        Para Lennon, em 1972, as mulheres eram os seres mais oprimidos do mundo. Hoje, uma mulher e um negro disputam a Presidência americana, com boas chances de chegar lá. Condoleezza Rice é a segunda pessoa mais poderosa dos Estados Unidos. E certamente não está distante o dia em que um(a) gay disputará a confiança, o respeito e as esperanças dos eleitores americanos.
        Hillary, a loura dura, é mais mandona, autoritária e viril do que a maioria dos homens. Pelo menos bem mais do que o suave e envolvente Bill Clinton. Assim como ela, muitas executivas americanas, nas guerras corporativas, reproduzem e ampliam os defeitos que denunciavam nos homens: dureza, frieza, intolerância, autoritarismo, competitividade sem limites, o trabalho como prioridade máxima, o amor ao poder e ao lucro. São mais temidas do que os machões.
        As feministas furiosas assustaram os moderados, e a maioria dos democratas percebeu que, mulher ou homem, não queria mais uma cobra criada de Washington, de nariz empinado e dedo em riste. Preferiam um novato com o carisma, a fala mansa e as vagas idéias de mudança de Obama, sem se importar com a cor da pele. Não por raça nem por sexo: uma questão de estilo.
        Mas os maiores oprimidos da Terra, dizia Paulo Francis, são sempre as crianças. De todas as classes sociais e etnias, são elas que mais sofrem com a violência, a intolerância e o autoritarismo dos adultos. E crescem preparadas para oprimir os outros.

        E agora ministro?

        Luiz Carlos Mendonça de Barros

        Nas últimas semanas, os índices de inflação no Brasil têm mostrado um comportamento assustador

        A ECONOMIA brasileira entra no segundo trimestre deste ano a todo o vapor. Nesta semana, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e o Ministério do Trabalho e Emprego divulgaram as estatísticas sobre o mercado de trabalho em abril, mostrando um dinamismo extraordinário. A taxa de desemprego ajustada é a mais baixa da série, com crescimento de quase 6% no número de brasileiros empregados nos últimos 12 meses. Se considerados apenas os empregados com carteira assinada, o aumento supera 7% ao ano. Apesar da aceleração da inflação nos últimos meses, a renda real do trabalho ainda cresce.
        A melhora na renda dos trabalhadores, turbinada por um crescimento de mais de 25% do crédito bancário, se traduz em aumento do consumo acima de 12% ao ano. Aqui faço uma observação relevante: as vendas no varejo já crescem a taxas mais elevadas nas regiões Sudeste e Sul do país, deixando as regiões Norte e Nordeste para trás. O ciclo de expansão, que se iniciou na metade da população que ganha até dois salários mínimos, hoje é liderado pelas camadas de renda mais alta.
        Os dados sobre investimentos privados também apontam para a sua continuidade. Os investimentos previstos na extração de petróleo para os próximos anos terão uma magnitude ainda não incorporada pelo mercado. A vitória do consórcio liderado pela empresa francesa Suez para a construção de uma hidrelétrica no rio Madeira é um sinal inconteste da confiança do investidor estrangeiro. Digo isso por conhecer bem a forma de agir das empresas multinacionais francesas, sempre marcada pelo conservadorismo em seus investimentos fora da Europa. Finalmente, a arrecadação de tributos federais registrada em abril garante que o terceiro elo de dinamismo da economia -os gastos correntes do governo- vai continuar a todo o vapor.
        Sempre digo que o governo Lula criou um novo padrão monetário no Brasil: é ele o PT$ LULA, que corresponde a R$ 1 BILHÃO. Convido o leitor a seguir o noticiário econômico e político para acompanhar quantos PT$ LULAs são empenhados em cada semana. Agora a base do governo fala em uma nova CPMF...
        Infelizmente, o funcionamento de uma economia de mercado como a brasileira de hoje tem regras próprias para que cresça com estabilidade e sustentabilidade. E nem mesmo um presidente com 70% de popularidade tem poderes para alterar esses princípios. E essa racionalidade ameaça o paraíso econômico em que vivemos hoje.
        A intensidade do crescimento do consumo é hoje uma ameaça ao controle da inflação. Assusta-me a rapidez com que o aumento dos preços permeia as cadeias produtivas. Nas últimas semanas, os índices de inflação no Brasil têm mostrado um comportamento assustador. Alguns analistas já trabalham com aumento do IPCA da ordem de 6,5% para este ano. Os economistas da Quest Investimentos ainda não visualizam esse número cabalístico -limite superior da meta de inflação fixada pelo Conselho Monetário Nacional-, mas é provável que cheguemos a ele mesmo com um aumento moderado dos juros pela Selic.
        Os argumentos do nosso ministro da Fazenda para evitar uma ação mais firme do Banco Central caem como um castelo de cartas. Primeiro foi a inflação do feijãozinho; depois, que a meta de inflação deve acomodar a sua banda de dois pontos percentuais para mais. E agora ministro, qual é o novo argumento para sua irresponsável tranqüilidade, já que podemos ter chegado ao topo da banda?

         

         

         

        Dora Kramer

        Espaço aberto

        O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, celebrou o gesto do governo de retirar a medida provisória de liberação de créditos extraordinários no valor de R$ 7,5 bilhões, editada quase simultaneamente à decisão do STF que considerou inconstitucional o uso de MPs para essa finalidade.

        “Eu acho extremamente importante que tenha havido uma pausa para reflexão depois da decisão do Supremo”, disse o ministro, que aguardou o recuo e, prudentemente, evitou se manifestar na semana passada, quando o governo ainda demonstrava disposição de enfrentar o Supremo.

        Não apenas mantendo a nova MP, como também cogitando da mudança do texto constitucional para tornar a liberação de créditos permitida em praticamente qualquer situação. Hoje a Constituição só admite esse recurso em emergências decorrentes de “guerras, calamidades ou comoção interna”.

        Se o governo não tiver tido uma atitude isolada e os elogios do presidente do Supremo não vierem a se revelar precipitados, o Poder Executivo realmente terá dado um passo importante. Segundo cálculos correntes no Congresso, 25% das MPs editadas no período Lula foram para liberação de créditos.

        Baseado nesses números, e numa dose substancial de otimismo, o ministro Gilmar Mendes permite-se acreditar que o Congresso compreenda a chance de ouro e já comece a fazer planos para recuperar o domínio sobre seu processo de decisão.

        Seria momento de Congresso abandonar as queixas permanentes sobre o “roubo” de autonomia e aproveitar o espaço desse um quarto de medidas provisórias, que teoricamente deixariam de ser editadas, para investir na execução da tão reclamada agenda própria.

        A recuperação da capacidade do Parlamento de decidir com agilidade é, na opinião de Gilmar Mendes, um ponto essencial a ser levado em conta no debate sobre o uso de medidas provisórias.

        Há pouco mais de dois meses na comissão especial que examinava a alteração no rito de tramitação de MPs, ele alertou o Parlamento sobre a necessidade de não se fixar apenas nos excessos cometidos pelo Executivo, mas prestar atenção também nas carências do Legislativo.

        Por isso, o presidente do Supremo identifica no recente passo atrás do Planalto a oportunidade ideal para o Congresso mostrar que sabe, pode e quer dar um passo à frente.

        Clamor organizado

        O presidente Lula se nega a apadrinhar a volta da CPMF, mas não perde oportunidade de demonstrar para públicos amigos que ficaria muito grato se alguém lhe fizesse esse favor.

        O patrocínio das lideranças dos partidos aliados não basta. Além da marca indelével do Palácio do Planalto, a dependência exclusiva da base parlamentar em geral sai por uma exorbitância. Para baixar o custo e aumentar a chance de aprovação, seria preciso que a proposta nascesse da “sociedade”.

        Por isso, Lula falou do assunto em discurso para 2 mil prefeitos na segunda-feira e, na quarta, sugeriu a inclusão do tema na agenda do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

        Cansados da guerra

        A tropa governista faz jus à fama, mas não é justo se atribuir a improdutividade da CPI dos Cartões Corporativos à negligência ética da maioria sem falar na displicência da minoria.

        A oposição faz pose investigativa diante das câmeras de televisão, mas longe delas manifesta seu desejo de encerrar esse assunto o mais rápido possível. E não é de hoje.

        Desde as primeiras semanas de “trabalho”, tucanos e democratas concluíram que a CPI não tinha futuro.

        Basta lembrar as diversas vezes em que a presidente da comissão, Marisa Serrano, anunciou a proximidade do fim. Mas aí ocorreu o aparecimento oficial do dossiê dos gastos de FH e a oposição, que estava cansada de saber da história, foi obrigada a voltar ao campo de batalha.

        Agora, está de novo arrumando as malas para a retirada: Dilma Rousseff revelou-se um alvo difícil e Lula consolidou-se como objetivo impossível de ser atingido.

        Mercado futuro

        Tirando a aliança de Aécio Neves com o PT em Belo Horizonte, os dois melhores lances de coalizão partidária vieram com a digital do governador José Serra impressa: a adesão do PMDB à candidatura do prefeito Gilberto Kassab e a desistência do radialista Raimundo Varella, líder nas pesquisas em Salvador, para integrar como vice a chapa do tucano Antonio Imbassahy.

        Serra nega participação nos episódios, não põe assinatura em nenhum acordo e, pelo silêncio de seus movimentos, prefere continuar sendo apontado como um incapaz na arte de fazer amigos para fins eleitorais. É a maneira de reduzir possíveis danos e evitar maiores atritos, a fim de não fazer dos preteridos de hoje os inimigos de amanhã.

        amarildo
        fausto
        pcaruso

         

         

         

        Tribuna da imprensa online

        Argemiro Ferreira

        A fraude histórica do 11/9 na ABC

        Circula há algum tempo pelos canais a cabo a versão bushista do 11 de setembro - minissérie "The Path to 9/11", um docudrama produzido pela rede ABC de televisão (propriedade da Walt Disney Company). Segundo o conhecido site "Media Matters for America", de crítica de mídia, ela não escorregou apenas ao tentar transferir para a administração anterior os erros grosseiros do governo Bush em relação ao terrorismo.

        Outra reputação que sai gravemente comprometida na falsificação histórica praticada pela Disney-ABC em 2006, afirmou, é a do especialista em terrorismo John P. O'Neill. Agente do FBI até agosto de 2001, ele deixou o emprego desgostoso com o desinteresse do governo Bush pela luta antiterrorista e aceitou o cargo de chefe da segurança do World Trade Center, onde morreria no dia 11 de setembro.

        O próprio ator que interpretou o papel de O'Neill no filme da ABC, Harvey Keitel, manifestou graves reservas pela maneira como seu personagem foi retratado no roteiro. Um artigo publicado em setembro de 2006 pelo tablóide "New York Post" citou as críticas de Keitel. Como percebera a inconsistência do script, o ator contratou seu próprio pesquisador - o que lhe permitiu fazer alguns remendos no diálogo.

        Os mísseis e a caverna

        Esse detalhe ajuda a entender a leviandade das redes de TV dos grandes impérios de mídia como a Disney-ABC. A ABC relutou, mas acabou sendo forçada a mudar alguma coisa no filme - tal o escândalo ao ficar claro que entregara a responsabilidade pelo script a um certo Cyrus Rasnowteh, um conservador bushista obcecado em absolver o governo responsável, de Bush, e culpar seu antecessor Clinton.

        Antes mesmo do lançamento da minissérie, outro conservador bushista - Rush Limbaugh, apresentador de "talk show" de rádio - não se conteve e contou em seu programa o que ouvira de seu amigo Rasnowteh, que o filme responsabilizaria a equipe de Clinton pelo 11/9. A ironia é que a preocupação maior na transição de governo fora avisar Bush sobre a gravidade da ameaça representada por Bin Laden.

        Desde o primeiro momento a nova equipe republicana subestimou as ameaças daquele chefe terrorista enfurnado numa caverna do Afeganistão. O compromisso de Bush era injetar centenas de bilhões de dólares na indústria de armas para retomar o chamado escudo espacial (ou "guerra nas estrelas"), a defesa antimísseis imaginada antes, no governo Reagan, contra a URSS, dissolvida em 1989.

        A trama por trás das câmeras

        O filme era, desde o início, uma megafraude - dificilmente tornada menos agressiva aos fatos depois dos remendos. Por isso mesmo a extrema direita, liderada por Rush Limbaugh, saudou antecipadamente a minissérie como portentoso evento político, a dois meses da eleição (na qual Bush perdeu o Senado e a Câmara). Limbaugh e outros tiveram acesso exclusivo às informações sobre o filme, privilégio negado a críticos do governo Bush.

        O fato de também O'Neill ser difamado é relevante. Ele se tornara, no FBI, o maior estudioso de Bin Laden. Encontrara muita incompreensão, ainda no governo Clinton, por insistir nesse rumo. Mas a trombada maior veio já no governo Bush; decidiu então demitir-se do bureau e aceitar o emprego no World Trade Center - convencido de que quase certamente seria tentada ali uma nova ação terrorista.

        Estão entre os alvos do roteirista, juntamente com O'Neill, o próprio Clinton, acusado de desviar a atenção de Bin Laden devido ao esforço republicano pelo impeachment, sua secretária de Estado Madeleine Albright e o assessor de segurança nacional Sandy Berger. Mas em agosto de 1998, ao ordenar o ataque a Bin Laden em seguida às explosões no Quênia e Tanzânia, Clinton fora ridicularizado pelos republicanos, que alegaram ter sido tentativa de desviar a atenção do caso Lewinsky.

        O estranho consultor pago

        Também grave na controvérsia da minissérie que tanto entusiasmou os bushistas foi o envolvimento do próprio presidente da comissão que investigou o 11/9 - Thomas Kean, o republicano transformado pela ABC em consultor pago da fraude. Era, claramente, uma tentativa de fazer da ficção irresponsável de Rasnowteh uma espécie de versão oficial, a ser abraçada pelos livros de história.

        A comissão tivera integrantes republicanos e democratas, que trabalharam sob a coordenação de um republicano (Kean) e um democrata (Lee Hamilton). Fora uma receita hábil, tentado certo equilíbrio. Kean acabou forçado a reconhecer, depois do escândalo, que há coisas no filme que não estão no relatório da comissão. E depois alegou que sua remuneração seria destinada a organizações de caridade.

        Os produtores fingiram ignorar que o presidente Bush buscou deliberadamente retardar, mais de um ano, a criação da comissão (as de Pearl Harbor e da morte de John Kennedy vieram poucos dias depois do fato). Além disso, foram impostas limitações ao depoimento do próprio Bush. Nenhum presidente no passado ousou manipular uma investigação de forma tão desavergonhada. O docudrama da ABC foi um novo capítulo de tal esforço.


         

         

         

        Lucia Hippolito

        Lucia Hippolito

        Morre o senador Jefferson Peres

        Morreu de enfarte, nesta manhã, em sua casa em Manaus, o senador Jefferson Peres.

        Perde o país, perde o Congresso, perde seu partido.

        Jefferson Peres era uma das últimas referências éticas do Congresso Nacional, num momento em que a ética parece ser artigo em extinção na política brasileira.

        Homem sério, sisudo mesmo, econômico nos gestos e nas palavras, Jefferson Peres destoava da tendência à teatralidade que marca os políticos brasileiros.

        Teve atuação destacada em CPIs, sempre moderado, sensato, porém sempre severo e intransigente na defesa da coisa pública.

        Nos últimos tempos andava meio recolhido, já que seu partido passou a compor a base aliada do governo.

        Recolhido também por constrangimento, porque nos últimos tempos o PDT só tem criado problemas. Primeiro com a insistência do ministro Lupi em desafiar a Comissão de Ética Pública  Lupi resistiu o quanto pôde a abrir mão da presidência do partido.

        A partir daí, o PDT passou a ser figurina carimbada nas páginas policiais. Seja porque ONGs ligadas ao partido e à Força Sindical passaram a receber vultosos recursos do Ministério do Trabalho  sem licitação, naturalmente.

        Seja porque o deputado Paulo Pereira da Silva, presidente da Força Sindical, está no centro de um escândalo de grossa roubalheira de recursos do BNDES.

        Pobre senador Jefferson Peres. Não merecia ter um fim de vida vendo seu partido arrastado na lama dessa maneira.

        Pobre país!

         

         

         

        MORRE O SENADOR JEFFERSON PÉRES

         

         

         

         

         

         

         

         

         

        Senador Jefferson Péres (PDT/AM)

        Conforme notícia  veiculada pela rádio CBN e confirmada pela Globo News,faleceu está manhã as 6:30 em sua residência em Manaus:vítima de infarto fulminante.

        O senador era honrado e integro era considerado reserva moral  da política brasileira.

        Brasil perde 'referência ética' na política, diz Lucia Hippolito



        De acordo com o Hippolito, o senador se mostrava desencantado com a política e chegou a dizer que abandonaria a carreira. Péres foi vereador em Manaus durante muitos anos. Foi eleito senador em 1994 e reeleito em 2002 com uma expressiva votação: quase 600 mil eleitores amazonenses escolheram o nome do político para representar o estado em Brasília.

        A colunista do UOL também lembra que a opinião do senador era muito valorizada no Congresso: "Quando um político queria saber como votar corretamente, procurava o Péres", conta Hippolito.

        Péres era professor e advogado com longa carreira política em Manaus. Ocupava vaga no senado desde 1995 e exercia seu segundo mandato de senador.


         
         
         
         
         
         
         
        Tarifa bancária teve alta de até 966% antes de congelamento
        Os aumentos ocorreram entre janeiro e abril, quando novos reajustes foram proibidos
        Em quatro meses, os bancos do país reajustaram algumas de suas tarifas em até 966,7%. Levantamento da Fecomercio-SP mostra que o aumento ocorreu antes de 30 de abril, quando entrou em vigor a nova regulamentação, que congelou as tarifas por seis meses.
        O maior reajuste foi encontrado na tarifa de renovação de cadastro de conta no Banco Real. Em janeiro, a instituição cobrava R$ 4,50 pelo serviço. No fim de abril, a taxa passou a custar R$ 48. Destaca-se ainda que muitos bancos passaram a cobrar por serviços que antes eram isentos. É o caso da Confecção de Cadastro para Início de Relacionamento. No Unibanco, por exemplo, essa tarifa custa R$ 120.

        Outra variação significativa de preço foi encontrada no fornecimento de folhas de cheque. Por cada folha, o cliente do Unibanco tem de pagar agora R$ 1,40, ante R$ 0,36 em janeiro.
        Em quatro meses, os bancos do país reajustaram algumas de suas tarifas em até 966,7%. Levantamento da Fecomercio-SP mostra que o aumento ocorreu antes de 30 de abril, quando entrou em vigor a nova regulamentação, que congelou as tarifas por seis meses.
        O maior reajuste foi encontrado na tarifa de renovação de cadastro de conta no Banco Real. Em janeiro, a instituição cobrava R$ 4,50 pelo serviço. No fim de abril, a taxa passou a custar R$ 48. Destaca-se ainda que muitos bancos passaram a cobrar por serviços que antes eram isentos. É o caso da Confecção de Cadastro para Início de Relacionamento. No Unibanco, por exemplo, essa tarifa custa R$ 120.

        Outra variação significativa de preço foi encontrada no fornecimento de folhas de cheque. Por cada folha, o cliente do Unibanco tem de pagar agora R$ 1,40, ante R$ 0,36 em janeiro.

        Além disso, as diferenças de preços entre os bancos são enormes. Na renovação de cadastro, as tarifas variam 140%. Os bancos discordam das comparações.
        Além disso, as diferenças de preços entre os bancos são enormes. Na renovação de cadastro, as tarifas variam 140%. Os bancos discordam das comparações.
         
        Em Cannes, dose dupla de Che Guevara
        Filme com Benicio Del Toro tem 4h18; vencedores saem no domingo.
        Benicio Del Toro é Che Guevara em Che, de Steven Soderbergh
         
        O mastodôntico esforço de Steven Soderbergh para filmar a vida de Che Guevara foi recebido com respeito em Cannes. Che, uma saga em duas partes, que juntas somam 4h18, é filmado em espanhol e traz Benicio Del Toro no papel de Che e Rodrigo Santoro como o irmão de Fidel, Raúl.

        Um dos problemas identificados pela crítica, no entanto, é a falta de tensão dramática, a despeito de estupendo trabalho de Del Toro. Outro, é que o diretor capta a maior parte das imagens de Che de trás. O que se vê é o pescoço do personagem ou seu perfil.


        O longa foi apresentado anteontem ainda sem créditos de abertura e encerramento, o que significa que ainda deva mudar antes de chegar à telona, e foi exibido como um filme único. O público deverá vê-lo em duas partes. Santoro aparece pouco, mas os críticos afirmaram que ele parece ter dado o seu máximo no longa.
         
        Acadêmico diz que ricos têm QI maior que pobres
         
        Um artigo publicado por um acadêmico inglês na revista Times Higher Education, especializada em educação superior, está causando comoção no Reino Unido. Para Bruce Charlton, professor de psiquiatria evolutiva na Universidade de Newcastle, a pequena proporção de estudantes de classe média baixa em universidades renomadas é o “resultado natural” de uma diferença de QI (quociente de inteligência) entre as classes sociais.
        “Integrantes de classes sociais mais altas têm inteligência média maior do que as classes baixas”, afirma.

        Segundo ele, o desequilíbrio na distribuição das classes sociais em universidades renomadas, principalmente Cambridge e Oxford, nada tem a ver com preconceito: trata-se de uma simples questão de mérito de alunos que são mais preparados, a maioria dos quais pertence à camada rica.

        Reações
        A União Nacional dos Estudantes afirmou, em nota, que os argumentos de Charlton são “equivocados, irresponsáveis e insultantes”. O ministro do Ensino Superior Bill Rammell disse que as afirmações são discriminatórias, na medida em que sugerem que “cada pessoa deve saber qual é o seu lugar”.

         

         
         
         
         
         

         

         

         
         
         
         
         
         
         
         
         

         
        Vida em Marte? 

         

         

         

        Jamil Chade, GENEBRA

        Maluf é multado por Justiça suíça e de Jersey

        Deputado teve de pagar US$ 20 mil e 320 mil libras esterlinas por ter tentado, sem sucesso, bloquear envio de extratos bancários ao Brasil

        O deputado Paulo Maluf (PP-SP)foi obrigado a pagar US$ 20 mil à Justiça da Suíça e 320 mil libras esterlinas à Justiça da Ilha de Jersey por ter tentado, sem sucesso, bloquear o envio de seus extratos bancários ao Brasil. Desde 2006, Maluf iniciou uma série de disputas legais nos dois paraísos fiscais para tentar impedir que os documentos fossem liberados para promotores estaduais e procuradores federais brasileiros.

        Apesar de insistir que nunca teve contas na Suíça ou em Jersey, versão que mantém até hoje, Maluf foi condenado a pagar penas impostas pelos tribunais dessas duas praças financeiras. Só na Suíça, o Tribunal Federal confirmou ao Estado que US$ 20 mil foram cobrados do ex-prefeito de São Paulo (1993-1996). Isso diante de três processos que iniciou, e perdeu, para tentar impedir a abertura de seu dossiê.

        O Ministério Público paulista sustenta, em ação civil de improbidade, que Maluf movimentou US$ 446 milhões em instituições financeiras de Genebra.

        Em Jersey, para onde ele teria transferido parte desse dinheiro, a Corte Real confirmou que o ex-prefeito entrou com uma série de ações para impedir o envio dos documentos às autoridades brasileiras. Perdeu todas as demandas. No total, Maluf e suas empresas abriram nove casos contra o Ministério Público de Jersey entre 2006 e 2007.

        Tracy Fitzgerald, representante da Corte, não divulgou o valor da conta de Maluf com o tribunal. "Mas de fato há o pagamento", afirmou. No Brasil, fontes da Justiça apontam que o valor pago por Maluf alcança 320 mil libras (cerca de US$ 630 mil), a título de sucumbência - cobertura de despesas da outra parte nas ações.

        A Justiça da ilha, em documento de 2007, concluiu que "há evidência de que um ou mais membros da família Maluf são culpados de fraude contra a Prefeitura (de São Paulo) e há suspeitas suficientes de que o dinheiro dessa fraude passou por contas na Suíça e, de lá, para contas em companhias em Jersey". Tanto o Citibank como o Deutsche Bank, instituições que manteriam contas de Maluf, foram notificados dessa decisão e não tiveram outra saída senão abrir seus arquivos.

        A Procuradoria do paraíso fiscal confirmou que o dinheiro já está bloqueado. "Há evidências de que o sr. Maluf e outros cometeram fraude, de que a Prefeitura de São Paulo foi fraudada em grandes montantes, de que uma proporção substancial do dinheiro foi pago à Suíça e a outros lugares fora do Brasil e de que uma parte desses recursos chegou até contas de companhias em Jersey", afirma o documento da Corte Real de Jersey. O relatório recomenda: "A Prefeitura de São Paulo precisa descobrir onde estão os recursos em que foi fraudada."

        Ontem, por meio de sua assessoria, Maluf, pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, reiterou declaração que adotou desde o início do caso Jersey, em 2001: "Maluf nunca teve contas no exterior." O advogado Maurício Leite, que o defende, disse que só se manifestará quando tomar ciência da decisão.

        TRECHO

        "Estamos satisfeitos de que há evidências que o sr. Maluf e outros cometeram fraude, que a Prefeitura de São Paulo foi fraudada em grandes montantes e, portanto, que uma proporção substancial do dinheiro foi pago à Suíça e a outros lugares fora do Brasil e que uma parte desses recursos chegou até contas de companhias em Jersey"


         

         

         

         

        Alcino Leite Neto

        A pragmática e o idealista

        Humberto Pereira da Silva 
         

        Livros de Hillary Clinton e Barack Obama, ambos democratas, mostram visões opostas da vida americana

        No começo do ano que vem os partidos Democrata e Republicano indicarão seus respectivos candidatos à eleição presidencial americana que se realizará em novembro de 2008. Por isso, o momento atual é marcado por ampla movimentação da imprensa em torno dos nomes mais prováveis, avaliações de possibilidades em função de pesquisas entre os partidários, arrecadação de fundos para as campanhas etc. Em ambos os partidos, algumas pré-candidaturas despontam para as primárias.

        No Republicano, destacam-se Rudy Giuliani (ex-prefeito de Nova York), Fred Thompson, Mitt Romney e John McCain; já no Democrata, Hillary Clinton, Barack Obama e John Edwards são os principais nomes que reivindicam a indicação para a corrida presidencial (com a conquista do Nobel da Paz, o ex-vice-presidente Al Gore, apesar das negativas, não é carta completamente fora do jogo).

        Desde a eleição de 1968, quando o virtual candidato democrata Lyndon Johnson não concorreu à reeleição e seu eventual sucessor, Robert Kennedy, foi assassinado, não se tem um quadro tão indefinido: a seguir as tendências dos últimos 40 anos, Dick Cheney, vice de George W. Bush, seria o candidato natural pelos republicanos. Inegável, portanto, que o espaço está aberto para os diversos nomes que lançaram pré-candidatura.

        O que se pode afirmar, no entanto, é que entre os pretendentes republicanos Rudy Giuliani é o que está mais em evidência; no Partido Democrata, por sua vez, Hillary Clinton e Barack Obama estão na frente nas diversas pesquisas realizadas entre os partidários. Até a eleição do ano que vem muita água vai rolar, mas o quadro atual, em função da rejeição a Bush -o que leva os pretendentes republicanos a uma posição defensiva e de tímido afastamento de sua política-, mostra os republicanos em posição difícil.

        Na possibilidade de uma “virada” democrata, com Hillary e Obama temos uma situação singular na política americana: pela primeira vez os Estados Unidos teriam uma mulher na presidência ou um mestiço (Obama, nascido no Havaí, é filho de um queniano negro e de uma americana branca).

        A eventualidade da “virada” democrata deve-se à popularidade nixoniana dos tempos de Watergate ostentada por Bush, como conseqüência, principalmente, de sua posição em relação à permanência das tropas americanas no Iraque (recordo, bem entendido, que o cenário eleitoral americano é movediço: nas duas oportunidades em que foi eleito, Bush virou um quadro que lhe era desfavorável -em 2000 diante de Al Gore, em 2004 contra John Kerry).


        Arena política

        Hillary e Obama, no entanto, catalisam os principais acontecimentos nesse momento que antecede as primárias do Partido Democrata. A se notar de início que Hillary tem imagem estabelecida, com espaço no mundo político que remonta aos anos 70, quando Bill Clinton foi eleito governador pelo Estado de Arkansas, e, por conseguinte, forte staff obtido nos anos em que foi a primeira-dama (Hillary é a primeira-dama que mais se envolveu na política americana desde Eleanor Roosevelt, nos anos 40: Jacqueline Kennedy simbolizou principalmente charme e elegância). Como conseqüência da imagem que firmou nos anos Clinton, ela conquistou uma cadeira no Senado americano pelo Estado de Nova York, na eleição de 2000.

        Barack Obama, por sua vez, pode ser caracterizado como jovem temporão na política: tem 45 anos, mas só recentemente se lançou na arena política. Apenas em 2006 foi eleito para o Senado pelo estado de Illinois (na eleição de 2000 tentou sem sucesso uma cadeira no Senado). Até 1996, Obama era um advogado de direitos humanos, formado em Harvard, e líder comunitário; foi nesse ano que conquistou uma cadeira na Assembléia Legislativa de Illinois.

        Um dado que os separa inegavelmente é a cancha política de Hillary. Dado que pode se constituir num ponto positivo para Obama: simbolicamente ele representaria o efetivamente novo, para que se possa falar numa efetiva “virada” democrata. Obama não teve de se manifestar oficialmente a respeito da invasão do Iraque em 2002. Guardou, na conveniente independência de cidadão, posição contrária à invasão.

        Hoje se prevalece de ter se manifestado contra, desde o início, com o argumento de que já se sabia, após os atentados de 11 de Setembro, que a invasão seria um erro, pois envolvia uma ocupação por tempo, custo e conseqüências indeterminados. Enquanto Hillary tem tido de prestar contas das razões porque votou pela invasão do Iraque (ela sustenta que não se sabia dos erros cometidos pelos serviços de inteligência). Mas, vale frisar, é mero casuísmo ponderar –para a eleição que se avizinha- sobre os rumos que a invasão do Iraque tomou de 2002 para cá, rumos que servem de munição para os democratas: o republicano Richard Nixon venceu a eleição de 1968, foi reeleito em 1972, apesar da Guerra do Vietnã, iniciada, justamente, com o democrata Lyndon Johnson.


        Dois livros, dois candidatos

        Visto que Hillary e Obama são os dois candidatos democratas com maior potencial para a corrida presidencial, para maior conhecimento e esclarecimento de suas posições convém a leitura de dois livros em que ambos se expressam: “Vivendo a História”, dela (Editora Globo, 615 págs.), e “A Audácia da Esperança”, dele (Larousse do Brasil, 399 págs.).

        Duas observações iniciais. “Vivendo a História” tem uma feição descritiva, é mais afeito aos caminhos da trajetória de Hillary desde os anos de formação até sua eleição para o Senado. “A Audácia da Esperança” é pouco descritivo e tem como foco a discussão sobre a natureza dos valores e da política americanos, ao se centrar em três momentos da história dos Estados Unidos: a Independência, a Guerra de Secessão e a grande Depressão dos anos 30.

        Uma outra observação é que “A Audácia da Esperança” é de 2006, enquanto “Vivendo a História”, de 2003. No livro, Obama frequentemente se refere à sua experiência à frente do Senado, sobre a política americana nos dias atuais, portanto; no livro de Hillary, sua trajetória à frente do Senado, momento em que ela efetivamente ingressa na seara política, não é contada.

        Se guardarmos a mudança de posição dela em relação à invasão do Iraque, pode-se conjecturar que o livro de Obama expressa com mais fidelidade seu pensamento: os humores do tempo -caprichosos e traiçoeiros no jogo político- não se fazem sentir ainda em Obama para que se possa registrar alteração em suas posições.


        Espírito calculista

        Nos dois livros vale destacar alguns pontos importantes para a compreensão do perfil de ambos. Hillary nasceu em uma família conservadora afinada aos republicanos (em 1964, fez campanha pelo candidato à Presidência Barry Goldwater) e teve formação religiosa na Igreja Metodista.

        Após o assassinato de Martin Luther King e, principalmente, sua entrada no curso de direito em Yale, no início dos anos 70, ela mudou suas convicções, com apoio do então namorado Bill Clinton, e ingressou no Partido Democrata. É nesse período que, ao mesmo tempo em que se envolve com questões de direitos da mulher, de bem-estar das crianças, de saneamento, educação e saúde, passa a manter um relacionamento apenas protocolar com questões de religião. Em suas palavras, os princípios da formação metodista que teve conduzem sua vida, mas não interferem em sua visão política.

        O que se pode dizer das páginas de “Vivendo a História” é que Hillary se revela principalmente um espírito calculista e pragmático -o que se manifesta na manutenção do casamento com Bill Clinton, em seguida ao episódio Monica Lewinsky.

        A se considerar a autonomia que granjeou (abriu mão da influencia familiar, formou um círculo próprio de influência no campo profissional, forjou a imagem de uma mulher com independência econômica e de convenções sociais) e a humilhação pública a que se expôs, para alguém com o perfil dela, fica a forte suspeita de que um jogo de cálculo a levou a ponderar que ao ficar no mesmo barco de Bill Clinton, caso ele não fosse afastado da Presidência, ela sairia fortalecida.

        Lutou então até o fim, e como Bill Clinton se manteve na Presidência ela colheu os frutos da vitória: manteve o emblema Clinton (a própria Hillary lembra que foram as conveniências da condição de primeira-dama de Arkansas que a fizeram adotar o sobrenome Clinton: antes ela assinava Hillary Rodham) e pode se lançar com força para a conquista de uma cadeira no Senado.


        Relações internacionais

        Se “Vivendo a História” revela uma Hillary calculista, o mesmo não se pode afirmar de “A Audácia da Esperança”. O que temos é o perfil de um homem preocupado em refletir sobre os valores americanos, sobre a importância da maneira como a Constituição foi concebida pelos fundadores da nação.

        Obama abre grande espaço para falar das idéias de Jefferson, Adams, Hamilton e Madison, de debates sobre a forma republicana, onde os cidadãos não comungam a mesma cultura e fé religiosa, de debates sobre se Segunda Emenda proíbe toda a regulamentação relativa a armas. Fala, com isso, sobre o pressuposto dos fundadores de que os Estados Unidos são uma terra de oportunidades, sobre fé (apesar de pertencer à pentecostal Igreja Unida de Cristo, Obama não faz referência ao seu cotidiano religioso, mas realça a importância da fé cristã em sua vida e na formação do povo americano), sobre raça e família.

        Sua visão, contudo, não é tanto no passado, mas sim em como a compreensão do passado é importante para se considerar o espírito americano como terra de oportunidades, terra em que um mestiço seja eleito para o Senado e possa concorrer à Presidência.

        Da maneira como ambos se expressam, segue-se que Obama é mais preocupado em resgatar os ideais de formação do povo americano. Trata-se nesse sentido de uma visão mais utópica e romântica que a de Hillary. Em função dessa divergência de focos, pode-se notar diferenças entre ambos, no que se refere às idéia que têm sobre os Estados Unidos e suas relações internacionais.

        Hillary vê os Estados Unidos como espaço de embate para discussão de interesses conflitantes. O que se vê nos relatos de “Vivendo a História” é explicitamente uma preocupação maior com arregimento de forças, de lobbies que possam valer suas posições, numa sociedade aberta e com diferentes visões sobre como a vida pública deve ser conduzida.

        É assim que ela se manifestou, quando, pouco depois de formada em Yale, participou da equipe assessora do comitê judiciário da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos da América quanto à questão do impeachment presidencial no caso Watergate; é assim, igualmente, que se manifestou no debate sobre o malgrado Projeto de Reforma do Sistema de Saúde (o Hillarycare, para seus opositores), nos anos finais do primeiro mandado de Bill Clinton. Aliás, esse debate se mantém na atual corrida à Casa Branca: Hillary, em oposição aos republicanos, defende a universalização dos programas de financiamento de saúde, para além do Medicare e Medicaid, voltados apenas para maiores de 65 anos e famílias de baixa renda.

        Porque entende os Estados Unidos como espaço de interesses conflitantes, Hillary se manifestou em muitas ocasiões sobre direitos das mulheres, participou de inúmeras conferências relacionadas à saúde infantil, introduziu programa para crianças em pré-escola. Mas não se pode dizer que suas idéias sobre os Estados Unidos são fixas, elas dependem muito do conjunto de forças que estão envolvidos (ela praticamente não se manifesta sobre a maneira como vê a educação nos Estados Unidos, quando se observa os valores que se deseja formar), de interesses pessoais que estão em jogo.


        Contrastes da América

        Nos anos iniciais da presidência Clinton, Hillary esteve envolvida no caso Whitewater, sobre transações imobiliárias suspeitas de que teria participado à época em fora primeira-dama em Arkansas. Sua defesa para o envolvimento no caso Whitewater exibe um tanto de ingenuidade, ou despeito, na maneira de separar o público do privado.

        Hillary, de fato, não revela explicitamente que tenha uma idéia de fundo sobre os Estados Unidos. Quando do atentado em Oklahoma City, em 1995, sua posição ressoa o modo como entende os contrastes da “América”. Para ela, McVeigh e sua espécie representam os elementos mais alienados e violentos da extrema direita, cujas ações enojam cada cidadão americano sensível, mas o atentado em Oklahoma City parece esvaziar o movimento de milícias e marginalizar os piores insufladores do ódio.

         

         

         

        Alcino Leite Neto

        ANTEVISÃO
         
        Paranóia ou progressismo?
        Reprodução
        O escritor Monteiro Lobato numa rua de São Paulo

        Na ficção científica "O Presidente Negro", Monteiro Lobato vislumbra a disputa entre um negro e uma mulher para a Presidência dos EUA em 2228

        A disputa entre os senadores Barack Obama e Hillary Clinton pela vaga democrata nas eleições presidenciais norte-americanas de 2008 tira lá do fundo poeirento dos sebos um livro estranho, polêmico e esquecido de Monteiro Lobato: "O Presidente Negro" (reeditado agora pela Brasiliense) -ou "O Choque das Raças", o outro nome dado à obra, classificada assim pelo escritor: "Romance americano do ano 2228".

        Sim, trata-se de uma ficção científica, coisa rara nas letras brasileiras, e muito influenciada por H.G. Wells (1866-1946), de quem Lobato foi um dos primeiros tradutores no país. Publicada em 1926, inicialmente na forma de um folhetim que durou três semanas e 20 capítulos nas páginas do jornal "A Manhã", viria a se tornar o único romance do escritor, conhecido no entanto por sua prolixidade. Romance popular, diga-se, com um know-how respeitável do "timing" do folhetim, feito de suspenses calculados, de crescendos dramáticos, de fantasias mirabolantes e pontuações sentimentais. Romance também satírico, com um humor feroz e irresistível.

        E fortemente polêmico, bem mais que politicamente incorreto: escorado em idéias racistas e até protonazistas -o que deve ter contribuído para mantê-lo até agora no canto embolorado dos alfarrábios, apesar de suas projeções provocativas.

        Entre elas, por exemplo, a de um sistema de comunicação que lembra muito a internet.

        No delírio futurista de Lobato, a imprensa em papel deixou de existir nos EUA de 2228. As notícias são "radiadas" e aparecem imediatamente impressas "em caracteres luminosos num quadro mural existente em todas as casas".

        Também chegou ao fim a "era dos veículos". Os instrumentos de rodas foram parar no museu, e os homens preferem andar a pé, usufruírem do ócio e trabalharem em suas próprias casas, de onde transmitem seus serviços ao escritório utilizando o "rádio-transporte".

        As guerras igualmente foram extintas, tão logo os Ministérios da Guerra foram trocados pelos da Paz. Apesar disso, os EUA estão prestes a mergulhar no caos e no sangue às vésperas da eleição de seu 88º presidente, de tal forma o pleito cindiu a população.

        De um lado, estão agrupados os milhões de eleitores pretos, que apóiam Jim Roy, da Associação Negra. De outro, as mulheres brancas que seguem a candidata do Partido Feminino, miss Evelyn Astor. E, por fim, há os homens brancos, que preferem a reeleição de Kerlog pelo Partido Masculino, que fundiu o Democrata e o Republicano.

        Eis o essencial da trama: não apenas um choque de raças, mas também uma guerra de sexos. Os homens brancos, a fim de embranquecer os EUA, planejam enviar os negros para a Amazônia, que já não é parte do Brasil. Nosso país foi dividido em dois, independentes: o Norte, de atávica malemolência, e o Sul bem-sucedido, a "grande República do Paraná", que engloba ainda a Argentina, o Uruguai e o Paraguai.


        Votação por rádio

        As mulheres brancas, "mamíferas rebeldes", seguem as teorias expostas por miss Astor em "Simbiose Desmascarada", segundo o qual o Homo sapiens roubou as fêmeas de seu rival biológico, de outro gênero, o que explicaria o equilíbrio sexual impossível entre mulheres e homens. "Sabotemos o gorila!", gritam as feministas.

        Os negros, por sua vez, vivem preocupados com esticar seus cabelos e clarear o rosto por meio da "despigmentação", que os deixa com a pele "horrivelmente embranquiçada" (como a de Michael Jackson, alguém diria).

        Com o acirramento da disputa, tanto o Partido Feminino quanto o Masculino buscam o apoio do líder negro. O sistema social é conduzido por práticas eugenistas (como a eutanásia de bebês nascidos com problemas), mas a política representativa continua intocada.

        Acontece a eleição -com os votos enviados por ""rádio" da casa dos eleitores-, e ganha o candidato negro.

        As mulheres brancas se apavoram com a perspectiva de um governo de negros e, arrependidas, correm aos braços dos homens brancos, revendo sua teoria evolutiva: "Peludas que éramos ainda, e lá no fundo das idades já o ajudávamos [aos machos] a afiar o machado de sílex com que nos amparou da agressões do Ursus spelaeus. Comemos juntos bifes crus de megatérios", exclamam elas (e a escrita lobatiana se delicia e nos delicia com os disparates femininos).

        O líder negro -o único ao qual Lobato, paradoxalmente, dá estatura de herói- prepara-se para assumir a Presidência, diante de seus iguais, estupefatos com a conquista: "Nem um negro imaginara tal hipótese. Mas a perturbação foi se desfazendo, e à medida que se ia desfazendo, iam se iluminando as aras com um sorriso novo no mundo".

        Os brancos reagem com muito maquiavelismo, num complô articulado supermodernamente entre política, ciência e ideologia, o qual é melhor não revelar, deixando algumas surpresas para o leitor que por acaso resolva ler a obra.

        A questão do racismo de Lobato inflama os estudiosos. Muitos deles chegaram a apontar preconceitos embutidos até mesmo nos livros infantis. "O Presidente Negro" coloca muita lenha na fogueira da polêmica. Há passagens escandalosas no livro, que mesmo um escritor de extrema direita pensaria mil vezes antes de publicar nos dias de hoje.

        Lobato as coloca todas na boca dos personagens, como a sapiente miss Jane Benson, filha do inventor inglês que descobriu o "porviroscópio", por meio do qual se avista o futuro, ou o narrador meio idiota do livro, Ayrton Lobo, funcionário da firma de contabilidade Sá, Pato & Cia., que por acaso cai nas graças da família de cientistas ao se acidentar nos arredores de Friburgo.

        É sabido que Lobato se envolveu vivamente com idéias eugenistas, muito comuns na época do livro, e que na juventude teve um culto enviesado por Nietzsche e seu super-homem. Também se manifestou repetidas vezes contra a miscigenação brasileira e chegou a defender Mussolini.


        Democrata ferrenho

        Por outro lado, fez elogios a Lênin e foi um ferrenho democrata à americana, defensor da modernização da política, da economia e dos costumes no Brasil encalacrado em seus arcaísmos coloniais. Promoveu também uma revolução na indústria editorial, democratizando a leitura no país.

        Sua obra infantil é um verdadeiro projeto de "iluminismo" para as crianças. E, num tempo em que isso não era comum, criou um dos mais comoventes personagens negros da literatura brasileira, Negrinha, do conto do mesmo nome (1920).

        Quem fala, de fato, em "O Presidente Negro": Lobato ou os protagonistas? Será o livro um manual ideológico fascista para uso da elite paulista que lia "A Manhã"? Uma brincadeira de mau gosto em que o escritor deixa aflorar descontroladamente o seu racismo e o seu antifeminismo?

        Um alerta provinciano contra a eugenia, que naqueles mesmos anos 20 florescia com tanto vigor nos EUA, como relata o ótimo livro "A Guerra Contra os Fracos", de Edwin Black? Ou uma fábula futurista que leva ao paroxismo as contradições embutidas na democracia americana?

        É difícil responder. Documento de uma época fervilhante e confusa os anos do entreguerras- e de uma imaginação exuberante e contraditória a de Monteiro Lobato, "O Presidente Negro" é uma pedra muito espinhosa no sapato da literatura brasileira.

        Terra do Nunca Brasileira....

         

         

         

        PORTUNESES OU JAPOGUESES?

         

         

         

        Josias de Souza - Nos bastidores do poder

        PT de Marta já negocia até com legenda de aluguel

        Petismo busca desesperadamente mais um minuto de TV

        Flerta até com PRTB de Levy Fidelix, aquele do ‘Aerotrem’

         

         

        Traído pelo PMDB, desprezado pelo PR e abandonado pelo bloquinho –PCdoB, PSB e PDT)—o PT de São Paulo viu-se compelido a flertar com o impensável. Na busca por parceiros de última hora, o partido de Marta Suplicy foi ao varejão partidário.

         

        Conduzidas pelo diretório municipal do PT, as negociações já não seguem a lógica política. Tampouco se guiam pela coerência ideológica. Entrou-se na fase do pragmatismo.

         

        Tenta-se esticar o tempo de TV da candidata em pelo menos um minuto. Pedido de João Santana, o marqueteiro que fará a campanha de Marta.

         

        Sozinho, o PT dispõe de duas janelas televisivas diárias de quatro minutos –uma inserção pela manhã e outra à noite.

         

        Para Santana, um jornalista que cuida também do marketing de Lula, é pouco. Ele reivindica do partido pelo menos um par de inserções de cinco minutos.

         

        Não restou ao PT senão beber num caldeirão que concentra as letrinhas ainda disponíveis na cena eleitoral paulistana. Sopa indigesta.

         

        Tricota-se, na bacia das almas, com legendas que não dispõem de muito a oferecer: entre 20 e 30 segundos de TV cada uma. O problema é que, a essa altura, o pouco parece muito para o PT.  

         

        A xepa petista inclui, por exemplo: PHS (Partido Humanista da Solidariedade), PMN (Partido da Mobilização Nacional) e até o PRTB, presidido por Levy Fidelix.

         

        Calva pronunciada, bigode farto, Fidelix ganhou notoriedade como defensor de um projeto de viabilidade controversa: o “aerotrem (assista lá no alto).”

         

        Em 2000, o PTRB “emprestou” sua legenda a Fernando Collor de Mello. Pretendia disputar a prefeitura paulistana. Mas teve o registro impugnado pela Justiça eleitoral.

         

        O PRTB não é um noviço em matéria de PT. Em 2004, compôs a coligação petista na malsucedida tentativa de Marta de reeleger-se prefeita.

         

        Se obtiver o minuto extra que seu marqueteiro reivindica, Marta vai à campanha com o mesmo tempo de propaganda eleitoral do rival Geraldo Alckmin (PSDB).

         

        Na semana passada, Alckmin obteve um tônico televisivo de dois minutos ao atrair para o seu lado o PTB e, enganchado nele, o nanico PSDC. Foi de três minutos para cinco –dez, se consideradas as duas aparições diárias.

         

        Embora liderem as pesquisas, Marta e Alckmin foram como que empurrados para o varejo graças ao poder de sedução do prefeito Gilberto Kassab (DEM), candidato à reeleição.

         

        Cavalgando duas máquinas administrativas –a da prefeitura e a do Estado, chefiada pelo aliado tucano José Serra— conseguiu encantar o PMDB, o PR e o PV. Três legendas que, em Brasília, pedem a bênção a Lula.

         

        Com isso, o prefeito, terceiro colocado nas pesquisas, logrou amealhar algo como nove minutos e meio. Com as duas aparições, terá notáveis 19 minutos por dia para vender o seu peixe aos eleitores.

         

         

         

        Radar

        Lauro Jardim

        A lógica de Kassab

        Gilberto Kassab e seu grupo mais próximo estão convencidos de que mais dia menos dia haverá uma convergência entre dois indicadores que o prefeito têm nas pesquisas - os 39% de aprovação de sua gestão com os cerca de 15% de preferência nas pesquisas para a sucessão paulistana. "Essa aprovação vai ter que se transferir para a intenção de voto. É questão e tempo", diz um interlocutor freqüente de Kassab.

        Não é hora de campanha

        O longo passeio de motocicleta de Aécio Neves e três amigos pelo Ceará neste feriadão começou hoje de manhã na praia de Canoa Quabrada e terminará no domingo em Jericoacoara. Partiram para a aventura debaixo de um sol forte e de uma temperatura de 31 graus. A turma dormirá em pousadas e, numa das noites, na casa do cantor Fagner, amigo de Aécio. As namoradas seguem o caminho de van.

        Dando um gás no Cabral

        O PMDB, por sua vez, andou cortejando Aécio Neves mas agora entrará numa fase Sérgio Cabral. Pelo menos é que os seus líderes vão falar a partir de agora. Num jantar na casa de Cabral, quarta-feira passada, Geddel Vieira Lima, Michel Temer e Henrique Alves acertaram a estratégia. A idéia é que Cabral, a partir de agora, rode mais o país ao lado das lideranças do partido.

        Por enquanto, é coreografia

        Sérgio Cabral para presidente em 2010 pelo PMDB? E o projeto Aécio? O PMDB não quer ficar a reboque de Aécio. Ou como disse Geddel ontem à noite a um interlocutor: "Não tem sentido um partido do tamanho do PMDB ficar rastejando para Aécio. Temos que criar os nossos nomes". Resumo da ópera: O PMDB ainda quer Aécio, mas não quer se entregar tão fácil assim. Nenhuma dessas articulações devem ser levadas ao pé da letra. Faltam dois anos e meio para a eleição.
         
        Aécio ajuda Alckmin

        Sem alarde, Aécio Neves meteu sua colher na eleição paulistana para ajudar Geraldo Alckmin. Ele está trabalhando para abafar a movimentação de alguns deputados do PP para explodir a candidadura Paulo Maluf e levar o partido apoiar Gilberto Kassab. Até agora, a empreitada de Aécio parece bem sucedida: tudo caminha para que Maluf seja candidato a prefeito de São Paulo. Publicamente, Aécio negará até o fim qualquer ingerência.

         
         
         
        "Sr.Presidente-:Eu gostaria de dizer"
         
        Jornalista percorre EUA recolhendo mensagens ao presidente Reportagem da agência EFE mostra a iniciativa de uma jornalista americana que percorre os Estados Unidos recolhendo mensagens de americanos para o próximo presidente do país, num projeto chamado "I wish to say" ("Eu gostaria de dizer")
        Escutas revelam suspeita contra Paulinho no BNDES

         

         

         

         

        http://site=thepassiranews.myblog.com.br

        DOSSIÊ
        DEPRIMENTES DEPOIMENTOS


        O velho espetáculo da CPMI que não apura, não depura, não se explica: mais ficção que  realidade, uma sucessão de atores canastrões e mentirosos de plantão, sem humor, sem molho, sem conteúdo, sem clímax e com final previsivelmente deprimente
        Fotos: José Cruz/ABr

        André Fernandes assessor do Senado e José Aparecido secretário de controle interno da Casa Civil, inimigos íntimos? Amizade quente?

        Toinho de Passira
        Fonte: Blog do Josias de Souza, Congresso em Foco, Blog do Noblat, Blog da Lucia Hippolito, Coturno Noturno

        Há muito que o homossexualismo deixou de ser um escândalo de grande repercussão, passando a freqüentar a ante-sala da fofoca. Não sendo mais um demérito arrasador para os assumidos ou enrustidos, não deixou de ser motivo de apimentados cochichos e insinuações, por parte de quem se posiciona avesso a prática ou a opção sexual que envolva pessoas do mesmo sexo.

        Por exemplo, tivesse o jogador Ronaldo se envolvido num incidente com três garotas de programas, do sexo feminino, a notícia não teria ocupado mais de dez linhas em alguns jornais. Como o caso envolvia três travestis, rodou o mundo, como manchete no The New York Times, Le Monde, Correire della Sera, El País, no Globo etc.

        O romance entre pessoas do mesmo sexo, ainda é visto como algo menor, descontrolado, uma paixão desenfreada, perigosa, risível e despudorada. Na verdade, não é difícil perceber, que hetero, homo, lésbico ou multi-sexual, toda paixão é igual, nos seus exageros e descaminhos.

        Esse preâmbulo é para tratar do depoimento dos dois principais personagens envolvidos no vazamento dos dados do dossiê originário da Casa Civil, acrescentando o componente sexual, o último que faltava, no escândalo chantagem que foi urdido nos porões do Palácio do Planalto e que há meses povoa o interesse da mídia nacional.

        Despudoradamente, muito dos parlamentares que interrogaram o assessor parlamentar André Eduardo da Silva Fernandes , juntaram as perguntas, insinuações de uma ligação homossexual entre os dois. Falas como “agora os senhores estão rompidos, mas antes a relação entre os dois era bastante quente...”

        Foto: José Cruz/ABr

        O deputado Maurício Quintella (PR-AL), perguntou afirmando a André Fernandes(foto)o assessor do Senado, se ele tinha uma “amizade quente” com o assessor da Casa Civl, José Aparecido, e este confirmou. O deputado ainda acrescentou que os dois em pouco tempo, trocaram 30 emails, e concluiu, nem com a minha mulher, troquei tantos emails neste período.

        Não houve uma só pergunta da base aliada do governo, que procurasse esclarecer o escândalo, os autores do dossiê e os reais motivos do seu vazamento. Todos em uníssonos estavam treinados e coesos em tentar desacreditar o assessor do Senador Álvaro Dias, pondo-o como alguém desqualificado, de passado pouco recomendável e sem credibilidade para acusar o “nobre” ex-assessor da Casa Civil José Aparecido.

        Acabou-e por se resumir os tão esperados depoimentos em um ato de vingança pessoal de um amante desprezado, que resolveu por o parceiro, em dificuldades, divulgando segredos que receberá durante a confiança da relação.

        A bem da verdade, que não freqüentou muito a CPI ontem, a maioria dos oposicionistas e aliados estavam mais dispostos a aproveitar o foco das câmeras televisivas e presença da mídia, para se fazer notar, como nos desfiles de fantasias carnavalescas e poucos dispostos a esclarecer qualquer coisa.

        Cada suposta pergunta, tinham preâmbulos verborrágicos e sonolentos, a ponto de alguns avisados do tempo esgotado, ainda sem formular qualquer questionamento ao depoente, apressava-se para perguntar qualquer coisa.

        Foto: José Cruz/ABr

        Senador Álvaro Dias precisando dá explicações

        A base aliada teve outro foco preferencial, que foi o senador Álvaro Dias, que a todo o momento era acusado de ter vazado o dossiê, para os jornais Folha de São Paulo e Veja, e ele alegando o artigo 14 do regimento interno do Senado, que permite sempre que citado o parlamentar ter direito ao uso da palavra em réplica, falava sempre que pouco importava o vazador, o que importava era o autor dossiê, mas isso ninguém, parecia querer saber.

        Certo momento o depoente André Fernandes, o assessor do Senador disse que tinha mais coisas a dizer, mas só o faria em sessão secreta. Foi um Deus-nos-acuda, a Senadora Ideli Salvati dentro das novas blusinhas e terninhos comprados na liquidação de verão,no camelódromo em frente à Galeria Lafayette, na sua última viagem secreta a Europa,disse que NÃO, comunicando a toda base aliada que era para não aceitar, temendo que o depoente dissesse algo que pudesse chegar à verdade.

        Alegou que se ele estava ali falando, sob juramento, e não havia dito tudo que sabia, estava mentindo diante dos membros da CPI e outro integrante sugeriu a prisão do depoente que insistia em dizer algo que poderia por tudo na trilha do esclarecimento do que se investigava.

        Só faltou o depoente André dizer que não falara nada ainda, porque ninguém havia lhe perguntado.

        Ao que parece essa tentativa de André em falar em sessão secreta, parecia uma manobra da oposição, que deixaria o depoente mais a vontade para fazer acusações mais diretas com menos riscos de ser processado por calúnia ou difamação por Dilma Dossiêff ou sua assessora para assuntos de dossiês, Erenice Guerra.

        As informações que ele fornecesse poderiam providencialmente vazar da tal sessão secreta, faria os estragos necessários, e não seria ele o responsável de acusações sem provas substancias contra os acusados.

        A base aliada não deixou.

        Do depoimento de André sobrou esclarecida a cronologia dos acontecimentos "vazatórios":

        No dia 19 de fevereiro, mesmo de férias, André passou pelo Senado, para apanhar “documentos pessoais.” E aproveitou a passagem para enviar, por e-mail, um amontoado de charges sobre “corrupção” a um grupo de dez amigos. Entre eles Zé Aparecido, por pura diversão.

        No mesmo dia 19, Zé Aparecido, “amigo de 18 anos”, responde. Convida André para almoçar.

        No dia seguinte, ainda em férias, André retorna ao Senado. Mais “documentos pessoais”. Responde à mensagem de Zé Aparecido. Informa que ligaria depois.

        Zé Aparecido envia nova mensagem. “Leia o texto”, anota, em referências aos anexos que continham as 27 planilhas do dossiê.

        André rumina o dossiê por mais de dez dias. Só em março leva os dados ao “chefe” Álvaro Dias. Diz ter interpretado a coisa como "intimidação”, “traição” do amigo.

        A despeito disso, André não se furtaria a encontrar-se com o “traidor”, dias depois, num clube de Brasília. Era aniversário de Zé Aparecido. Conversaram.

        “Ele estava apavorado”, conta André. Segundo a sua versão, Zé Aparecido atribuíra a ordem para montar o dossiê a Erenice Guerra, braço direito de Dilma.

        José Aparecido, o novo depoente do dia, que já havia dito, que se fosse chamado a CPI falaria tudo que sabia, chega cheio de desditos, dizendo inclusive que quem estava apavorado no almoço era o ex-amigo André.

        E deságua sua versão, apoiado na condição de acusado, podendo mentir ou calar a vontade:

        Por que enviou o dossiê justamente para um ninho tucano?

        A resposta é surrealista:

        "Saiu da minha máquina. Mas não admito a possibilidade de ter enviado de maneira premeditada. Todo mundo na vida pode passar um e-mail errado."

        Risinhos, esgares. Foi um fantasma? arrisca Marisa Serrano, a presidente da CPI.

        Foto: Agência Senado

        E Aparecido: “Saiu da minha máquina, mas, conscientemente, não enviei.”

        E se fez silêncio quando enquanto ele desdizia, ou nada dizia, ou falava sem proveito com uma serenidade "Delubiana".

        “Jamais mencionou o nome do lugar-tenente de Dilma, Erenice Guerra, durante os três anos que trabalha na Casa Civil, desde 2005, só teve três conversas com a Ministra Dilma Dossiêff e nunca ouviu a palavra dossiê dentro do Ministério.

        A palavra “dossiê” não consegue sair dos seus lábios, sob nenhuma hipótese, é um vocábulo maldito, alijado da sua linguagem como uma coisa traumática de infância.

        Quem pediu os auxiliares para montar a “planilha de dados”? Foi o secretário de administração da Casa Civil, Norberto Temóteo Queiroz, não Erenice.

        Como as planilhas da era FHC lhe chegaram às mãos? Solicitou-as a um dos auxiliares que cedera. Por quê? Mera “curiosidade”. Queria ver “o formato da nova planilha” de suprimento de dados. Um “avanço” em relação ao que se fazia antes.

        Obtendo-as, não teve a curiosidade de ler. Viu o “formato” e, saciada a curiosidade, deixou-as de lado. Só em 6 de maio, veja você, ficou sabendo que o material migrara de sua "máquina" para o computador do ex-amigo André.

        Um fenômeno místico, inexplicável pela ciência, pela informática, pela lógica. Cabível só no entendimento aos mais elevados em cinismo e descaramento, flagrados diante do injustificável, apoiados pela certeza da impunidade, premiado com a recusa da verdade, com apoios e reconhecimento.

        Os governistas diante de tal depoimento, não se assombraram não se estarreceram, acharam-no lógico e verossímil, compreensível, pois são eles concebidos da mesma lógica filosófica do seu grande guru Luís Inácio Lula, aquele que nada ver, nada sabe tudo quer e a quem tudo é perdoado.

        A sessão da CPI teve de ser suspensa pouco depois das 18h. O plenário do Senado abrira os trabalhos e, pelo regimento, comissões não podem funcionar concomitantemente com o plenário.

        Restavam quatro congressistas inscritos para inquirir Aparecido, que seria para hoje mais foi adiada. Mas não restam dúvidas que o mistério do dossiê, seus idealizadores, seus autores, seus objetivos, seu alcance, não vão ser esclarecidas nessa CPI.

        Saímos com mais dúvidas que quando entramos, não da autoria,elaboração e objetivos do dossiê, que é de conhecimento público, e não precisamos nos preocupar, nem eles.

        Ficamos com dúvidas do episódio do vazamento, que importa também, que nos perdoe o Senador Álvaro Dias, que não esclareceu sua atuação no episódio, nem o seu assessor André nos pareceu um anjo de virtude, um poço de ética e amante da verdade.

        Lamentamos muito que do lado tucano, da questão, haja também dúvidas e deslizes pouco republicanos. Quem ainda poderá eventualmente responder algumas dessas perguntas será talvez a Polícia Federal, quem sabe o Ministério Público Federal...

        Essa CPI, que segundo Josias de Souza, já custou mais de R$ 200 mil, por baixo... já entrou pela perna do pinto e saiu pela perna do pato.

         

         

         

        RIBAMAR OLIVEIRA - Agencia Estado

        Mercadante diz que não é hora de criar Fundo Soberano

        BRASÍLIA - O presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), disse hoje que este não é o momento oportuno para o governo criar o Fundo Soberano do Brasil (FSB). "Esta não é a hora do fundo. O importante agora é aumentar o superávit primário do setor público e, desta forma, auxiliar o Banco Central no combate à inflação", afirmou Mercadante, em entrevista a O Estado de S.Paulo.

        O senador petista, que é um dos principais representantes do chamado "grupo desenvolvimentista" do governo, considera que o Fundo Soberano é um "instrumento auxiliar" importante para que o governo possa encontrar a taxa de câmbio de equilíbrio. Com os recursos do Fundo, o Tesouro Nacional poderia comprar dólares no mercado interno e, desta forma, evita uma valorização ainda maior do real.

        "Mas neste momento, argumenta Mercadante, a tarefa mais importante do governo é amortecer o choque inflacionário que vem do exterior. "Temos um choque externo de grandes proporções", disse. O senador lembrou que a queda da cotação do dólar ainda é a principal âncora da economia, que mantém a inflação sob controle.

        O choque externo de preços está sendo amplificado, segundo Mercadante, pelo forte crescimento do consumo das famílias brasileiras (acima de 8%), pela expansão acelerada do crédito, pelo aumento do emprego e da massa salarial no País. "Neste cenário, a melhor alternativa para o governo é elevar o superávit primário do setor público", disse o senador petista. O superávit primário é a economia que o setor público faz para pagar uma parcela dos juros de suas dívidas. Para este ano, o superávit previsto é de 3,80% do Produto Interno Bruto (PIB) ou cerca de R$ 108 bilhões.

        iotti
        paixao

         

         

         

        O facão indígena

        EDITORIAL

        O TERÇADO (facão) é um símbolo poderoso da violência primitiva e desumanizadora em várias áreas do mundo, como boa parte da Amazônia e da África. Ele voltou à cena no lamentável episódio de Altamira (PA) em que saiu ferido, felizmente sem maior gravidade, Paulo Fernando Rezende.
        A agressão exige repúdio unânime, sem evasivas, e investigação célere. É imperativo identificar e responsabilizar criminalmente o agressor, ou agressores.
        O engenheiro da Eletrobrás coordena o inventário da bacia do rio Xingu, onde a empresa prepara a construção da controversa usina hidrelétrica de Belo Monte. Comparecera como convidado para expor as características do empreendimento à platéia de cerca de mil pessoas do Encontro Xingu Vivo para Sempre. De boa vontade, portanto.
        O mesmo não se pode dizer das centenas de índios, muitos deles do grupo étnico caiapó, que chegaram armados com bordunas e terçados. Não há lugar, neste caso, para relativismo antropológico: quem aceita participar de um debate se compromete a esgrimir apenas palavras. Seria no mínimo ingenuidade, beirando a má-fé, pretender que os caiapós que têm longa história de contato com brasileiros de origem européia- desconheçam essa regra elementar de convívio.
        Não há como escapar: os índios estavam ali para repetir a cena de 19 anos atrás, noutro debate sobre a mesma hidrelétrica (chamada ainda de Cararaô), quando uma índia chegou a encostar seguidas vezes o facão no rosto do então presidente da Eletronorte, José Antônio Muniz Lopes, mas sem no entanto feri-lo.
        Os organizadores, é evidente, têm responsabilidade parcial na agressão. Sabedores do precedente, não poderiam aceitar facões no recinto de discussão. Pior figura fez Roquivam Alves da Silva, do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), que se atreveu a falar em "guerra" contra Belo Monte logo após a apresentação do engenheiro.
        Começa mal, em resumo, a retomada do diálogo com movimentos sociais da região sobre a usina e a melhor forma de construí-la. O impacto ambiental do projeto sofreu redução apreciável; basta mencionar que a área de inundação diminuiu em dois terços. Os empreendedores alegam que as terras indígenas não serão mais afetadas.
        Os caiapós podem discordar, mas devem abster-se de tentar impor seu ponto de vista pela força. Ao reincidirem na violência contra interlocutores, devem sentir sobre si todo o peso da lei.

        Chantagem e orgulho

        CLÓVIS ROSSI

        SÃO PAULO - E acabou em pizza mais uma CPI, desta vez a dos Cartões Corporativos. Nada mais lógico: farinhas do mesmo saco, como são situação e oposição, servem pizza com toda a naturalidade.
        A rigor, a CPI só serviu para revelar a indigência do debate e da ação política no Brasil contemporâneo.
        A situação conspira no Palácio do Planalto, como ficou cabalmente demonstrado, não para a defesa da coisa pública, mas para provar que a oposição é igual a ela nos gastos exóticos com dinheiro público.
        Só faltou demonstrar quem, na Casa Civil, liderou a conspiração para chantagear a oposição com um dossiê que a "novilíngua" lulo-petista prefere chamar de "banco de dados" ou "banco de dados seletivo", como afirmou, com o cinismo de praxe, José Aparecido Nunes Pires. Aliás, com idêntico cinismo, ele disse que, sim, o vazamento saiu de seu computador, mas o envio não foi "consciente". Pura palhaçada.
        Já a oposição prefere a pizza a aprofundar a investigação, o que dá direito a qualquer um que não esteja em uma "boquinha" ou em outra a desconfiar que a chantagem funcionou. É melhor parar com tudo do que permitir que se descubram gastos ainda mais exóticos, de um governo ou do anterior.
        Ouvi parte dos depoimentos de anteontem e, francamente, dá vontade de cortar os pulsos de desespero com o baixíssimo nível de um nutrido grupo de parlamentares que, ou fazem perguntas idiotas, ou tiram conclusões ainda mais idiotas. Houve quem, na bancada governista, insinuasse mandar prender André Fernandes, o receptador do vazamento, exatamente por ter promovido o vazamento do vazamento que recebeu.
        Ridículo. Se há alguém, no episódio, que merece prisão é, acima de tudo, quem mandou fazer o dossiê-chantagem. Mas, no Brasil de hoje, chantagem política não é crime, é motivo de orgulho.

         

         

         

        Dora Kramer

        Livro em branco

        Se nenhum obstáculo mais se antepuser ao comum acordo entre governo e oposição, a CPI dos Cartões Corporativos termina na semana que vem. Anunciam-se dois relatórios finais - um oficial, outro paralelo -, mas, a rigor, não seria preciso apresentar nenhum.

        Por absoluta falta de conclusões a serem descritas, seja nas considerações do relator petista Luiz Sérgio ou nas alegações prometidas "em separado" pela oposição. De qualquer forma, será interessante esperar pelo que têm a dizer suas excelências sobre dois meses de pura embromação.

        Não por carência de suspeitas a serem esclarecidas, mas talvez por excesso.

        A CPI foi criada para investigar o uso dos cartões corporativos e os gastos secretos da Presidência da República, por causa do aumento de 129% nas despesas de 2007 em relação às de 2006.

        O Congresso instalou uma comissão de inquérito para apurar também a razão de 75% desses gastos terem sido feitos em saques diretos nos caixas eletrônicos, impermeáveis a controle, e para tentar lançar alguma luz sobre os gastos ditos sigilosos da Presidência, que só em 2007 somaram R$ 3,6 milhões.

        A idéia era abrir a caixa-preta, examinar as notas, faturas, destrinchar os detalhes de despesas de viagens de ministros que fizeram a alegria das locadoras de automóveis, saber o que mais de esquisito havia por trás da misteriosa rubrica cartões corporativos.

        No meio do caminho, apareceu mais entulho para ser remexido. Descobriu-se que o governo entrou seguro na CPI porque pretendia burlar a regra do jogo, enfrentar a oposição com um dossiê e usar a maioria para interditar o andamento das investigações.

        Foram mandadas caixas e caixas de papéis para a CPI, ouviram-se pessoas atestando a existência do dossiê e revelando nome e sobrenome de meia dúzia de artífices, todos subordinados diretos da ministra da Casa Civil, mas de substancial nada se produziu.

        A campeã dos gastos, Matilde Ribeiro, saiu "a pedido", o debate jurídico sobre a legalidade da manutenção de sigilo indiscriminado sobre despesas da Presidência se perdeu ainda nas primeiras e informais manifestações contrárias de juristas e magistrados e ninguém mais falou coisa alguma sobre os cartões em si.

        Não tendo havido investigação nem novas revelações, fica difícil imaginar com qual material senadores e deputados trabalharão para apresentar não um, mas dois relatórios.

        O relator Luiz Sérgio, do PT, informa que está pronto para apresentar seu relatório no próximo dia 29 e a presidente Marisa Serrano, do PSDB, avisa que se "continuar assim" encerra a CPI e ajuda a elaborar as conclusões paralelas.

        Sobre o quê? Obviedades.

        Discorrerão longamente sobre a necessidade imperiosa de encontrar uma forma mais "transparente" de lidar com esse tipo de despesa, falarão um pouco sobre recomendações às instâncias de fiscalização, como Tribunal de Contas e Ministério Público, citarão três ou quatro nomes já conhecidos e, nada mais havendo a ser dito, será declarada encerrada aquela função.

        E o dossiê? O dossiê, claro, ficará junto com Waldomiro Diniz e os aloprados, no aguardo das conclusões do inquérito da Polícia Federal.

        Paralelas

        O ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, garante: "O Palácio do Planalto não vai entrar na queda-de-braço para aprovar a volta da CPMF."

        Então, não vai passar.

        A menos que calibre a distância, como fez em eleições da presidência da Câmara. Na que resultou na eleição de Severino Cavalcanti, o Planalto ficou longe e perdeu. Na seguinte, chegou perto e elegeu Aldo Rebelo.

        Tropa da escória

        Pode não parecer, mas reuniões assemelhadas à da CPI dos Cartões na terça-feira, não são inúteis.

        São verdadeiras aulas magnas sobre a natureza humana. Mostram a que ponto homens e mulheres estão dispostos a chegar, na frente de todo mundo, por uma benesse qualquer - emprego, prestígio, dinheiro ou poder.

        Naquele dia ficou claro que o governo trabalha com duas tropas. Uma, de elite, trabalhou no depoimento de Dilma Rousseff no Senado, há 15 dias, e foi sóbria.

        A outra, selecionada entre o que há de pior na base aliada do Planalto no Parlamento, esteve de serviço anteontem e conseguiu ser apenas sórdida.

        À falta de argumentos para combater as evidências - sendo a mais eloqüente o desmonte da mentira sobre a inexistência do dossiê -, deu-se ao desfrute da baixa recreação, lançando insinuações de duplo sentido sobre a ligação entre o assessor do Planalto e o assessor do senador de oposição.

        Best-sellers

        Pelo número de dossiês descobertos, e que por isso não deram certo, é de se imaginar a quantidade de dossiês que, encobertos, cumprem por aí, impunes, os seus malvados destinos.

        O ''engano'' expõe a armação

        EDITORIAL

        Depois que o presidente da República recorreu à palavra "aloprados" para explicar que seus "companheiros", flagrados na prática de atos que a opinião pública denunciava como criminosos, estavam apenas cometendo "erros", pensou-se que a imaginação dos que cuidam de preservar a imagem do governo estivesse esgotada. Mas fomos surpreendidos, no início da novela dos cartões, com a "distração" da ex-ministra Matilde Ribeiro, que usou seu cartão corporativo quando deveria ter usado o seu cartão pessoal.

        Agora, ficamos sabendo pelo depoimento do ex-secretário de Controle Interno da Casa Civil José Aparecido Nunes Pires, à Polícia Federal, que foi ele o "vazador" da planilha eletrônica confeccionada naquele órgão de cúpula do Planalto, e que fez isso não apenas "por engano", mas também por interferência de forças sobrenaturais, uma vez que a planilha estava no seu computador, cuja senha só ele conhece, mas não foi ele que a anexou à mensagem enviada a André Fernandes.

        Felizmente, foi suspensa ontem a deplorável pantomima dos depoimentos à CPI dos Cartões Corporativos do remetente e do destinatário de cópia do dossiê contendo uma seleta, escolhida a dedo, de gastos palacianos no governo Fernando Henrique. Só na próxima semana o desrespeitado público correrá o risco de ser submetido a uma nova sessão do festival de mentiras de segunda classe protagonizado anteontem pelo ex-secretário José Aparecido Nunes Pires.

        A interrupção do teatro conduz aos seus bastidores. Ontem pela manhã a CPI deveria votar o pedido de acareação entre Aparecido e o assessor parlamentar André Fernandes, que trabalha para o senador Álvaro Dias, do PSDB. Embora ninguém apostasse que a maioria governista da comissão deixaria a acareação acontecer, esperava-se pelo menos a votação do requerimento, em homenagem às aparências. Mas nem sequer houve quórum para qualquer decisão. De todo modo, qual a serventia de um face a face entre os dois? "É inútil", comentou Fernandes. "Ele (Aparecido) tem um habeas-corpus" (concedido pelo STF, para que pudesse mentir ou calar no seu depoimento à CPI, sem o risco de receber voz de prisão). "Vai dizer pepino e eu vou dizer chuchu e vai ficar por isso."

        Segundo o assessor parlamentar, num almoço entre eles depois do envio do dossiê, presentes dois outros comensais, Aparecido disse que partiu de Erenice Guerra, a secretária-executiva da Casa Civil e braço direito da ministra Dilma Rousseff, a ordem para o fabrico do dossiê. Disse ainda, conforme Fernandes, que Erenice determinou que dois funcionários de cada secretaria da Pasta participassem do que seria, eufemisticamente, a preparação de um "banco de dados" para uso da CPI (que àquela altura nem existia). Aparecido, como era de esperar, negou. Mas, no seu depoimento, distraído, ele deixou escapar que recebeu a planilha de um subordinado, "sem querer" a enviou a Fernandes - e sem mudar uma vírgula do seu conteúdo.

        Com isso, o fato de Aparecido ter tido o cuidado de poupar de qualquer malfeito tanto Erenice quanto Dilma se tornou uma gritante irrelevância. "Vê-se claramente que se pinçaram dados", concluiu o deputado Carlos Sampaio, do PSDB, integrante da CPI. "Banco de dados pressupõe informações genéricas. Dossiê pressupõe informações pinçadas." Referem-se, nas suas palavras, a "gastos esdrúxulos". Complementou Fernandes: "Um banco de dados teria compras normais de arroz, feijão." Isso é o que conta - e não a enredada história das relações entre quem disparou e quem recebeu o e-mail com o arquivo da intimidação. E é isso que vai engrossar o patrimônio de felonias deste governo cujos condutores em priscas eras desfilavam perante o eleitorado como portadores de uma nova ética política e administrativa - para se revelarem, afinal, mensaleiros, aloprados, distraídos, "dossiêistas".

        Daí não se segue necessariamente que os mandantes de mais essa armação terão de prestar contas de suas decisões. Nem por milagre essa manietada CPI irá ao fundo das coisas. Ela será encerrada em 8 de junho, e não passa pela cabeça de ninguém que os "governistas radicais" que a dominam acederão em lhe dar sobrevida. A única esperança da oposição - e, mais do que isso, da opinião pública desejosa de ver a verdade em pratos limpos - é o inquérito em curso na Polícia Federal.

         

         

         

        Toda Mídia

        Nelson de Sá

        O incêndio, por um jornalista cidadão

        Antes que a Globo News enganasse até a CNN com a suposta queda do avião da Pantanal, um cidadão comum, de codinome Falkirk no YouTube, gravou e postou o vídeo abaixo, do início do incêndio na avenida Santo Amaro, em São Paulo.

        "Bullish on Brazil"

        Dois exemplos do que andam falando sobre a economia do Brasil.

        No canal de notícias financeiras CNBC, Tom Del Zoppo, diretor de divisão do HSBC para as Américas, declara o país como seu investimento "favorito" e justifica o salto brasileiro, entre outras razões, por sua "crescente classe média".

        E no site da "BusinessWeek", Mark Arbeter, estrategista da Standard & Poors, até menciona a recuperação dos EUA, mas afirma que a "ação de verdade acontece lá embaixo, no Sul, particularmente no Brasil", e detalha longamente, com gráficos.

        Agora, os milhões de desabrigados

        A manchete do "China Daily", confirmando o que o "NYT" descreve como mudança de foco no esforço pós-terremoto, dos resgates para a assistência aos desabrigados, pede mais barracas para os cinco milhões que perderam suas casas. Paralelamente, novas histórias miraculosas e emocionantes.
         
        No "Hindu", a reunião do chanceler indiano com o novo primeiro-ministro paquistanês, que foi precedida por atentados na Índia, mas que acena com a "normalização total" das relações bilaterais, desde que em "atmosfera livre de terrorismo".

         

         

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